Cartas que me Ajudaram — W.Q. Judge
Compiladas por Jasper Niemand
Tradução em português — Projeto Pioneiros

Prefácio da edição
 em português

 Busca esta sabedoria realizando o serviço,
 por meio de uma procura intensa, de questionamentos
 e da humildade; o sábio que vê a verdade irá
 comunicá-la a ti, e, conhecendo-a, nunca mais cairás
 em erro, ó filho de Bharata.
 (SHRI KRISHNA, BHAGAVAD-GĪTĀ)

 O despertar teosófico começa com a descoberta da simples
 grandeza da Teosofia, o que não difere muito de contemplar a
 grande Natureza. Aqueles que eram inicialmente percebidos como
 lugares escuros começam a emergir como fontes de luz numinosa;
 o que antes era opaco é agora reconhecido como digno de admi-
 ração e reverência. A Teosofia é um sistema que ilumina e explica
 os mistérios da vida como nenhuma religião, filosofia ou ciência,
 sendo a integração holística das três. A unidade transcendental,
 significando a fonte, a síntese e a interdependência de tudo, faz
 sentido moral e estético. As leis da harmonia universal apelam
 ao nosso senso de justiça e esperança por todos os seres sencien-
 tes. A própria vida humana é mostrada como existindo em um
 grande campo de aprendizagem espiritual, tanto com seres mais

 avançados, dentro e além da humanidade, como com aqueles que
 estão menos adiantados.
 A vida teosófica é uma percepção gradual de que se está em
 um caminho. Os atos aleatórios de bondade tornam-se uma corren-
 te de cuidado, responsabilidade e autossacrifício. As incursões em
 pesquisa e explorações espirituais amadurecem na jornada sagrada
 do herói, a busca incessante pelo Autoconhecimento. Aquilo que
 era originalmente percebido como questões isoladas passa a ser vis-
 to como degraus dentro de uma busca na existência, passada, pre-
 sente e futura. Com um senso de humor e do sagrado, observa-se
 que a obstinação, a teimosia e a arrogância dão lugar à admiração, à
 reverência e à humildade; nos curvamos interiormente na presença
 da Natureza invisível e para aqueles Tathagatas que já trilharam a
 antiga Senda; nos aproximamos com gratidão do campo de força
 da compulsão da alma, a fim de doarmos incondicionalmente, de
 buscarmos a Verdade e nada além da Verdade, de progredirmos sem
 medo além do até então imaginável e, acima de tudo, de nos abrir-
 mos à maravilha do não julgamento e da amável humildade. Em um
 coração como este, a influência da Fraternidade dos Sábios sempre
 encontrará um lar.
 Assim como Shantideva, o monge que estudou e ensinou no
 templo da universidade de Nalanda no século sétimo, o buscador sin-
 cero começa a ver todo o verdadeiro aprendizado como passos no “ca-
 minho do Bodhisattva”. A compaixão é a base fundamental, e o ímã
 soberano, em torno da qual evoluem e giram os múltiplos poderes
 da mente. Os escritos de William Quan Judge são para aqueles que
 estão despertando nesta vida, mesmo que como embriões nascentes,
 para o Ideal do Bodhisattva e o Voto de Kwan Yin. Aproximar-se da

 órbita de W.Q. Judge, assim como de qualquer grande ser, reacende
 na alma as reminiscências de antigas iniciações e de votos tomados
 a serviço da humanidade. Para tais aspirantes, não há nada mais im-
 portante do que aquilo que conhecem, no fundo de seus corações,
 como a Senda.
 Mergulhar nas cartas de W.Q. Judge escritas para Jasper Nie-
 mand é começar a pensar como Judge. Ao confiar nele, você se torna
 ele e ele se torna você. Naturalmente humilde, amável e extremamen-
 te empático, ele acendeu centelhas de promessa e esperança. Sempre
 ciente do arquétipo do buscador, certamente encorajando a todos os
 peregrinos, ele estava, no entanto, incessantemente, à procura daque-
 les que desejavam se desenvolver como auxiliares da humanidade.
 Sempre consciente do “objetivo em vista”, levando em conta grandes
 extensões de tempo, os períodos críticos da evolução humana, o des-
 pertar gradual das faculdades mentais e das intuições superiores do
 homem, ele foi rápido em esclarecer que as instituições não impor-
 tam tanto quanto “uma elevação em Manas e em Buddhi” de toda a
 raça humana.
 O leitor notará que Judge se relaciona com Jasper Niemand
 como um amigo e confidente, em vez de estritamente como um estu-
 dante. Neste círculo maior, há espaço para uma tessitura mais aberta
 de doação e recepção. A postura do Sr. Judge, dado que ele realmente
 era capaz de oferecer qualquer auxílio, é devida a algo que foi adqui-
 rido em vidas anteriores pelo receptor do auxílio, como é evidenciado
 nesta passagem:

 “Meu caro Jasper,
 “AGORA, deixe-me falar uma coisa. Não pense exageradamen-
 te sobre mim; pense em mim com compaixão. Porém, meu amigo,
 direcione seus pensamentos à Verdade Eterna. Tal qual você, estou
 nesse caminho de luta. Talvez, em um instante, caia um véu de seu
 espírito e você estará muito à frente de todos nós. A razão de você ter
 recebido ajuda é que, em vidas passadas, foi você quem ajudou. Em
 cada um de seus esforços para iluminar a mente de outros, abrindo-a
 para a Verdade, você auxiliou a si próprio. Aquelas pérolas que você
 encontrou e deu a eles em um ato de benevolência, na realidade,
 continuam com você. Pois, quando se vive para beneficiar os demais,
 está-se, desse modo, pondo em prática a regra de esforçar-se e de
 ‘eliminar todo sentido de separatividade’, adentrando, assim, pouco a
 pouco, na verdadeira luz.
 “Portanto, nunca se afaste dessa atitude mental. Mantenha-se fir-
 memente em silêncio para tudo o que lhe é privativo, pois você pre-
 cisará disso na luta; no entanto, nunca, nunca deseje obter conheci-
 mento ou poder para qualquer outro propósito que não seja ofertá-lo
 ao altar, pois somente dessa maneira você poderá mantê-lo.”

 Ao afirmar que há conhecimento e que ele pode ser de fato
 obtido, W.Q. Judge orienta seu leitor a prestar especial atenção na
 motivação em se obter conhecimento. Se tiver algo a ver com a fome
 de poder ou vier de qualquer senso de separatividade, então não será
 um aprendizado real. Aqui ele está estabelecendo as bases para a
 meditação e o autoconhecimento como o par de práticas requeri-
 das, indispensáveis, para que realmente se trilhe a Senda (“The Path”
 [A Senda] foi o nome da revista americana que o Sr. Judge editou,

 e à qual H.P. Blavatsky se referiu em suas “Messages to American
 Theosophists” [Mensagens aos Teósofos Americanos] como “puro
 Buddhi”).
 Em algumas das cartas do Sr. Judge, especialmente aquelas que
 ele escreveu da Europa, ele confidencia ao seu fiel amigo os ambien-
 tes e energias psíquicas ao seu redor, incluindo aqueles conducentes
 a um desespero debilitante. No entanto, mesmo essas descrições são
 instrutivas, pois elas demonstram uma plena atenção refinada e uma
 sensibilidade ocultamente educada. De certo modo, há uma recipro-
 cidade com seu correspondente, a pessoa a quem ele elevou até um
 certo nível de força, que agora é aquela com quem ele, por sua vez,
 se sintoniza como um pilar de apoio mental incondicional enquanto
 ele está no exterior, em meio, por vezes, a um ambiente de forças
 inimigas. O talismã vital, porém, ele escreveu em uma de suas cartas,
 é o dever:

 “Afinal, qual é então o remédio — o talismã real? É o DEVER,
 o Altruísmo. O dever seguido persistentemente é o yoga superior, e é
 melhor do que mantras, posturas ou qualquer outra coisa.”

 Em mais de um lugar, Judge chama a atenção para a potência da
 fala e a importância do pensamento e da intencionalidade, especial-
 mente dentro da esfera do espiritual, que são colocadas nas palavras:

 “Para mim, e de fato, as palavras são coisas. No que diz respeito ao
 plano inferior das relações sociais, são coisas, porém desprovidas de
 alma e sem vida, pois a convenção em que nasceram as tornou abor-
 tos. Mas quando nos afastamos dessa convencionalidade as palavras se

 tornam vivas, proporcionalmente à realidade e à pureza do pensamen-
 to que as sustenta. Portanto, na comunicação entre dois estudantes,
 elas desempenham o papel das coisas, e eles devem ter cuidado para
 que a base do relacionamento seja totalmente compreendida. Vamos
 usar cuidadosamente esses mensageiros vivos chamados ‘palavras’.”

 William Quan Judge, lembremos, era irlandês, mas como se
 pode deduzir a partir dos contos escritos por ele (veja “Em um corpo
 emprestado” [no Livro III, nesta obra]), ele tinha uma contínua cone-
 xão mística interna com a Índia. Ele viveu e respirou os Upanishads, o
 Bhagavad-Gītā, os Aforismos do Yoga de Patañjali, bem como os trata-
 dos místicos que transmitem a sabedoria do Oriente, como A Voz do
 Silêncio5 e Luz no Caminho6. No sentido de que os princípios, a ênfase
 e as ressonâncias dessas obras antigas permearam tudo o que ele pen-
 sava, escrevia, falava ou fazia, Judge era a personificação sintetizadora
 do 2º Objetivo da Sociedade Teosófica.
 Em termos de continuidade da consciência, do esforço e do
 propósito, Judge era um habitante simultâneo de muitos mundos, e
 talvez de muitas idades e épocas. Muito se pode aprender sobre ele
 lendo seus contos ocultistas, neste volume. Neles, o leitor é levado
 para antigas terras de mistério. Como escritor, sua capacidade de dar
 forma à visão mental dos eventos que ocorrem nessas histórias ocul-
 tas talvez só possa ser comparada, em nossos próprios tempos, com o
 calibre de contar histórias de Ursula K. Le Guin7. Nos contos de Jud-

 5 De HPB, publicado originalmente em 1889. (N.E.)
 6 De Mabel Collins, publicado originalmente em 1885. (N.E.)
 7 Escritora americana (1929-2018) por mais de cinquenta anos, seus trabalhos in-
 cluem obras renomadas de ficção científica e de fantasia, ambientadas em mundos

 ge são retratados em relevo palpável, como se por uma testemunha
 ocular, as trilhas e os testes de paciência, fé e lealdade, e o Chelado. Se
 as virtudes, no sentido grego, são poderes e forças trazidos conosco
 de vidas anteriores, então Judge viveu o 3º Objetivo da Sociedade,
 purificando e demonstrando o melhor uso das faculdades psíquicas
 (e noéticas) no ser humano.
 W.Q. Judge exemplificou o engajamento altruísta e sacrificial
 com a humanidade. Ecoando e corporificando o 1º Objetivo da So-
 ciedade Teosófica e o documento conhecido entre os teósofos como
 “a carta do Mahā-Chohan”, a Teosofia para Judge era para todos os
 credos, classes e raças da humanidade, não apenas para as classes su-
 periores da Europa. Embora Judge fosse altamente culto, educado
 e refinado, ele era quintessencialmente americano e igualitário, de
 modo que afirmava que o desenvolvimento de uma literatura teosófi-
 ca despretensiosa era necessário para o homem comum. Seus escritos
 oferecem exatamente isso. Em sua capacidade de trabalhador incan-
 sável, procurando trazer a educação universal a partir do amor pela
 humanidade, Judge incorporou uma síntese disciplinada de Jñāna,
 Karma e Bhakti Yogas.
 Como um Jñāna Yogin, cuja característica essencial é o intelecto
 penetrante, Judge foi capaz de enxergar a essência búddhica dos en-
 sinamentos teosóficos. Assim como nas margens de um oceano, ele
 pôde compartilhar os ensinamentos com doce simplicidade à men-
 te infantil e ainda apontar para as profundezas desses ensinamentos
 àqueles com “ouvidos para ouvir” e “olhos para ver”. Além de ajudar

 alternativos e abordando questões complexas, entre outras, ligadas a filosofia, psi-
 cologia e religião. (N.E.)

 na produção tanto de Ísis sem Véu quanto de A Doutrina Secreta, e de
 escrever seu próprio volume, O Oceano de Teosofia, e suas traduções
 para o inglês de textos antigos, como o Bhagavad-Gītā e os Aforismos
 do Yoga de Patañjali, ele editou a revista “The Path” desde a criação
 desta até a época de sua morte, num período de dez anos. Como edi-
 tor, enquanto ainda construía um quadro de redatores para a revista
 mensal, ele próprio escrevia a maioria dos artigos, sob uma varieda-
 de de pseudônimos. Alguns dos mais frequentes foram Hadji-Erinn,
 Murdhna Joti, William Brehon, Eusebio Urban, Rodriquez Undiano
 e Bryan Kinnavan.
 Como um Karma Yogin, durante o período de vinte e dois anos,
 entre o encontro com H.P. Blavatsky, em 1874, e a sua morte em
 1896, aos 44 anos, W.Q. Judge trabalhou copiosamente pela Teo-
 sofia. Ele fazia isso enquanto sustentava a si mesmo e a sua esposa
 praticando Direito Comercial. Diz-se que ele escrevia muitos de seus
 artigos em trens, durante suas viagens para a criação de Lojas e para
 visitá-las, nos Estados Unidos. Judge era tudo menos um homem
 de lazer. Nas duas décadas de seu trabalho teosófico na América, ele
 estabeleceu mais de cem Lojas da Sociedade Teosófica. Ele foi, clara-
 mente, um organizador e um energizador por excelência. Conhecido
 por seus colegas na profissão jurídica como um “santo”, sua precisão
 de pensamento e apresentação como advogado se reflete na metodo-
 logia, na ordem e na coerência de seus escritos teosóficos.
 Como um Bhakti Yogin, Judge era amado por devotos de todas
 as idades, incluindo crianças pequenas, que se aninhavam em seu colo
 e se enterneciam enquanto ele falava de filosofia com os adultos. Uma
 pessoa tão totalmente dedicada, como foi Judge, à causa sagrada da
 Fraternidade dos Bodhisattvas não poderia deixar de ser um núcleo

 de fraternidade universal em si mesmo, para onde quer que ele se des-
 locasse. Ele atendeu fielmente aos pedidos de sua colega e instrutora
 H.P. Blavatsky, bem como aos dos Irmãos, que estavam nos bastido-
 res e no comando da Sociedade Teosófica. Ao recordar seu primeiro
 encontro com H.P. Blavatsky, no apartamento dela em Nova Iorque,
 em 1874, Judge escreveu:

 “Foi o olho dela que me atraiu — o olho de alguém que devo ter
 conhecido em vidas que se foram há muito tempo. Ela olhou para
 mim em reconhecimento naquela primeira vez, e nunca mais aquele
 olhar se alterou. Eu me apresentei a ela não como um questionador
 de filosofias, nem como alguém tateando no escuro em busca de lu-
 zes que escolas e teorias fantasiosas haviam obscurecido, mas como
 alguém que, vagando por muitos períodos pelos corredores da vida,
 procurava pelos amigos que pudessem mostrar onde os projetos para
 a obra haviam sido escondidos. E fiel ao chamado, ela respondeu,
 revelando os planos mais uma vez; e sem precisar falar nenhuma pa-
 lavra para explicá-los, simplesmente os apontou e continuou a tare-
 fa. Foi como se tivéssemos nos separado na noite anterior, deixando
 ainda algo por fazer de uma tarefa assumida para um fim comum;
 era instrutora e aluno, irmã mais velha e irmão mais novo, ambos
 inclinados a um único fim, porém ela com o poder e o conhecimento
 que pertencem apenas a leões e sábios.”

 Esse foi o reconhecimento mútuo de dois sábios e do grande
 trabalho que estava diante de ambos.
 Foi uma honra contribuir com este Prefácio para esta tradução
 de Cartas que me ajudaram para o português, projeto coordenado por

 Fernando Mansur. Da mesma forma, espero que muitos insights so-
 bre a vida na Senda possam ser colhidos, e que muitas bênçãos sejam
 concedidas por meio dessas cartas por um grande amigo da humani-
 dade, William Quan Judge.
 Por Jonathan Colbert8

 8 Membro da Sociedade Teosófica em Adyar e da United Lodge of Theosophists
 — ULT (Loja Unida de Teosofistas — LUT), desde 1978, em Santa Barbara
 (Califórnia/ EUA), Jonathan Colbert contribui como conferencista internacional
 e com artigos para a revista “Vidya” e para outros periódicos teosóficos, enfati-
 zando o aprofundamento no conhecimento prático dos reais ensinamentos de
 Teosofia, conforme a obra de HPB, para uma maior influência dos Mestres no
 Movimento Teosófico. Nesse sentido, é um grande incentivador do estudo e da
 meditação nos escritos de Judge. (N.E.)

 LIVRO I

 Dedicado a Z.L.Z.
 o maior dos Desterrados e o Amigo de todas as criaturas,
 de seu irmão mais novo, o compilador.

 JASPER NIEMAND

 “O amor do Mestre é generoso: sua luz brilha sobre
 teu rosto, e endireitará para ti todos os caminhos
 tortuosos.”
 (FAREWELL BOOK)

 Prefácio do Livro I

 “Na busca pela liberdade, eu me dirijo a esse Deus
 que é a luz de seus próprios pensamentos. Um ser
 humano que O conhece realmente transcende a
 morte; não há outro caminho a seguir.”
 (UPANISHADS)

 Na revista “The Path” de maio de 1886, encontramos as se-
 guintes palavras: “Precisamos de uma literatura não só para pessoas
 intelectualmente elevadas, mas também para aquelas de caráter mais
 simples, e que procure interessar mentes comuns dotadas de bom
 senso, que verdadeiramente aspiram a encontrar tal assistência moral
 e mental, não alcançada pelas mais pretensiosas obras.”
 Geralmente, a experiência de um estudante é a de todos. No
 entanto, os detalhes são diferentes. Alguns enriquecem mais rápido
 que outros — são aqueles que fazem um esforço mais vigoroso e
 generoso ou têm um repositório kármico que os auxilia. Isso é de-
 cidido por aquilo que os teósofos conhecem como Karma, ou a Lei
 espiritual de ação e reação, que opera de forma semelhante em todos
 os planos: físico, moral, mental, psíquico e espiritual. Nosso Karma
 pode ser trabalhado em qualquer um desses planos quando nossa vida
 está concentrada principalmente em um deles, não importando que

 algum impulso inicial especial ou ramificação tenha sido originado
 daquele Karma em qualquer dos outros planos.
 O autor, logo que se tornou um estudante teosófico, se benefi-
 ciou em seus estudos da ajuda de um ocultista avançado. Este amigo
 enviou-lhe, entre outras coisas, as cartas que publicamos aqui, na es-
 perança de que pudessem beneficiar outros, como fizeram ao desti-
 natário original. Não consistem em tratados exaustivos; elas são su-
 gestões expressas por alguém que sabia que a primeira necessidade de
 um estudante é aprender a pensar. A verdadeira direção é apontada, e
 cabe ao estudante esclarecer suas próprias percepções, obtendo e am-
 pliando suas intuições para se desenvolver por seus próprios esforços
 internos, pois cada coisa criada deve, ao final, desdobrar-se. Esses
 estudantes já passaram do ponto em que seu ambiente externo pode
 afetar favoravelmente seu crescimento. Eles podem aprender com o
 ambiente, mas igualmente é chegada a hora de resistir a ele e voltar-
 -se à afinação interna somente pelas relações superiores.
 O fato de tais cartas serem breves não deve enganar o leitor.
 Cada afirmação nelas contida é uma afirmação da Lei. Elas indicam
 as causas das quais a vida é efeito — a vida que emerge da ação do Es-
 pírito na Natureza e que devemos compreender antes que possamos
 avançar na Senda, já que Ele se manifesta em nós. Há um significado
 científico em todos esses preceitos devocionais ou éticos, uma vez que
 a Religião-Sabedoria nunca abranda seu domínio sobre a ciência, nem
 se aventura em separar um efeito de sua causa. Muitas dessas diretri-
 zes são baseadas na constituição do Archæus, ou Alma do Mundo, e na
 correlação de suas energias, enquanto outras aderem ao Eterno.
 Ao mesmo tempo, o leitor deve se prevenir para não negligen-
 ciar essas cartas induzido pela extrema modéstia de Z. Um ocultista

 não será um homem verdadeiramente poderoso até que tenha apren-
 dido e manifestado completamente a seguinte verdade:

 “E o poder que o discípulo deve cobiçar é aquele que fará com
 que ele apareça como nada aos olhos dos homens.”9

 O olho interior, o poder de ver, penetra mais profundamente na
 fonte de conhecimento do homem, apreendendo-o a partir de seu
 verdadeiro valor. Esses homens que participam do Divino, cujo pri-
 meiro ofício é doar, estão frequentemente protegidos das demandas
 e da curiosidade do desatento por uma aparência simples, que enga-
 na os sentidos mundanos. Alguns homens são notáveis por causa do
 Poder que os sustenta — as energias divinas que fluem através deles.
 Eles são proeminentes porque aprenderam como receber tal influxo
 celestial das esferas superiores do Ser; são os ministrantes nomeados,
 os verdadeiros servidores da Lei e discípulos dos Mestres cuja tarefa
 é humanitária e universal.
 Essa ajuda nunca é oferecida voluntariamente, mas segue o co-
 mando kármico; e, uma vez concedida, deixa o estudante livre para se-
 gui-la ou não, de acordo com sua intuição. O assunto carece de qual-
 quer sombra ou vestígio de autoridade, no senso comum da palavra.
 Aqueles que percorrem o caminho desconhecido enviam mensagens,
 e os que podem as recebem. Estão registrados aqui apenas alguns dos
 primeiros passos e dos obstáculos iniciais superados. Não se encontra
 qualquer sugestão de conhecimento mágico — nenhuma fórmula de
 crença ou de poderes ocultos; são respondidas as perguntas de uma

 9 Luz no Caminho, de Mabel Collins, publicado pela Editora Teosófica. (N.E.)

 alma que está despertando, mostrando-se ao peregrino onde está a
 entrada à Senda. O mundo em geral busca os fatos da ciência oculta,
 mas o estudante que decidiu alcançar a meta deseja encontrar o ver-
 dadeiro caminho. Aquilo que aos outros pareça simples ética é, para
 ele, uma instrução prática, pois à medida que ele a segue logo percebe
 a relação dela com os fatos e as leis, que ele pode então verificar; e o
 que para ele parecia simplesmente a linguagem da devoção acabará
 sendo a da ciência; todavia a ciência é espiritual, visto que a Grande
 Causa é puro Espírito.
 Em algum momento, muitos estudantes se verão onde estava o
 escritor, no início do caminho. Divulgamos publicamente essa cor-
 respondência a todas essas pessoas, pedindo-lhes para discernir nas
 palavras impressas o seu significado imperecível. Elas podem se ale-
 grar ao encontrar as pegadas de um companheiro ao longo da Senda
 sinuosa, ao final da qual brilha perenemente a luz da Verdade. No
 entanto, nem mesmo essa luz é sempre um esplendor claro; ela pode
 parecer “uma nuvem durante o dia e uma coluna ígnea à noite”. De-
 vemos questionar todos os aspectos externos, mesmo os da própria
 Fé, pois o segredo e o germe das coisas se encontram no coração de-
 las. Purifiquemos mesmo a nossa Fé, busquemos a própria Verdade,
 e não nossos preconceitos sobre a Verdade. No espelho da Verdade,
 jamais veremos nosso próprio rosto familiar; aquilo que vemos ainda
 somos nós mesmos, porque nosso Ser real é Verdade.
 À medida que o Movimento Teosófico ganha um novo ímpe-
 to, novos recrutas podem encontrar auxílio nestas cartas, que tanto
 me sustentaram, ou ser encorajados por uma certa semelhança de
 pensamento, que também os ajudará na questão real que os confron-
 tar. Consideramos que tal questão seja inicialmente a aquisição de

 conhecimento oculto. Rapidamente percebemos que o significado de
 todos os escritores ocultistas verdadeiramente informados nos esca-
 pa. Descobrimos que os livros servem apenas para nos lembrar do
 que sabíamos no passado remoto, talvez quando “passeávamos com
 a Divindade”, e os ecos despertados em nós são tão fracos que rara-
 mente são captados.
 Quer estudemos filosofia, metafísica, física, ética, harmonia,
 astrologia, ciências naturais, astralismo, magnetismo ou o que seja,
 encontramos intermináveis contradições e diferenciações; portanto,
 sempre precisamos alcançar o equilíbrio de nossa própria intuição.
 Descobrimos que ainda não foi escrita a última palavra sobre qual-
 quer um dos assuntos superiores (a menos que se fale de matemática,
 e muito pouco lá também) e que todo o nosso aprendizado não é
 nada mais que um indicativo para aquele conhecimento supremo da
 Verdade, o qual só é encontrado e profundamente guardado no co-
 ração humano. Ao nos voltarmos às nossas percepções internas para
 um reajuste contínuo, recebemos o mesmo aviso em toda experiência:
 Prepare-se para abandonar tudo o que aprendeu! Sem conhecermos
 o centro único, não podemos conhecer com precisão qualquer sub-
 centro. Se a causa é desconhecida, os efeitos nos enganam. Então,
 vamos em direção àquele centro misterioso no qual o Um está mani-
 festo no homem, e iniciemos o estudo do coração, em si mesmo e na
 vida que ele organizou ao nosso redor.
 A necessidade mais urgente do estudante agora é se comunicar
 mais diretamente com o mundo das causas. Só uma coisa o impede
 — ele mesmo. Ele é constituído por uma fibra tão grossa que não
 consegue ser “receptivo ao pensamento e capaz de absorver o mar
 de luz”. Então, ele dirige sua vontade para refinar e dissipar seu eu

 inferior, isto é, o homem que ele agora toma por si. Cada homem
 tem um modo diferente de fazer isso, mas aquele que avança desco-
 bre que, a cada novo período de sua vida interna, um novo eu surge
 diante dele. Ao olhar para trás, considerando algumas semanas ou
 meses, ele fica surpreso ao ver que tipo de pessoa ele era então, e ex-
 pressa aquele sorriso compassivo que damos aos desbotados escritos
 de nossa juventude.
 No entanto, existem alguns que se fossilizam em sua rotina;
 que estes lutem fortemente para destruir a massa que resistiu a todos
 os ambientes, a todas as mudanças e a todas as condições da vida em
 progresso. Eles causaram a si mesmos aquilo que o inimigo se esforça
 para perpetrar; eles são a pedra em seu próprio caminho.
 Os chamados “envoltórios do coração”, por nossos irmãos
 orientais, são descartados um a um; e quando o último deles for rom-
 pido e aberto, surgirá um silêncio, o silêncio da morte mística. No
 entanto, “os mortos ressuscitarão”, e dessa morte surgirá o primeiro
 broto compassivo da vida eterna.
 Nas páginas seguintes, não iremos além deste ponto. Contu-
 do, tendo o escritor percebido os reais problemas tão convincente-
 mente, de forma que logo ao início dirigiu todas as suas forças para
 o autoconhecimento e para o uso correto do Pensamento, oferece
 uma parte de suas primeiras instruções àqueles de seus condiscípu-
 los que, sinceros de coração e animados por uma Fé magnificente,
 consideram a Verdade como sendo mais preciosa do que toda a vida
 material, buscando-a no caminho oculto. No Universo não há vín-
 culo semelhante ao que une tais condiscípulos; foi forjado no fogo
 da angústia inexprimível, firmado por um propósito destemido e por
 um Amor ímpar, porque Divino. O ódio cruel dos mundos visível

 e invisível não poderá interferir em tal vínculo enquanto o homem
 permanecer fiel a si mesmo, pois esta vida superior é ele próprio; e à
 medida que ele evolui em direção a ela, suas limitações autoimpostas
 desaparecerão e, ao final, ele será uma alma livre na Luz celestial
 que é a própria Liberdade, obediente apenas à Lei do próprio Ser
 divino. Para alcançá-la, obedeçamos à lei do nosso próprio Ser, pois
 na verdade o Ser é Um.
 Meus condiscípulos, onde quer que estejam, eu os saúdo.

 JASPER NIEMAND
 Membro da Sociedade Teosófica

 C A R TA I

 Meu caro Jasper,
 Agora, deixe-me falar uma coisa. Não pense exageradamente
 sobre mim; pense em mim com compaixão. Porém, meu amigo, dire-
 cione seus pensamentos à Verdade Eterna. Tal qual você, estou nesse
 caminho de luta. Talvez, em um instante, caia um véu de seu espírito,
 e você estará muito à frente de todos nós. A razão de você ter recebi-
 do ajuda é que, em vidas passadas, foi você quem ajudou. Em cada um
 de seus esforços para iluminar a mente de outros, abrindo-a para a
 Verdade, você auxiliou a si próprio. Aquelas pérolas que você encon-
 trou e deu a eles em um ato de benevolência, na realidade, continuam
 com você. Pois, quando se vive para beneficiar os demais, está-se,
 desse modo, pondo em prática a regra de esforçar-se e de “eliminar
 todo sentido de separatividade”, adentrando, assim, pouco a pouco,
 na verdadeira luz.
 Portanto, nunca se afaste dessa atitude mental. Mantenha-se
 firmemente em silêncio para tudo o que lhe é privativo, pois você pre-
 cisará disso na luta; no entanto, nunca, nunca deseje obter conheci-
 mento ou poder para qualquer outro propósito que não seja ofertá-lo
 ao altar, pois somente dessa maneira você poderá mantê-lo.
 Ao meu redor, há muitos devotos que desejam e buscam ar-
 dentemente, mas o fazem porque a possessão parece valiosa. Talvez
 eu veja em você — e espero não me enganar — um puro desejo de
 buscar o Conhecimento por ele mesmo, e para que todos os outros
 possam se beneficiar dele. Portanto, lhe indicarei o único caminho
 real, o único veículo. Realize todas as ações, sejam físicas, mentais ou

 morais, porque elas devam ser realizadas, renunciando, no mesmo
 instante, a todo interesse nelas e oferecendo-as ao altar. Qual altar?
 Ora, o grande altar espiritual que se encontra no coração, quando
 se aspira encontrá-lo. Mesmo assim, faça uso do discernimento, da
 prudência e da sabedoria terrenos.
 Isso não implica que você deva agir apressada ou imprudente-
 mente, no calor do momento. Faça o que você considere necessário.
 Deseje ardentemente realizá-lo; e mesmo que você não consiga fazer
 tudo, mas apenas algumas pequenas tarefas, deixo-lhe uma palavra de
 orientação: seu desejo ardente irromperá como um vulcão sobre ou-
 tros corações no mundo, e repentinamente você verá realizado aquilo
 que tanto desejava. Regozije-se, então, por alguém ter tido a sorte de
 criar um Karma tão meritório. Portanto, como rios desaguando em
 um oceano passivo, sem ondulações, seus desejos adentrarão em seu
 coração.
 Na minha opinião, suas observações são justas, e parece tam-
 bém que um verdadeiro espírito as inspira. Não tenha medo nem
 fraqueje por se ver na escuridão e se sentir angustiado. Depois de
 algum tempo, o próprio fervor que você experimenta abrirá o san-
 tuário encoberto pelo mistério. Ninguém poderá realmente ajudá-lo.
 Ninguém poderá abrir as portas para você. Você as fechou e somente
 você poderá abri-las. Ao abrir uma porta, por trás dela você encontra
 outros que já passaram por você há muito tempo, mas agora, incapa-
 zes de continuar, estão lá esperando; outros estão esperando por você.
 Então você chega, abrindo uma porta, e esses discípulos em espera
 talvez possam ir mais longe; e assim interminavelmente. Veja que
 enorme privilégio refletir que talvez possamos ser capazes de auxiliar
 aqueles que víamos como maiores que nós mesmos!

 Oh, como a Natureza lamenta ao ver o denso Karma que o
 homem acumulou para si mesmo e para as criaturas dos três mundos!
 Esse suspiro profundo penetra meu coração. Como essa carga pode
 ser aliviada? Eu deveria me voltar apenas para mim próprio, enquan-
 to as poucas mãos fortes dos Mestres Abençoados e de Seus amigos
 detêm essa terrível nuvem? Em épocas remotas, fiz o voto para ajudá-
 -los, e devo cumpri-lo. Que o grande Karma me permita fazer mais!
 E você, faça o que puder.
 Coloque sua fé, sua certeza e sua confiança somente no Karma.
 Z.

 C A R TA I I

 Meu querido irmão,
 Sua última e longa carta chegou pontualmente até mim e foi
 lida com grande prazer. É muito raro encontrar uma pessoa que quei-
 ra entrar nesse movimento com bases no que você estabeleceu para si
 próprio; e minha carta anterior foi escrita para ver qual era a sua ver-
 dadeira atitude e também porque eu então senti, considerando suas
 palavras, que você leva o assunto a sério. E antes de sua carta chegar
 hoje, comecei a pensar em você, imaginando se sua aspiração não se-
 ria um futuro de poder, um esplendor de conhecimento, e que efeito
 certos eventos teriam sobre isso.
 Imagine, então, o meu prazer ao ler suas palavras agora, respon-
 dendo exatamente as minhas perguntas mentais de ontem, colocan-
 do-o na posição correta.

 É verdade, devemos aspirar ardentemente; e abençoado é aque-
 le que, após a primeira aspiração, é sábio o suficiente para ver a Ver-
 dade. Três qualidades nos envolvem continuamente: Satwa (verdade
 e estabilidade), Rajas (ação, combate, aspiração e ambição) e Tamas
 (indiferença, ignorância e escuridão).
 Não podemos desconsiderar nenhuma delas. Portanto, o caminho
 se estende de Tamas a Satwa, verdade ou estabilidade, passando por
 combate, ambição e aspiração. Agora estamos nas regiões Rajasikas e, às
 vezes erguemos nossos dedos até a borda das vestes de Satwa, sempre
 aspirando e tentando purificar nossos pensamentos e nos libertar do
 apego a ações e objetos. Portanto, obviamente, o estudante sincero na-
 turalmente aspira ao poder. Isso é sábio. No entanto, ele precisa perceber
 rapidamente o que deve fazer, para obter um progresso real. Pois a con-
 tínua aspiração ao poder, apenas, certamente semeará as gigantescas er-
 vas daninhas do ser, que é o gigante mencionado em Luz no Caminho10.
 No que diz respeito à Sociedade Teosófica, todos deveriam ser
 admitidos, pois não podemos rejeitar ninguém. Se é uma Fraternida-
 de Universal, não podemos fazer distinções, mas podemos nos colocar
 logo no início, observando para que as pessoas não entrem com noções
 errôneas sobre o que temos a oferecer. No entanto, apesar de todas as
 nossas precauções, quantas vezes encontramos pessoas que, não sendo
 verdadeiramente sinceras, nos julgam de acordo com seus critérios, sem
 acreditar em nossa sinceridade. Elas entram, descobrem que cada um

 10 Obra de Mabel Collins (originalmente publicada em 1885). Jasper afirma (“Path”
 IV, 101, julho de 1889): “Ocultistas avançados identificam Luz no Caminho com
 um manuscrito antigo, não traduzido e não publicado, cujo nome é ‘O Livro de *
 * *’, o qual MC não poderia ter acessado e cujos preceitos lhe foram comunicados
 por meio de métodos ocultos.” (Nota da edição original em inglês.)

 deve estudar por si mesmo e que não são informadas quaisquer diretri-
 zes, e então ficam aborrecidas. Elas esquecem que “o Reino dos Céus
 deve ser tomado à força”. Nós também tivemos que sofrer com nossos
 amigos. Há pessoas que secretamente se juntaram a nós, como Nico-
 demos, e permaneceram ociosas, esperando que a Causa se tornasse
 mais forte ou entrasse na moda, deixando todo o trabalho duro a ser
 feito por um pequeno número de indivíduos dedicados que desafiavam
 as hostes do Materialismo e da Convencionalidade. Se eles tivessem
 falado da Causa deles, há muito tempo um número maior de pessoas
 sérias teria sabido do Movimento, em vez de serem mantidas afastadas
 até agora, como aconteceu com você, por ignorar sua existência.
 Você perceberá que outros membros se importam unicamente
 com a Teosofia, e são ainda forçados pelas circunstâncias a trabalhar em
 outras áreas também. Os momentos que lhes sobram são devotados à
 Causa; em consequência, eles não têm tempo livre; cada momento, dia
 e noite, é ocupado, e, é claro, eles ficam felizes. No entanto, eles sofrem
 pelo fato de não poderem dedicar todo o seu tempo de trabalho à Cau-
 sa pela qual alguns deles têm atuado desde o começo. Eles se sentem
 como Claude St. Martin11, com um desejo interno ardente de tornar
 essas verdades conhecidas por toda a humanidade. São verdades, e você
 está no caminho certo. Nos Estados Unidos, é tão fácil quanto na Índia
 encontrar a Luz das Luzes, no entanto todos à sua volta ignoram essas
 coisas e nunca ouviram falar delas; ainda assim, muitos de nossos mem-
 bros anseiam estudar apenas para seu próprio benefício. Às vezes, se não
 fosse por minha confiança nesses Grandes Seres, que continuamente

 11 Louis-Claude de Saint-Martin (1743-1803), filósofo e místico francês, escreveu
 diversos livros sob o pseudônimo de Filósofo Desconhecido. (N.E.)

 me acenam, eu ficaria desanimado e, deixando essas pessoas sozinhas,
 fugiria para a floresta. Há muitas pessoas que se interessam pela Teo-
 sofia, no entanto elas querem, ao mesmo tempo, torná-la seletiva e de
 cunho superior. Ela existe para toda a humanidade; para as pessoas co-
 muns, que estão sempre conosco. Outras pessoas, ainda, vêm e ficam
 esperando, como passarinhos, receberem comida no bico: não querem
 pensar, e levará eras para que realizem algum progresso.
 Você interpretou um pouco mal as palavras: “Não pense exa-
 geradamente sobre mim.” Destaque o “exageradamente”, mas não o
 “pense”. O que eu quis dizer é que você pense tudo o que quiser sobre
 mim, mas não me coloque em qualquer pedestal.
 Um esforço constante para aperfeiçoar a mera máquina mortal
 é tolice. É por isso que às vezes deixamos de viver de acordo com nos-
 sas próprias intuições. Esse hábito permanece por algum tempo, mas
 enfraquece quando outros sentidos (os internos) começam a aparecer.
 No entanto, conheça completamente os novos sentidos antes de se
 livrar dos antigos.
 Como aprendemos quase exclusivamente uns com os outros,
 como estamos todos aqui uns para os outros, o efeito das afinidades
 em nossas ações e pensamentos é enorme e amplo. Às vezes nos salva
 e às vezes nos condena. Porque, devido às afinidades geradas em vidas
 passadas, podemos encontrar em nossas vidas uma pessoa que tenha
 um efeito notável, positivo ou negativo. E agora que nossos olhos
 estão abertos, vamos agir hoje para o futuro.
 Para que você atravesse o oceano das trevas, ofereço-lhe minha
 vida e minha ajuda.
 Z.

 C A R TA I I I

 Diga-me, irmão Jasper, você está cansado? Pois eu estou. Não
 do destino ou dos grandes “Líderes do Mundo”, mas de todas essas
 pessoas que bocejam e bocejam e são (desculpe o termo), tão “ameri-
 canamente independentes”, como se os homens alguma vez tivessem
 sido independentes uns dos outros.
 Você me pergunta sobre o “momento da escolha”. Ele é feito de
 todos os momentos. Não está no espaço ou no tempo, mas é a agre-
 gação desses momentos que passam rapidamente por nós a cada ins-
 tante. O Budismo Esotérico12 se refere a ele considerando-o como um
 período ainda por vir à raça, quando ela será, como um todo, levada a
 fazer a escolha entre o bem e o mal. No entanto, cada indivíduo pode
 determinar a entrada nesse período para si mesmo. Aquele que não é
 instruído será incapaz de dizer quando ele chegará, ou se já chegou.
 Para o estudante de Ocultismo, ele poderá aparecer no instante se-
 guinte ou daqui a cem vidas. Mas esse momento não chegará se todas
 as vidas anteriores não tenham levado a esse ponto. Ainda no que diz
 respeito ao estudante, mesmo que esse momento decisivo lhe chegue
 e ele o negue, em existências futuras ele será levado a fazer a escolha
 com todo o conjunto de sua raça.
 As influências da raça são insidiosas e poderosas. Por exemplo,
 minha raça tem suas peculiaridades profundamente enraizadas e her-
 dadas de um passado extraordinário. Nesse corpo, devo estar sob suas

 12 Obra de A.P. Sinnett (publicada originalmente em 1883). ( J.N.)

 influências, como parte necessária de minha experiência. Em outra
 vida, eu posso ter sido um hotentote prosaico ou um inglês, e em
 uma vida vindoura eu poderei estar sob influência de outras peculia-
 ridades raciais. Essas influências estão, portanto, me guiando a todo
 momento, e cada pensamento que tenho se soma a elas agora, tanto
 para o meu próprio emprego futuro quanto para o de outra pessoa,
 que estará sujeita à energia de parte da força gerada agora por mim.
 No que diz respeito à mente subconsciente, é difícil explicar. Eu
 percebo que constantemente tenho ideias que entendo muito bem
 internamente, mas não consigo encontrar a linguagem para expressá-
 -las. Chame de subconsciente, se quiser. Ela está lá e pode ser afetada;
 de fato, é afetada a todo momento. Trata-se de uma aproximação à
 Mente Universal. Assim, se desejo influenciar, por exemplo, a sua
 mente, eu não formulo o seu plano subconsciente, mas penso firme
 e gentilmente em você e no assunto em que quero que você pense.
 Isso chegará até você. Se sou egoísta, é mais difícil que o pensamento
 chegue até você; mas se este for de natureza fraterna, alcançará seu
 destino mais facilmente, estando em harmonia com a Mente e a Lei
 Universais. A Psychic Society13 aborda essa questão, afirmando que a
 influência “surge na mente inferior” por meio de um ou mais canais.
 No entanto, eles ignoram o que sejam esses “canais”, e mesmo se
 eles de fato existem. Na realidade, todo o assunto da mente é pouco
 compreendido no Ocidente. Com o termo “mente”, eles significam
 a ampla gama de departamentos daquilo que chamam de mente, ao
 passo que deve haver uma necessidade para denominar esses depar-
 tamentos. Uma vez que as verdadeiras ideias sejam compreendidas,

 13 Sociedade Psíquica. (N.E.)

 as denominações surgirão. Enquanto isso, devemos estar satisfeitos
 com a palavra “mente” englobando tudo isso. Mas não é assim. Cer-
 tamente, não se trata de um movimento mental comum — raciocínio
 —, compreender em um instante todo um assunto, das premissas
 às conclusões, sem parar para ponderar. Não pode ser chamado de
 imagem, pois em algumas pessoas isso se manifesta como uma ideia
 e não como uma imagem. Memória. O que é isso? É a impressão ce-
 rebral, ou é a similaridade da vibração reconhecida quando é repetida
 e que em seguida produz uma imagem? Nesse caso, a energia para
 reconhecer a vibração idêntica à de antes é separada da matéria vi-
 bratória. Como é possível que a energia seja inerente às células cere-
 brais, quando sabemos que elas estão continuamente sendo alteradas?
 Ainda assim, a memória é perfeita, não importa o que aconteça. Fica
 claro que a memória está além do cérebro, já que um homem pode
 ser morto por ter seu cérebro reduzido a um amontoado de átomos,
 e ainda assim sua “concha” pode revelar todos os eventos de sua vida;
 eles não são extraídos do cérebro, pois este está morto. Onde, então,
 está a mente subconsciente? Onde estão os canais, e como eles estão
 conectados? Eu penso que seja por meio do coração, e que o coração
 seja a chave de tudo, sendo o cérebro simplesmente o servo do co-
 ração14, porque, lembre-se, em seu interior está o “pequeno duende
 que mora no centro”. Agora, reflita profundamente sobre essa última
 linha, ou sobre qualquer outra de sua escolha, mas reflita.
 Como sempre, Z.

 14 Não o coração físico, mas o verdadeiro centro da vida no homem. ( J.N.)

 C A R TA I V

 Prezado Senhor e Irmão:
 Recentemente, pensei em você a respeito de algumas de minhas
 próprias reflexões. Eu estava lendo um livro e sondando internamen-
 te como eu poderia ampliar minha ideia de fraternidade. A prática da
 benevolência não trará seu completo desenvolvimento. Eu tive que
 descobrir alguns meios para ir mais além, e cheguei a isso, que é tão
 antigo quanto as idades.
 Eu não sou separado de nada. “Eu sou Aquilo que é”, isto é, eu
 sou Brahmā, e Brahmā é tudo. Mas, encontrando-me em um mundo
 ilusório, estou rodeado por certas aparências que dão a impressão de
 que sou separado. Assim, passarei a um estado mental e aceitarei que
 sou todas essas ilusões. Sou os meus amigos — e por isso fui a eles,
 em geral e em particular. Sou os meus inimigos — e portanto os senti
 a todos. Sou o pobre e também o perverso; sou o ignorante.
 Os momentos de obscuridade intelectual são aqueles em que
 sou influenciado pelos ignorantes que são eu mesmo. Tudo isto é a
 minha nação. No entanto, existem muitas nações, e a elas me dirijo
 mentalmente; eu as sinto e sou todas elas, com o que elas têm de
 superstição, de sabedoria ou de maldade. Tudo, tudo sou eu mesmo.
 De uma maneira imprudente, eu estava prestes a parar, mas o Todo é
 Brahmā, portanto fui em direção aos Devas e Asuras15; o mundo ele-
 mental, esse também sou eu. Depois de seguir um pouco esse curso,

 15 Deuses e demônios. ( J.N.)

 foi mais fácil voltar à contemplação de todos os homens como sendo
 eu próprio. Esse é um bom método e deve ser seguido, pois é um pas-
 so em direção à contemplação do Todo. Ontem à noite, tentei alcan-
 çar a contemplação de Brahmā, mas a escuridão rodeia seu pavilhão.
 Agora, o que lhe parece toda essa insanidade? Eu lhe direi o que é:
 Se não fosse por toda essa insanidade, eu ficaria alienado. Será que
 eu não devo me animar mesmo quando um amigo querido me abando-
 na e me apunhala profundamente, quando sei que ele sou eu próprio?
 NAMASTAE!
 Z.

 Eu achei essa carta acima ainda mais valiosa quando lembrei
 que Brahmā é “a força expansiva universal da Natureza” — derivada
 de Brih, “expandir”, como H.P. Blavatsky afirma em um artigo em
 Five Years of Theosophy (primeira edição, página 184). O Dhamma-
 pada nos ensina a pensar em nós próprios como sendo o Sol e as
 estrelas, o molhado e o seco, o calor e o frio; em resumo, a sentir cada
 experiência, pois podemos vivê-las todas na mente.
 J.N.

 C A R TA V

 Caro Jasper,
 Gostaria de poder responder à sua carta como ela merece, mas
 sinto minha incapacidade. No entanto, nosso dever é nunca conside-
 rar nossa incapacidade como empecilho, mas sempre fazer o que vier

 para ser feito da maneira que pudermos, por mais inapropriado que
 o trabalho possa parecer aos outros. Quando paramos para conside-
 rar nossas fraquezas, pensamos, por comparação, como outro o faria.
 Nosso único direito está no ato em si. As consequências estão no
 grande Brahm. Então, direi apenas o que me vem à mente.
 Percebo tristeza em sua carta, mas sei que você a superará. Não
 permita que a tristeza, fruto do conhecimento, gere desespero; essa
 tristeza é menor que o júbilo da Verdade. Até a Verdade abstrata tem
 em si, necessariamente, toda a compaixão que há no Todo. Sua se-
 veridade é somente um reflexo de nossas próprias imperfeições, que
 nos fazem apenas reconhecer esse aspecto. Não somos os únicos que
 sofrem ao longo da Senda. Da mesma forma que nós, os Mestres
 choraram, embora agora não chorem mais. Alguns anos atrás, um
 deles escreveu: “Você supõe que não tenhamos passado por provações
 muito mais difíceis do que essa em que você pensa se encontrar?”
 Frequentemente, o Mestre parece privar-se de seu rosto (espiritual)
 e ocultá-lo para que o discípulo possa tentar. Nas portas e paredes
 do Templo está escrita a palavra “Tente”. (Irmãos é uma designação
 melhor que Mahātmās ou Mestres.)
 Ao longo da Senda do verdadeiro estudante há tristeza, mas
 também grande alegria e esperança. A tristeza vem de uma apreciação
 mais correta das dificuldades no próprio caminho e da grande maldade
 no coração do homem, individual e coletivo. No entanto, olhe para a
 grande fonte de esperança e júbilo, considerando que os Irmãos exis-
 tem e que Eles também foram homens; tiveram que lutar o combate,
 triunfaram e trabalham por aqueles que ficaram atrás deles. Além dos
 Irmãos estão os “Pais”, isto é, os Espíritos dos “seres justos que alcança-
 ram a perfeição”, Aqueles que viveram e trabalharam pela humanidade

 em tempos passados ​​e que agora estão fora de nossa esfera, não obs-
 tante continuem a nos influenciar, já que suas forças espirituais fluem
 na Terra para todas as almas puras. A influência imediata dos Pais é
 sentida pelos Mestres; e nós a sentimos por meio dos Mestres.
 Agora, como você diz, tudo consiste na Fé; mas o que é Fé?
 É o sentimento intuitivo de que “isso é verdade”. Portanto, formule
 para si próprio certas coisas como verdade, e que você as sinta serem
 verdadeiras, e depois aumente sua fé nelas.
 Não seja ansioso. Não fique “enlouquecido”. Pois no fato de
 você ficar “enlouquecido” (certamente no sentido metafórico) encon-
 tra-se a prova de sua ansiedade. Do ponto de vista mundano, talvez
 seja bom ficar ansioso por algum assunto de grande importância, mas
 no Ocultismo é diferente, pois a Lei não leva em conta os nossos pro-
 jetos e objetivos, ou o nosso desejo de estar à frente ou atrás. Assim,
 se ficamos ansiosos, levantamos uma barreira contra o progresso por
 meio de perturbações e de esforços desarmoniosos.
 Você escreveu a B. dizendo a ele que o que é dele é dele, por-
 tanto, o inverso também é verdadeiro: o que não é dele, não é. Por que
 você não toma seu próprio remédio?
 Seu, Z.

 C A R TA V I

 Caro Jasper,
 É um grande avanço que você ouça os sinos, que poucos ouvem;
 e é evidente que você está onde possa ouvi-los; de fato, isso é algo

 significativo. Não procure a voz dos sinos, mas considere as ideias que
 por meio dela surgem em seu cérebro, e aplique a elas a pedra de toque
 de sua própria Alma, como você sugeriu a B. O fato de você se sentir
 “morto” é algo com o qual não deve se preocupar. Provavelmente, você
 está sob a operação da Lei que prevalece na Natureza, à qual você
 encontrará referência em um artigo à página 14 de “Path Magazine”16
 de abril de 1886. O que você chama “morrer” consiste em a alma se
 dirigir a novo local ou um novo ambiente e permanecer em silêncio
 por algum tempo; lá ela acumula força e começa a se acostumar com
 seu novo ambiente, quando então passa a se mover. Na vida cotidiana,
 uma ilustração disso é a vergonha de uma criança, que é a timidez
 sentida em ambientes novos; é exatamente o que ocorre com a alma
 quando ela se muda para um novo local ou adentra novos ambientes.
 Nossos esforços não podem ser perdidos ou destruídos. Cada
 aspiração elevada ilumina o caminho, conectando o Ser superior ao
 eu inferior. Não tenho qualquer dúvida sobre isso. Não é o que é feito
 que conta, mas o espírito com o qual fazemos a menor coisa. Ouça as
 palavras do Mestre:
 “Aquele que faz o melhor que sabe e pode fazer, faz o suficiente
 por nós.”
 O simples fato de um homem apreciar essas verdades e sen-
 tir essas aspirações é a prova de que ele está no caminho certo. É
 bom trilhá-lo agora. Nós não vamos viver para sempre. A morte virá.
 Melhor, então, abraçar a morte enquanto estamos trabalhando do
 que nos desviarmos apenas para ele ser trazido repentinamente em

 16 Veja “Seership”, reimpresso em “Theosophy” VI, 19. (Nota da edição original em
 inglês.)

 vidas posteriores. O renascimento imediato é para aqueles que estão
 sempre trabalhando com o coração focado no trabalho dos Mestres e
 isentos de interesse pessoal.
 O Espírito Uno está em tudo, é a essência de cada um de nós,
 portanto está sempre lá, sempre conosco; e, ao refletir sobre isso, não
 há muito espaço para tristeza ou desilusão. Se acreditarmos que a
 alma de todos se mede pela totalidade do Tempo, e não por uma
 parte dele, então não nos importaremos com esses momentos que
 estão relacionados apenas ao nosso corpo. Se vivermos em nossos co-
 rações, logo demonstraremos que espaço e tempo não existem. Nada
 de estranho que o Mestre entre lá; nossas limitações não estão lá. O
 coração sempre O alcança, e não há dúvida de que Ele responde. Ele
 responde, eu sei. Ele nos ajuda, embora deixando-nos agir por nós
 mesmos. Ele não precisa se inclinar para ver nossa devoção, pois ela é
 de qualidade sublime e alcança todos os lugares.
 Não, eu não disse que você deveria fazer mais do que faz. Cada
 um de nós faz o que pode. Nenhum de nós pode ser o juiz de qualquer
 criatura existente, então eu não o julgo de modo algum. No total, sua
 vida pode ser maior do que outra vida, que eu ou outra pessoa levamos.
 O fato de você estar na América, na Europa ou na Índia não muda
 nada. Isso significa buscar as condições. Cheguei à conclusão de que
 os próprios Mestres devem ter se aperfeiçoado a partir de condições
 muito mais difíceis que as nossas. Não importa onde estamos, o mes-
 mo espírito permeia a todos e é acessível. Então, qual a necessidade
 então de mudarmos de lugar? Não nos transformamos por mover o
 corpo para outro lugar, apenas o sujeitamos a uma influência diferente.
 E para nos movermos, devemos não gostar do lugar de onde saímos.
 Isso é apego por opostos, e produzirá danos, assim como tudo que

 perturbe o equilíbrio da alma. Você sabe que o mesmo resultado é pro-
 duzido pelos pares de opostos e, portanto, os extremos se encontram.
 A chama quente da qual você está falando é uma das experiên-
 cias, assim como os sons. Existem muitas, muitas destas coisas. Ge-
 ralmente elas resultam de extrema tensão ou vibração na aura de um
 aspirante com pura devoção. Elas são ele próprio, então ele deveria
 se resguardar para não as considerar maravilhas. Elas são frequen-
 temente “aparições em Brahm”. São como novas luzes e panoramas
 para um marinheiro em uma costa desconhecida. Elas continuarão,
 se modificarão ou pararão. Você deve apenas observá-las cuidadosa-
 mente, sem “mostrar admiração e nem se associar a elas”.
 Não posso dizer mais nada. Todo auxílio que você oferece a
 outra alma é uma ajuda para si mesmo. É nosso dever ajudar a todos,
 e devemos começar pelos que estão mais próximos de nós, já que ir-
 mos muito longe, em busca de almas que poderíamos ajudar, implica
 abandonar novamente nosso dever atual. É melhor morrer cumprin-
 do nosso próprio dever, por mais insignificante, do que tentar realizar
 o alheio. Portanto, levante a cabeça e olhe em volta para a quantidade
 de falhas imaginárias do passado. Elas foram meios e professores.
 Elimine toda dúvida, todo medo, toda culpa e, livremente, retire da
 verdade o que você pode assimilar bem a cada passo. Assim, será po-
 sitivo. A Verdade Eterna é una e indivisível e, de tempos em tempos,
 podemos obter dos Pais (Pitris) vislumbres do que é verdadeiro.
 Para mim, e de fato, as palavras são coisas. No que diz respeito
 ao plano inferior das relações sociais, são coisas, porém desprovidas
 de alma e sem vida, pois a convenção em que nasceram as tornou
 abortos. Mas quando nos afastamos dessa convencionalidade as pa-
 lavras se tornam vivas, proporcionalmente à realidade e à pureza do

 pensamento que as sustenta. Portanto, na comunicação entre dois es-
 tudantes, elas desempenham o papel das coisas, e eles devem ter cui-
 dado para que a base do relacionamento seja totalmente compreen-
 dida. Vamos usar cuidadosamente esses mensageiros vivos chamados
 “palavras”.
 Onde eu vir que você está enganado, falarei, para avisar o meu
 irmão que temporariamente não sabe. Porque, se eu não tocasse a
 corneta, talvez outras coisas poderiam desviá-lo, levando-o para onde
 você poderia momentaneamente se contentar; no entanto, mais tarde,
 se arrependeria; e quando seu erro se tornasse evidente, você apenas
 sussurraria para mim, através dos séculos sombrios de separação, que
 eu não fui fiel ao meu dever de avisá-lo.
 Como sempre,
 Z.

 WWWWW

 O novo plano para o qual a alma pode ir, mencionado nesta
 carta, é o plano astral. É o plano imediatamente acima do material
 e consiste em uma ordem sutil de matéria. Quando um estudante
 dirige sua atenção para a vida superior e deseja intensamente encon-
 trar o caminho, sua alma começou a despertar e falar. Ela ouviu a voz
 do Espírito. Então, os sentidos internos começam a se desenvolver,
 inicialmente de maneira tão gentil e terna que mal conseguimos en-
 tender sua mensagem. No entanto, a alma voltou sua atenção para
 o plano astral, sendo esse o próximo a ser aprendido no caminho
 ascendente; sua energia é transferida do plano material para o astral
 e, acordada ou dormindo, teremos um fluxo de numerosos sonhos e

 experiências confusos e estranhos. Estes podem ou não continuar;
 tudo depende da alma individual e do Karma. É um plano bastante
 confuso e, de um modo geral, podemos dizer que os estudantes mais
 afortunados são aqueles que alcançam um grau acentuado de pro-
 gresso nas coisas espirituais, sem ter qualquer experiência consciente
 do plano astral. Porque então, mais tarde, eles poderão estudá-lo a
 partir do alto, em vez de debaixo, e com muito menos risco para eles.
 O todo deve ser conhecido, mas podemos progredir de vários modos,
 mesmo em graus descontínuos; só que, posteriormente, devemos re-
 tornar ao que não levamos em conta. Esse retorno não implica dano
 ou perda de nível, pois ele não pode ser perdido, uma vez que foi
 alcançado verdadeiramente.
 Clarividentes e videntes sem treinamento frequentemente ne-
 gam a verdade de que o plano astral é uma ordem mais sutil de matéria.
 Eles não fazem distinção entre os sentidos psíquicos e os espirituais.
 Eles conseguem ver através da matéria bruta — como uma parede,
 o corpo físico e assim por diante — como se ela fosse de vidro; mas
 são incapazes de ver através da substância astral e, consequentemente,
 acreditam que suas formas e todas as imagens percebidas na luz astral
 são reais. Somente o Adepto vê através dessas ilusões, que são muito
 mais poderosas, pois são compostas de uma ordem sutil de matéria,
 uma vez que as energias sutis, as forças refinadas, têm um maior grau
 de potência sobre aquelas mais grosseiras. O Adepto domina, por sua
 vontade, o nível de vibração que as dissipa ou as separa em pedaços.
 Ao tratar do plano astral, eu me refiro ao plano inferior da alma,
 não àquela qualidade superior e purificada que o autor de Luz no Ca-
 minho chama “astral divino”.

 Por meio da ansiedade, ativamos o poder construtivo do egoís-
 mo, que densifica e perturba nossa esfera magnética, tornando-nos
 menos permeáveis ao fluxo que vem de cima.
 J.N.

 C A R TA V I I

 Caro Jasper:
 Tenho comigo sua carta, Companheiro, onde você diz o quanto
 deseja que alguns Adeptos sejam enviados aos Estados Unidos para
 ajudar todos os verdadeiros estudantes. No entanto, você bem sabe
 que Eles não precisam vir pessoalmente para ajudar. Quando exami-
 no cuidadosamente sua carta, parece-me que em seu coração encon-
 tra-se a possibilidade da semente da dúvida quanto à ordem sábia de
 todas as coisas, pois todos estão sob a Lei e, primeiramente, os Mes-
 tres. Preste atenção, eu digo apenas “a possibilidade da semente da
 dúvida”, pois julgo por minha própria experiência. Bem, lembro-me
 de quando pensei, como você diz, em como seria melhor se algum
 dos Mestres estivesse aqui.
 Se for permitido que tal pensamento permaneça, ele se conver-
 terá em uma semente e se tornará uma planta de dúvida. Descarte-o
 imediatamente! No momento, ele não parece uma semente de dúvi-
 da, mas caso ele se converta, a mudança seria tão grande a ponto de
 enganá-lo, fazendo-o pensar que ele nunca veio da mesma raiz. O
 melhor ponto de vista é o seguinte: está tudo certo como está agora,
 e quando chegar a hora de melhorar, isso acontecerá. Enquanto isso,

 temos o dever de ver que fazemos tudo o que podemos, da melhor
 maneira, em nosso próprio local, sem sermos perturbados ou desen-
 corajados por nada.
 Nos anos anteriores, quantas vezes eu disse e pensei essas mes-
 mas palavras, e sem nenhum proveito! Por que estou interessado no
 que acontece com um milhão de seres humanos? Muitos deles não
 morrem todos os dias sem ninguém para lhes falar sobre tudo isso?
 Mas você supôs que tudo isso não estava previsto? “E a própria morte
 celestial também está bem prevista.” Agora, você e eu devemos, en-
 tão, aprender a considerar tanto a morte como a fome de milhões de
 seres com um coração firme. Caso contrário, seria melhor abandonar-
 mos tudo agora. Reflita que, neste momento, existem muitas pessoas
 em vários lugares remotos que jamais ouvirão essas verdades. Você
 se aflige por elas? Você percebe suas condições? Não, você percebe
 parcialmente a mesma coisa entre aqueles com quem era seu atual
 destino nascer — quero dizer, a nação. Você quer fazer mais do que o
 melhor que pode? Você inveja o trabalho de outra pessoa? Não, cer-
 tamente não. Sente-se calmamente onde está e, com o coração firme,
 imagine as mortes e as carências morais e físicas que estão agora sem
 possibilidade de prevenção ou melhoria. Sua fé saberá que tudo está
 previsto.
 Não quero dizer que você deva alcançar essa calma agora ou
 desistir de buscar o Caminho; mas o que digo é que você deve admitir
 que uma realização como essa deve, absolutamente, ser tentada. Pois
 esse é o teste; e por que devemos nos preocupar? Um dia, devemos ser
 capazes de resistir a qualquer abalo e, para nos prepararmos para esse
 momento, devemos agora triunfar sobre as menores coisas. Entre ou-
 tras está a própria posição em que você e eu nos encontramos agora,

 ou seja, nos mantermos firmes nos sentindo tão terrivelmente sozi-
 nhos. Contudo, sabemos que Eles nos deixaram um preceito. Perma-
 necemos fiéis a ele, apesar de que, de vez em quando, os objetos, os
 sentidos, os homens e o tempo conspirem para nos mostrar que os
 Mestres riem de nós. Tudo isso é uma ilusão. É simplesmente uma
 consequência do nosso Karma passado que agora se esgota diante de
 nossos olhos. A fantasmagoria completa é apenas uma imagem pro-
 jetada na Tela do Tempo pela poderosa magia de Prakriti (Natureza).
 Ainda assim, você e eu somos superiores à Natureza. Por que, então,
 nos preocuparmos com essas imagens? No entanto, como nossos cor-
 pos mortais são mesmo parte dessa tela, não podemos impedir a sen-
 sação derivada disso a partir de nossa conexão com o corpo. É apenas
 uma outra forma de quente ou frio; e o que são esses? São vibrações;
 elas são sentidas; elas realmente não existem em si mesmas. Então,
 podemos olhar calmamente para a figura à medida que ela desfila
 de maneira fragmentada nos poucos centímetros quadrados contidos
 nos limites superficiais de nossa forma elementar. Devemos agir as-
 sim, pois ela é uma cópia da forma superior, a forma universal; caso
 contrário, nunca conseguiríamos entender a imagem maior. Então,
 não existem muitos centímetros cúbicos em seu corpo que tenham
 o direito de conhecer e ser a Verdade em uma escala maior do que
 agora? E você ainda sofre com a ignorância de tantos outros seres
 humanos! Continue sofrendo; e eu também sofro. Não imagine que
 eu seja o que está escrito aqui. Não. Do lado de fora, estou igualmente
 angustiado, enquanto internamente tento fazer o que acabei de lhe
 dizer. Que sonho é esse! Aqui estou, escrevendo para você de uma
 maneira muito séria, e agora percebo que você já sabe tudo muito
 bem e melhor que eu.

 Ainda assim, meu caro Jasper, de vez em quando eu sinto não
 uma dúvida em relação aos Mestres, que ouvem qualquer pulsação na
 direção certa, mas um desespero terrível com relação a essas pessoas.
 Oh, meu Deus! A idade é obscura como o inferno e dura como o
 ferro; ela é o ferro, é Kali-Yuga. Kali é sempre pintada de preto. Ainda
 assim, o Kali-Yuga, graças à sua natureza e ao seu impulso descomu-
 nal e rápido, permite que uma pessoa faça mais com suas energias em
 um período mais curto do que em qualquer outro Yuga. Mas, querido,
 que luta! Demônios de todas as esferas, nuvens ondulantes de Karma
 fumegante, formas horríveis, exalações estupefacientes de todos os
 lados. Cada vez mais estamos expostos a novos perigos. Imagine um
 amigo que está andando com você, que você vê que ele está seguindo
 o mesmo caminho, mas de repente ele é permeado por essas coisas
 da morte e demonstra uma disposição de obstruir o seu caminho, o
 caminho dele mesmo. Sim, momentaneamente os deuses estão dor-
 mindo. Mas aqui ainda caminham nobres corações, lutando mais uma
 vez a antiga batalha. Eles procuram um ao outro para que possam se
 ajudar mutuamente. Não falharemos com eles. Falhar não seria nada,
 mas parar de trabalhar pela humanidade e pela Fraternidade seria
 horrível. Não podemos, não o faremos. Além disso, não temos um
 caminho bem delineado. Não, ele não está claro. Eu fico feliz quando
 posso ver o próximo passo, somente. Você procura o Guerreiro. Ele
 está aqui, em algum lugar. Ninguém poderá encontrá-lo por você.
 Você é que tem de fazê-lo. Ainda assim, Ele continua a lutar. Não há
 dúvida de que Ele o vê e tenta induzi-lo a vê-lo. Enquanto isso, ele
 continua a lutar.
 Como as linhas são traçadas com clareza, como as associações
 são facilmente vistas. Alguns querem um certificado ou uma promessa

 expressa, uma reunião secreta ou uma declaração; porém eu percebo
 aqueles que, mesmo sem nada disso — até agora —, são meus “com-
 panheiros”. Eles não precisam de qualquer uma dessas tolices. Eles
 estão lá, ouvem e entendem o grito de guerra, reconhecem o sinal.
 Agora, onde está o resto? Eu detive a muitos, comunicando-lhes as
 palavras exatas, expondo para eles o meu verdadeiro coração, e eles
 nada compreenderam; pensaram que o coração fosse algo diferente.
 Suspiro ao pensar em quantos. Talvez eu tenha negligenciado alguns,
 talvez outros não dissessem respeito a mim. Alguns entenderam par-
 cialmente as palavras e os sinais, mas não estavam certos de si mes-
 mos; eles sabem que compartilham a Natureza, mas ainda assim algo
 os impede.
 Você não vê, Jasper, que seu lugar nas fileiras é bem conhecido?
 Você não precisa de quaisquer garantias, pois elas estão dentro de
 você.
 Ora, que carta terrível! Mas ela é inteiramente verdadeira.
 Depois de algum tempo, um estudante de Ocultismo entra
 no que poderíamos chamar de um vórtex psíquico, ou um vórtex de
 Ocultismo. A princípio, ele é afetado pelos sentimentos e pelas in-
 fluências daqueles que estão ao seu redor. Isso começa a ser expul-
 so, e ele passa para o vórtice causado pelo poderoso esforço do Ser
 superior para fazê-lo lembrar de suas vidas passadas. E então ele é
 afetado por essas vidas passadas. Elas se tornam nuvens que projetam
 sombras em seu caminho. Num instante elas parecem tangíveis, e
 em seguida desaparecem como uma nuvem. Depois elas começam a
 afetar seu impulso para a ação de muitas formas. Hoje, ele tem um
 vago desejo de fazer algo e, olhando criticamente para si próprio, ele
 não consegue perceber nesta vida nenhum motivo. É a nota do clarim

 de uma vida passada que soa quase em sua face. Isso o sobressalta e
 pode derrubá-lo. Posteriormente, diante de si, aparece um fantasma,
 ou como se fosse uma pessoa por trás enquanto você se vê no espelho,
 olhando por cima de seus ombros. Embora mortas e passadas, essas
 vidas ainda têm poder. Ele também alcança um poder e uma escolha.
 Se todas as suas vidas passadas foram plenas do bem, a força benéfica
 para si será irresistível. No entanto, todas elas marcham diante dele, e
 ele, por seus esforços, acelera a vinda delas. Outros são atraídos para
 esse vórtice, e os germes desses, para o bem ou para o mal, amadure-
 cem com a atividade. Esta é uma fase da operação do vigor Kármico.
 Esta é a escolha: esses eventos chegam um após o outro, oferecendo-
 -se, por assim dizer. Se ele escolher erroneamente, a luta será difícil.
 O evento escolhido atrai outros antigos, talvez parecidos, uma vez
 que todos têm vida própria. Você se surpreenderá se, no caso daque-
 les que correm para o “círculo dos ascetas” sem estarem preparados e
 antes do momento oportuno, a insanidade for às vezes o resultado?
 No entanto, essa loucura é a salvação deles para a próxima vida, ou
 para o seu retorno à razão.
 Receba minhas promessas fraternas e meu desejo constante de
 ajudá-lo.
 No que diz respeito à ação Kármica, é bom lembrar o que Patañ-
 jali declarou: “As obras existem apenas na forma de depósitos men-
 tais” (Livro 2, Aforismo 12, A.). Nesse caso, o termo “obras” significa
 Karma, o conjunto acumulado de obras, ou Ação. Seus resultados per-
 manecem como reservatórios mentais ou energias potenciais na por-
 ção mais elevada do quinto princípio, e quando este reencarna, essas
 sementes estão lá para “amadurecerem nas tábuas da mente”, sempre
 que expostas às condições mais propícias. Às vezes, elas permanecem

 adormecidas por falta de algo que as desperte, como acontece com
 as crianças. “À medida que os depósitos mentais das obras, reunidos
 desde o tempo sem início no solo da mente, atingem gradualmente a
 maturação, da mesma maneira eles, existindo também em uma escala
 menor ou maior (a soma do mérito sendo menor que a do demérito,
 ou vice-versa), levam a seus efeitos na forma de classes, elevadas ou
 inferiores, [...] ou à experiência do bem ou do mal.” (Livro 2, Afo-
 rismo 13, B.)17. A mente se energiza e nos impele a novas ações. O
 impulso repousa no interior, em germe, e pode amadurecer por meio
 da sugestão interior ou exterior. Podemos, então, ser bem cuidadosos
 para resguardar o campo da mente, no sentido de vigiar de perto nos-
 sos pensamentos? Os pensamentos são dinâmicos. Cada um deles,
 quando sai da mente, tem sua própria vis viva18 proporcional à inten-
 sidade com que foi emitido. Como a ação realizada por um corpo em
 movimento é proporcional ao quadrado de sua velocidade, podemos
 dizer que a força dos pensamentos é mensurável pelo quadrado ou
 a quarta potência de sua espiritualidade, tão fortemente aumentam
 essas energias sutis por meio da atividade. A energia espiritual, sendo
 impessoal, fluídica, sem estar limitada por qualquer centro constri-
 tivo, atua com rapidez inimaginável. Diz-se que um pensamento, ao
 deixar a mente, associa-se a um elemental; ele é levado a qualquer
 lugar onde haja vibração similar, ou, digamos, a um terreno apro-
 priado, como é o caso da semente do cardo, que flutua e se planta em

 17 As passagens acima não são citações da tradução do Sr. Judge sobre Patañjali, mas
 de alguma outra edição. Para um estudo paralelo, consulte a versão corresponden-
 te pelo Sr. Judge; e também o Livro IV, Aforismos 7-11. (Nota da edição original
 em inglês.)
 18 Força viva, do latim. (N.E.)

 um lugar e não em outro, no solo de sua escolha natural. Portanto,
 o homem virtuoso, ao admitir em sua mente um pensamento mate-
 rial ou sensual, mesmo expulsando-o, envia-o aumentando os impul-
 sos do mal no homem vicioso, de quem ele se imagina separado por
 um grande abismo, embora a quem ele possa ter acabado de dar um
 novo impulso ao pecado. Muitos homens são como esponjas, porosos
 e absorventes, prontos para sugar todo elemento do tipo preferido
 por sua natureza. Todos nós temos mais ou menos essa qualidade;
 atraímos o que apreciamos, e podemos obter uma energia maior da
 vitalidade dos pensamentos infundidos no exterior do que daqueles
 autorreproduzidos internamente, em um momento em que nossa vi-
 talidade nervosa esteja esgotada. É um pensamento solene este, sobre
 a nossa responsabilidade pelo impulso de um outro. Vivemos um no
 outro, e nossas ações amplamente diferentes geralmente têm uma
 origem comum. O ocultista não pode avançar em seu caminho sem
 que perceba em que extensão ele é “o guardião de seu irmão”. Nossas
 afinidades somos nós mesmos, em qualquer terreno onde possam vi-
 ver e amadurecer.
 J. N.

 C A R TA V I I I

 Caro Jasper,
 Levo alguns momentos para reconhecer sua carta. Este é um
 período de espera, de silêncio. Nada parece vivo. Todos os oráculos
 estão silenciosos. No entanto, o grande relógio do Universo continua

 sua marcha, sem dar atenção. No domingo, me dediquei à meditação
 e recebi algum benefício. Eu adoraria encontrá-lo para falar sobre
 isso, apesar de essas coisas serem elevadas demais para palavras; e
 quando abordamos os temas nos sentimos incapazes de expressar
 nossos pensamentos. Não vivemos para as possibilidades de nossa
 alma superior. Tudo o que nos impede de alcançar nossos pensamen-
 tos elevados do passado remoto é nossa própria fraqueza, e não a ação
 de outro. Quão insignificantes são as preocupações terrenas quando
 nos concentramos em uma reflexão profunda; elas são então vistas
 pelo que são, e em seguida se extinguem. É verdade que o caminho
 para os deuses é sombrio e difícil, e, como você diz, nada obtemos de-
 les no primeiro chamamento; temos que chamar com frequência. No
 entanto, ao longo do caminho podemos parar para olhar à frente, pois
 não importa quão entristecidos ou fracos estejamos, o Espectador vê
 tudo e acena para nós sussurrando: “Tenha coragem, pois preparei
 um lugar para você onde você estará comigo para sempre.” Ele é o
 Grande Ser, Ele somos nós próprios.
 Os Guias do mundo estão sempre tentando nos ajudar. Que
 possamos sempre ultrapassar as nuvens e vê-los. Devemos ser pa-
 cientes. Todos os nossos obstáculos são produzidos por nós mesmos.
 Toda a nossa força é o repositório do passado. Todos temos essa re-
 serva; aquele que nessa vida a sente próxima é quem, nesta existência,
 dirigiu seus pensamentos para o canal adequado. O fato de outros
 não a sentirem implica que eles viveram às cegas. Se você não a sente
 e não a percebe mais é porque você ainda não direcionou todas as
 suas energias mentais para ela. Essa grandiosa raiz de energia Kármi-
 ca pode ser redirecionada ao conduzirmos a ela o fogo de nossas men-
 tes. É claro, o caminho correto é para o Amor, o Amor pelo Divino

 e todos os seres. Se, afinal, sentimos que ainda não somos “Grandes
 Almas” que participam da totalidade daquelas “Almas que servem
 aos Deuses”, não devemos nos abater, pois aguardamos nossa hora,
 esperançosamente. Que esperemos pacientemente no silêncio que se
 segue a todos os esforços, sabendo que a Natureza trabalha dessa ma-
 neira, pois nos períodos de obscurecimento ela nada faz onde reina
 a escuridão, enquanto, sem dúvida, ela e nós também estamos traba-
 lhando então em outras esferas.
 Aquilo que você descreveu não é a Alma; é apenas uma ex-
 periência parcial. Se você conhecesse a Alma, poderia você mesmo
 responder a todas aquelas perguntas, pois nela reside o conhecimen-
 to completo. A Alma também contém toda criatura e pensamento.
 Esse aprofundamento de seus pensamentos para o centro é a prática.
 Isso pode ser feito, e não podemos explicar — apenas podemos dizer
 “faça”. No entanto, não anseie por fazer essas coisas. O primeiro passo
 para a transformação é a Resignação. Resignação é o reto, verdadeiro
 e real caminho. Nossas motivações sutis, em constante mudança, nos
 iludem quando a procuramos. Você se aproximou dela, o que requer
 muito cuidado. No entanto, embora o corpo precise de tempo para
 sentir todos os seus resultados, podemos mudar a atitude da mente
 instantaneamente. Após a Resignação, seguem (nessa ordem) a Sa-
 tisfação, o Contentamento e o Conhecimento. A ansiedade para con-
 quistar essas coisas é obscurante e impeditiva. Portanto, tente adqui-
 rir a paciente Resignação. A lição pretendida pelo Karma da sua vida
 atual é a paciência mais elevada. Não posso lhe dizer nada sobre isso;
 é uma questão pessoal e prática. Livre-se de todo desejo de conquista
 de poder e busque apenas a compreensão de si mesmo. Insista no
 desapego. Faça valer a si próprio que o que você foi ontem não tem

 a menor importância, mas a todo instante lute por este momento; os
 resultados virão por si mesmos.
 O passado! O que é? Nada. Acabou! Descarte-o. Você é o pas-
 sado de você mesmo. Portanto, ele não lhe afeta como tal. Ele o atin-
 ge apenas em como você é agora. Em você, como você existe agora,
 está todo o passado. Assim diz a máxima hindu: “Não se culpe por
 nada, nunca tenha pena de si; e corte todas as dúvidas com a espada
 do conhecimento espiritual.” A culpa produz apenas erro. Eu não
 me afeto com o que eu fui, ou outra pessoa foi. Eu busco apenas o
 que sou a cada momento. Como cada momento, que existe e de re-
 pente não existe mais; consequentemente, se pensarmos no passado,
 esquecemos o presente; e, enquanto esquecemos, os momentos pas-
 sam por nós, criando mais passado. Portanto, não se culpe por nada,
 nem mesmo pelas maiores tolices de sua vida, pois elas se foram; e
 você deve trabalhar no presente, que é, simultaneamente, passado e
 futuro. Logo, com o conhecimento absoluto de que todas as suas li-
 mitações dependem do Karma passado ou na vida atual, e com uma
 firme confiança no Karma como o único juiz, que será bom ou ruim
 conforme você mesmo o constrói, você pode suportar qualquer coisa
 que aconteça e se sentir sereno, apesar dos desânimos ocasionais que
 todos experimentamos, mas que a luz da Verdade sempre dissipa. O
 versículo a seguir sempre explica tudo:
 “Naquele que sabe que todos os seres espirituais são essencial-
 mente idênticos ao Ser Supremo, que lugar pode haver para ilusão e
 tristeza quando ele reflete sobre a unidade do Espírito?”
 Em todas essas experiências internas há marés, como no ocea-
 no. Subimos e descemos. Dentro em pouco os deuses descem, e de-
 pois retornam ao céu. Não pense em fazer com que eles desçam, mas

 esforce-se para elevar-se no caminho pelo qual eles retornam perio-
 dicamente e assim aproximar-se deles, de maneira que você possa
 realmente receber a influência deles mais cedo do que antes.
 Adiós. Que você possa sempre sentir o surgimento de amplas
 profundidades que repousam além da pequena pulsação do coração.
 Talvez nossos companheiros estejam se aproximando. Quem sabe?
 Mas, mesmo que não estejam, então esperaremos; o sol deve irrom-
 per algum dia por trás das nuvens. Isso nos manterá fortes, quando,
 na companhia do Guardião do Umbral, seremos forçados a encarar e
 simular por um tempo.
 Z.

 WWWWW

 A “paciência mais elevada” aludida também requer cuidado. É a
 linha tênue entre o orgulho e a humildade. Ambos são extremos e er-
 rados; as oscilações entre um e outro são apenas um pouquinho me-
 lhores. Como podemos nos orgulhar se somos tão pequenos? Como
 ousamos ser humildes quando somos tão grandes? Nos dois casos,
 estamos blasfemando. Mas entre os dois existe aquele lugar firme,
 que não é “nem muito alto nem muito baixo”, no qual Krishna disse
 a Arjuna para sentar-se, um lugar próprio. É o lugar firme que nossa
 fé conquistou no mundo. Nele, devemos sempre manter a calma, não
 ofuscados por nenhum outro homem, por maior que seja, pois cada
 um de nós contém as potencialidades um do outro. A expressão “não
 ofuscados” não significa que não devemos mostrar reverência àqueles
 através dos quais a Alma fala. É a grande Alma que reverenciamos,
 não o barro mortal. Devemos examinar cuidadosamente tudo o que

 nos chega de tais pessoas e tudo o que nos chega de qualquer fonte
 que apresente o aspecto da verdade, tentando, fielmente, discernir em
 que existe verdade, deixando de lado se falharmos, como se fosse um
 fruto ainda não maduro para nós. Não precisamos desistir de nossas
 intuições para seguir algum ser, embora possamos duvidar ampla-
 mente de nosso julgamento a todo momento. Não devemos agir sem
 a aprovação interna, mas não devemos permanecer ignorantes das sé-
 rias dificuldades em separar essa voz intuitiva de conversas inconsis-
 tentes da fantasia, do desejo ou do orgulho. Se formos justos conosco
 mesmos, manteremos o equilíbrio calmamente. Como podemos ser
 justos com os outros se não somos justos conosco? Na Lei, um ho-
 mem sofre tanto pela injustiça com relação a si próprio quanto em
 relação a outro; não importa de quem são os interesses que ele opõe
 às correntes universais; a Lei sabe apenas que ele tentou enganá-los
 por meio de uma injustiça. Ela não considera as pessoas ou o fato de
 terem ignorado a Lei. É uma força imparcial e impessoal, somen-
 te compreensível com o auxílio da elevada paciência, que ao mesmo
 tempo a todos desafia e a todos suporta.
 “Nunca se culpe de nada.” A culpa é um pensamento e, por-
 tanto, uma energia. Se direcionarmos sua corrente para o passado, ela
 afetará as sementes desse passado, vivificando-as, fazendo-as brotar e
 crescer no campo da mente — daí para se expressar em ação é apenas
 um passo. Uma vez, quando usei a palavra “fantasmas”, uma crian-
 ça me disse: “Não fale! Não pense neles. O que pensamos sempre
 acontece.” Não há observadores mais imparciais do que as crianças
 quando elas pensam por si mesmas.
 J. N.

 C A R TA I X

 Prezado Senhor e Irmão,
 Diga ao seu amigo que faz perguntas que ninguém jamais
 foi convertido à Teosofia. Todos que realmente se dedicam a ela
 o fazem porque ela é simplesmente “uma extensão de suas prévias
 convicções”. Tal fato irá mostrar a você que o Karma é algo verda-
 deiro. Na realidade, cada ideia que recebemos nada mais é do que
 uma extensão de ideias anteriores. Em outras palavras, são causas
 e efeitos em sucessão infinita. Cada uma delas produz a próxima e
 é inerente à seguinte. Portanto, somos todos diferentes, mas com
 algumas semelhanças. Minhas ideias atuais e as suas são coloridas
 pelas que tivemos na juventude, e prosseguiremos, assim, para sem-
 pre ao longo da linha inevitável que traçamos desde o início. Ob-
 viamente, sempre as alteramos um pouco, mas nunca até que nossas
 velhas ideias se estendam. Essas ideias falsas, que de vez em quando
 eliminamos, não devem ser levadas em conta, embora elas gerem
 uma sombra aqui e ali. Mas por meio da Fraternidade, recebemos
 o conhecimento de outros, que temos em consideração (se for ade-
 quado para nós) até que ele seja nosso. No que diz respeito às suas
 conclusões privadas, use sempre o seu discernimento. Não admita
 quaisquer conclusões simplesmente porque elas foram proferidas
 por alguém em quem você confia, mas quando elas coincidem com
 a sua intuição. Ser iludido pela influência de outros, mesmo incons-
 cientemente, implica ter uma fé falsa.

 O conhecimento espiritual inclui todas as ações. Os buscadores
 devem ler o Bhagavad-Gītā19. A obra lhes fornecerá alimento por sé-
 culos se eles o lerem com visão inteiramente espiritual. Sob sua casca
 está o espírito vivo que nos iluminará a todos. Eu o li dez vezes antes
 de ver coisas que não entendia a princípio. Durante a noite, as ideias
 que ele contém são digeridas e retornam parcialmente à mente no dia
 seguinte. É o estudo dos Adeptos.
 Que nenhum homem ignore que, embora haja grande alegria
 nessa convicção, há também uma grande tristeza. Sendo o estudante
 verdadeiro, sendo a Lei, todas as grandes forças são postas em mo-
 vimento por ele. Agora ele pensa que desistiu da ambição e do con-
 forto. A ambição e o conforto que ele deixou para trás são aqueles do
 plano inferior, meros reflexos das grandes ambições e confortos de
 uma vida mais ampla. Os raios da Verdade queimam os invólucros
 que o tempo colocou sobre essas sementes, e então elas começam a
 brotar causando novas lutas. Não deixe nenhum buscador sincero ig-
 norar tal fato. Esse autoaprendizado custou para outros muitos anos
 e lágrimas de sangue.
 Quão difícil é o caminho da ação! Percebo o futuro vagamen-
 te e, nesse caso, inconscientemente, fazemos esforços tanto a favor
 quanto contra ele. Então, os resultados kármicos chegam. Você quase
 desejaria não ter ouvido esses sussurros. Porém, aquele que conquista
 a si próprio é muito maior que os conquistadores do mundo.
 Talvez agora você veja mais claramente como funciona o Kar-
 ma. Se alguém se direciona para eliminar todo o Karma antigo, muitas

 19 William Q. Judge traduziu e comentou o Bhagavad-Gītā em Essays on the Gītā e
 em Notes on the Bhagavad-Gītā. (N.E.)

 vezes a luta se torna tremenda, pois toda a carga de pecado anterior
 se precipita sobre ele, e os eventos se seguem rapidamente; a tensão
 é terrível, e todo o tecido da vida geme e treme. Como se diz no
 Oriente, pode-se percorrer o caminho traçado em 700 nascimentos,
 em sete anos ou em sete minutos.
 A frase em Luz no Caminho a que muitos estudantes aludem
 não é tão difícil quanto algumas outras. Uma resposta servirá para
 todas elas. O livro foi escrito com base na Reencarnação, e quando é
 dito que a veste maculada cairá novamente sobre você significa que
 isso acontecerá em alguma outra vida, não necessariamente nesta,
 embora possa também acontecer. “Afastar-se horrorizado” não cons-
 titui desapego. Antes que possamos ter esperança de evitar que algum
 estado mental ou evento em particular nos alcancem nesta vida ou
 em outra, devemos de fato estar desapegados dessas coisas. Ora, não
 somos nem nossos corpos nem simplesmente nossas mentes, mas a
 verdadeira parte de nós à qual o Karma é inerente. O Karma que
 causa tudo. Ele se liga ao nosso verdadeiro Ser interior por meio de
 apego e repulsão. Ou seja, se amamos um vício ou outra coisa, ele se
 prende a nós por meio do apego; se odiamos alguma coisa, isso se
 prende ao nosso Ser interno por causa do forte horror que ele desper-
 ta em nós. Se queremos evitar algo, devemos compreendê-lo; e isso
 não é possível enquanto tememos ou odiamos. Não devemos amar o
 vício, mas devemos reconhecer que ele é parte do todo; e, procurando
 entendê-lo, nós então o superamos. Esta é a “doutrina dos opostos”
 de que fala o Bhagavad-Gītā. Portanto, se nos afastarmos do mal com
 horror (embora possamos nos sentir entristecidos e bondosos), em
 uma vida futura sentiremos esse horror e o desenvolveremos em uma
 reencarnação, por reação, em um corpo e lugar onde passaremos, na

 vida material, exatamente por isso que agora odiamos. Enquanto nos
 esforçamos para alcançar Deus, devemos aprender a ser como Ele o
 melhor que pudermos. Ele ama, e não odeia; portanto, devemos nos
 esforçar para considerar o maior dos vícios como algo que não deve-
 mos odiar, embora não o pratiquemos, e então poderemos alcançar
 o estado em que conheceremos o amor maior, que inclui igualmente
 homens e coisas, sejam bons ou maus.
 O Bem e o Mal são simplesmente os dois polos de uma mesma
 coisa. No Absoluto, o Mal é idêntico ao Bem, nesse sentido. Aquele que
 é dotado de conhecimento absoluto pode ver tanto o Bem quanto o
 Mal, mas ele não percebe o Mal como algo do qual deva escapar; assim,
 ele precisa simplesmente denominá-lo de polo diferente. Definimos
 como bons ou maus determinados eventos que nos parecem, ou à civi-
 lização atual, agradáveis ou desagradáveis. É por isso que forjamos essas
 duas palavras. São palavras inadequadas de se usar. Pois, no Absoluto,
 uma é tão necessária quanto a outra, e muitas vezes o que parece ruim
 e “doloroso” não é absolutamente assim, mas somente ajustes no pro-
 gresso da alma. Leia o Bhagavad-Gītā sobre como o Ser parece sofrer.
 Agora, o que é o Mal? A perda de amigos? Não; se você estiver centrado.
 A calúnia? Não; se você confia no Karma. O mal existe apenas quando
 você se rebela contra os decretos imutáveis que devem ser cumpridos.
 Você sabe que esses balanceamentos, que chamamos de Bem e Mal,
 devem existir. Tente imaginar um homem que foi realmente uma gran-
 de alma e agora vive como um avarento, deliciando-se em tal condição.
 Você chama isso de mal; ele, de bem. Quem tem razão? Você diz “Mal”
 porque fala de acordo com a Verdade; mas a Verdade sabia que ele nun-
 ca teria ultrapassado um certo ponto se não tivesse tido tal experiência;
 portanto, agora o vemos em um estado mau. Devemos ter experiência,

 e se a aceitamos em nossas próprias mãos, somos sábios. Isso significa
 que, embora nos esforcemos para cumprir todo o nosso dever para com
 o mundo e para nós mesmos, não continuaremos a viver no passado
 através de culpas vãs e danosas, nem condenaremos qualquer homem
 pelas ações que cometeu, visto que não podemos conhecer sua verda-
 deira causa. Não somos o Karma, não somos a Lei; e condenar qualquer
 homem é uma espécie de hipocrisia profundamente reprovada pela Lei.
 O fato de a Lei permitir que um homem viva é prova de que ele ainda
 não foi julgado por aquele poder superior. No entanto, devemos manter,
 e manteremos, nosso poder de discernimento a todo momento.
 Quanto a se elevar acima do Bem e do Mal, é claro que isso não
 significa executar o mal. Mas, na realidade, não pode haver verdadei-
 ro Mal ou Bem; se nosso objetivo é reto, nossas ações não podem ser
 más. Agora, toda ação morre depois que é feita; seu lugar de concep-
 ção é o coração, e lá elas já estão feitas; sua simples realização física
 é em si uma coisa morta. Então, podemos realizar uma suposta boa
 ação, que externamente parecerá boa, entretanto, se o nosso motivo
 for errado, a ação é nula, mas a intenção é o que conta.
 O grande Deus fez tudo, bons e maus, de modo idêntico. Entre
 as demais coisas, existem aquelas que parecem malignas, mas isso
 não deve afetá-lo. Assim, se seguirmos o Bhagavad-Gītā, o segundo
 capítulo, devemos realizar apenas aqueles atos que acreditamos se-
 rem justos para Deus, e não para nós mesmos; e se as consequências
 não nos interessam, não nos importamos se pareçam ser boas ou más
 ações. Como o coração e a mente são os verdadeiros planos de erro,
 então devemos cuidar para que todos os atos sejam realizados sim-
 plesmente porque eles existem para serem praticados. Torna-se então
 difícil separarmos o ato de nós mesmos.

 Como seres humanos, nunca podemos nos elevar acima do fato
 de que somos os instrumentos através dos quais os chamados Bem e
 Mal se manifestam, mas, como esse Bem e esse Mal são o resultado
 de comparação, e não são em si mesmos absolutos, segue-se que nós
 (o verdadeiro “nós”) devemos aprender a nos elevar internamente a
 um lugar onde tais eventos nos pareçam meramente como modifica-
 ções em uma vida de transformação. Às vezes, isso também acontece
 com o homem mundano.
 Como, digamos, Bismarck, acostumado a mover grandes gru-
 pos de homens, e talvez com um bom propósito, pode facilmente se
 elevar acima do Mal transitório, olhando para um resultado maior; ou
 o médico, que pode elevar-se acima da dor do paciente considerando
 apenas o bem, ou melhor, o resultado, de uma operação dolorosa. A
 mesma coisa acontece com o paciente.
 Assim, o estudante percebe que ele não deve fazer “Bem” ou
 “Mal”, mas sim realizar qualquer ação que lhe seja apresentada; e, en-
 quanto isso, não deve considerar tanto sua linha de conduta, mas sim
 sua linha de motivo, pois sua motivação necessariamente determina
 sua conduta. Tomemos o exemplo do soldado. Para ele, nada melhor
 do que uma guerra legítima. Poderíamos perguntar: ele comete erro
 ou não em lutar, mesmo quando a guerra seja ilegítima? Não, a menos
 que ele confunda seus motivos. Aqueles que vão para a guerra por
 vantagens ou vingança agem errado, mas esse não é o caso daquele
 que vai para a guerra por ordem de seus superiores, porque é o seu
 dever atual.
 Portanto, estendamos nossa ajuda a todos aqueles que encon-
 trarmos em nosso caminho. Este será o verdadeiro progresso: os véus
 que recobrem nossas almas desaparecem quando trabalhamos para

 os outros. Seja este o verdadeiro motivo, e a quantidade de trabalho
 realizado não fará qualquer diferença.
 Z.

 WWWWW

 Pareceria que o Bem e o Mal não são inerentes às coisas per se,
 mas à maneira como as usamos. Eles são condições da manifestação.
 Muitas coisas que comumente denominamos “imorais” são conse-
 quências das injustas leis dos homens, de instituições sociais egoístas;
 elas não são imorais per se, mas somente de um ponto de vista relativo.
 Elas são imorais apenas temporariamente. Há outras coisas cujo mal
 consiste no uso degradado a que são submetidas as forças superiores,
 ou a que é exposta a Vida, que é sagrada. Mesmo nestes casos, o mal
 não é inerente a elas, mas a nós mesmos, em nosso mau uso de instru-
 mentos nobres em ações inferiores. Igualmente, o mal não é inerente
 a nós, mas à nossa ignorância; é uma das grandes ilusões da Natureza.
 Todas essas ilusões fazem com que a alma experimente na matéria
 até que ela tenha aprendido conscientemente cada aspecto; ela deve,
 então, aprender a conhecer o todo e a tudo simultaneamente, o que
 ela só consegue fazer por meio da reunião com o Espírito; ou com o
 Supremo, a Deidade.
 Se, com toda a devida reverência, concebermos o ponto de vista
 do Supremo, tanto quanto possam nos permitir as nossas mentes ou
 a nossa intuição nascente, sentiremos que Ele está acima, indiferente
 tanto ao Bem quanto ao Mal. Nosso bem é relativo, e o mal é apenas
 a limitação da alma pela matéria. Todas as miríades de diferenciações
 da Natureza (Prakriti, substância cósmica), todos os mundos e suas

 correlações se desdobram a partir da essência material da Deidade.
 Elas auxiliam a experiência cíclica da alma à medida que ela passa de
 um estado para outro. Então, como podemos dizer que algum estado
 é maléfico em um sentido absoluto? Vamos considerar o homicídio.
 Parece um mal. De fato, não podemos realmente tirar a vida; mas
 podemos destruir um veículo divino do Princípio da Vida, impedin-
 do o curso de uma alma usando esse veículo. Porém, nós somos os
 mais prejudicados pelo ato. Ele é fruto de um certo estado doentio
 da alma. A ação nos manda para o inferno, por assim dizer, em uma
 condição miserável por uma ou mais encarnações. O impacto, a re-
 tribuição natural, o nosso próprio Karma resultante e as penalidades
 impostas tanto pelo homem quanto aquelas exigidas pela Lei oculta
 disciplinam e suavizam a alma. Ela passou por uma experiência mui-
 to solene que se revelou necessária para seu crescimento e que, em
 última análise, é a causa de sua purificação posterior. Diante desse
 resultado, a ação perpetrada foi maléfica? Foi uma consequência ne-
 cessária das limitações da matéria, pois se a alma tivesse permanecido
 celestial e na Existência livre, não poderia ter cometido um assassina-
 to. E nem a alma imortal, o Espectador, tem qualquer participação na
 ação errada, o pecado foi cometido apenas pela personalidade, a parte
 elementar da alma. O mal é tudo o que mantém a alma confinada à
 existência material; portanto não podemos distinguir o bem do mal.
 A Unidade é o único bem irrevogável; e, na realidade, nada existe
 além disso. Consequentemente, nossos julgamentos são apenas tem-
 porários. Nem temos o direito de exigir vida por vida: “A vingança
 é minha, diz o Senhor (a Lei), Eu farei a retribuição.” Tornamo-nos
 cúmplices de assassinato ao formular essas leis humanas. Não quero
 dizer que toda experiência deva ser vivida no corpo, pois algumas

 delas experimentamos na mente. Nem estou tentando justificar qual-
 quer uma delas. A única justificativa está na Lei.
 O homem inocente, assassinado injustamente, será recompen-
 sado pelo Karma em uma vida futura. Na verdade, todo indivíduo
 assassinado é reembolsado, por assim dizer, pois embora aquele in-
 fortúnio tenha brotado de seu Karma, a Lei oculta não admite que
 se tire a vida. Alguns homens são as armas do Karma em sua atuação
 errônea, mas foram eles mesmos que no passado se designaram para
 este lugar.
 A Grande Alma precisava justamente desse corpo, apesar dos
 erros de sua natureza ou de seu ambiente; e decepcionar a alma cons-
 titui uma péssima ação para um indivíduo. Na realidade, somente o
 homem, a natureza inferior influenciada por Tamas (a qualidade da
 obscuridade), sente o impulso de tirar a vida, seja pela justiça hu-
 mana, por vingança, por proteção, etc. “A alma não mata e não pode
 ser morta.” O que conhecemos como nós mesmos é simplesmente o
 homem natural, os princípios inferiores e a mente, comandado pela
 falsa consciência. Em nosso estado comum, temos apenas vislumbres
 breves e parciais da alma, em consciência ou em intuição. Claro, exis-
 tem estados psíquicos e espirituais nos quais se sabe mais. Assim, a
 natureza luta contra a natureza, sempre pelo propósito de promover
 a purificação e a evolução da alma. A natureza existe apenas para o
 propósito da alma. Se ponderarmos o assunto ao longo dessas linhas,
 perceberemos pelo menos quão imprudentes seríamos ao concluir
 que alguma ação seja um mal sem mistura, ou que tais distinções
 existam no Absoluto. Só Ele existe; tudo o mais é fenomenal e transi-
 tório; estas diferenças desaparecem à medida que nos elevamos. Nes-
 se ínterim, devemos evitar todas essas coisas imorais, e muitas outras

 que não são tão consideradas como tal pelas pessoas, mas que são
 exatamente iguais, pois sabemos em que medida elas fazem aumentar
 a ignorância e a obscuridade pelo fermento que causam na natureza,
 impedindo assim a entrada dos claros raios da Verdade.
 Duvido que a alma saiba o que é moral ou imoral. Nesse sen-
 tido, consideremos por um momento o caso de uma alma desencar-
 nada. O que é o pecado para ela, uma vez que ela tenha se libertado
 de sua casca, o corpo? O que ela então sabe sobre as leis humanas,
 sobre moralidades ou sobre as regras e formas da matéria? Será que
 ela ainda pode vê-las? Que devassidão ela pode cometer? Portanto,
 digo que essas moralidades pertencem apenas a este plano, para se-
 rem observadas e obedecidas nele, mas não para serem postuladas ou
 usadas como balança para pesar a alma, que possui outras leis. A alma
 livre lida com essências e forças totalmente impessoais; a contenda da
 matéria é deixada para trás. O Espírito imortal, o sem paixões, ainda
 mais elevado, superior e inerente a tudo, dirige seu olhar para baixo,
 ciente de que, quando o natural for mais uma vez reabsorvido em sua
 fonte espiritual, terminará toda essa luta e jogo de força e vontade,
 esse aumento e diminuição de formas, essa progressão de consciência
 que lança nuvens e vapores ilusórios diante da visão da alma. Mesmo
 agora, enquanto somos incapazes de dominar essas questões eleva-
 das, podemos confiar pacientemente no processo evolutivo e na Lei,
 sem culpar ou julgar qualquer homem, mas vivendo nós próprios de
 acordo com nossas intuições superiores. O verdadeiro teste de um
 homem é sua motivação, que não podemos ver, e nem é sempre re-
 presentada por suas ações.
 J.N.

 C A R TA X

 Caro Jasper,
 Você me pergunta sobre as “três qualidades procedentes da Na-
 tureza”, mencionadas no Bhagavad-Gītā. Elas existem potencialmen-
 te (latentes) em Purusha (Espírito), e entram em atividade durante o
 período a que se refere o Bhagavad-Gītā como aquele em que Ele
 produz todas as coisas depois de tê-las devorado (que é semelhante a
 Saturno que devora seus filhos); e por isso verifica-se que as qualida-
 des envolvem todos os seres, os quais, segundo se diz, não estão livres
 de sua influência.
 Nesse caso, o termo “seres” se refere àqueles formados em todos
 os mundos. Portanto, as qualidades existem nessas formas [A forma
 é derivada da Natureza = Prakriti = Substância Cósmica. ( J.N.)], e ao
 mesmo tempo envolvem o espectador (alma), que está na forma. Os
 Devas são deuses, ou seja, uma espécie de força espiritual inferior à de
 Ishwara no homem. Eles são influenciados pela qualidade de Satwa,
 ou Verdade. Eles desfrutam de um período de imensa felicidade de
 enorme duração; porém, tendo duração, não é uma eternidade.
 Está escrito: “Bondade, maldade e indiferença, as chamadas
 qualidades que procedem da Natureza, influenciam a alma imperecí-
 vel dentro do corpo.”
 Essa alma imperecível é assim separada do corpo, no qual as
 qualidades a influenciam, e também das qualidades que não são dela.
 É Ishwara. Portanto, Ishwara também é envolvido pelas qualidades.
 A primeira ou mais alta qualidade é Satwa, cuja natureza é pura
 e agradável, e envolve Ishwara pela conexão com coisas agradáveis e

 com o conhecimento. Assim, mesmo estando em Satwa, a alma é
 envolvida.
 A segunda qualidade é Rāja, e causa ação; ela envolve a alma
 porque participa da avidez e da propensão e, ao causar ação, envolve,
 portanto, a alma.
 A terceira qualidade é Tamas, cuja natureza é a indiferença, en-
 ganando assim todos os mortais. A ignorância a alimenta.
 Aqui estão dois grandes adversários da alma: ignorância e ação.
 A ação, procedente de Rāja auxiliada por Satwa, não conduz ao lugar
 mais elevado, enquanto a ignorância causa destruição. Além disso,
 quando alguém reconhece sua ignorância, deve agir para destruí-la.
 Como fazer isso sem continuar girando a roda da ação [Causando
 renascimentos. ( J.N.)] é a questão.
 Em primeiro lugar, ele deve livrar-se da ideia de que é ele pró-
 prio que realmente faz alguma coisa, sabendo que todas as ações
 ocorrem nestas três qualidades naturais, e de forma alguma na alma.
 O termo “qualidades” deve ser considerado em um sentido mais am-
 plo do que o comum.
 Então, ele deve colocar todas as suas ações na devoção, ou seja,
 consagrar todas as suas ações ao Supremo, e não a si mesmo. Ele deve
 (deixando de fora a indiferença) colocar-se como o Deus a quem ele
 se sacrifica, ou como o outro Deus real, Krishna, e todos os seus atos
 e aspirações são realizados para si mesmo ou para o Todo. Aqui entra
 a importância da intenção, pois se ele realiza grandes feitos de valor
 ou de benefício para a humanidade, ou adquire conhecimentos para
 auxiliar a humanidade, e é movido simplesmente porque pensa que
 alcançará a salvação, ele está agindo apenas para seu próprio bene-
 fício, consagrando apenas para si mesmo. Portanto, ele deve sentir

 uma devoção interior pelo Todo, ou seja, deve colocar todas as suas
 ações no Supremo, ciente de que ele não é o criador das ações, mas a
 simples testemunha delas.
 Por estar em um corpo mortal, ele é afetado pelas dúvidas que
 surgirem. Elas surgem porque ele é ignorante sobre algo. Ele deve,
 por consequência, ser hábil para dissipar as dúvidas “com a espada do
 conhecimento”, pois, se ele tiver uma resposta pronta para qualquer
 dúvida, ele a dissipa. Todas as dúvidas vêm da natureza inferior e
 nunca, em qualquer caso, da superior. Assim, ao aumentar sua de-
 voção, ele é capaz de perceber cada vez mais claramente o conheci-
 mento que reside em sua parte sátvica. É por isso que está escrito:
 “Um homem cuja devoção é perfeita (ou que persiste em seu cultivo)
 encontra o conhecimento espiritual que brota espontaneamente em
 si mesmo com o passar do tempo.” E também: “O homem com dú-
 vida em sua mente não desfruta nem deste mundo nem do outro (o
 mundo do Deva), nem da bem-aventurança final.”
 A última frase significa destruir a ideia de que, existindo em
 nós esse Ser superior, ele triunfará sobre a necessidade de conheci-
 mento mesmo se formos indolentes e hesitantes, e nos conduzirá à
 bem-aventurança final junto com todo a corrente humana.
 As três qualidades são inferiores a um estado chamado Turya,
 que é um estado elevado, possível de ser desfrutado mesmo enquanto
 neste corpo. Portanto, neste estado, não há qualquer das três qualida-
 des, mas a alma as vê movendo-se no oceano do Ser abaixo. Tal ex-
 periência é vivida não apenas após a morte, mas, como disse, pode ser
 vivenciada nesta vida presente, embora, é claro, muito raramente com
 consciência. No entanto, existem yogees avançados que conseguem
 se elevar ao Nirvana, ou Espírito, mesmo conscientemente, estando

 encarnados. Este é o quarto estado, chamado Turya. Em inglês, não
 há palavra capaz de expressá-lo. Nesse estado, o corpo está vivo, mas
 em profunda catalepsia [Autoinduzida pelo Adepto. ( J.N.)]. Quando
 o Adepto retorna de tal estado, ele traz consigo o máximo possível
 das vastas experiências de Turya. Claro, elas transcendem qualquer
 expressão, e só podemos perceber vagamente suas possibilidades. Não
 posso descrever nada sobre isso porque não o conheci, no entanto,
 compreendo suas possibilidades e provavelmente você também pode
 fazê-lo. É bom buscar algum tipo de prática, e segui-la em um lu-
 gar fixo ou em um lugar mental que não possa ser visto, ou à noite.
 Deve-se saber que é possível realizar o que chamamos de Dharana,
 Dhyana e Samādhi. (Veja o sistema de Yoga de Patañjali.)
 Dharana consiste em selecionar uma coisa, um lugar ou uma
 ideia, em que se fixe a mente.
 Dhyana é a contemplação daquilo selecionado.
 Samādhi é a meditação naquilo.
 Claro, quando praticados, esses estágios são todos uma única ação.
 Agora, então, vamos considerar a depressão na base da garganta.

 1º. Selecione-o: Dharana.
 2º. Mantenha a mente focada nisso: Dhyana.
 3º. Medite nisso: Samādhi.

 Esse processo proporciona firmeza mental.
 Então, selecione o local na cabeça ao longo do qual passa o
 nervo Sushumna. Não importa a localização; vamos chamá-lo de topo
 da cabeça. Em seguida, siga o mesmo curso. Isso dará algum insight
 nas percepções espirituais. No início será difícil, porém, com a prática

 ficará mais fácil. Se bem feito, o mesmo horário deve ser escolhido a
 cada dia, criando um hábito não só no corpo, mas também na mente.
 Sempre tenha em mente a direção dada por Krishna, ou seja, de que é
 feito para o benefício de toda a humanidade, e não para fins pessoais.
 Quanto às paixões: a raiva parece ser a força da Natureza, mas
 há mais nisso. A luxúria (assim chamada) é o símbolo grosseiro do
 amor e do desejo de criar. É a perversão da Verdade em amor e no
 desejo.
 A vaidade, eu penso, representa, em um aspecto, o poder ilu-
 sório da Natureza, Māyā, aquilo que confundimos com a realidade.
 Está sempre muito perto de nós e é muito insidiosa, pois a ilusão da
 Natureza está sempre presente e difícil de superar.
 A raiva e a luxúria têm um pouco da qualidade Rajasika, mas
 me parece que a vaidade pertence totalmente à Tamogunam20.
 Que você possa atravessar para a margem onde o medo não
 existe.
 Z.

 WWWWW

 No que diz respeito às práticas de concentração sugeridas nesta
 carta, são simplesmente etapas ao longo de uma vida de contem-
 plação; são meios para atingir um fim, meios de uma determinada
 ordem entre outros de diferentes ordens, sendo todos necessários,
 pois o caminho mais elevado é o da constante devoção e da com-
 pleta resignação à Lei. Os meios mencionados acima têm um valor

 20 Tamas-guna — a qualidade de Tamas. (N.E.)

 fisiológico, pois o local de contemplação sugerido é, como outros, um
 centro vital. A excitação de tais centros, e do resíduo magnético da
 respiração sempre presente neles, fortalece e desperta as faculdades
 do homem interno, o veículo magnético da alma, o elo entre a ma-
 téria e o espírito. É uma forma de expressão necessária pela clareza,
 pois, na realidade, matéria e espírito são um. Podemos imaginar me-
 lhor uma série infinita de correlações de força que se estendem do
 Espírito puro ao seu veículo mais grosseiro, e podemos dizer que o
 veículo magnético interno, ou o homem astral, está no meio da escala.
 O segredo da circulação do fluido nervoso está oculto nesses centros
 vitais, e aquele que o descobre pode usar o corpo de acordo com sua
 vontade. Além disso, essa prática treina a mente para permanecer em
 seu próprio Princípio sem que ela energize e exerça sua força tangen-
 cial, tão difícil de dominar. O pensamento tem um poder de autorre-
 produção; ao mantermos a mente firmemente sobre uma ideia, esta
 passa a lhe dar sua cor, e podemos dizer que todas as correlações dessa
 ideia despertam na mente. Assim, o místico adquire o conhecimento
 de qualquer objeto no qual ele pense constantemente em contem-
 plação inabalável. Aqui está o fundamento lógico para as palavras de
 Krishna: “Pensa constantemente em mim; depende apenas de mim; e
 certamente virás a mim.”
 O puro instinto das crianças frequentemente revela verdades
 ocultas. Recentemente, ouvi uma garota de quinze anos dizer: “Quan-
 do eu era pequena, eu ficava sempre imaginando. Eu costumava me
 sentar na janela e olhava, olhava, para a Lua; e ficava imaginando que,
 se eu olhasse para ela por bastante tempo, eu poderia ir até lá e saber
 tudo sobre ela.”

 A cultura espiritual é obtida por meio da concentração. Ela
 deve prosseguir diariamente e em todos os momentos, para ser de
 utilidade. O artigo “The ‘Elixir of Life’” (em Five Years of Theosophy)21
 apresenta algumas razões para esta verdade. A meditação foi definida
 como “a cessação do pensamento ativo externo”. A concentração é
 toda a tendência de uma vida em direção a um determinado objetivo.
 Por exemplo, uma mãe devotada é aquela que considera os interesses
 de seus filhos e todas as suas ramificações antes de todas as coisas;
 não é aquela que se senta para refletir fixamente sobre uma dessas
 ramificações o dia todo. A vida é a grande instrutora, é a grande ma-
 nifestação da Alma; e a Alma manifesta o Supremo. Portanto, todos
 os métodos são bons e todos simplesmente fazem parte do grande
 objetivo, que é a Devoção. O Bhagavad-Gītā nos diz que “a devoção
 é o êxito nas ações”. Devemos também usar igualmente as faculdades
 superiores e inferiores, e além das faculdades da mente estão as es-
 pirituais, desconhecidas mas que podem ser descobertas. Os poderes
 psíquicos, à medida que surgem, também devem ser usados, pois eles
 revelam as leis. Mas não devemos exagerar em seu valor ou ignorar
 seu perigo. Eles são intoxicantes, mais sutis do que as energias físicas
 grosseiras. Aquele que neles confia é como o homem que cede ao
 orgulho e ao triunfo porque chegou à primeira estação à beira do
 caminho ao cume que decidiu escalar. Da mesma forma que o desâ-
 nimo, a dúvida, o medo, a vaidade, o orgulho e a autossatisfação, os

 21 Publicado originalmente em “The Theosophist”, III, 168. (Nota da edição origi-
 nal em inglês.) Five Years of Theosophy — obra publicada em Londres, em 1885,
 consiste em uma seleção de artigos do periódico “The Theosophist”, quando edi-
 tado por Helena P. Blavatsky. O artigo “O ‘Elixir da Vida’” foi publicado em
 português no livro Os Pioneiros do Movimento Teosófico. (N.E.)

 poderes psíquicos são usados pela Natureza como armadilhas para
 nos deter. Todo evento, objeto e energia pode ser usado a favor ou
 contra o grande fim; em cada um deles a Natureza se esforça para
 conter o Espírito, e o Espírito luta para se libertar. A substância pode
 paralisar o movimento, ou o movimento pode controlar a substância?
 A inter-relação entre esses dois é a manifestação. A proporção da
 atividade governa o desenvolvimento espiritual; e quando a grande
 Força atinge seu impulso total, ela nos leva aos limites do Desconhe-
 cido. É uma Força inteligente, autoconsciente e espiritual; podemos
 evocar suas inferiores formas, ou veículos, ou correspondentes, mas
 Ela mesma só surge por sua própria volição. Podemos apenas prepa-
 rar um veículo para Ela, no qual, como diz Behmen:
 “O Espírito Santo pode conduzir-se em sua própria carrua-
 gem.”
 “O Ser não pode ser conhecido através dos Vedas, nem pela
 compreensão, nem por muito aprendizado. Aquele a quem o Ser es-
 colhe, só por este o Ser pode ser alcançado.”
 “O Ser o escolhe como seu. No entanto, o homem que não se
 afastou de suas iniquidades, que não é calmo nem está subjugado, ou
 cuja mente não está em repouso, jamais poderá obter o Ser, nem mesmo
 pelo conhecimento.”
 As letras em itálico são minhas; elas indicam o valor desse es-
 tado de contemplação, até aqui aludida como aquele em que a mente
 cessou de energizar e as energias puras da Natureza passam a expan-
 dir a fonte do Espírito.
 A frase na carta anterior — de que o Adepto “traz consigo o
 máximo possível” de Turya — deve ser compreendida como se re-
 ferindo ao fato de que tudo depende da coordenação dos vários

 princípios no homem. Aquele que atingiu a perfeição, ou estado de
 Mahātma, assumiu o completo controle do corpo, compondo-o de
 acordo com sua vontade. Mas, é claro, enquanto ele estiver em um
 corpo, estará ainda, em alguma medida, como uma alma poderosa li-
 mitada por aquele corpo ou veículo. Isso significa que há experiências
 em que tal órgão da alma que chamamos “corpo” não pode participar,
 e além de um determinado ponto seu cérebro não consegue refleti-
 -las ou lembrar-se delas. Este ponto varia de acordo com o grau de
 realização alcançado pelas almas individuais e, embora em algumas
 possa ser um ponto alto, de grande conhecimento e poder, ainda deve
 ser considerado limitado em comparação com aquelas experiências
 espirituais da alma liberada.
 O trabalho ao qual todos os discípulos se dedicam consiste em
 tornar o corpo mais poroso, mais fluídico e mais responsivo a todas
 as influências espirituais que surgem no centro interno, na alma, que
 é uma parte indivisível da grande Alma de tudo; e em torná-lo me-
 nos receptivo às influências materiais externas, geradas pelo mundo
 irracional e pelas qualidades da Natureza. É dito que o pensamento
 abstrato é “o poder de pensar sobre uma coisa, independentemente
 de suas qualidades”; mas estas qualidades são o fenomenal, o ma-
 nifesto, e elas causam a maioria das impressões sobre nossos senti-
 dos. Elas nos confundem, constituindo uma parte da armadilha que
 a Natureza nos prepara, com receio de que descubramos seu segredo
 mais íntimo e a dominemos. Mais do que isto: nosso confinamento
 como componentes individuais de uma raça proporciona o tempo
 para que esta e outras raças passem pela experiência evolutiva lenta-
 mente, possibilitando a cada alma longas e repetidas oportunidades
 de se aperfeiçoar, de retornar e de contornar a curva da evolução. Sob

 este aspecto, a Natureza é muito misericordiosa, e mesmo nas trevas
 da oitava esfera, à qual descem as almas da iniquidade espiritual, os
 impulsos da Natureza oferecem oportunidades de retorno se na alma
 autocondenada for deixada uma única força responsiva.
 Muitas pessoas insistem em um perfeito código moral tempe-
 rado por amenidades sociais, esquecendo que estas variam de acordo
 com o clima, a nacionalidade e a época. A virtude é uma nobre ofe-
 renda ao Senhor. Mas na medida em que esse código moral é mera
 retidão corporal e mental, ele é insuficiente e está à parte da retidão
 da natureza psíquica ou da virtude da alma. A virtude da alma é o
 verdadeiro Ser; sua virtude consiste em ser livre. O corpo e a mente
 não compartilham tais experiências, embora possam refleti-las mais
 tarde; e esse reflexo pode instruí-los com luz e poder de sua própria
 espécie. Espiritualidade não é virtude. É impessoalidade, em um as-
 pecto. Tanto é possível ser espiritualmente “mau” quanto espiritual-
 mente “bom”. Esses atributos só são conferidos à espiritualidade em
 razão de sua ascensão a favor ou contra a grande Lei evolucionária,
 que deve finalmente prevalecer porque é a Lei da Divindade, uma
 expressão da Natureza e do Ser do Desconhecido, voltada à mani-
 festação, à autorrealização e à reabsorção. Tudo o que contrasta com
 esta Lei, visando uma existência separada, a longo prazo falhará, e
 qualquer diferenciação que é por si mesma incapaz de reabsorção é
 reduzida aos seus elementos originais, em cuja forma, por assim dizer,
 ela pode ser reabsorvida.
 A espiritualidade é, então, uma condição de Ser que está além
 da expressão na linguagem. Chame-a de um nível de vibração muito
 além de nossa cognição. Sua linguagem é a linguagem do movimento

 em sua incipiência, e sua perfeição transcende as palavras e mesmo o
 pensamento.
 “O conhecimento do Princípio Supremo é um silêncio divino e
 a quietude de todos os sentidos.” (Clavis of Hermes.)
 “O gostar e não gostar, o bem e o mal, não produzem qualquer
 efeito no conhecedor de Brahman, que é incorpóreo e sempre exis-
 tente.” (Crest Jewel of Wisdom.)22
 “Sobre aquela natureza que transcende o intelecto, muitas coi-
 sas são afirmadas de acordo com a intelecção, mas tal natureza é con-
 templada pela cessação da energia intelectual, mais do que com ela.”
 (Porfírio.)
 O pensamento é limitado, e buscamos adentrar o ilimitado. O
 intelecto é a primeira produção da Natureza que se energiza para a
 experiência da alma, como disse antes. Ao reconhecermos tal verda-
 de, utilizamos a energia natural chamada “Pensamento” para com-
 paração, instrução e eliminação da dúvida, e então chegamos a um
 ponto em que reprimimos as tendências externas da Natureza, pois,
 quando estas tendências são resolvidas em sua causa e a Natureza é
 totalmente subjugada e dominada, essa causa se manifesta tanto na
 Natureza quanto além dela.
 “As substâncias incorpóreas quando descendentes se dividem e
 se multiplicam entre os indivíduos, diminuindo assim sua força; mas
 quando ascendentes, por meio de suas energias, para além dos corpos,
 se unem e existem como um todo, por meio e através da exuberância
 do poder.” (Porfírio.)

 22 Viveka-Chūdāmani — A Joia Suprema da Sabedoria, de Sankara. (N.E.)

 Essas alusões podem ser suficientes para mentes que já este-
 jam no caminho. Outras mentes estarão fechadas para elas. Só a lin-
 guagem expressa as experiências de uma raça, e como a nossa ainda
 não atingiu os níveis mais elevados do Ser, carecemos de palavras
 para expressar essas coisas. O Oriente sempre foi a pátria da bus-
 ca espiritual, e deu ao mundo todas as grandes religiões. Portanto,
 o sânscrito tem os termos para alguns desses estados e condições;
 mas, mesmo no Oriente, é bem entendido que o que não tem forma
 não pode ser expresso pela forma; nem o Ilimitado pelos limites
 das palavras ou sinais. A única maneira de conhecer esses estados
 é sermos tais estados; nunca podemos saber verdadeiramente algo
 que não somos.
 J.N.

 C A R TA X I

 Caro Irmão,
 Jasper, me dói saber sobre sua doença grave. Enquanto a vida
 está suspensa na balança, como a sua parece estar, e assim continuará
 por algum tempo, você se sentirá muito deprimido.
 Agora, não é comum conversar calmamente com alguém sobre
 sua morte, mas isso não o incomoda, e é por isso que converso. Não
 concordo com você que é bom morrer. O seu caso não é como o de
 ___, que estava à beira da morte e decidiu aceitar a vida das Grandes
 Potências para continuar seu trabalho pela humanidade, em meio a

 todas as agonias e angústias de seu corpo.23 Por que você não deveria
 viver o máximo possível em seu corpo atual, de maneira que nele você
 possa realizar todo o avanço possível e, através de sua vida, realizar
 todo o bem possível para a Causa e o homem? Pois, como Jasper Nie-
 mand, você ainda não teve a oportunidade que lhe concede prestar
 um extraordinário auxílio retornando logo após a morte; de forma que
 você morreria e correria o risco de um longo Devachan, deixando de
 fazer por Eles muito do que você poderia. Esse é o meu ponto de vista.
 A vida é melhor que a morte, pois esta decepciona o Ser. A morte não
 é a grande formadora ou produtora de conhecimento. É simplesmente
 a grande cortina que desce em cena para subir no próximo instante. O
 conhecimento completo deve ser obtido no homem trino: corpo, alma
 e espírito. Uma vez obtido, o homem passa para outras esferas, que são
 desconhecidas para nós e que são infinitas. Vivendo tanto quanto nos
 for possível, damos ao Ser uma oportunidade maior.
 “Atmanam atmana pashya” (“Eleve o Ser através do eu” — Bha-
 gavad-Gītā), não parece ser eficaz depois de cruzarmos o limiar da
 morte. A união da trindade deve ser realizada apenas na Terra, em
 um corpo, e então a liberação é desejável.
 Irmão, não falo por mim, mas por você, pois na morte não posso
 perder ninguém. Os vivos desempenham um papel maior entre os
 mortos do que os mortos entre os vivos.
 A dúvida que você sente agora quanto ao sucesso é mórbida.
 Por favor, destrua-a. É melhor uma falsa esperança sem qualquer

 23 Isso, sem dúvida, se refere a HPB. Ver “Mahātmās”, em “Theosophy”, XXI, 294, e
 “She Being Dead, Yet Speaketh” [Ela, mesmo morta, ainda nos fala], em “Theoso-
 phy”, XXXI, 201. (Nota da edição original em inglês.)

 dúvida do que muito conhecimento com dúvidas sobre suas possi-
 bilidades. “Aquele que duvida é como as ondas do mar, levadas pelo
 vento e agitadas.” Não devemos nos resguardar contra a dúvida ape-
 nas quando se trata dos Mestres (sobre os quais eu sei que você não
 tem dúvidas). Devemos nos resguardar e repeli-la principalmente em
 relação a nós mesmos. Pensar que não podemos ter sucesso em algo,
 ou que é melhor morrer do que viver porque um corpo danificado
 parece tornar o sucesso inatingível, é duvidar.
 Não ousamos ter esperança, mas continuar vivendo para servi-
 -los como Eles servem à Lei. Não devemos tentar ser chelas ou fazer
 qualquer coisa nesta encarnação, mas apenas conhecer e ser justos
 tanto quanto possível, e a possibilidade não será medida. Reflita, en-
 tão, que é apenas uma questão de se sentir derrotado — mas pelo
 quê? Por algo externo. Porém, se você se acusa ou duvida de si mesmo,
 você faz com que o inimigo descanse, pois então ele não tem nada a
 fazer, já que você mesmo faz tudo para ele; e, deixando você entregue
 ao seu destino, ele procurará outras vítimas. Erga-se então desse de-
 sânimo e empunhe a espada do conhecimento. Com ela, e com Amor,
 o Universo pode ser conquistado. Não que eu o veja muito desani-
 mado, Jasper, mas de bom grado lhe daria minhas ideias, mesmo que
 algo possa matá-lo amanhã contra a nossa vontade.
 Fico feliz porque, embora seu corpo sofra, você mesmo está
 bem. Nós sofreremos de várias formas, e não tenho dúvida de que é
 um grande avanço se, em meio ao sofrimento físico, conseguirmos
 resistir e permanecer calmos e afastados dele. Além disso, o corpo
 também deve descansar. Descanse e deixe suas ansiedades permane-
 cerem imóveis e adormecidas. Ao fazer isso, elas não são aniquiladas;
 porém quando o corpo se fortalecer, mais será conhecido.

 Você tem passado por tempestades suficientes. Uma rápida re-
 flexão lhe mostrará que nós criamos nossas próprias tempestades. O
 poder de uma e de todas as circunstâncias é uma qualidade esta-
 belecida e invariável, mas como variamos em nossa recepção delas,
 parece-nos que nossas dificuldades variam de intensidade. Elas não
 variam de forma alguma. Somos nós que variamos.
 Se admitimos que estamos na corrente da evolução, então
 cada circunstância tem que ser totalmente correta para nós. E
 nossas falhas em realizar determinadas ações serão nossos maio-
 res auxiliares, pois de nenhuma outra forma podemos aprender a
 tranquilidade que Krishna enfatiza. Se tivéssemos sucesso em to-
 dos os nossos planos, não perceberíamos o contraste. Além disso,
 esses planos podem ter sido todos traçados de forma ignorante, e
 portanto errônea, e a gentil Natureza não nos permitirá executá-
 -los. Não temos culpa pelo plano, entretanto, podemos adquirir
 um demérito kármico por não aceitar a impossibilidade de sua rea-
 lização. Os homens não podem alegar a ignorância da Lei, mas a
 ignorância do fato. No Ocultismo, mesmo se você ignorar alguns
 fatos importantes, você não irá transpor a Lei, pois ela não é parcial
 a nenhum homem, e segue seus ajustes independentemente do que
 sabemos ou do que ignoramos.
 Se você está desanimado, ou se algum de nós está, o poder de
 nossos pensamentos é proporcionalmente reduzido. Pode-se estar
 confinado em uma prisão e ainda assim ser um trabalhador para a
 Causa. Assim, imploro que você remova de sua mente qualquer aver-
 são às atuais circunstâncias. Se você puder considerar tudo isso como
 o que você realmente desejou, tal atitude não apenas fortificará seus
 bons pensamentos, mas se refletirá em seu corpo, fortalecendo-o.

 Tudo isso me lembra H, cujo fracasso você agora conhece. A
 este respeito, não se decepcione; dificilmente poderia ser de outra
 forma. Imprudentemente, ele fez suas demandas à Lei antes de estar
 pronto. Na verdade, “imprudentemente” em certo sentido, pois numa
 visão mais ampla nada pode ser imprudente. A aparente derrota dele,
 logo no início da batalha, é muito natural. Ele chegou aonde o fogo é
 mais intenso, esquentando ainda mais com suas aspirações. Todos os
 outros sofreram e sofrerão o mesmo, porque o fato de sua doença ser
 corporal não faz a menor diferença. Uma vez que todas essas coisas
 procedem de distúrbios mentais, podemos ver facilmente a mesma
 causa tanto na doença física quanto na divagação mental. Estranha-
 mente, escrevi-lhe sobre os poucos que realmente permanecem, e de-
 pois recebi tal notícia que irradiou uma luz — uma luz vermelha, por
 assim dizer — a respeito da informação do retiro de H. Veja como
 o pensamento se entrelaça com o pensamento em todos os planos,
 quando o objetivo é a Verdade.
 Não estamos totalmente isentos, na medida em que diaria-
 mente e de hora em hora sentimos a tensão. Aceite estas palavras
 de um companheiro de viagem: conserve a aspiração e a busca, mas
 não mantenha a atitude de desespero ou da menor angústia. Não que
 você o faça.
 Não consigo encontrar as palavras adequadas, mas certamente
 você saberia de tudo, não fosse por algumas falhas que o impedem.
 Claro, vamos experimentar trevas e desolação, mas são apenas
 ilusórias. Não é o Ser puro, brilhante, incorpóreo e livre? E você não
 é Aquilo? A vida diária em vigília é simplesmente uma penitência e
 as provações do corpo, para que também ele alcance a condição certa.
 Nos sonhos vemos a verdade e saboreamos a felicidade do paraíso.

 No estado de vigília, cabe a nós destilarmos gradualmente esse orva-
 lho em nossa consciência normal.
 Portanto, lembre-se também de que as influências da era atual
 são poderosas em produzir tais sentimentos. Que desespero e que
 agonia por dúvidas existem hoje em todos os lugares! Neste período
 de angústia, o homem sábio espera. Durante a tempestade, ele se
 curva como um junco de modo que o vento assobie sobre sua cabeça.
 Ao se elevar, como você faz, para o plano onde essas correntes estão
 se lançando, enquanto você tenta mover-se para mais alto ainda, você
 sente essas influências hostis, embora lhe sejam desconhecidas. É
 uma idade de ferro. Uma floresta de árvores de ferro, escuras e amea-
 çadoras, com galhos de ferro e reluzentes folhas de aço. Os ventos
 sopram por suas curvaturas e ouvimos um som terrível de rangidos
 e pancadas, que silencia a pequena e tranquila voz do Amor. E seus
 habitantes o confundem com a voz de Deus, imitando-a e aumen-
 tando seu terror. Não desanime, não se condene. Ambos somos o
 mudo OM; repousamos juntos no coração do Mestre.24 Você não está
 cansado, mas é esse corpo que agora está fraco, e não apenas fraco,
 mas também abalado pela força de seus próprios poderes físicos e psí-
 quicos. No entanto, o homem sábio aprende a assumir no corpo uma
 atitude de indiferença, enquanto na realidade ele é mais vigilante do
 que qualquer outra pessoa. Que você a alcance! Você é o juiz. Quem
 a aceita, quem ousa julgar, senão você mesmo? Esperemos então por
 mudanças naturais, cientes de que, se o olho estiver fixo onde brilha
 a luz, saberemos o que fazer no momento. Essa hora ainda não está

 24 Originalmente escrito: “Repousamos no coração do Divino.” Ver “Path”, II, 290.
 (Nota da edição original em inglês.)

 madura. Mas o fruto imaturo amadurece, e cai ou é colhido. Certa-
 mente chegará o dia em que você o colherá da árvore. Medos vãos ou
 concessões não o incomodarão mais. Quando o grande pensamento
 chegar perto o bastante, você avançará. Devemos todos ser servos
 antes que possamos ter esperança de termos maestria, mesmo que
 minimamente.
 Eu estava lendo novamente a vida de Buda, e ela me encheu
 com um desejo veemente de me entregar à humanidade, devotando-
 -me a um esforço ardente e decidido para me plantar mais perto do
 altar do sacrifício.
 Como nem sempre sei o que deve ser feito, devo seguir o que
 diz o Mestre: “Faça o seu melhor, se quiser vê-Los.” Isso sendo verda-
 de, e tendo outro Adepto dito: “Siga o Caminho que Eles e eu mos-
 tramos, mas não siga o meu caminho”25; então tudo o que podemos
 fazer, grande ou pequeno, é aquilo que é possível, cada um em seu
 próprio lugar. É claro que se tivermos imensa devoção e fizermos o
 nosso melhor, o resultado será bom para Eles e para nós, mesmo que
 agíssemos de maneira diferente se soubéssemos mais quando seguía-
 mos um curso de ação. Um devoto Chela disse certa vez: “Não me in-
 comodo com todos esses esforços para alcançar explicações, nem com
 todas essas preocupações, pois sempre percebi que o que é feito em
 nome do Mestre é correto e dá certo.” O que é feito em nome d’Eles
 é realizado sem pensamento egoísta, e a motivação é o teste essencial.

 25 HPB escreveu: “Siga o caminho que mostro, são os Mestres que estão por trás —
 e não siga a mim ou ao meu CAMINHO.” De “She Being Dead, Yet Speaketh”
 [Ela, mesmo morta, ainda nos fala], “Theosophy”, XXXI, 299. (Nota da edição
 original em inglês.)

 Então, estou triste e ao mesmo tempo não estou. Não fico triste
 quando reflito sobre o grande Ishwar, o Senhor, que permite que to-
 das essas travessuras e espetáculos aconteçam diante de nossos olhos.
 Fico triste quando vejo nossas fraquezas e deficiências. Devemos ser
 serenos e fazer o que pudermos. Ramaswamier correu para Sikkhim
 tentando encontrar o Mestre, mas encontrou alguém que lhe disse
 para voltar e cumprir seu dever. Isso é tudo o que qualquer um de nós
 pode fazer; muitas vezes não conhecemos o nosso dever, mas mesmo
 isso é falha nossa, é uma incapacidade kármica.
 Você me pergunta como deve aconselhar seu colega de estudo. O
 melhor conselho se encontra em sua própria carta para mim, na qual
 você diz que o verdadeiro monitor está dentro de nós. Isso é verdade.
 Dez mil Adeptos não podem nos ajudar muito, a menos que esteja-
 mos preparados; e Eles agem apenas nos sugerindo quais possibili-
 dades existem em cada coração humano. Se habitamos dentro de nós
 mesmos, devemos viver e morrer sozinhos; então, verifica-se que correr
 de um lugar para outro para ver uma coisa ou uma pessoa, por si só,
 não nos proporciona progresso. Observe que não estou me opondo à
 companhia daqueles que leem livros sagrados e estão empenhados em
 se ocupar de assuntos elevados. Estou apenas tentando ilustrar minha
 ideia de que não devemos nos empenhar nisso como um fim; é sim-
 plesmente um meio, e um entre muitos. Não há ajuda melhor do que
 se associar àqueles que pensam como nós, ou gostam de ler bons livros.
 O melhor conselho que já vi foi ler os livros sagrados, ou outros que
 tratam de nos elevar, como você descobriu por experiência. Deve haver
 alguns. Certa vez, encontrei alguns recônditos escritos teológicos de
 Plotino que me afetaram de forma enobrecedora — e também uma
 explicação sobre as peregrinações de Ulisses. Além disso, existe o Gītā.

 Todas essas obras estão imbuídas em uma vida própria, que altera as
 vibrações. A vibração é a chave de tudo. Os diferentes estados são sim-
 plesmente diferenças de vibração, e não reconhecemos o plano astral
 ou os outros planos porque não estamos em sintonia com suas vibra-
 ções. É por isso que, de vez em quando, temos a vaga sensação de que
 alguém está nos espreitando, ou de que uma multidão de pessoas passa
 correndo por nós com grandes coisas nas mãos, mas elas não nos veem
 e nem nós a elas. Foi um instante de vibração sincronizada. Porém, o
 importante é desenvolver o Ser no eu, e então as posses de sabedoria
 pertencentes a todos os sábios imediatamente se tornarão nossas.
 Cada um veria o Ser de uma maneira diferente, e, no entanto,
 nunca o veria, pois ver o Ser significa sê-lo. Porém, tendo que nos
 comunicar por palavras, usamos a expressão: “Veja-o.” Pode ser um
 flash, uma roda brilhante, e assim por diante. Depois, há o eu inferior,
 que é grande em suas características e deve ser conhecido primeiro.
 Quando o vemos pela primeira vez, é como olhar dentro de uma luva;
 e por quantas reencarnações não deveria ser assim? Olhamos dentro
 da luva e vemos a escuridão; então devemos entrar na luva e ver a
 escuridão, e assim por diante.
 O mistério das idades é o ser humano — cada um de nós. A
 paciência é necessária para que seja completado o curso de tempo
 requerido para alterar e controlar o instrumento físico. O controle
 violento não é tão bom quanto o suave, contínuo e firmemente in-
 cessante. A vidente de Prevorst descobriu que uma corrente suave a
 beneficiou mais do que uma corrente violenta.26 A suavidade é me-

 26 Ver “The Seeress of Prevorst”, “Path”, II, 332, de fevereiro de 1888. O autor, “B”
 (provavelmente significa “Brehon”, um dos pseudônimos de Judge), ao se referir a

 lhor porque sempre é provocada uma corrente oposta, e, é claro, se o
 controle for suave, a corrente oposta também o será. Isso proporciona
 mais tempo e força gradual ao estudante desacostumado.
 Acho que seu parceiro de estudo será um bom instrumento,
 mas não devemos quebrar o silêncio do futuro para não despertarmos
 tribos desconhecidas e difíceis com as quais não será fácil lidar.
 Cada situação deve ser usada como um meio. Isto é melhor
 que a filosofia, pois nos permite conhecer a filosofia. Você não avança
 estudando as filosofias dos outros, porque assim você obtém apenas
 suas ideias cruas. Não se sobrecarregue, nem torture seu cérebro com
 as noções dos outros. Você tem a chave para o Ser, isso é tudo que
 você precisa; tome-a e extraia de dentro o espectador. Você é magnâ-
 nimo em generosidade e em amor, intenso na fé e reto em percepção.
 A generosidade e o amor significam o abandono do eu. Esse é o seu
 suporte. Aumente sua confiança, não em suas habilidades, mas no
 grande Todo que é você mesmo.
 Oro a Deus para que você e todos possam encontrar a paz.
 Z.

 esta ideia da “corrente suave”, diz: “Aqui pode estar uma dica valiosa para a ciência
 médica, que, de fato, já parece estar se movendo nesta direção. Pode valer a pena
 construir uma máquina de acordo com o modelo apresentado por ela.” (Nota da
 edição original em inglês.)

 C A R TA X I I

 Caro Jasper,
 Há tantos que perguntam sobre o Chelado27 que sua carta che-
 ga no momento certo de minhas experiências. Você diz que esses
 candidatos devem receber alguma resposta, e nisso eu concordo com
 você. Estejam eles prontos ou não, temos que ser capazes de dizer
 algo sobre isso. No entanto, geralmente eles não estão prontos, nem
 realmente dispostos a dar o simples primeiro passo que é requerido.
 Discutirei o assunto com você para sua futura orientação em respon-
 der a perguntas como essas; talvez, também, para esclarecer minha
 própria mente.
 A primeira pergunta que um homem deve fazer a si mesmo
 (com o termo “homem” queremos dizer candidatos de ambos os se-
 xos) é: “Quando e como se desenvolveu em mim o desejo de saber
 sobre o Chelado e de me tornar um chela?”; e a segunda: “O que é um
 chela, e o que é o Chelado?”
 São muitos os tipos de chelas. Existem os chelas leigos e os pro-
 bacionários; os chelas aceitos e aqueles que estão tentando se adequar
 para serem mesmo chelas leigos. Qualquer pessoa pode se constituir
 um chela leigo, tendo a certeza de que, nesta vida, pode ser que ela
 nunca ouça conscientemente o seu guia. No que diz respeito aos che-
 las probacionários, existe uma regra invariável segundo a qual eles
 passam por um período de sete anos em provação. Essas “provas” não

 27 Chela significa “discípulo”. É uma palavra sânscrita. ( J.N.)

 se referem a testes fixos e estabelecidos, mas a todos os eventos da
 vida e à sua atitude de probacionário. Não há um lugar para remeter
 os candidatos a fim de que o pedido deles seja feito, uma vez que tais
 questões não envolvem lugares ou funcionários: esse é um assunto da
 natureza interna. Tornamo-nos chelas; na verdade, alcançamos esta
 posição porque nossa natureza interna se abriu a ponto de poder e
 querer apreender o conhecimento: recebemos a recompensa das mãos
 da Lei.
 Em certo sentido, todo membro sincero da Sociedade Teosó-
 fica está no caminho para se tornar um chela, pois os Mestres reali-
 zam parte de Seu trabalho com e para o benefício da humanidade
 por meio desta Sociedade, que Eles escolheram como Seu agente. E
 como todo o Seu trabalho e aspiração visam ajudar a raça, nenhum
 de Seus chelas pode esperar permanecer (ou se tornar) tal se algum
 desejo egoísta por posses pessoais de riqueza espiritual constituir a
 motivação para tentar ser um chela. Tal motivação, no caso de quem
 já seja um chela, atua instantaneamente para lançá-lo para fora das
 fileiras, esteja ele ciente de sua perda ou não; e no caso de alguém que
 esteja tentando se tornar um chela, atua como uma barreira. Tampou-
 co um verdadeiro chela divulga sua condição, visto que esta Loja não é
 análoga às sociedades exotéricas, que dependem de favores ou meras
 aparências externas. É algo real, chefiada por homens espirituais vi-
 vos, governada por leis que contêm em si os seus próprios executores,
 e que não requerem um tribunal, nem acusações, vereditos ou qual-
 quer notificação.
 Em geral, pessoas de origem europeia ou americana têm dificul-
 dades extremas para combater. São desprovidas de qualquer herança
 de desenvolvimento psíquico ao qual recorrer; nenhum conhecimento

 de congregação de Mestres ou Seus chelas ao seu alcance. Suas difi-
 culdades raciais as impedem de olhar para dentro de si com facili-
 dade; elas não são introspectivas por natureza. No entanto, mesmo
 elas podem muito fazer se purificarem sua motivação e se possuírem
 ou cultivarem naturalmente uma fé e devoção ardentes e inabaláveis
 — uma fé que as mantenha como fiéis inflexíveis na existência dos
 Mestres, mesmo durante anos sem comunicação. Eles são devedores
 generosos e honestos, e sempre honram suas dívidas. Como e quando
 Eles restituirão, não nos cabe perguntar. Os homens dirão que isso
 requer uma devoção tão cega quanto qualquer igreja exige. É verdade;
 porém é uma devoção cega para com os Mestres, que são a própria
 Verdade, para com a humanidade e para com você mesmo, suas pró-
 prias intuições e ideais. Essa devoção a um ideal também se baseia
 em outro ponto, que é: um homem dificilmente estará preparado para
 ser um chela a menos que ele seja capaz de ficar sozinho e não ser in-
 fluenciado por outros homens ou eventos. Na verdade, ele deve estar
 sozinho, e é melhor que ele saiba disso no início do que no fim.
 Existem também certas qualificações que ele deve possuir. Elas
 podem ser encontradas no final do livro Man: Fragments of Forgotten
 History28, portanto não trataremos delas aqui.
 Ao encerrarmos a questão da aptidão geral dos candidatos, che-
 gamos ao ponto ainda mais sério, das relações entre o Guru e o chela,
 ou Mestre e discípulo. Queremos saber o que realmente significa ser
 um aluno de tal Mestre.

 28 Livro há muito esgotado. Foi publicado originalmente em 1885 por Two Chelas
 in the T.S. (posteriormente identificados como Mohini M. Chatterji e a Sra. Lau-
 ra C. Holloway). Ver “Theosophist” XIX, 649, de agosto de 1898. (Nota da edição
 original em inglês.)

 A relação entre o Guru e o chela não significa nada se não for
 espiritual. Tudo o que é meramente externo ou formal, como a re-
 lação que se estabelece simplesmente pedindo e sendo aceito, não é
 espiritual, mas formal, e é o que acontece entre o instrutor e o aluno.
 No entanto, mesmo essa relação não é desprezível, uma vez que o
 instrutor está para o discípulo, de acordo com o que permita a relação,
 da mesma maneira que o Guru para o seu chela. É uma diferença de
 grau, que é o que constitui a distinção entre o espiritual e o material,
 pois, ao passar pelas diferentes nuances, desde a mais grosseira ma-
 terialidade até onde possamos chegar, descobrimos finalmente que
 a matéria se funde no espírito. (Estamos falando, é claro, sobre o
 que comumente chamamos de matéria, embora saibamos muito bem
 que, na verdade, o que designamos como tal não é realmente maté-
 ria, mas uma enorme ilusão que não tem existência por si própria. A
 verdadeira matéria, que os hindus denominam mulaprakriti, é algo,
 ou substância, invisível da qual nossa matéria é uma representação.
 A verdadeira matéria é o que os hermetistas chamam de terra pri-
 mordial; para nós, uma fase intangível da matéria. Podemos facil-
 mente acreditar que aquilo que costumamos chamar de matéria não
 o é propriamente, pois encontramos clarividentes e pessoas sensíveis
 capazes de ver através de grossas paredes e de portas fechadas. Se
 fossem matéria, essas pessoas não seriam capazes ver através dela.
 Porém, quando um clarividente comum se encontra face a face com
 a matéria primordial, ele não poderá ver além, pois estará diante de
 uma parede implacável, mais densa do que qualquer outra construída
 por mãos humanas.)
 Portanto, desde os tempos antigos, entre todos os povos, ex-
 ceto os ocidentais modernos, o instrutor recebia grande reverência

 por parte do aluno, e este, desde a juventude, era ensinado a ver seu
 preceptor como o segundo em dignidade, atrás apenas de seu pai e
 sua mãe. Entre essas pessoas, desrespeitar o instrutor, até em pensa-
 mento, era um grande pecado, algo que causava um real dano no ser
 moral. A razão para isso estava então, e ainda hoje está, no fato de
 que uma longa cadeia de influência se estende desde o mais elevado
 guia espiritual, que pode relacionar-se a qualquer homem, passando
 por um vasto número de líderes espirituais, e chegando finalmente ao
 mero instrutor de nossa juventude. Ou, reformulando em uma versão
 moderna de pensamento, uma cadeia se estende de nosso instrutor
 ou preceptor ao guia espiritual mais elevado, em cujo raio ou linha
 descendente alguém possa estar. Nesse relacionamento oculto, não
 faz a menor diferença que o aluno ou guia final estejam cientes, ou
 admitam, que esse é o caso.
 Assim, acontece que a criança que tem seu instrutor em reve-
 rência, e se dedica diligentemente de acordo com a fé, não comete
 qualquer violência a tal cadeia intangível, mas poderosa, e é conse-
 quentemente beneficiada, quer ela saiba disso ou não. Tampouco im-
 porta que uma criança tenha um instrutor que evidentemente lhe
 oferece um sistema negativo. Tal é o seu Karma, e por meio de sua
 atitude reverente e diligente ela o exaure, transcendendo seu outrora
 instrutor.
 Essa cadeia de influência é chamada de cadeia Guru parampara.
 O Guru é o guia ou aquele que reajusta, e nem sempre pode
 combinar o papel de instrutor com isso.
 Z.

 C A R TA X I I I

 Caro Jasper,
 Passamos agora das relações terrenas simples e usuais de instru-
 tor e aluno para o que no momento chamaremos de Loja.
 Esta Loja não é algo que possa ser criticado, analisado ou cor-
 rigido. Ela está simultaneamente em todos os lugares e em lugar
 nenhum. Ela inclui, dentro de suas fronteiras, todos os verdadeiros
 Mestres, estudantes, guias e Gurus, de qualquer raça e credo, ou de
 credo nenhum. A seu respeito, foi dito:
 “Além da Sala do Aprendizado está a Loja. É o corpo integral
 de Sábios em todo o mundo. Ela não pode ser descrita mesmo por
 aqueles que nela estão, mas o estudante não está proibido de imaginar
 como ela é.”
 Desse modo, a qualquer momento, cada um de seus verdadeiros
 instrutores ou discípulos ficará feliz em ajudar algum outro instrutor
 ou discípulo. Mas, porque todos estão tentando divulgar a Verdade
 e ensiná-la ao mundo, não devemos com isso concluir que nós, que
 nos denominamos de chelas-aspirantes ou os chelas conhecidos por
 alguém que chamamos de Guru, possamos nos colocar ao mesmo
 tempo sob a tutela de mais de um Guru.
 Todo homem que determina a si mesmo que entrará na Senda
 tem um Guru. No entanto, o tempo entre tal determinação e o mo-
 mento em que ele realmente encontrará o Mestre pode ser realmente
 muito longo; em certos casos ele é bem curto. Devemos agora ocupar
 um momento com algumas considerações sobre divisões.

 Exatamente como acontece no exército, onde o menor soldado
 raso tem um general que guia o conjunto, mas a quem ele não pode
 alcançar exceto por meio de outros oficiais, também nesta ordem há
 divisões de Gurus e de discípulos.
 Existe o Grande Guru, que é tal para muitos que nunca O co-
 nheceram ou O viram. Em seguida, há outros que O conhecem e
 que são os Gurus de um certo número de chelas, e assim por diante,
 até que possamos imaginar um chela que seja um Guru conhecido
 de outro chela abaixo dele. Em seguida, pode haver chelas que atuam
 como Gurus — sem serem reconhecidos, por estarem pro tempore29
 na função — para um ou mais chelas.
 Agora, aquele que faz a resolução acima mencionada, por meio
 dela cria um vínculo que repousa na Lei superior. Não é algo para
 ser feito levianamente, pois suas consequências são de uma natureza
 séria. Séria não no sentido de infortúnios ou tormentos terríveis, ou
 coisas assim, mas no que diz respeito à clareza e ao brilho daqueles
 raios da Verdade que queremos que cheguem até nós.
 Portanto, por essa resolução — sendo o grau determinado pela
 sinceridade e força de nossa motivação —, nós nos retiramos do co-
 mum e vasto afluxo da multidão de homens que vivem, nesse sentido,
 como animais, e batemos a uma porta. Se tivermos reverenciado nosso
 instrutor, agora nós reverenciaremos nosso Guru desconhecido. De-
 vemos nos manter internamente em uma atitude de confiança. Deve-
 mos ter uma fé constante e firme, que nada pode abalar. Uma vez que
 dirigimos nosso apelo ao poderoso Karma e uma vez que o Guru é
 Karma, no sentido de que ele nunca age em oposição ao Karma, não

 29 Do latim, temporariamente. (N.E.)

 devemos perder a fé nem por um instante, pois é essa fé que clarifica a
 atmosfera e nos permite receber ajuda de todas as partes.
 Então, talvez esse aspirante resoluto ou postulante, ou neófito,
 decida que, momentaneamente, ele tomará como seu instrutor ou
 guia algum outro chela cujos ensinamentos se recomendam por si só.
 Não é necessário que alguma troca de palavras sinceras ocorra entre
 os dois.
 Mas, tendo feito isso, mesmo em pensamento, ele deve se dedi-
 car diligentemente à doutrina daquele instrutor, inalteravelmente, até
 que ele realmente perceba que ele tem outro instrutor ou que passou
 para outra classe. Pois se ele tomar um instrutor meramente para
 contestar e discordar, seja abertamente ou mentalmente, ele corre o
 risco de obscurecer totalmente sua própria mente.
 Se ele sente que não está entendendo claramente, então, usando
 a confiança, ele deve tentar entender, porque se por meio do amor
 e da confiança ele vibrar na concepção elevada de seu instrutor, sua
 mente se elevará e ele obterá assim um progresso maior.
 Eis que chegamos ao caso possível de um aspirante com essa
 fé real e soberana que, de alguma forma, realmente encontrou uma
 pessoa muito avançada na Senda. Ele se dirigiu a tal pessoa dizendo:
 “Posso ser aceito, posso ser um chela seu ou de outro instrutor?”
 A pessoa que foi solicitada poderia então dizer: “Não a mim,
 mas remeto-o a outro que pertence à sua mesma classe, oferecendo-o
 a ele como chela: sirva-o.” Com tal sugestão, o aspirante vai até a pes-
 soa designada e, deliberadamente, ambos concordam.
 Este é um caso em que o verdadeiro Mestre recomendou o as-
 pirante a um colaborador que possivelmente seja de um nível mais
 alto que o nosso neófito, e este agora está em uma posição diferente

 de muitos outros que estão silenciosamente se esforçando e traba-
 lhando, aprendendo com todo e qualquer instrutor, mas não tendo
 para si um Guru especializado. Esse neófito e seu “pequeno guru” es-
 tão conectados por um vínculo claro e sagrado, caso contrário, ambos
 seriam meras crianças mentirosas que brincam sem merecer atenção.
 Se o “pequeno guru” for fiel à sua missão, ele ocupará sua mente e
 coração com ela, e considerará que neste momento o chela representa
 a humanidade para ele.
 Postulamos que esse “pequeno guru” era mais avançado do que
 seu chela. Então pode acontecer de ele dizer algo que seu chela não en-
 tende claramente. Isso será verificado particularmente se seu chela for
 novo no assunto. Mas o chela deliberadamente tomou aquele Guru, e
 deve tentar entender a doutrina desse instrutor.
 A função adequada do Guru é reajustar, e não derramar vastas
 quantidades de conhecimento expressadas em termos claros e de fácil
 compreensão, o que seria um absurdo, embora agradável, e nem um
 pouco superior ao que qualquer livro bem escrito faria por seu leitor.
 A fé e o amor que existem entre os dois atuam como um estí-
 mulo para ambos e como um purificador para a mente do chela.
 Porém, se depois de certo tempo, o chela encontra outra pessoa
 que parece conhecer tanto quanto seu “pequeno guru” e que se ex-
 pressa em termos bastante acessíveis, e o chela decide tomá-lo como
 instrutor, ele comete um erro. Ele pode ouvir seus ensinamentos, ad-
 mirá-los e se beneficiar deles; mas no momento em que ele se deter-
 mina mentalmente e depois pede verbalmente que o outro seja seu
 instrutor, ele começa a romper o vínculo que acabou de estabelecer,
 podendo possivelmente perder completamente o benefício de ambos.
 Porém, não necessariamente; mas se ele não informar seu “pequeno

 guru” sobre a nova adoção de um instrutor, isso certamente causará
 muita confusão no campo do ser em que ambos fazem seu verdadeiro
 “trabalho”; e quando ele informar seu “pequeno guru” sobre a nova
 aquisição de um instrutor, o primeiro Guru se retirará.
 Nenhuma das opções acima é dirigida às mentes que não con-
 sideram esses assuntos como sagrados. Um Guru é um ser sagrado
 neste sentido. É claro que não em um sentido geral — embora se
 considerado assim, quando digno, será melhor para o chela —, mas
 em tudo o que pertence à vida espiritual e real. Para a alma muito
 sensível, esta é uma questão de adoção, algo altamente sagrado e va-
 lioso que não é tomado ou abandonado levianamente, uma vez que o
 Guru momentaneamente se torna temporariamente o Pai espiritual
 do chela, aquele que está destinado a conduzi-lo à verdadeira vida ou
 a apresentá-lo Àquele que o fará.
 Portanto, uma vez que o guru é realmente o ajustador, o chela
 não presta uma atenção servil a cada palavra, exceto nos casos em que
 o Guru é conhecido como um grande Sábio ou o chela o faça por sua
 natureza. Ele ouve a palavra e tenta assimilar seu significado inerente;
 e se ele não a consegue compreender, ele a deixa de lado para uma
 circunstância mais propícia, enquanto tenta entender o que pode no
 presente. E mesmo que ele não consiga entender nada — como cos-
 tuma acontecer na Índia —, ele estará satisfeito em estar próximo ao
 Guru e fazer o que pode ser feito corretamente por ele. Dessa forma,
 sua fé constante acabará por clarificar sua mente, como testemunham
 muitos exemplos aos quais o seguinte pensamento se aplica bem:
 “Eles também servem àqueles que apenas permanecem e esperam.”
 Z.

 C A R TA X I V

 Caro Jasper,
 O que escrevi em minha última carta é o que pode apropriada-
 mente ser dito aos investigadores sérios, que demonstram por sua per-
 severança que não são meros buscadores de curiosidades tolas, ansio-
 sos por enganar o tédio da vida com novos experimentos e sensações.
 O que conta não é o que se faz, mas o espírito com que fazemos
 o mínimo por Eles, que são tudo.
 Você me pergunta os nomes dos sete raios ou lojas. Mesmo se
 eu os conhecesse, eu não poderia divulgá-los. Nesses assuntos, os no-
 mes são sempre realidades, e, consequentemente, comunicar o nome
 seria revelar a própria coisa. Além disso, se os nomes fossem divul-
 gados, a pessoa comum que os ouvisse não os entenderia. É como se
 dissesse que o nome do primeiro é X, o que nada expressaria à mente
 da pessoa ouvinte. Tudo o que se pode dizer é que existem esses sete
 raios, distritos ou divisões, da mesma forma que dizemos que em
 uma cidade há legisladores, comerciantes, professores e funcionários.
 A diferença consiste no fato de que, nesse caso, sabemos tudo sobre a
 cidade e o significado desses nomes. O nome, unicamente, direciona
 a mente para a ideia ou qualidade essencial.
 Mais uma vez, devo ir. Mas os Irmãos nunca se separam, já que
 vivem apenas para a Verdade.
 Z.

 WWWWW

 As cartas anteriores indicam claramente uma conclusão a res-
 peito da grande teósofa, Madame Blavatsky, embora seu nome não
 seja mencionado nem talvez se tenha pensado nela. Uma vez que ela
 sacrificou — ela própria não diz isso — tudo o que a humanidade
 considera precioso para trazer ao Ocidente as boas novas da Teosofia,
 esse Ocidente, na medida em que aceita a Teosofia, e principalmen-
 te a Sociedade Teosófica têm com Madame Blavatsky uma relação
 equivalente àquela entre o chela e seu Guru. Sua relação com esses
 teósofos reside na Lei superior, e não pode ser apagada ou ignorada.
 Assim, aqueles que, considerando a personalidade dela a encontram
 em desarmonia com a sua, tentam alcançar os Mestres por outros
 meios, desprezando ou depreciando os altos serviços dela com desdém,
 violam uma regra que, por não ser feita pelo homem, não pode ser
 infringida impunemente. A gratidão e o sentimento comum de um
 homem por outro deveriam ter-lhes ensinado isso, sem a necessidade
 de qualquer instrução oculta. Essas pessoas não atingiram o estágio
 de evolução em que podem apreender as verdades superiores. Ela,
 que aceitou as dores da tortura nos tormentos de um corpo exaurido
 de sua força vital pelas magníficas torrentes de energia derramadas
 pela nobre Causa; ela, que desafiou o sarcasmo e a cólera de dois
 continentes e de todas as hostes das trevas, visíveis e invisíveis; ela,
 que agora continua a viver apenas para que possa tomar para si o
 Karma da Sociedade, e assim garantir o bem-estar dessa Sociedade,
 não precisa do elogio de qualquer homem; mas mesmo ela precisa
 de justiça, pois se não lhe dirigirmos tal impulso em nossos corações
 e almas, Madame Blavatsky sabe que nesta encarnação deveremos

 falhar. Como o bebê para com sua mãe, como a colheita para com a
 terra, assim são aqueles que estão vinculados a ela, que se beneficiam
 dos frutos da vida dela. Tentemos, assim, entender esses elos ocultos
 trazidos pela atuação do Karma, aplicando-os tanto à nossa vida diá-
 ria quanto à nossa vida teosófica. Para nós, Madame Blavatsky repre-
 senta o próximo elo superior nessa grande cadeia, da qual nenhum
 elo pode ser transposto ou perdido.
 Para ilustrar melhor esta carta, citarei o caso de um amigo meu
 que, ao entrar em contato com a Teosofia pela primeira vez, sentiu
 uma necessidade imediata e um desejo ardente de se tornar um chela.
 Certamente ele teve conhecimento dessas verdades em outras vidas,
 pois tudo lhe parecia familiar e, embora fosse o que se chama “um
 homem do mundo”, ele aceitou a filosofia, mensurou intuitivamente
 algumas de suas possibilidades e, enquanto cumpria seu dever cui-
 dadosamente evitando causar desarmonia, organizou sua vida para
 se adequar a essas visões, especialmente sua vida interior. A questão
 do chelado adquiriu grande proeminência em sua mente. Ele não co-
 nhecia nenhum chela, não sabia para onde se dirigir ou a quem ques-
 tionar. Refletindo sobre o assunto, convenceu-se de que o verdadeiro
 chelado consistia em uma atitude interna do postulante. Lembrou-se
 das leis magnéticas e energéticas, e disse a si mesmo que poderia, por
 sua vontade, constituir-se chela da Lei, pelo menos no que concernia
 à sua própria atitude; e se isso não lhe bastasse, seria uma prova de
 que ele desejava alguma recompensa ou satisfação pessoal, ou poderes
 sobre a matéria, e que seu motivo não era puro. Ele formulou seus
 desejos lentamente, ainda em sua própria mente, já que não queria
 submeter questões à Lei levianamente; no entanto, ao final decidiu
 colocar em prova suas próprias motivações, para testar a si mesmo e

 ver se poderia manter a atitude fiel de um chela, não reconhecido e
 aparentemente desconhecido. Então, gravou em sua mente a obri-
 gação de servir à Verdade e à Lei como um chela efetivo, sempre em
 busca de luz e de mais auxílio, se possível; reconhecendo ao mesmo
 tempo que cabia apenas a ele essa obrigação, e que ele não tinha que
 fazer nenhuma reivindicação aos Mestres, exceto o que poderia espe-
 rar reivindicar da Lei mediante a força de seu propósito. Onde quer
 que pudesse ouvir sobre os chelas e seus deveres, ele ouvia ou lia sobre
 o assunto; ele tentava se imaginar na posição de um chela aceito, de-
 sempenhando, da melhor forma possível, os deveres daquela posição,
 vivendo de acordo com toda a luz que tinha. Ele sustentava que um
 discípulo deve sempre pensar e agir em direção às possibilidades mais
 elevadas, quer ele já as tenha alcançado ou não, e não apenas se limi-
 tar àquele curso de ação que pode ser considerado adequado para sua
 classe ou estado espiritual inferior. Ele acreditava que o coração — e
 somente ele — é o criador de todas as realidades. Portanto, sua tarefa
 era se erguer por si mesmo. Ele decidiu manter essa atitude vida após
 vida, se fosse necessário, até que finalmente seu direito inato estivesse
 assegurado e sua reivindicação reconhecida pela Lei.
 Ele enfrentou as provações com a indiferença daqueles que mais
 sentiram do que viram sua mudança de atitude; ele se deparou com
 todos os inomináveis choques que outros experimentaram quando se
 opuseram aos turbilhões da existência, tentando encontrar seu cami-
 nho para as verdadeiras correntes da vida. Solidão e grande sofrimento
 não demoraram muito para desafiar sua vontade indomável. No en-
 tanto, ele encontrou trabalho para cumprir e nisso ele foi muito afortu-
 nado, pois trabalhar para os outros constitui a alegria do discípulo, sua
 participação na vida Divina, seu primeiro reconhecimento pelo qual

 ele pôde saber que seu serviço tinha sido aceito. Este homem apelou
 para a Lei com fé suprema, e recebeu uma resposta. O Karma lhe en-
 viou um amigo, e logo ele começou a adquirir novos conhecimentos; e
 depois de um certo tempo, ele ficou sabendo de um lugar ou uma pes-
 soa onde poderia se candidatar para se tornar um chela em provação.
 Tal informação não foi transmitida a ele da maneira usual; ele não foi
 informado de nada desse tipo; no entanto, mediante seu conhecimen-
 to em desenvolvimento e suas faculdades que estavam despertando,
 ele estava convicto de que poderia seguir tal caminho. Assim ele o fez,
 e sua prece foi ouvida. Posteriormente ele me disse que nunca soube
 se não teria demonstrado maior força mental ao confiar totalmente na
 realidade de sua demanda invisível e não reconhecida, até que chegas-
 se o momento em que os Mestres o aceitariam e chamariam. É claro
 que, nesse ínterim, ele manteve o ideal dos Mestres claramente pre-
 sente em sua mente. Talvez seu pedido lhe mostrasse que ele era mais
 fraco do que supunha, na medida em que podia ver que precisava de
 provas tangíveis para um fato em que sua natureza superior o levava
 a acreditar sem tal prova. Talvez fosse simplesmente natural e correto,
 por outro lado, que após um serviço silencioso por um longo período
 ele devesse mostrar o valor de sua convicção na primeira oportunidade
 que o Karma lhe oferecesse.
 Então, ele fez sua solicitação. Recebi permissão para comparti-
 lhar um segmento da resposta que ele recebeu, que deixou claro para
 ele o fato de que ele já havia sido aceito, até certo ponto, antes de seu
 pedido, como sua intuição lhe havia comunicado. A resposta pode ser
 de valor indescritível para outros, tanto por estabelecer claramente
 sobre os perigos de forçar alguém à frente de sua raça quanto por seus
 conselhos, admoestações e evidências de que os Grandes Seres do

 Oriente tratam os candidatos da maneira mais gentil e franca. Além
 disso, ela indica um caminho para aqueles que seguem o sábio plano
 de testarem a si próprios em silêncio antes de fazerem suas solicita-
 ções à Lei. Pois isso imediatamente aumenta sua vibração magnética,
 a intensidade de sua evolução; sua chama arde mais brilhantemente,
 atraindo para sua esfera todos os tipos de formas e influências den-
 tro de seu raio, de modo que o fogo é intenso ao seu redor. E não só
 para ele — outras vidas, ao entrarem em contato com tal vibração
 magnética, sentem essa energia ardente; elas se desenvolvem mais
 rapidamente; e, se tiverem um recôndito espúrio ou fraco em sua
 natureza, este é logo descoberto e as derrota por um tempo. Este é o
 perigo ao entrar no “círculo dos ascetas”; se quiser se lançar, o homem
 deve ser realmente forte. Via de regra, é melhor assumir a atitude de
 um discípulo, e ele próprio impor-se os testes, pois isso produz me-
 nos oposição. Pois as forças que são frustradas pelo Adepto podem se
 lançar sobre o neófito, que não poderá ser protegido a menos que seu
 Karma o permita; e sempre haverá as forças antagônicas das trevas
 aguardando para diminuir as fileiras dos servidores da Boa Lei.
 Até aqui podemos acompanhar o referido estudante, e em se-
 guida o perdemos de vista, ignorando, então, se ele avançou ou falhou,
 ou se ainda se ajusta e espera, visto que tais coisas não são tornadas
 públicas. Revelar tudo isso é algo que raramente acontece, e uma vez
 que foi permitido, deve ter ocorrido porque há muitos estudantes
 dedicados neste país que precisam de tal apoio e informação. A estes
 posso dizer que, se eles se constituírem em discípulos honestos, fiéis
 e altruístas, a Grande Lei os reconhecerá como tais, desde que sejam
 verdadeiros, em seus pensamentos mais íntimos e em suas menores
 ações, ao juramento de seu coração.

 Resposta a Y

 Diz o Mestre:
 “Y. está totalmente preparado para o trabalho árduo? O caminho
 até a meta que ele se esforça para alcançar é cheio de espinhos e conduz
 a pântanos lamacentos. Muitos são os sofrimentos com que o chela deve
 defrontar-se; são ainda mais numerosos os perigos a enfrentar e vencer.”
 “Possa ele refletir sobre isso e decidir somente após a devida
 reflexão. Nenhum Mestre, invocado por uma alma sincera, sedenta
 de luz e conhecimento, jamais deixou se voltar ao suplicante. Mas é
 dever daqueles que apelam por trabalhadores, e deles necessitam em
 seus campos, indicar as armadilhas do terreno e as dificuldades da
 tarefa àqueles que se oferecem com sinceridade e confiança para o
 árduo trabalho.”
 “Se, não intimidado por essa advertência, Y. persiste em sua
 determinação, ele pode se considerar aceito, colocando-se, neste caso,
 sob a orientação de um chela mais antigo. Ao ajudá-lo com since-
 ridade e devoção a carregar seu pesado fardo, tal chela, por sua vez,
 também preparará o caminho para ser auxiliado.”
 (Aqui, seguem-se instruções particulares.)
 “Na verdade, se o candidato confia na Lei, se tem paciência, confian-
 ça e intuição, não terá que esperar muito. Através da grande sombra da
 amargura e da dor, que as forças antagônicas se deleitam em lançar sobre
 o peregrino em seu caminho aos Portões da Luz, o candidato logo percebe
 aquela Luz brilhante em sua própria alma, e ele tem apenas que a seguir.
 No entanto, que ele esteja alerta para não confundir as ocasionais quimeras
 dos sentidos psíquicos com o reflexo da grande Luz espiritual — a Luz

 que nunca morre e, entretanto, nunca vive, nem pode brilhar em qualquer
 lugar, exceto no puro espelho do Espírito.”
 “Mas Y. deve usar suas próprias intuições. Deve-se dissipar e con-
 quistar as trevas internas antes de tentar ver na escuridão externamente;
 deve-se conhecer a si mesmo antes de conhecer as coisas que são estranhas
 aos próprios sentidos.”
 “E agora, que os Poderes invocados por meu amigo Y. recebam
 permissão dos Poderes ainda maiores e superiores para ajudá-lo. Este
 é o desejo sincero e ardente de seu verdadeiro e fraterno”
 Esta carta também mostra incidentalmente como um Adepto
 pode servir a outro ainda mais elevado, reportando ou transmitindo
 Sua resposta.

 Para os aspirantes ao Chelado

 O interesse sincero na verdade teosófica é frequentemente se-
 guido por uma séria aspiração pela vida teosófica, e o questionamento
 se repete continuamente: Quais são as condições e os passos para o
 Chelado?; A quem devem ser feitas as solicitações?; Como o candida-
 to pode saber que foi aceito?
 Em publicações como “The Theosophist”30, Man, Esoteric
 ­Buddhism e outras obras teosóficas, muito foi revelado sobre as con-
 dições e a disciplina do Chelado; e algumas das qualificações, das difi-
 culdades e dos perigos foram explicitamente declarados por Madame

 30 Publicado por HPB no início de outubro de 1879, na Índia. (Nota da edição
 original em inglês.)

 Blavatsky em seu artigo “Theosophical Mahātmās”31, em “Path” de
 dezembro de 1886. Recomendamos fortemente um cuidadoso es-
 tudo deste artigo a todos os que nutrem o mais vago desejo de uma
 relação mais próxima com o sistema de desenvolvimento pelo qual
 são originados os Mestres. Isso removerá do campo vários conceitos
 errôneos, aprofundará o senso de seriedade desse esforço e estimulará
 uma saudável desconfiança em si, que é melhor que seja despertada
 antes de transpor o portão.
 No entanto, é inteiramente possível que a busca do desejo e da
 força estimulada pelo referido artigo possa apenas convencer os leito-
 res mais fortemente da sinceridade, e muitos serão animados por ele
 com um propósito mais rico e uma resolução mais profunda. Mesmo
 quando não houver uma intenção clara de alcançar o Chelado, poderá
 haver uma aspiração ardente por maior proximidade com os Mestres,
 por alguma garantia de orientação e de auxílio. Em ambos os casos,
 imediatamente surge ao aspirante a pergunta: Quem receberá a soli-
 citação, e como a aceitação pode ser notificada?
 O passo muito natural e, na verdade, instintivo de tal aspirante
 é escrever para uma das figuras oficiais da Sociedade Teosófica. No
 entanto, isso é um erro, já que a Sociedade Teosófica é um corpo
 exotérico, enquanto a Loja dos Mestres é totalmente esotérica. A pri-
 meira é um grupo de filantropos e buscadores voluntários, dotados de
 propósitos declarados, com uma Constituição impressa, funcionários
 publicamente conhecidos e, além disso, como uma Sociedade, repu-
 dia expressamente qualquer poder de se comunicar com os Mestres;
 a outra é uma Loja Oculta, da qual endereço, membros, processos,

 31 Reimpresso em “Theosophy” XIV, 126. (Nota da edição original em inglês.)

 funções, nada é conhecido. Consequentemente, não há pessoa, lugar
 ou endereço aos quais um aspirante possa recorrer.
 Suponha, no entanto, que tal pergunta seja feita a uma pessoa
 avançada no estudo do Ocultismo, que está bem familiarizada com
 seus métodos, testes e qualificações. Certamente, sua resposta quanto
 a isso seria diretamente esta:
 “Se você já estivesse pronto para ser aceito como chela, saberia
 por si mesmo como, onde e a quem solicitar. Pois tornar-se um chela
 consiste, em realidade, na evolução ou no desenvolvimento de certos
 princípios espirituais latentes em todo homem e, em grande medida,
 desconhecidos por sua consciência atual. Até que você desenvolva
 conscientemente esses princípios em um certo grau, você não estará
 de posse, na prática, dos meios para adquirir os primeiros rudimen-
 tos daquele conhecimento que agora lhe parece tão desejável. Outra
 questão importante é se o desejo vem da sua mente ou do seu coração,
 e essa questão não será respondida por alguém que não tenha ainda
 o caminho para o Ser.
 “É verdade que essas qualidades podem ser desenvolvidas (ou
 forçadas) pelo auxílio de um Adepto. E a maioria dos candidatos ao
 Chelado é movida pelo desejo de receber instruções diretamente dos
 Mestres. Eles não se perguntam o que fizeram para merecer um pri-
 vilégio tão raro. Tampouco consideram o fato de que, sendo todos os
 Adeptos servos da Lei do Karma, se o candidato merecesse a ajuda
 visível d’Eles, ele já a possuiria e não poderia estar buscando por ela.
 Os indícios da concretização da Lei são, de fato, o desenvolvimento
 parcial daquelas referidas faculdades.
 “Portanto, antes que você possa mesmo pedir para ser tomado
 como um chela em provação, você deve chegar a um ponto diferente

 deste em que está agora. Todos os candidatos adentram a Loja invi-
 sível desta maneira, e ela é regida por Leis que contêm em si mesmas
 seu próprio cumprimento, não precisando de qualquer funcionário.
 Nem você deve imaginar que esse probacionário trabalhe sob cons-
 tante e conhecida direção de um Adepto ou outro chela. Em vez disso,
 ele é testado e examinado por pelo menos sete anos, e talvez muitos
 mais, antes que seja alcançado o ponto em que ele seja aceito (e es-
 teja preparado para a primeira série de iniciações, que muitas vezes
 abrangem várias encarnações) ou rejeitado. Essa rejeição não procede
 de algum grupo de homens segundo suas inclinações, mas é a rejeição
 natural por parte da Natureza. O probacionário pode ou não ouvir de
 seu Mestre durante este período preliminar; muito frequentemente,
 ele não ouve. Ele pode, ao final, ser rejeitado e não saber disso, assim
 como alguns homens estiveram em provação e não sabiam disso, até
 que de repente se viram aceitos. Tais homens são aquelas pessoas
 autodesenvolvidas, que, na ordem natural, após muitas encarnações,
 alcançaram aquele ponto em que suas faculdades expandidas lhes de-
 ram o direito de entrar na Sala do Aprendizado, ou na Loja espiritual
 mais além. Tudo o que digo sobre os homens se aplica analogamente
 às mulheres.
 “Quando alguém é regularmente aceito como um chela em
 provação, a primeira e única ordem que ele recebe (por enquanto) é
 trabalhar altruisticamente pela humanidade — às vezes ajudando ou
 recebendo a ajuda de algum chela mais antigo —, enquanto se empe-
 nha por derrotar o vigor da ideia pessoal. As maneiras de fazer isso
 são deixadas inteiramente para sua própria intuição, na medida em
 que o objetivo é desenvolver essa intuição e levá-lo ao autoconheci-
 mento. Sua conquista desses poderes, em certo grau, é o que o leva a

 ser aceito como um probacionário, de modo que é mais que provável
 que ele ainda não os tenha, senão apenas como possibilidades laten-
 tes. Por sua vez, para que ele possa ter qualquer direito de receber
 ajuda, ele deve trabalhar para os outros, embora esta não deva ser sua
 motivação para trabalhar. Aquele que não se sente irresistivelmente
 impelido a servir à raça, falhando ou não, está profundamente preso
 à sua personalidade, e não poderá avançar até que tenha aprendido
 que a raça é ele mesmo, e não esse corpo que ele agora ocupa. O
 fundamento dessa necessidade de uma motivação pura foi recente-
 mente apresentado em ‘Lúcifer’ como: ‘A menos que a intenção seja
 inteiramente pura, a vontade espiritual se transformará em psíquica,
 atuando no plano astral e podendo produzir resultados terríveis. Os
 poderes e as forças de natureza animal podem igualmente ser usa-
 dos pelo egoísta e vingativo quanto pelo altruísta e magnânimo; os
 poderes e as forças do Espírito prestam-se somente àqueles que são
 perfeitamente puros de coração.’32
 “Porém, pode-se afirmar que qualquer homem que não tenha
 obtido o poder de se libertar em certa medida de sua personalidade
 não será capaz de descobrir nem mesmo essas forças naturais. O de-
 sejo emocional de ajudar os outros não implica tal liberdade da per-
 sonalidade, e isso é demonstrado pelo fato de que, se você agora fosse
 aperfeiçoado no verdadeiro sentido do altruísmo, teria uma existência
 consciente separada daquela corporal e poderia deixar o corpo quan-
 do quisesse. Em outras palavras, ser um Adepto é estar livre de todos
 os sentidos do eu, já que as limitações do eu inibem o progresso.

 32 Do artigo “Ocultismo Prático”, de HPB. Ver “Theosophy”, XXXI, 102. (Nota da
 edição original em inglês.)

 “Ouça também as palavras do Mestre, retiradas de O Mundo
 Oculto, de Sinnett: ‘Talvez você aprecie melhor o que queremos dizer
 se o deixarmos saber que, em nossa opinião, as aspirações mais eleva-
 das para o bem-estar da humanidade são manchadas de egoísmo se a
 sombra de um desejo de ganho pessoal ou uma tendência para come-
 ter uma injustiça estiverem ocultos na mente do filantropo, mesmo
 quando existem nele inconscientemente.’
 “Ao apresentar estes fatos, assim como os perigos e as dificulda-
 des — ambos os conjuntos estabelecidos pelas leis da Loja, sendo os
 mais inumeráveis ​​sentenciados pelo Karma e acelerados pelos esfor-
 ços do neófito —, deve-se dizer também que os Mestres não querem
 impedir nenhum homem de entrar no Senda. No entanto, graças a
 repetidos testes e registros seculares, e a partir de seu conhecimento
 sobre as nossas dificuldades raciais, Eles estão cientes de quão poucas
 pessoas têm alguma ideia da verdadeira natureza dessas dificuldades,
 que são o inimigo que elas tentam subjugar no momento que se tor-
 nam alunos do oculto. Consequentemente, tanto quanto permita o
 Karma, Eles tentam impedir que indivíduos despreparados se precipi-
 tem em aventuras imprudentes, cujos resultados afetariam suas vidas
 desequilibradas e os levariam ao desespero. Os poderes do mal, que o
 homem ignorante desafia indevidamente, vingam-se dele e também
 de seus amigos, mas não afetam aqueles que transcendem seu alcance.
 Embora esses poderes não sejam formas objetivas hediondas que se
 manifestam de maneira tangível, eles não são menos reais e perigosos.
 Nestes casos, a precipitação deles não pode ser evitada: é Karma.
 “Portanto, perder todo o sentido de ser implica a perda de tudo
 o que os seres humanos comuns mais valorizam. Por isso, você deve
 considerar seriamente os seguintes pontos:

 “1. Qual é a sua razão para querer ser um chela? Você acha que
 conhece a motivação muito bem, mas ela está escondida dentro de
 você, e por essa intenção recatada você será julgado. Surgiu de regiões
 invisíveis em homens autoconfiantes, irrompeu em algum pensamen-
 to ou ação sombria dos quais eles se acreditavam incapazes, destruin-
 do sua vida ou razão. Portanto, teste a si mesmo antes que o Karma
 faça isso por você.
 “2. Quais são o lugar e os deveres de um verdadeiro neófito?
 “Ao considerar seriamente ambos os pontos por vinte e um
 dias, se o seu desejo permanecer firme, tome um determinado curso
 aberto para você. É isto.”
 “Embora agora você não saiba onde pode se oferecer aos Mes-
 tres como um chela em provação, formulando tal desejo em seu co-
 ração e reafirmando-o (se quiser) após a devida consideração desses
 pontos, em alguma extensão você terá invocado a Lei; e está em seu
 poder constituir-se como discípulo, tanto quanto você se disponha,
 pela pureza de sua motivação e esforço, se ambos forem suficiente-
 mente sustentados. Ninguém pode determinar a época em que tal
 esforço dará frutos; e se sua paciência e fé não forem fortes o sufi-
 ciente para mantê-lo por um período ilimitado (até onde você sabe)
 de trabalho altruísta pela humanidade, seria melhor você abandonar
 sua fantasia atual, pois, na realidade, não é mais que isso. No entanto,
 em caso contrário, você deve trabalhar para a iluminação espiritual da
 humanidade na Sociedade Teosófica (que tanto precisa desses traba-
 lhadores) e por meio dela, e em todas as outras maneiras e planos da
 melhor forma que puder, tendo em mente as palavras dos Mestres:
 ‘Aquele que faz o que pode e tudo o que pode, e tudo o que sabe
 fazer, faz o suficiente por nós.’ Tal tarefa inclui despojar-se de toda

 a personalidade mediante o esforço interior, já que este trabalho, se
 realizado no verdadeiro espírito, é ainda mais importante para a raça
 do que algum trabalho externo que façamos. Vivendo como você está
 agora, principalmente no plano externo, implica que seu trabalho é
 adequado aí, e deve ser realizado até que seu desenvolvimento o ca-
 pacite a abandoná-lo completamente.
 “Ao seguir este curso, você trabalha até um determinado pon-
 to sob observação — como na realidade acontece com todo o corpo
 teosófico, que agora é, como grupo, um chela dos Mestres —, porém
 diferenciado dos demais membros no sentido de que os Fundadores
 invisíveis e a Lei entendem e consideram seu definido propósito e
 confiança. Portanto, momentaneamente, a Sociedade Teosófica é para
 você um chela mais antigo, que lhe foi designado para ajudá-lo, sob o
 qual você trabalhará. Entenda minhas palavras, você não é um chela
 em provação, pois ninguém sem autoridade pode conferir ou procla-
 mar tal privilégio. Mas se você conseguir elevar espiritualmente a si
 mesmo e a outros, isso será conhecido, independentemente do que
 possa parecer ser o silêncio exterior; e você receberá o que lhe é devido
 por parte d’Aqueles que são devedores honestos e ministros da Justa e
 Perfeita Lei. Você deve estar preparado para trabalhar, para esperar e
 para ter aspirações em silêncio, como fazem todos os que direcionam
 seus olhos para esse objetivo. Lembre-se de que o seu conselheiro mais
 verdadeiro deve ser encontrado, e constantemente procurado, dentro
 de você. Somente por experiência você poderá aprender a distinguir a
 voz dele do instinto natural ou da mera lógica, fortalecendo este poder
 em virtude do qual os Mestres se tornaram o que Eles são.
 “O seu primeiro teste consiste em sua seleção ou rejeição de
 tal curso. Outros virão, quer você esteja ciente deles ou não, pois o

 primeiro e único direito do neófito é ser posto à prova. Por causa
 disso, silêncio e dor seguem sua aceitação em vez da oferta de ajuda
 imediata que ele buscava. Porém, mesmo isso não faltará, já que tais
 provações e reveses virão somente da Lei à qual você apelou.”
 J. N.

 C A R TA X V

 Caro Jasper,
 Eu entreguei sua carta a uma alma angustiada; ela agradeceu
 dizendo que foi uma fonte refrescante para uma pessoa sedenta. O
 agradecimento, é claro, é a você. Essa senhora conta que a carta foi
 um revigorante ao seu cansaço. Ela não mencionaria se não fosse
 verdade. Mas essa carta não desempenhou tal papel nem a mim nem
 a você.
 Não precisávamos dela. Porém, essa senhora ilustra um certo
 estado de progresso. Ela ainda não se encontra onde estamos; mas
 quem é mais feliz? Ela é mais feliz, mesmo sendo mais pobre de
 esperança. Nós não somos tão felizes, mas somos ricos de esperança,
 pois sabemos da recompensa ao final, e não somos desencorajados
 pelas nuvens, pelas tempestades, pelos miasmas e pelas terríveis feras
 de rapina que se alinham no caminho. Portanto, desde o início, pu-
 rifiquemos nossa alma de todo desejo de recompensa e de toda ex-
 pectativa que possamos lograr, pois enquanto tivermos expectativa e
 desejo, estaremos separados do Ser. Se todas as coisas existem no Ser,
 então não podemos desejar ser algo que só podemos compreender

 por excluir alguma outra coisa. Estando onde estamos, purifiquemo-
 -nos para ser todas as coisas.
 Assim, estando além desta senhora tão agradecida, descobri-
 mos que tudo que encontramos neste plano ilusório de existência
 é uma tentação que, de uma forma ou de outra, tem o poder de nos
 desviar de nosso caminho. Este é o ponto em que nos encontramos, e
 podemos chamá-lo de fase em que as tentações de Māyā têm poder
 onipresente. Por isso, devemos estar cientes das ilusões da matéria.
 Antes de chegarmos a tal estado, conhecemos bem, aqui e ali
 em posições bem definidas, a tentação fatal, o espelho deslumbrante
 do puro Ser, entrincheirado, por assim dizer, em defesas fortemente
 marcadas. Nós as atacamos; e era isso que o Ser queria, pois então Ele
 achava que não precisava exercer o encanto, que é difícil por ser tão
 sutil, e então difundia aqui e ali que não tínhamos cidadelas a tomar,
 nem exércitos em posição de batalha. Mas agora nossos mais queri-
 dos amigos estão inconscientemente ligados à natureza ilusória. Com
 que intensidade percebo o abatimento de Arjuna ao deixar cair de
 sua mão o arco e sentar-se em sua carruagem em desespero! Porém,
 ele tinha um porto seguro para descansar. Ele usou o seu próprio. Ele
 tinha Krishna em seu íntimo, e pôde continuar lutando.
 Assim, ao passarmos por esse estágio onde se encontram essa
 grata senhora e outros, talvez tenhamos encontrado um local que po-
 demos chamar de nosso e que não possui qualquer outra qualificação
 para lhe ser atribuída. Esse local é o suficiente. Ele é a nossa crença
 no Ser, nos Mestres; a pequena chama da intuição que permitimos
 que se acendesse e que nutrimos com cuidado.
 Em seguida, surgem essas terríveis tentações. Na realidade, são
 meras carcaças, cascas de monstros de existências passadas, que se

 oferecem para que possamos vitalizá-las e nos aterrorizar assim que
 as deixamos entrar, seja por medo ou por amor. Não importa como
 penetrem, seja pelo apego ou pelo horror repulsivo, porque é tudo a
 mesma coisa; são vivificadas, em alguns casos, por um amante, e em
 outros por um escravo que gostaria de ser livre mas não pode.
 Aqui está a tentação de desfrutar dos prazeres naturais que
 crescem a partir da base física da vida; nela estão o autoelogio, a raiva,
 a vaidade, e quais não? Até mesmo essas belas colinas e este rios en-
 ganam você, pois eles vivem sua vida sem restrições. Talvez eles não
 falem conosco porque conhecem a superioridade do silêncio. À noite,
 eles riem de nós um com o outro, se divertindo com a luta selvagem
 desse homem mesquinho que iria puxar o céu para baixo. Ah, Deus
 do céu! E todos os bebês da Teosofia desejam que algum grande e
 bem qualificado Adepto venha e abra a caixa secreta; e eles não su-
 põem que outros estudantes pisaram nos espinhos que guardam a
 entrada do caminho que leva ao portão da Senda. Mas não os cul-
 paremos, nem mesmo desejaremos as coisas — os talentos especiais
 — que alguns tiraram; porque agora conhecemos o poder assustador
 que têm o desespero, a dúvida e a consciência violada, preferimos nos
 preparar com sabedoria e cuidado, sem correr como tolos para onde
 os anjos não passam sem serem convidados.
 Mas, Companheiro, eu o lembro do poder da tentação. Esta
 Senda se estende sob um céu e um clima onde cada erva daninha
 cresce um metro durante a noite. Não tem discriminação. É por isso
 que, mesmo depois de semanas ou meses de devoção, ou anos de
 trabalho, ficamos surpresos ao ver pequenas sementes de vaidade,
 ou de outra coisa, que teriam sido facilmente subjugadas em outros
 anos de vida desatenta, mas que agora parecem brotar como que

 impulsionadas por alguma Inteligência perversa. Este grande poder
 de autoilusão é forte o bastante para criar uma torrente tempestuosa
 ou uma montanha de gelo entre nós e nossos Mestres.
 A respeito da questão sexual. Como você sabe, tanto as mulheres
 como os homens dão muita proeminência de um sexo em detrimento
 do outro, ou de qualquer suposto sexo. Segundo alguns, o sexo femi-
 nino não pode ser considerado no plano espiritual, pois tudo ali seria
 masculino, e outros afirmam o mesmo em relação ao feminino. Ora,
 ambos estão errados. Para a Verdade, não há sexo; e quando eu disse,
 “Lá todos os homens são mulheres e todas as mulheres são homens”,
 estava simplesmente usando um artifício retórico para acentuar a ideia
 de que nem um nem outro seriam predominantes, mas que ambos es-
 tariam unidos, por assim dizer, em um. Da mesma forma, você poderia
 dizer, “os homens são animais e vice-versa”. Note bem que isso diz
 respeito ao Espírito, e não aos estados psíquicos, pois nestes últimos
 ainda há distinções, já que o estado psíquico, embora superior ao ma-
 terial, não é tão elevado quanto o Espírito, participando ainda da ma-
 téria. No Espírito, ou Ātmā, todas as experiências de todas as formas
 de vida e de morte são encontradas ao mesmo tempo, e aquele que é
 um com o Ātmā conhece o todo o Universo manifestado de imediato.
 Anteriormente, falei de tal condição como Turya, ou quarto estado.
 Quando digo que o princípio feminino representa a matéria,
 não me refiro às mulheres, pois elas, em um ou mais casos, podem
 estar plenas do princípio masculino, e vice-versa.
 A matéria é ilusória e enganosa, portanto o elemento feminino
 é ilusório e enganoso, além de tendencioso à ordem estabelecida.33

 33 Embora seja uma qualidade negativa ou passiva. ( J.N.)

 Assim, na Cabala é dito que a mulher é uma parede ao redor do ho-
 mem. É necessário um equilíbrio, e ele é encontrado nas mulheres,
 ou no elemento feminino. Você pode ver facilmente que a tendência
 geral das mulheres é manter as coisas como estão, sem fazer mudan-
 ças. A mulher em geral — e não em casos particulares — nunca foi
 pioneira das grandes reformas. É claro que muitas mulheres indivi-
 dualmente desempenharam o papel de pioneiras, mas a tendência da
 grande maioria delas sempre foi manter as coisas como estavam, até
 que os homens fizessem a grande mudança. Esta é a razão pela qual
 as mulheres sempre apoiam alguma religião estabelecida, indepen-
 dentemente de ser cristã, judaica, budista ou brâmane. As mulheres
 budistas tão profundamente crentes em sua religião e avessas a mu-
 dança quanto suas irmãs cristãs se opõem em massa a mudar a sua.
 Agora, quanto a qual elemento predomina em cada pessoa, é
 difícil dar uma regra geral para discerni-lo. Mas talvez possa ser en-
 contrada no fato de uma pessoa ser inclinada aos pensamentos abs-
 tratos ou concretos e, da mesma forma, se ela se interessa por coisas
 meramente superficiais ou por assuntos profundos e fundamentais.
 Mas cabe a você descobrir isso por si mesmo.
 É claro que na vida espiritual nenhum órgão desaparece, mas
 devemos descobrir qual seria o modo de funcionamento de qualquer
 órgão em sua contraparte espiritual. Pelo que entendi, as contrapartes
 espirituais dos órgãos são poderes, e não órgãos, pois o olho é o po-
 der de ver, o ouvido é o poder de ouvir e assim por diante. Portanto,
 os órgãos geradores se tornariam então o poder criativo, e talvez a
 Vontade. Você não deve presumir que na vida espiritual os órgãos são
 reproduzidos como os vemos.

 Um exemplo será suficiente. Pode-se ver imagens na luz astral
 através da parte de trás da cabeça ou do estômago. Em ambos os
 lugares não há olhos, embora enxerguemos. Deve ocorrer por meio
 do poder de ver, que no corpo material necessita de um local ou um
 órgão especializado conhecido como “olho”. Muitas vezes ouvimos
 pela cabeça sem o auxílio do aparelho auditivo, o que nos mostra a
 existência do poder de ouvir e de transmitir e receber sons sem o au-
 xílio de um ouvido externo, ou seu aparelho cerebral interno. Então,
 é claro, todas essas coisas sobrevivem dessa maneira. Qualquer outro
 ponto de vista seria excessivamente material, levando a uma deifica-
 ção desse corpo irreal, que é apenas uma imagem da realidade, uma
 fraca imagem.
 Ao refletir sobre esses assuntos, você deve sempre ter em mente
 as três distinções simples de físico, psíquico e espiritual, lembrando-
 -se constantemente que o último inclui os outros dois. Todas as coisas
 astrais pertencem à natureza psíquica, que é parcialmente material e,
 portanto, enganosa. Mas todos são necessários, porque são e existem.
 A Deidade está sujeita a esta lei, melhor ainda, esta é a lei da
 Deidade. A Deidade deseja experiência ou autoconhecimento, que só
 é alcançável, por assim dizer, deixando de lado o eu. Consequente-
 mente, a Deidade produz os universos manifestados que consistem
 em matéria, natureza psíquica e Espírito. Somente no Espírito reside
 a grande consciência do todo; e assim Ela continua a produzir e a
 atrair para dentro de si, acumulando experiências tão vastas e amplas
 que a pena cai de nossas mãos quando pensamos nelas. Como tudo
 isso pode ser expresso em palavras? É impossível, pois imediatamente
 nos deparamos com o pensamento de que a Deidade sabe de tudo
 o tempo todo. No entanto, neste pensamento do Dia e da Noite de

 Brahman há uma vastidão e uma inspiradora influência. É algo a se
 ponderar nos recônditos secretos do coração, e não é um assunto para
 discussão. É o Todo.
 Agora, meu irmão, por enquanto eu o deixo. Que sua saúde
 restaurada o capacite a trabalhar mais pelo mundo.
 Saúdo-o, meu irmão, e desejo que você alcance do terraço da
 iluminação.
 Z.

 LIVRO II

 Este pequeno livro é oferecido
 no Altar, com devoção,
 AOS IMORTAIS,
 e a serviço da humanidade.

 Junho de
 Compilado por
 THOMAS GREEN e JASPER NIEMAND

 “Até hoje fui um exilado do meu verdadeiro país;
 agora eu volto para lá. Não chore por mim.
 Volto àquela terra celestial para onde cada um vai
 quando chega sua vez.”
 (HERMES TRISMEGISTOS)

 Prefácio

 Uma diferença marcante será notada entre este segundo vo-
 lume de Cartas que me ajudaram e o anterior. O primeiro tinha uma
 unidade de propósito e desenvolvimento que estabelecia, na devida
 ordem, os principais pontos do ensinamento oriental. Essa unidade
 proveio de forma tangível a partir do fato de que a série de cartas
 foi escrita para um indivíduo, e assim elas se atinham a uma linha
 apropriada às necessidades e aos estudos que se desenvolviam nesse
 indivíduo, bem como em todos os estudantes que seguem uma linha
 de pensamento idêntica.
 Em vez disso, o presente volume consiste em cartas, e em tre-
 chos de cartas, escritas para várias pessoas em diferentes partes do
 mundo. Em muitos casos, os indivíduos, a quem os compiladores pe-
 diram, enviaram apenas um trecho, para que parte de seu tesouro
 pudesse ser compartilhado com o resto da humanidade. Em outras
 ocasiões, cartas inteiras foram enviadas, mas continham questões pes-
 soais ou outros assuntos que não poderiam ser publicados. Ainda em
 outros casos, as cartas foram publicadas em sua totalidade. Pensou-se
 que seria melhor omitir todas as saudações iniciais e finais para que
 não houvesse nenhuma discriminação com relação aos destinatários,
 permitindo assim que as verdades contidas nas cartas se destacassem
 em seu próprio relevo, não maculadas por um rótulo ou um nome.

 Muitos dos trechos foram publicados em “Irish Theosophist” e outros
 na seção “Tea Table”34 de “The Path”, onde o Sr. Judge escreveu sob
 o pseudônimo de Quickly. Foi ele quem expressou por escrito a um
 dos compiladores o desejo de reeditar a série (acrescentando mais
 material) na forma de um segundo volume da obra anterior. Portanto,
 os compiladores estão realizando os propósitos diretos do Sr. Judge.
 Enquanto o Sr. Judge ainda estava vivo, foi possível reorgani-
 zar, sugerir recorte ou ampliação ou agrupamento de vários trechos
 em uma carta; além disso, também era possível fazer anotações, já
 que Judge lia todas as cópias e estava sempre pronto para considerar
 qualquer sugestão, e também gostava de ver que seu anotador havia
 entendido o significado ou poderia corrigir erros a este respeito. Cla-
 ramente, tal reorganização era altamente desejável, pois acrescentava
 integridade e unidade à série. Esperávamos poder continuar com esse
 método no presente volume, mas a morte do escritor tornou isso im-
 possível. Só podemos publicar algumas cartas na íntegra e reunir o
 restante do material na forma de excertos.
 Mais um ponto. Uma quantidade considerável de cartas surgiu,
 e um compilador apenas possui um grande número delas, cujas datas
 remontam à publicação do primeiro volume, cobrindo aqueles anos
 durante os quais as provações do Sr. Judge ficaram cada vez mais pesa-
 das, um período ao qual sua morte prematura colocou fim. Ninguém
 sabe quão intensos foram esses testes, exceto o Mestre a quem Judge
 serviu com tanta devoção. A última carta da série foi escrita pouco
 antes de sua morte. Em nenhuma carta de toda a correspondência

 34 “Tea Table Talk” [Conversas à mesa de chá], uma seção da revista “The Path”.
 (N.E.)

 — nenhuma carta que os compiladores viram — há qualquer pa-
 lavra dura ou condenatória dirigida aos autores de suas provações.
 Ele aceitou a amarga e profunda injustiça que lhe foi cometida sem
 dizer uma palavra que contradiga a fé que tinha e os ensinamentos
 que revelou. Há uma certa surpresa; uma ou duas vezes, o incômodo
 causado pela perda de tempo, por ações e palavras irracionais. Mas
 então ele se volta para aquela sábia compaixão que reconhece que
 quem realmente sofre não é o injustiçado, mas aquele que inflige uma
 injustiça.
 O Sr. Judge sempre ensinou o verdadeiro Ocultismo, o cami-
 nho mais elevado. No momento de sua provação, ele seguiu esse ca-
 minho passo a passo. No destino dos crucificados, seja o Cristos ou os
 discípulos do Cristos, verifica-se que aqueles que recebem mais ajuda
 e serviços são sempre aqueles que negam mais ruidosamente. O trai-
 dor é aquele que se senta “à mesa” com eles. E de toda a longa linha
 de mártires, nenhum jamais foi exonerado em sua era, justificado em
 sua época. Este fato por si só deveria fazer os homens ponderarem,
 lembrando-lhes que as massas sempre preferem a libertação dos Bar-
 rabás.
 O grande drama sempre segue as mesmas linhas. O iniciado,
 seja ele um discípulo ou um Adepto, não pode se defender: essa é lei
 inexorável. No entanto, ele pode contar com o mais terno apoio que
 todos os seus maiores predecessores podem conceder ao longo do ca-
 minho de espinhos; toda a alegria de uma batalha travada nobremen-
 te; toda a gratidão daqueles entre os seus companheiros, cuja intuição
 pode segui-lo por trás do véu que esconde o iniciado de nossa vista.
 Portanto, essas cartas são permeadas da compaixão, da paciên-
 cia e da fraternidade que seu autor viveu para incutir. Claro, ele sentiu

 a dor, mas a controlou bravamente. Seu grande e gentil coração per-
 maneceu essencialmente fiel. Ele suavizou as horas de amargura com
 uma profunda resignação à Lei. Ele foi um daqueles sobre quem está
 escrito: “Aquele que perde sua vida por amor a Mim, a encontrará.”
 Publicamos essas cartas para ajudar a humanidade. Nós as
 submetemos ao julgamento da posteridade, sabendo bem que nos
 espaços eternos só prevalece a Verdade. Aquele que aqui vemos am-
 parando e confortando seus companheiros nas horas mais tristes de
 sua vida, mesmo às portas do túmulo, foi, por sua vez, apoiado não só
 por uma grande fé e por uma Mão Todo Compassiva, mas também
 pelo Amor que ele consagrava em seu próprio coração sereno. Para o
 Mestre, ele deixou o restante.

 Os Compiladores.

 C A R TA I

 Queridos irmãos e irmãs,
 Não acredito que vocês vão achar impróprio eu me intrometer
 novamente com vocês. Estou tão longe, e o lugar onde morou minha
 velha amiga e instrutora — aquela que me mostrou o caminho que,
 se o seguirmos, deve nos conduzir à luz, à paz e ao poder da verdade
 — é muito caro para mim. Eu falaria prazerosamente com os meus
 colegas de trabalho que agora vivem onde ela trabalhou e onde a sua
 poderosa alma deixou o corpo que usou para nosso benefício. Esta é
 certamente uma razão suficiente.
 Consulte a carta do Mestre em O Mundo Oculto, e você o verá
 dizendo que os Mestres são filantropos e se importam somente com
 isso. Portanto, o membro mais antigo da Sociedade Teosófica, que
 foi egoísta e não filantrópico, nunca foi notado pelos Mestres e, na
 realidade, nunca fez nada pelo desenvolvimento da alma em sua pos-
 se, e nada pela raça humana. A filiação à Sociedade Teosófica ou a
 qualquer outro corpo místico não é o que nos aproxima dos Mestres,
 mas apenas tal trabalho filantropo, com motivação pura.
 Então eu sei, e digo abertamente — pois como somos tão próxi-
 mos devemos falar com franqueza — que alguns de nós, e talvez todos
 nós, temos esperado e imaginado, desejado e tido expectativas de quê?
 Expresso, assim, de forma variada: um desejo de ir até os Mestres, igno-
 rando se é o adequado ou não; outro quer saber o que é a vaga aspiração
 que sente dentro de si; outro ainda diz: se ao menos se desenvolvessem
 os sentidos internos, e espera que os Mestres o façam, e assim por diante.
 Tudo isso o Mestre expressa no que escreveu: “Você quer saber mais

 sobre nós, sobre nossos métodos de trabalho, e é por isso que você está
 seguindo a linha do Ocultismo.” Bem, é certo que procuremos, tentemos
 e queiramos alcançar esses Seres, pois, do contrário, nós nunca chegare-
 mos, em era alguma, aonde Eles estão. No entanto, como sábios pensa-
 dores, devemos agir e pensar com sabedoria. Conheço muitos de vocês; e
 o que estou dizendo deverá auxiliar a alguns como também a mim.
 Todos vocês estão no caminho para os Mestres; porém, na con-
 dição em que nos encontramos, com corpos fracos e hereditariamente
 enfermos, não poderíamos viver uma hora com os Mestres, mesmo
 se de repente pudéssemos transpor o espaço que nos separa d’Eles.
 Alguns também sentem dúvidas e obscuridade — as dúvidas dizem
 respeito principalmente a si mesmos. Isso não deveria ser alimentado,
 pois é um aspecto do homem inferior que luta para mantê-lo entre os
 medíocres da raça. Quando você se eleva acima desse nível da raça, o
 inimigo do homem ataca, a todo momento, trazendo nuvens de dúvida
 e desespero. Você deveria saber que cada um de nós, mesmo o mais
 obscuro, todos que estão trabalhando incessantemente estão igualmen-
 te se aproximando gradativamente de uma mudança, e assim, suces-
 sivamente, de outras mudanças, que são todas passos na direção do
 Mestre. Não permita que o desânimo penetre em você. O tempo é ne-
 cessário para todo crescimento, toda mudança e todo desenvolvimento.
 Deixe o tempo fazer seu trabalho perfeitamente, e não o interrompa.
 Como ele poderia ser interrompido? Quantos já pensaram sobre
 isso, eu não sei, mas aqui está um fato. À medida que um estudante sin-
 cero segue trabalhando, seu trabalho o aproxima um passo a cada dia; e
 se houver um avanço, é certo haver uma espécie de silêncio ou solidão
 em torno da floresta de sua natureza. Então, ele pode interromper todo
 o processo ao permitir que o desespero penetre por vários motivos e

 pretextos; ele pode, assim, se lançar de volta ao ponto de partida. Esta
 não é uma lei arbitrária, pois é a da Natureza. É uma lei da mente, e
 os inimigos do homem tiram vantagem dela para arruinar o discípulo
 imprudente. Jamais permitirei que o medo ou o mais ínfimo desespero
 apareçam, porém, caso não eu consiga ver o caminho ou a meta, por
 causa da neblina, eu simplesmente vou me sentar e esperar; não permi-
 tirei que a neblina me induza a pensar que o caminho não está ali e que
 eu não poderei percorrê-lo. A névoa tem que se dissipar.
 Afinal, qual é então o remédio — o talismã real? É o DEVER,
 o Altruísmo. O dever seguido persistentemente é o yoga superior, e é
 melhor do que mantras, posturas ou qualquer outra coisa. Se você pu-
 der cumprir apenas o seu dever, isso o conduzirá à meta. Além disso,
 meus queridos amigos, posso jurar, os Mestres estão nos observando a
 todos nós; e quando chegarmos ao ponto certo e realmente merecer-
 mos, Eles, sem falta, se manifestarão a nós. Sei que, a todo momento,
 Eles nos ajudam e tentam fazê-lo na medida que Os permitimos.
 Não há dúvida de que os Mestres anseiam (para usar um termo
 comum) que o maior número possível alcance o estado de poder e
 amor em que Eles se encontram. Por que, então, supor que Eles não
 ajudam? Como Eles são Ātman e, portanto, a própria lei do Karma,
 Eles estão em tudo na vida e em cada fase de nossos dias e anos em
 constante mudança. Se você elevar sua fé nesse sentido, chegará mais
 perto da ajuda d’Eles do que pode imaginar.
 Envio-lhe meu amor e esperança, e os melhores pensamentos
 para que você encontre a grande luz brilhando à sua volta todos os
 dias. Ela está aí.
 Seu irmão,
 William Q. Judge

 C A R TA I I

 Mais uma vez, na ausência de Annie (Besant), que está tão dis-
 tante, envio-lhe uma palavra de saudação fraterna. Peço-lhe que a leia
 impessoalmente em todos os aspectos, pois não tenho pensamentos
 reservados e nenhuma intenção oculta nela, e não recebi qualquer
 carta ou notícia de ninguém que me levasse a escrever. Estamos tão
 distantes um do outro que, de vez em quando, é bom termos uma
 saudação desse tipo, e ela deve ser recebida no espírito com que foi
 enviada. Não é possível enviar para qualquer outro centro residencial,
 já que nenhum outro existe na Sociedade — vocês são os únicos.
 Aqui não temos nada disso, quase todos moram em outros lugares, e
 este é simplesmente um centro para trabalho.
 Muitas vezes, foram feitas tentativas para fundar centros resi-
 denciais cooperativos, mas todas falharam. Uma delas foi feita aqui,
 e o centro é famoso. Era chamado de Brook Farm, mas não tinha al-
 gum objetivo e filosofia tão elevados quanto o que vocês têm; e, assim,
 os atritos pessoais, que se desenvolvem em qualquer lugar onde haja
 muita aproximação, causaram sua desintegração. Este deve ser um
 guia para vocês, de forma a permitir que vocês observem e evitem tais
 consequências. O seu pode diferir em número e em pessoal, porém
 jamais poderá ser desintegrado se a meta for elevada e se o autojul-
 gamento for rigoroso e não hipócrita. Não os estou acusando disto,
 mas apenas expondo um risco humano comum, do qual o teósofo, em
 nenhum momento, está isento. Na realidade, o teósofo está em perigo
 no seu centro pelo fato de que ele está cercado por forças poderosas.
 Portanto, todos devem estar sempre atentos, pois o elemento pessoal

 tem uma tendência a nos enganar, escondendo-se atrás das paredes
 e se vestindo com as imperfeições, reais ou imaginárias, dos outros.
 Sendo o seu centro o único desse porte, é útil que vocês reflitam
 em como todos podem agir da melhor maneira para torná-lo verda-
 deiramente internacional. Claro, cada um tem direito à sua “excentri-
 cidade” particular, no entanto, ninguém deve pensar em julgar outra
 pessoa porque não compartilha o mesmo tipo de “excentricidade”.
 Um indivíduo come carne, outro não. Nenhum deles é universalmen-
 te correto, pois o reino dos céus não é alcançado comendo carne nem
 abstendo-se dela. Uma pessoa fuma, outra não; ambas não são univer-
 salmente certas ou erradas, porque para uma fumar é bom e para outra
 é ruim. O indivíduo verdadeiramente cosmopolita permite a todos a
 liberdade de agir como quiserem em tais assuntos. Os fundamentos
 são as únicas coisas sobre as quais o verdadeiro Ocultismo e a Teoso-
 fia exigem uma concordância, e essas questões temporárias, como ali-
 mentação e hábitos diários, não são essenciais. Alguém também pode
 cometer o erro de exibir demais sua linha de vida ou ação particular.
 Quando isto é feito, o mundo inteiro fica enfadonho, e nada de efetivo
 e duradouro é obtido, exceto uma impressão extravagante.
 Um lugar como o seu, onde tantos, de todos os tipos de nature-
 za, se encontram, oferece uma oportunidade única de enriquecimen-
 to e benefício para a autodisciplina. Nele o atrito de personalidades
 é inevitável, e se cada um aprender o grande princípio de “dar e rece-
 ber”, e não se concentrar nas imperfeições dos outros, mas nas suas
 próprias, então, por causa do atrito, pode ser produzido um grande
 progresso. Os Mestres disseram que o grande passo é aprender a sair
 da rotina que cada um tem por natureza e por educação, e preencher
 os antigos sulcos. Alguns interpretaram mal isso, aplicando-o apenas

 aos simples hábitos externos da vida, esquecendo que sua verdadeira
 aplicação se refere também aos sulcos mentais e astrais. Toda mente
 tem um sulco, e não está naturalmente disposta a se conduzir no sul-
 co natural de outra mente. Daí o atrito e a disputa. Ilustrem isso por
 meio da roda flangeada da locomotiva a vapor girando ao longo do
 trilho. Ela não pode correr em uma bitola mais larga ou em uma mais
 estreita, estando, portanto, restrita àquela. Remova a flange da roda e
 torne a face da roda mais larga, e então ela poderá girar em qualquer
 trilho possível. A natureza humana em geral é como a locomotiva —
 ela é flangeada e funciona em um determinado tamanho de trilho
 —, mas o ocultista, ou o aspirante a ocultista, deve remover a flange
 e ter uma roda com face alargada que se adapte a outra mente ou
 natureza. Portanto, mesmo em uma vida, poderíamos nos beneficiar
 de inúmeras existências, pois as vidas de outros homens se desen-
 rolam ao nosso lado sem que as percebamos ou sem que estejamos
 familiarizados com elas, porque nossa roda é muito larga e flangeada,
 ou excessivamente estreita e também flangeada. É verdade, isso não é
 fácil de mudar, mas em todo o mundo não há melhor oportunidade
 para efetuar a alteração do que essa que se apresenta a você a toda
 hora. Eu gostaria muito de ter uma oportunidade como essa, a qual o
 Karma me negou, e me dou conta da perda em que incorro todos os
 dias pelo fato de não a ter nem lá nem aqui. Vocês a têm, e a partir daí
 ela deve se espalhar por toda a Terra, mais cedo ou mais tarde, para
 homens e mulheres abertos, livres e fortes para realizar a obra de aju-
 dar o mundo. O fato de eu relembrar-lhes tudo isto não é uma crítica,
 mas se deve à minha própria falta de tal oportunidade, e, estando eu
 distante, posso ver a questão com mais clareza e o que ela possui para
 seu próprio benefício, e também para o de todos os outros.

 É natural que se pergunte: “O que esperar do futuro, e o que
 pensar do objetivo preciso, se houver, do nosso trabalho?” Essa per-
 gunta pode ser respondida de várias maneiras.
 Em primeiro lugar, para cada um de nós há um trabalho, em e
 sobre nós próprios, cujo objetivo é a iluminação de si mesmo para o
 bem dos outros. Se tal objetivo for buscado de forma egoísta, desfru-
 taremos de alguma iluminação, embora não a quantidade necessária
 para o trabalho completo. Devemos nos observar a fim de converter
 a cada um de nós em um centro do qual, de acordo com nossa capa-
 cidade, possam brotar as potencialidades para o bem, que fluem no
 Adepto em vastas e abundantes correntes. O futuro de cada um, por-
 tanto, virá de cada momento presente. Ao usar o momento presente,
 elevamos ou degradamos o futuro para o bem ou para o mal; sendo o
 futuro simplesmente uma palavra para o presente que ainda não che-
 gou, devemos prestar atenção ao presente mais que a qualquer outra
 coisa. Se o presente está cheio de dúvidas ou hesitações, o futuro será
 o mesmo; mas se for pleno de confiança, tranquilidade, esperança,
 coragem e inteligência, o futuro será idêntico.
 No que diz respeito ao alcance maior do trabalho, ele surge do
 esforço conjunto da massa total das unidades, abrangendo a raça; e
 como não podemos fugir do seu destino, devemos afastar a dúvida
 e continuar trabalhando. A raça, como um todo, está em um estado
 de transição, e muitas de suas unidades são retidas pela condição do
 todo. Achamos o caminho difícil porque, como pertencemos à raça,
 as tendências raciais gerais nos afetam fortemente. Não podemos eli-
 minar isso em um momento. Não adianta reclamar por causa delas,
 uma vez que, no passado distante, contribuímos para torná-las o que
 são agora. A única forma de as alterarmos é por meio de uma ação

 agora que faça de cada um de nós um centro para o bem, uma força
 que atue “para a justiça” e que seja guiada pela sabedoria. Por causa
 do grande poder do mal coletivo, cada um de nós tem uma luta maior
 para travar no momento em que forçamos nossa natureza interna
 para além do nível inerte do mundo. Portanto, antes de empreen-
 der tal esforço, devemos acumular em mérito no plano inferior, tanto
 quanto possível, por meio de atos altruístas, por pensamentos bon-
 dosos e por desligar nossas mentes das tentações mundanas. Isso não
 nos isolará do mundo, mas nos libertará da grande força que [ Jacob]
 Boehme chamou de “Turba”, se referindo ao imenso poder da base
 inconsciente e material de nossa natureza. Neste plano, sendo a base
 material desprovida de alma, ela está mais inclinada para as coisas
 inferiores da vida do que para as superiores.
 Portanto, é inútil, como muitos de nós fazem, desejar ver os
 Mestres e estar com Eles, enquanto não tivermos conquistado, em
 alguma extensão, tal força que nos constitua um centro para o bem.
 Eles não poderão nos ajudar, a menos que forneçamos a condição;
 e um mero desejo não é uma condição necessária. A nova condição
 exige uma mudança em pensamento e em natureza.
 Assim, os Mestres disseram que esta é uma era de transição, e
 quem tem ouvidos para ouvir compreenderá o que foi dito. Estamos
 trabalhando para os novos ciclos e séculos. O que fazemos agora, nes-
 ta era de transição, corresponderá ao que os elevados Dhyan Chohans
 fizeram no ponto de transição — o ponto intermediário na evolução
 —, no momento em que toda a matéria e todos os tipos estavam em
 um estado transitório e fluido. Então, eles deram um novo impulso
 para os novos tipos, que resultaram mais tarde em todas as vastas va-
 riedades da Natureza. Do ponto de vista do desenvolvimento mental,

 estamos atualmente no mesmo ponto, e o que agora fazemos com
 fé e esperança para os outros e para nós mesmos terá seu resultado
 semelhante no plano para o qual tudo se dirige. Assim, em outros
 séculos, voltaremos novamente e continuaremos esse trabalho. Se o
 negligenciarmos agora, será pior para nós. Consequentemente, não
 estamos trabalhando para alguma organização particular dos novos
 anos futuros, mas para uma mudança no Manas e no Buddhi da raça.
 É por isso que pode parecer uma tarefa indefinida, porém é mui-
 to definida e com um propósito muito amplo. Permita-me dirigir
 sua atenção para aquela parte de A Doutrina Secreta35 que o próprio
 Mestre escreveu, na qual o ponto médio da evolução em relação aos
 mamíferos ungulados é explicado. Ela lhe dará um vislumbre sobre o
 que temos de empreender, removendo assim todos os desejos vãos de
 uma estadia com nossos guias e irmãos invisíveis. O mundo não está
 livre de superstições, e nós, como partes dele, devemos ter preserva-
 do alguns vestígios da mesma coisa. Eles disseram que uma grande
 sombra acompanha todas as inovações na vida da humanidade. O
 sábio não fará com que tal sombra apareça muito cedo — não até que,
 ao mesmo tempo, alguma luz esteja pronta para se irradiar, a fim de
 dissipar as trevas.
 Os Mestres poderiam fornecer agora toda luz e conhecimento
 necessários, mas há tanta escuridão que poderia devorar a luz, exceto
 no caso de algumas almas brilhantes, e então surgiria uma escuridão
 maior. Muitos de nós não conseguiríamos captar ou compreender
 tudo o que poderia ser transmitido, e resultaria um perigo para nós e

 35 De H.P. Blavatsky. Originalmente publicada em 1888. (Nota da edição original
 em inglês.)

 uma nova dificuldade para outras vidas, que teriam de ser resolvidos
 com dor e tristeza. É por bondade e amor que os Mestres não nos
 cegam com o flash elétrico da verdade completa.
 Porém, de um ponto de vista concreto, nosso trabalho geral tem
 um certo objetivo. Consiste em originar uma nova força, uma nova
 corrente no mundo, por meio da qual grandes e antigos Gnanis, ou
 sábios, sejam atraídos outra vez para encarnar entre os homens aqui
 e ali, trazendo de volta a verdadeira vida e as verdadeiras práticas.
 Atualmente, uma nuvem de escuridão cobre tudo, impedindo a atra-
 ção de qualquer Gnani. Aqui e ali, alguns raios a penetram. Mesmo
 na Índia reina a escuridão, pois lá, onde a verdade está escondida, o
 espesso véu do dogma teológico esconde tudo; e embora haja grande
 esperança lá, os Mestres não podem penetrar as mentes que estão
 abaixo. Temos que educar o Ocidente para que ele possa apreciar as
 possibilidades do Oriente e, ao fazê-lo, na estrutura de espera orien-
 tal, possa ser construída uma nova ordem de coisas para o benefício
 de todos. Cada um de nós deve se tornar um centro de luz — uma
 galeria de imagens da qual sejam projetadas na luz astral tais cenas,
 influências e pensamentos que possam influenciar a muitos para o
 bem; assim uma nova corrente será despertada, que acabará por atrair
 outra vez os grandes e bons de outras esferas, de além da Terra. Isso
 não é espiritualismo de forma alguma, pois não tem qualquer refe-
 rência aos habitantes da terra dos fantasmas.
 Tenhamos, então, muita fé e confiança. Veja quantos ocasional-
 mente partiram de seu centro para muitas partes distantes do mundo
 e quantos continuarão a fazê-lo para o bem e o benefício da humani-
 dade em todos os lugares. Eles foram a todos os lugares, e assim deve
 ser ainda que causas além de seu controle produzam a desorganização

 do centro. Seu poder e realidade jamais serão destruídos, mas perma-
 necerão para sempre, mesmo após o completo desaparecimento de
 tudo, no que diz respeito a tijolos e cimento.
 Apresento-lhe os meus melhores votos e saudações fraternas
 para o ano novo e para cada ano que vier.
 Afetuosamente seu,
 William Q. Judge

 C A R TA I I I

 Estou lhe enviando esta carta para que você possa guardá-la e
 usá-la mais tarde, quando eu lhe disser. Isso será comandado por mim
 mais tarde.
 O Movimento Teosófico foi iniciado como uma obra da Fra-
 ternidade da qual HPB é um membro, e na qual o grande Iniciado,
 que ela chamou de Mestre, é um dos Chefes. Ele se originou entre
 os ocidentais por ocidentais, sendo os dois principais agentes HPB,
 uma russa, e H.S. Olcott, um americano. O lugar onde o Movimento
 começou também foi no Ocidente — a cidade de Nova Iorque.
 No entanto, não obstante a Fraternidade o tenha então inicia-
 do, o Movimento, como uma Sociedade, deve ser mantido com uma
 plataforma livre, enquanto seus membros são, ao mesmo tempo, in-
 dividualmente livres para aceitar e defender as crenças aprovadas por
 suas consciências, desde que tais crenças não militem contra a Fra-
 ternidade Universal. Portanto, eles estão em perfeita liberdade para
 acreditar na Loja da Fraternidade e em seus mensageiros, e também

 para aceitar as doutrinas d’Eles relativas ao homem, sua natureza,
 seus poderes e destino, conforme expostas pelos mensageiros, em
 nome da Loja.
 Como foi dito, é significativo o fato de que o Movimento Teo-
 sófico tenha se originado no mundo ocidental, no país em que estão
 ocorrendo os preparativos para a nova Raça-raiz, que ali deve apare-
 cer. Isso não implicou em favorecer um país ou raça em detrimen-
 to de outro, nem menosprezar uma raça ou país, mas estava, e está,
 de acordo com a lei de ciclos, que faz parte da evolução. Aos olhos
 da grande Lei, nenhum país é o primeiro ou o último, novo ou ve-
 lho, alto ou baixo, mas cada um, no momento certo, é adequado para
 aquele trabalho que precisa ser feito. Cada país está ligado a todos os
 outros, e deve auxiliá-los.
 Entre outros objetivos, este Movimento tem um que devemos
 ter em mente. Consiste na união do Ocidente com o Oriente, o re-
 nascimento no Oriente daquela grandeza que outrora lhe pertenceu,
 e o desenvolvimento no Ocidente daquele Ocultismo que lhe é apro-
 priado, para que possa, por sua vez, estender a mão ajudando aqueles
 de sangue mais antigo que possam ter se cristalizado em uma ideia
 ou que se degradaram espiritualmente.
 Por muitos séculos, o trabalho tem sido feito para tal união, e
 trabalhadores têm sido enviados por todo o Ocidente para preparar
 as fundações. Mas foi somente em 1875 que um amplo esforço públi-
 co foi feito, e então veio à existência a Sociedade Teosófica, quando a
 época estava madura e os trabalhadores estavam prontos.
 As organizações, à semelhança dos homens, podem ser víti-
 mas das rotinas ou dos sulcos de ação mental e psíquica, que, uma
 vez estabelecidos, são difíceis de eliminar. Para evitar essas rotinas

 ou sulcos no Movimento Teosófico, seus Guardiões cuidaram para
 que, de tempos em tempos, se interponham choques necessários de
 maneira a conduzir à solidariedade, a conferir força, como aquela que
 o carvalho obtém ao se opor à tempestade, e para que todos os sulcos
 da mente, dos atos ou dos pensamentos possam ser preenchidos.
 A Fraternidade não deseja que aqueles membros do Movimen-
 to Teosófico que, de acordo com o seu direito, assumiram a fé nos
 mensageiros e na mensagem se tornem peregrinos à Índia. Despertar
 tal pensamento não foi o trabalho nem o desejo de HPB. Tampouco
 é o desejo da Loja que os membros pensem que os métodos orientais
 devam ser seguidos, que os hábitos orientais devam ser adotados, ou
 que o atual Oriente seja feito modelo ou tido como objetivo. O Oci-
 dente tem seu próprio trabalho e dever, sua própria vida e desenvolvi-
 mento. São esses que o Ocidente deve realizar, aspirar e seguir, e não
 tentar ir a outros campos onde os deveres dos outros homens devem
 ser cumpridos. Se a tarefa de elevar a espiritualidade da Índia, hoje
 degradada e quase sufocada, fosse fácil e se, uma vez elevada, ela pu-
 desse brilhar e iluminar todo o mundo ocidental, teria sido então, de
 fato, uma perda de tempo iniciar o Movimento no Ocidente, quando
 havia um caminho mais curto e mais rápido nas terras mais antigas.
 Porém, na realidade, é mais difícil entrar nos corações e mentes das
 pessoas que, estando por muito tempo em um dogmatismo metafísi-
 co estabelecido, construíram em seus planos psíquicos e psicomentais
 um envoltório sólido e impenetrável em torno de si mesmos, do que
 entrar nos corações e mentes de ocidentais que, embora carnívoros,
 ainda não possuem opiniões profundamente enraizadas em uma base
 de misticismo e sustentadas pelo orgulho herdado do passado.

 A nova era do “Ocultismo ocidental” começou definitivamente
 em 1875 com os esforços daquela nobre senhora que recentemente
 deixou seu corpo. Isso não significa que o Ocultismo ocidental deva
 ser algo totalmente diferente e oposto ao que muitos conhecem, ou
 pensam que conhecem, como Ocultismo oriental. Ele deve ser o as-
 pecto ocidental do único grande todo, do qual o verdadeiro Ocultis-
 mo oriental é sua outra metade. Sua missão, amplamente investida
 nas mãos da Sociedade Teosófica, é fornecer ao Ocidente o que ele
 nunca poderá obter do Oriente; empurrar para a frente e elevar, na
 senda circular da evolução que agora se dirige ao Ocidente, a luz que
 ilumina cada ser que vem ao mundo, a luz do verdadeiro Ser, que é o
 único verdadeiro Mestre de cada ser humano. Todos os outros Mes-
 tres são apenas servos do verdadeiro Um; nele, todas as Lojas reais
 têm sua união.
 O infortúnio está reservado — não pelos Mestres, mas pelas leis
 da Natureza — àqueles que, tendo começado a trilhar a Senda com a
 ajuda de HPB, tentaram de alguma forma degradar a ela e a sua obra,
 ainda não compreendida por uns e mal interpretada por outros. Isso
 não significa que uma simples pessoa deva ser seguida servilmente.
 Mas dizer que era frívola, menosprezá-la, imaginar explicações vãs
 para eliminar o que ela disse e que não agradou é violar o ideal, é
 cuspir na cara da instrutora por meio da qual vieram o conhecimento
 e a oportunidade, é poluir o rio que lhe fornecia as águas doces. Ela
 foi e ainda é uma daquelas bravas servas da Loja universal, enviada ao
 Ocidente para assumir o trabalho, bem ciente de que desde o início a
 aguardavam dor, calúnia e insultos à própria alma — o pior dos insul-
 tos. “Aqueles que não conseguem compreendê-la fariam melhor em
 não tentar explicá-la; aqueles que não se acham fortes o bastante para

 a tarefa que ela claramente delineou desde o início fariam melhor em
 não a empreender.” Ela sabia, e foi-lhes dito antes, que os elevados e
 sábios servos da Loja permaneceram no Ocidente por muitos séculos
 para ajudá-lo em sua missão e destino. Este é o trabalho que os mem-
 bros do Movimento Teosófico devem continuar sem se desviarem,
 sem conturbação, sem se arremessarem a extremos, sem imaginarem
 que a Verdade seja uma questão de longitude ou latitude; a Verdade
 da vida da alma não se encontra em nenhum quadrante especial da
 bússola, mas está em toda parte por todo o círculo; e aqueles que pro-
 curam em apenas um quadrante não a encontrarão.
 (Nesta carta, o Sr. Judge escreveu a lápis vermelho “inacabada”.
 Na verdade, ela termina com a palavra “will”36, porém seu destinatá-
 rio, ao publicar anteriormente alguns trechos dela, obteve permissão
 do autor para fornecer as três últimas palavras que ele pretendia colo-
 car no momento em que foi interrompido; mas, ao retornar, na pressa
 de ir ao correio, esqueceu de inseri-las.)

 C A R TA I V

 À EDITORA DA SOCIEDADE TEOSÓFICA
 É com grande pesar que eu soube, pelo recente informati-
 vo de Londres, que os administradores da Sociedade na Inglaterra

 36 As três últimas palavras após “will”, no original em inglês, são “not find it” (“and
 those who look in one quarter will not find it.” [“e aqueles que procuram em ape-
 nas um quadrante não a encontrarão.”]) (N.E.)

 consideram o panfleto “Um Epítome da Teosofia”37, que apareceu na
 revista “The Path”, “avançado demais para ser reeditado agora, e o que
 é necessário é um trampolim que nos leve da ficção à filosofia.”
 Permitam-me dizer que não posso concordar com tal opinião,
 nem com o plano de ação delineada por ela. A opinião está incorreta,
 e seu plano de ação é fraco, além de estar em desacordo com os planos
 dos Mestres. Tais Mestres aprovaram o projeto da nova Sociedade e
 estão observando o desenvolvimento de seu curso.
 Se eu tivesse feito esse “Epítome” inteiramente sozinho, pode-
 ria ter alguma hesitação em me expressar dessa forma, mas não é o
 caso. A ideia geral dessa série de folhetos me foi dada há cerca de dois
 anos, e esse folheto em questão foi preparado por vários estudantes
 que conhecem as necessidades das pessoas. Ele abrange grande parte
 dos fundamentos, e se algum leitor sincero o compreender, terá ali-
 mento para sua reflexão sobre aquilo que ele precisar.
 No entanto, se pretendemos passar por uma transição ame-
 nizada da insensatez (que é a ficção) para a filosofia, então ime-
 diatamente divergimos do caminho que os Mestres traçaram para
 nós; e, para apoiar o que disse, posso me valer de cartas d’Eles
 em minhas mãos. Basta chamar sua atenção para o fato de que,
 quando esses Mestres levaram os servos d’Eles a divulgarem tais
 assuntos na Índia, Eles não começaram com ficção, mas com fatos
 concretos, como os encontrados em “Fragments of Occult Tru-
 th”38 [Fragmentos da Verdade Oculta], que mais tarde se tornou O

 37 Publicado como anexo ao final desta edição. (N.E.)
 38 Inicialmente publicado em “The Theosophist”, no intervalo de outubro de
 1881 a julho de 1883. Os três primeiros “Fragments” são de HPB; os outros

 Budismo Esotérico, do Sr. Sinnett. Eles não pretendem atender aos
 gostos de muitos leitores de ficção e amantes de curiosidades, mas
 às necessidades urgentes de mentes sinceras. Os leitores de ficção
 nunca influenciaram o progresso de uma nação. E tais mentes sin-
 ceras não desejam informações diluídas, nem devemos lhes pro-
 porcionar isto, uma vez que a frase que acabamos de citar parece
 indicar o destino deles.
 Então, novamente, peço que lembre os meus irmãos ingleses
 neste empreendimento de que existem mais teósofos e assinantes e
 leitores em potencial nos Estados Unidos do que em toda a Europa.
 Eles não querem ficção. Eles não querem palavreado desnecessário
 em sua busca pela Verdade. Eles são perfeitamente capazes de enten-
 der aquilo que você denomina “muito avançado”. Há alguns anos, o
 Mestre disse que os Estados Unidos precisavam da ajuda do corpo
 de teósofos ingleses, que nunca obtiveram, e agora já não precisam
 tanto; e suas ideias e necessidades devem ser consideradas por nós.
 Temos vinte e uma Lojas aqui, em comparação com três na Grã-Bre-
 tanha, e uma nova surge quase todos os meses. Um número conside-
 rável de pessoas me escreveu dizendo que eles entendem que a T.P.S.
 [Theosophical Publishing Society, a Editora da Sociedade Teosófica]
 deve fornecer a eles reedições boas e válidas, e não temas fracos da
 literatura de ficção.
 Por isso, insisto respeitosamente em que você se abstenha de
 seguir o plano de ação fraco e errôneo ao qual aludi, mas que sejam
 tomados cursos fortes de ação, e que deixemos a ficção aos escritores

 são assinados por Chela Leigo (A.P. Sinnett). As séries foram reimpressas em
 “Theosophy” II. (Nota da edição original em inglês.)

 que dela se beneficiam ou que acham que assim as mentes das pes-
 soas podem ser dirigidas para a Verdade. Se for adotada uma linha
 contrária, não apenas desapontaremos o Mestre (se isso for possível),
 mas, em um sentido muito amplo, seremos culpados de criar repre-
 sentações falsas para um número crescente de assinantes neste país e
 em outros lugares.
 Fraternalmente seu,
 William Q. Judge

 C A R TA V

 É um alívio deixar de lado esses infindáveis sofismas jurídicos
 (da minha profissão) para dizer algumas palavras sobre as questões
 eternas.
 De vez em quando, na revista “The Path”, você encontrará fra-
 ses destacadas. Elas devem ser objeto de estudo. Uma delas, sobre um
 yogee não fazer nada que não veja na mente de outro yogee, abrirá um
 tema39. Relutância nem sempre significa ignorância: se escavamos o
 conhecimento, simultaneamente desenterramos rochas e fragmentos
 de outro tipo, ao passo que, se um mineiro nos entrega uma pepita,

 39 Esta frase vem do segundo segmento de “A Hindu Chela’s Diary” [“O Diário de
 um Chela Hindu” compõe a segunda parte da obra Através dos Portais de Ouro, de
 Mabel Collins, e está também publicado na obra Os Pioneiros do Movimento Teo-
 sófico, ambas pela Editora Teosófica. (N.E.)], publicado pelo Sr. Judge em “Path”
 de julho de 1886 e reimpresso em “Theosophy” III, 265. A citação — “Nenhum
 yogee fará nada a menos que perceba o desejo na mente de outro yogee.” — é en-
 contrada à página 268. (Nota da edição original em inglês.)

 isso é tudo que temos no momento. Assim, uma relutância mínima
 muitas vezes implica que devemos nós mesmos escavar.
 Em “The Path” do mês de setembro, encontramos outra frase.40
 Na verdade, todo o processo consiste em resgatar a memória de vidas
 passadas, e se algumas pessoas não entendem certas coisas é porque
 não chegaram a esse ponto em suas vidas passadas, ou ainda não tive-
 ram qualquer vislumbre de memória.
 A comunhão com os Santos é uma realidade, e muitas vezes
 acontece que os formados na mesma escola falam a mesma língua.
 Embora não o sejam, são muito parecidos com os letrados, indepen-
 dentemente de quando ou onde. Além disso, neste mundo, existem
 algumas naturezas particulares que, mesmo sendo como espelhos ou
 esponjas, que refletem e absorvem certas informações dos outros,
 ainda mantêm uma forte individualidade própria. Isso se aplica ao
 cavalheiro em questão, cuja carta você anexa. Não há dúvida de que
 ele, se for sincero, vê na luz astral. A descrição das coisas “se movendo
 como peixes no mar” é uma descrição real de uma das maneiras pelas
 quais muitas dessas formas elementais são vistas. Portanto, conforme
 pressuposto, podemos concluir que ele vê na luz astral.
 Ele deve saber que a luz astral existe em todos os lugares e in-
 terpenetra todas as coisas, não sendo encontrada apenas ao ar livre.
 Além disso, ele deve saber que ser capaz de ver na luz astral, como
 ele o faz, não inclui tudo o que a visão implica; isto é, existem mui-
 tos tipos de tal visão. Por exemplo, agora ele pode ver certas formas
 aéreas, mas pode estar deixando de ver muitas outras que estejam

 40 Do terceiro segmento de “A Hindu Chela’s Diary”, “Theosophy”, III, 359. (Nota
 da edição original em inglês.)

 simultaneamente onde estão aquelas que sua visão percebe. Assim,
 parece que há “camadas” ou diferenças de estados na luz astral. Outra
 maneira de colocar isso é que os elementais estão continuamente se
 movendo na luz astral — ou seja, estão em todos os lugares. Eles, por
 assim dizer, mostram imagens para o observador, e as imagens que
 apresentam dependerão, em grande parte, dos pensamentos, das mo-
 tivações e do desenvolvimento daquele que vê. Essas diferenças são
 muito numerosas. Consequentemente, o orgulho deve ser eliminado
 neste estudo. O fato de o orgulho ter desaparecido da vida cotidiana
 não prova que ele não tenha simplesmente se retirado um pouco mais
 para dentro. Assim, devemos ter cuidado para não nos tornarmos
 vaidosos, mesmo internamente, por poder ver essas coisas; pois, se
 isso acontecer, o único plano limitado no qual alguém seja capaz de
 ver será aceito como o todo. Isso, então será falso. No entanto, se o
 reconhecermos como ilusório, visto que é parcial, ele permanecerá
 verdadeiro — até o seu limite. Todas as coisas verdadeiras devem ser
 totais, e todas as totalidades existem simultaneamente, cada uma em
 todas as outras, enquanto essas formas parciais existem parcialmente
 naquelas coisas que são totais. Dessa forma, apenas aquelas que são
 totais revelam a verdade completa, e as que partilham da natureza
 inferior — ou que são parciais — expressam apenas uma visão limi-
 tada da Verdade. Os elementais são formas parciais, enquanto a alma
 individual do homem é total, e “serve aos Deuses” de acordo com a
 força e a pureza da forma em que habita.
 Agora, nossos corpos e todos os poderes do “falso eu”, com re-
 lação à alma individual, são “formas parciais”, análogas aos centros
 enérgicos na luz astral. Portanto, verifica-se que, não importa quanto
 nós e eles participemos um do outro, a visão resultante da Verdade

 única será de natureza parcial, pois a união das duas formas parciais
 não produz a totalidade. No entanto, essa visão intoxica. Aqui resi-
 de o perigo dos ensinamentos de homens como P.B. Randolph, que
 defende a participação desses seres parciais por meio de excessos sen-
 suais glorificados com um nome e disfarçados com a pretensão de um
 propósito elevado, ou seja, o conhecimento: O CONHECIMEN-
 TO DEVE SER OBTIDO CUIDADOSAMENTE COM PURA
 MOTIVAÇÃO. Essa motivação é o ponto que o homem em questão
 deve estudar. Ele afirma que “saberá” e que “deseja escapar das limita-
 ções presentes dessa personalidade, que são só solidão”.
 À medida que ele avançasse no caminho do conhecimento, ele
 descobriria que essa solidão imaginária de que fala, comparada à ex-
 trema solidão dessa Senda, é como uma multidão barulhenta, um
 regimento errante.
 Enquanto luta sozinho seu próprio combate, que ele preste
 atenção cuidadosamente à motivação que o leva a buscar saber mais
 e a escapar de sua presente “solidão”. Não é verdade que é impossível
 escapar da solidão pela aversão a ela ou mesmo por sua justificativa,
 mas reconhecendo-a? O que acrescentar a isso? O seguinte, que tal-
 vez seja bastante simples: ele deve certificar-se de que sua motivação
 em conhecer e ser seja a de ajudar todas as criaturas. Não quero dizer
 que esta não seja sua motivação agora, no entanto, refiro-me a isso,
 caso não seja. Como ele parece estar na fronteira de visões e sons
 assustadores, ele deve conhecer o amuleto mágico, o único capaz de
 protegê-lo enquanto ele for ignorante. Consiste naquela infinita ca-
 ridade de amor que levou o Buda a dizer: “Que os pecados desta era
 de trevas caiam sobre mim para que o mundo seja salvo”, e não um
 desejo por fuga ou por conhecimento. Ela se expressa nessas palavras:

 “O PRIMEIRO PASSO NA VERDADEIRA MAGIA É DEVO-
 ÇÃO PELOS INTERESSES DOS OUTROS”. Krishna a expres-
 sou quando disse: “Próximo à Renúncia está a salvação” (ou o estado
 de Jivanmukta).
 Mas ele naturalmente perguntará se deve cultivar seus poderes.
 Bem, certamente, ele deverá cultivá-los em algum momento; porém
 ele deve começar pela motivação e pela purificação do pensamento.
 Ele pode, se quiser, abandonar as ideias desta caridade generosa e
 ainda assim fazer muito progresso em adquirir “poderes”, mas cer-
 tamente então a morte e as cinzas serão o resultado. Isso não me diz
 respeito.41
 (Recentemente, um amigo relatou uma experiência estranha
 em “Tea Table”. Ele havia sido criado entre os galeses, e era um cé-
 tico convicto a respeito do “sobrenaturalismo”, tão comum àquele
 povo, até que no Ocultismo encontrou a explicação para os estranhos
 acontecimentos e visões que até então rejeitara. Desde a infância, ele
 estava acostumado a ver “coisas estranhas que se moviam como pei-
 xes no mar”, a ouvir sons esquisitos e ver lugares ou objetos distantes,
 embora sua atitude de negação e de atribuir tudo isso a defeitos óti-
 cos ou nervosos, reduziu, nos últimos anos, o número de tais fenô-
 menos. Há poucos dias, ele estava lendo sobre alguns experimentos
 psicométricos e começou a pensar em algum lugar ao qual ele gos-
 taria de ir. Ao fechar os olhos, ele se concentrou firmemente naquele
 lugar, determinado a ver, se possível, uma pessoa que estivesse ali. De

 41 A essência da carta a que o Judge está respondendo é encontrada em “Tea Table
 Talk”, em “Path” de junho de 1887, seguida por um segmento de sua resposta.
 Essa última, sendo menos condensada que aquela publicada nas Cartas originais,
 está aqui em substituição. (Nota da edição original em inglês.)

 repente, uma leveza indescritível parecia permear toda a sua pessoa.
 Ele pensou: “Eu posso ir lá!”, e em um momento ele levitou até o
 meio da sala, mas virando a cabeça, percebeu que estava sentado na
 cadeira que havia deixado. Imediatamente, ele foi tomado por um
 horror indescritível, um medo tremendo; ele correu de volta para seu
 corpo — como, ele não soube — tomado de terror por causa de seu
 ato involuntário.
 A questão de tal pânico injustificado e sua possível causa gerou
 discussão em “Tea Table”. Ao final, concordaram em escrever sobre o
 assunto a um ocultista eminente. Sua resposta irá interessar a todos
 os estudantes deste importante ramo do Ocultismo.)
 Por que ele ficou horrorizado quando quase conseguiu se afas-
 tar de seu corpo — estando livre dele por um momento? Esta é uma
 pergunta importante. A resposta a ela pode ser encontrada de várias
 maneiras. Vou mencionar uma. Se ele desejou ir até um local, ou a
 uma pessoa, aos quais ele não deveria ir, ou se sua motivação em de-
 sejar ir até eles não era pura, então disso poderia resultar o horror que
 o levou de volta ao corpo. A motivação é extremamente importante,
 e deve ser examinada e testada inúmeras vezes. Neste caso, o signi-
 ficado da palavra “motivação” não deve se limitar ao que chamamos
 de motivação ruim ou imprópria. Examinarei de bom grado tanto as
 boas motivações quanto as más, e não importa quão sombria seja a
 luz sobre elas, continuarei a analisá-las imparcialmente. Se alguém
 tem uma motivação ruim, os resultados serão o seu próprio Karma, e
 não o de outro, exceto aqueles que voluntariamente o assumem para
 si mesmos.
 No caso acima, a indiferença motivacional deve ser evitada,
 tanto quanto qualquer outro tipo de indiferença. Quando saímos do

 corpo sem motivação, nós o deixamos sob as impressões de Tamoguna
 (Trevas); e ao deixá-lo vago, é muito provável que sejamos apanhados
 em um turbilhão que está longe de ser agradável. Disso pode então
 resultar o horror. Não estou dizendo que sempre resultará em horror.
 Mas as grandes forças não podem ser postas em movimento impu-
 nemente. Devemos ser capazes de subjugar e controlar uma oposição
 equivalente, e somente uma motivação virtuosa nos proporciona esse
 equilíbrio de forças, colocando a Lei do nosso lado. A mais elevada
 motivação possível deve ser assentada na base, caso contrário teremos
 problemas que só o poder pode superar. Todavia, se mesmo com uma
 motivação ruim ele tentasse ir a um local onde existisse tal motivação
 elevada, então nenhum horror surgiria. Se ele dissesse a si mesmo, ou
 a mim, exatamente para onde ele estava querendo ir, eu poderia dizer
 por que ele se sentiu horrorizado. Mas não quero saber.
 Deixar o corpo não é necessariamente uma experiência horrí-
 vel. Só recentemente descobri que um amigo se afastou de seu cor-
 po a uma distância de 16.000 km sem sentir horror. Nesse caso, ele
 desejou encontrar um amigo com o propósito comum de melhorar
 esta era de trevas; em outra ocasião, ele deixou seu corpo e viu o pa-
 norama circundante com bosques e vales, e em ambos os casos não
 experimentou qualquer horror. A semelhança de motivação cria uma
 corrente elétrica ou magnética ao longo da qual podemos possivel-
 mente prosseguir com segurança, a menos que outra corrente ainda
 mais forte a atravesse. Se a pessoa tem certeza de sua motivação, e ela
 é pura, então deixar o corpo não é prejudicial.
 Este pesquisador enfatiza muito o fato de que ele “correu de
 volta” para seu corpo por sua própria vontade. Isso não prova que ele
 não tenha sido empurrado para trás. Quando uma solução saturada

 em um copo é perturbada, ela mesma, por sua própria vontade, se
 cristaliza; porém, primeiro deve haver a causa predisponente na for-
 ma da pancada no copo. Portanto, embora ele tenha “corrido de vol-
 ta”, foi por causa do empurrão que ele recebeu de algo que ele não
 consegue descrever nem compreender.
 Uma ilustração mostrará os perigos. Tomemos o caso de al-
 guém que decide deixar o corpo simplesmente para visitar outro que
 admira ou deseja ver. Contudo, este outro indivíduo está protegido
 por motivações elevadas e grande pureza. O primeiro, em seu estado
 de vigília, tem uma motivação mista; porém, assim que surge o estado
 de separação, a motivação se transforma em mero desejo ou curiosi-
 dade de ver o segundo, talvez combinado com uma dose mais ou me-
 nos considerável de sensualidade, como, por exemplo, um desejo de
 ver uma mulher muito admirada e derramar em seu ouvido relutante
 um amor humano, falso ou verdadeiro. Os elementais e demais guar-
 diões dessa segunda pessoa protegem sua alma e intervêm, causando
 no primeiro um vago sentimento de horror; se o primeiro não se trata
 de um hábil mago negro, ele:

 a) É simplesmente empurrado de volta para o seu corpo; ou
 b) É assaltado por medos que o impedem de encontrar ou de
 entrar em seu corpo, o qual pode ser ocupado por um ele-
 mentário42 bom, mau ou indiferente, que poderia ocupar seu

 42 Elementários (elementaries) são os invólucros Kāma-rúpicos dos mortos. Segundo
 G. de Purucker em Occult Glossary, “são um perigo real para a saúde e sanidade
 psíquica, e literalmente assombram os seres humanos que possuem tendências
 semelhantes às suas. São cascas sem alma, mas ainda preenchidas por energias de
 um tipo depravado e ignóbil.” (N.E.)

 corpo, e então seus amigos diriam que ele repentinamente
 despertou insano!

 A motivação é, então, o ponto principal para que este e todos os
 pesquisadores estudem. Se ele está seguro de suas motivações, e de que
 elas não são indiferentes, curiosas, egoístas ou imprudentes, e ele confia
 na Unidade da Alma Suprema, ele não pode estar em grande perigo.
 Bem, isso é o suficiente!

 C A R TA V I

 As cartas propostas por seu amigo são um instrumento do ini-
 migo, como você pode ter imaginado, e você foi avisado que o pre-
 visse por meios e campos inesperados. É por isso que elas não devem
 ser escritas. É a pequena fissura no alaúde que o destrói. Na história
 da humanidade, eventos pequenos e inesperados alteram o destino
 de nações.
 Neste plano, os poderes das trevas contam com a capacidade
 que eles têm de criar māyā. Eles perceberam que não podem prendê-
 -lo nas linhas proeminentes do trabalho, e assim eles tentam se meter
 em um lugar proeminente onde você tenha suas correntes, mas com
 uma questão muito menor. Deixe-me explicar.
 Se você publicar essas cartas, elas serão um endosso a tudo que
 seu amigo pode pensar em fazer, e nem você nem Y. estão livres de er-
 ros ainda. Essas cartas equivaleriam a uma declaração, pela percepção
 de outros, de que você estava guiando Y. em tudo e estava consciente

 disso o tempo todo. Você ou Y. sabem onde isso terminaria? Você
 percebe as possibilidades que resultariam da aceitação integral dessas
 cartas por outras pessoas? E qual seria a ação delas? Elas estão livres
 da maldição da superstição? Eles percebem claramente a coordena-
 ção do pensamento psíquico com o pensamento cerebral? Não. O
 resultado não seria apenas diferente do que você e Y. podem notar,
 mas pior. Então, sigamos em frente.
 É verdade — e humanamente natural — que outras pessoas
 (como você e seus amigos) se tenham permitido expressar algumas
 leves críticas sobre o seu amigo; porém foram pequenas e acompa-
 nhadas de pensamentos sinceros e gentis, de acordo com entendi-
 mento delas, não importa quão amplas e amargas māyā as tenham
 feito parecer. Os poderes das sombras apoderaram-se dessas críticas,
 expandiram-nas, revestiram-nas, assumiram as imagens dos pen-
 sadores, animaram os pensamentos com elementais, tudo com um
 único propósito, a saber, induzir o seu amigo a pensar que tudo veio
 dos outros. Ora, se fosse assim, então esses outros (pobres e fracos
 mortais) seriam repulsivos. Mas, eles são? Não. As sombras queriam
 irritar você e seu amigo, de forma que, pela irritação, causasse uma
 ruptura irrecuperável. Devido ao estado enfraquecido de Y., elas tive-
 ram facilidade, esperando que a distância o tornasse cego.
 Diga ao seu amigo para se lembrar do que foi dito há muito
 tempo — que o Mestre administraria os resultados. Você não deve
 administrar, precipitar nem forçar. Tenha cuidado. Deixe Y. presumir
 que os outros não têm pensamentos severos ou críticos, mas atribua
 tudo aos poderes das sombras, e o Mestre cuidará dos resultados.
 Como é melhor que chelas e estudantes ocultem sua vida psíquica ao
 invés de divulgá-la, pois ao fazê-lo prejudicam o próprio progresso,

 deve reinar o silêncio no céu por um tempo, caso contrário as som-
 bras se regozijarão em tão facilmente obter imagens boas e maleáveis
 para irritá-lo. Elas tentarão novamente, usando esse método ou outro.
 Crie boas correntes, mantendo afastadas todas as más por meio da
 gentileza, do desapego, da estrita atenção ao dever e retirando-se de
 vez em quando para um local tranquilo. Lembre-se, o trabalho é feito
 por meio das pequenas coisas, pois elas não são percebidas, enquanto
 os grandes feitos atraem a mente e os olhos de todos.
 Sempre penso em você como o bravo soldado cuja constituição
 não é feita de lama ou coisas inconsistentes, mas de longas peças de
 aço, frisos de diamante e flashes de uma luz contínua sem qualquer
 aspereza, e uma grande, grande fonte que se estende por todo o ca-
 minho. Isso é o que você é. Às vezes, seus olhos riem, mesmo quando
 você está com dor de cabeça. Internamente você está bem, como você
 sabe muito bem, certo? Portanto, se você é esse soldado, significa que
 você retornará à sua posição assim que o corpo tiver tido tempo para
 se recuperar. O corpo é como o coração, leva tempo para chegar a
 alguma outra condição. Mas você vai chegar lá. Uma mente e um
 coração firmes permanecem calmos e tranquilos até que o fluxo turvo
 se torne límpido. Agora, digo-lhe que durma; ordeno-lhe que durma.
 Tentei ajudá-lo a dormir, e quero que durma, pois dormir lhe fará
 bem, como nada mais pode. Espero vê-lo largar tudo quando chegar,
 e ir dormir um pouco, longe o suficiente do barulho para ficar tran-
 quilo. Descansar sua natureza cansada das demandas externas, pois
 o sono tece o emaranhado fio da vida e nos rejuvenesce. Você tem
 estado tão acordado que o equilíbrio entre a vida e o corpo está per-
 turbado e precisa de um momento. Isto é fato. Uma pessoa pode ficar

 agitada, e então o Prāna torna-se muito intenso; por isso as crianças
 dormem muito. Seja criança uma vez.
 Bem, estou perto de casa, ou melhor, do lugar central, já que pe-
 regrinos como você e eu não temos uma casa de verdade, nem a que-
 remos ter; querer um lar é demasiado embotado e convencional para
 um peregrino. E será que o irmãozinho está bem? Ele estará cons-
 tantemente presente, como sempre esteve, nessas pequenas canções e
 nos contos que narramos a nós mesmos na escuridão, e ele também
 é o guerreiro solitário visto sobre a planície da estúpida infantaria,
 montando um cavalo cujo sangue é eletricidade. Au revoir.43 Diga a
 ____ que eu posso aguentar sozinho; é a melhor maneira de resistir,
 é como eu sempre estive e sempre estarei. Que as ondulações e a
 espuma continuem seu fluxo e refluxo; o velho rio e seu leito não se
 movem por tudo o que está na superfície. Não é verdade? Bem, adeus,
 e boa sorte; que os devas o auxiliem, e também o Karma. Como sem-
 pre, envio amor a todos.
 Para sempre seu,

 C A R TA V I I

 Fiquei muito feliz em receber sua carta, mas me dói saber de
 seus problemas. É estranho que, ao mesmo tempo, um problema se-
 melhante envolvendo um querido amigo meu esteja agora predomi-
 nante em minha mente, e gostaria de lhe pedir o favor de me informar

 43 Adeus, do francês. (N.E.)

 que tipo de lugar é o asilo de que você está falando. O único dispo-
 nível aqui é uma espécie de prisão, na qual os homens nada fazem,
 e onde, eu acho, a influência é simplesmente deprimente. Você acha
 que um homem mentalmente ativo, desejoso apenas de se libertar de
 seu atual problema, conseguiria se manter ocupado no asilo que você
 tem em mente?
 Realmente lamento que você tenha que me comunicar tais as-
 suntos, porém irei mantê-los em sigilo; e agradeço a você e a ____
 por seu renovado convite.
 É melhor não indagar sobre alguns dos mistérios da vida, mas
 certamente uma confiança completa no Espírito interno e na Lei,
 segundo a qual as mãos que nos ferem são as nossas próprias, aliviará
 a pressão de alguns eventos que parecem misteriosos. Encontro o
 maior consolo nessas reflexões, e então percebo que cada momento
 me pertence, uma vez que ele se foi, passou e se fundiu com a tota-
 lidade do meu ser; e, assim, devo me esforçar para Ser. Dessa forma,
 posso esperar me tornar, com o tempo, o possuidor consciente de
 todo o Ser. Portanto, não busco o mistério. A maior luta deve ser
 travada para abrir meu eu exterior, de modo que o Ser superior possa
 irradiar através dele, pois sei que em meu coração o Deus é paciente,
 e que os seus raios puros estão meramente velados a mim pelos mui-
 tos anseios e ilusões que revelo externamente. Sendo assim, só posso
 considerar a Sociedade e seu trabalho (segundo minha compreensão)
 como o canal mais adequado para minhas ações no esforço de ajudar
 os outros. Seus métodos, então, no que me diz respeito, serão apenas
 os meus, e assim não posso anexar a ela os métodos de qualquer outra
 pessoa.
 Acredite-me sinceramente seu,

 C A R TA V I I I

 Quanto a min, todo o problema é a minha saúde, ainda não
 totalmente restaurada. Se isso estivesse bem, eu não teria nada. O
 que me interessa em todo esse tumulto? Muito em breve acabará;
 alguns estarão mortos; quanto mais cedo melhor, e então teremos
 outro divertimento. Eu vejo tudo isso como muita diversão e varieda-
 de, com certeza; não estou brincando. É a variedade, e sem isso como
 seria a vida? À medida que todos esses burros zurram, aprendemos
 novas notas da escala até então desconhecidas. Recebi muitas cartas;
 mas estou OK — talvez fragilizado, mas não debilitado. Eu gostaria
 de estar com vocês dois numa diversão agradável, sem lágrimas ou
 rancor, mas temos que ficar separados para nos encontrarmos de vez
 em quando. Pobre ____! Não seja duro com ele. Ele teve que ficar
 em silêncio, você sabe disso. Uma questão pequena, entretanto mais
 importante para ele do que ele imagina. Deixe-o em paz e não zom-
 be dele. Ele já está em um momento suficientemente difícil consigo
 mesmo para que outros adicionem mais dificuldade com suas men-
 sagens.
 A alusão de C. abre uma linha de pensamento que eu já havia
 considerado. Eu me examinei para discernir a “utilidade” dessa con-
 fusão, para ver se estou “sofrendo” como deveria. Bem, eu não posso
 dizer. Talvez eu esteja bem profundamente; porém me sinto alegre,
 feliz e tudo o que você quiser, menos mal-humorado ou triste. Então,
 será que estou sofrendo? Você sabe? Eu, positivamente, não sei. Devo
 sofrer? Sou um desgraçado porque não sofro, ou porque, estando em
 real sofrimento, estou insensível e não o percebo? Porém, por outro

 lado, não sinto raiva nem ressentimento. Isso realmente me intriga.
 Há muitas noites que não durmo, e tenho usado as horas (como faço
 agora) em que tudo está quieto para examinar tudo cuidadosamen-
 te, e ainda assim sinto que está tudo certo — em toda parte. Claro,
 cometi minhas faltas e pecados humanos, porém quero dizer que, no
 Grande Giro, não encontro nada para “me torturar”, nada pelo qual
 deva me apressar em corrigir colocando em meu peito a confiança no
 ridículo e repugnante mundo.
 O que posso dizer sobre mim? Nada. Eu não sei e não me im-
 porto. Estou contente e feliz que o trabalho continue desta forma.
 Meus desejos não estão aqui, e todo esse barulho soa bem longe para
 mim, como se estivesse a quilômetros do meu ouvido. Estou agindo
 como um motor de bomba, tentando usá-lo ao máximo. Isso não é
 para mim. Devo ficar sozinho, como todos nós, e então a Lei dirá:
 “Próximo!” Porém, não estou interessado ou quero saber o que me
 espera a seguir, porque quando “Próximo” for dito, verei o que precisa
 ser feito. Agora mesmo, o melhor e maior trabalho para nós, pobres
 crianças, está neste plano, com o grande auxílio do Mestre, cuja von-
 tade única e simples mantém (viva) toda a organização e atua como
 seu suporte e escudo. Ainda não somos grandes o suficiente para lidar
 com o Ākasā44, no entanto, podemos ajudá-Los, e isso é tudo o que
 quero fazer. Tenho visto o evento atual como uma lição, pois ele pode
 ser usado como um teste para mim, quanto ao orgulho e ambição; e
 acho que, não importa como eu considere o assunto, sempre virá o
 mesmo resultado. Estou procurando outras coisas enquanto trabalho

 44 Ākasā, segundo HPB na edição de 1892 do Theosophical Glossary, é “a essência
 espiritual sutil e supersensível que permeia todo o espaço”. (N.E.)

 nisso. Por mais que eu tente despertar uma ambição de poder ou um
 desejo de mudar um caso imaginário (que realmente não existe), não
 consigo. Então, como você pode ver, meu caro companheiro, eu estou
 bem.
 Quanto às perguntas que você me fez:
 Quando o eu é visto pela primeira vez, é como olhar para uma
 luva; e por quantas encarnações isso não acontecerá? O envoltório
 material arremessa, diante dos olhos da Alma, vórtices fumegantes e
 nuvens de ilusão.
 O cérebro é apenas o foco através do qual são centralizadas as
 forças e os pensamentos que continuamente penetram no plexo solar
 do coração. Portanto, muitos desses pensamentos são perdidos, seme-
 lhante aos milhões de sementes que se perdem na Natureza. Cabe a
 nós estudá-los e vigiá-los quando aparecerem; porém, podemos cha-
 má-los de nossos? Ou chorar por eles? Quanto a eles, sejamos tão
 amplos quanto a grande Natureza, deixando que cada um siga para
 o seu lugar sem darmos a eles nossa própria coloração e aceitação ou
 adesão.
 O movimento espiral é o duplo movimento da luz astral, uma
 espiral dentro da outra. Esse duplo movimento do Ākasā causa a diás-
 tole e a sístole do coração. No entanto, não conceba presunçosamente
 tal movimento cedo demais, pois frequentemente mesmo o coração
 ao bater excessivamente rápido destrói a vida.
 Os animais selvagens, inconscientemente, estão cientes da opo-
 sição humana geral, que eles veem focalizada em cada ser humano.
 É mais fácil afundar de volta no Eterno do que mergulhar. O
 mergulhador deve necessariamente possuir o poder de prender a

 respiração contra a pressão causada pelo mergulho, enquanto o afun-
 damento fornece o tempo para inspirar e prender a respiração.
 Não há nada mais novo. Estou esperando você me dizer que
 recuperou totalmente a saúde. Sustentado pela onda, você chegará a
 tempo com a maré. Envio o meu amor para ____, para ____ e para
 você. Que todos vocês estejam bem amparados. Acho que agora lhe
 dei tudo o que há. Envio-lhes meus cumprimentos, aos mais nobres,
 corajosos e possuidores de um coração de diamante! Que possamos
 nos encontrar depois que a poeira baixar, e nos encontrarmos para
 sempre nos longos manvantaras que nos aguardam. Paz! Paz! A Sen-
 da é de paz, e não de guerra: estas são as palavras.
 Como sempre,

 C A R TA I X

 Não sei o que escrever, pois tenho estado muito ocupado com as
 pessoas. Estou ansioso por causa das minhas palestras, ainda não pre-
 paradas. Não posso responder naturalmente a muitos de seus pontos,
 porque tenho um sentimento de retraimento e, portanto, não devo
 responder. Na verdade, muitas vezes penso como seria bom não falar
 nem escrever. Não sou habilidoso com essas frases bonitas que as pes-
 soas apreciam. Claro, isso não altera meus verdadeiros sentimentos,
 no entanto, galinhas são galinhas e muitas vezes pensam bobagens.
 Quero esquecer e perdoar todas essas crianças e atos infantis. Va-
 mos fazer isso, e tentar ser verdadeiros irmãos tanto quanto possível,

 aproximando-nos assim da verdade. Através do trabalho, derrotare-
 mos o inimigo do Mestre: pelo trabalho sereno, silenciosamente.
 Ainda assim, espero que mais cedo ou mais tarde você se recu-
 pere e saia se sentindo melhor e mais forte. Sei que isso vai acontecer,
 e não vejo você morto em hipótese alguma. Você tem menos espe-
 rança para si mesmo do que para os outros. Mesmo assim, você tem a
 vontade e a vivacidade para lutar até o último momento. Eu só queria
 poder ver todos vocês para animá-los um pouco mais, ou seja, para
 conversar com vocês, pois vocês não precisam de muito incentivo.
 Frequentemente recebo comunicações d’Ele agora. Essa terrí-
 vel confusão me esclareceu. Ele diz que se deve evitar muita impe-
 tuosidade, e que não devo deixar a correnteza me levar. Ele me pediu
 para lhe dizer que você tem uma rapidez natural que deve ser guiada
 por você mesmo, e o melhor método é deixar passar um pouco de
 tempo depois de uma carta, e uma noite antes de planejar. Ele diz
 também que (...) (não estou ciente disto, mas Ele deve estar certo),
 que você tem um desejo sutil de ser o primeiro a desenvolver ou a
 propor um bom projeto ou uma boa ação. Não se deixe levar por isso,
 mas vá mais devagar nesse assunto. É um bom conselho, creio eu, pela
 razão adicional de que se pode, de vez em quando, pegar um plano da
 cabeça de outra pessoa.
 Vejo que os clãs estão se reunindo. Sustente o esforço e ob-
 serve, na medida do possível, para que o espírito de partidarismo se
 mantenha em declínio e que somente a lealdade e o trabalho firmes
 e benéficos sejam a principal motivação. E não expulse ninguém do seu
 coração.
 Neste momento, devo pedir-lhe que proceda com mais calma.
 É absolutamente necessário.

 Uma palavra de amor para ____? Já a enviei. Enviei muitas.
 Eu as enviei não apenas visivelmente, mas também de outra forma.
 O que eu poderia dizer? Não sei. Naquilo que enviei, coloquei todo
 o meu coração. Por acaso não está para sempre presente para mim e
 comigo? Como posso usar palavras quando as fibras do meu coração
 estão envolvidas? E para que serve a minha filosofia se, no momento
 em que a verdadeira retirada de ____ parecia tão próxima, me entre-
 guei a meras palavras? Não posso fazer isso. Se eu tentasse, as pala-
 vras acabariam sendo meras bobagens, mentiras e expressões falsas;
 já que não sou capaz de fazer isso, não importa o quanto os outros
 possam. Nossa vida real não se encontra em palavras de amor, de ódio
 ou de indiferença, mas nas profundezas ígneas do coração. E nessas
 profundezas ela reside e residiu. Eu poderia dizer mais? Não; é im-
 possível. E mesmo isso é pouco e mal expresso.
 É verdade que, a cada dia que passa, o efeito da minha filosofia
 é mais evidente em mim, como o seu é e será em você, e igualmente
 em todos nós. Eu percebo por mim mesmo, sem considerar tudo que
 ouço sobre isso dos outros. Que mundo e que vida! Porém, nascemos
 sozinhos e devemos morrer sozinhos, exceto pelo fato de que no Es-
 paço Eterno somos todos um, e a Realidade Única nunca morre.
 Se a ambição subir lentamente cada vez mais alto, ela destruirá
 todas as coisas, pois os alicerces se enfraquecerão. No final, o Mestre
 vencerá, então vamos respirar fundo e nos manter firmes como es-
 tamos. Não nos apressemos em nada. A eternidade está aqui todo o
 tempo. Eu não posso lhes dizer como meu coração se volta para todos
 vocês. Você sabe disso, mas uma palavra será suficiente: Confiem!
 Isso é o que HPB disse. Ela não sabia? Quem é maior do que a nossa
 experiente e valente “Velha Senhora”? Ah, se ela estivesse aqui, que

 carnificina! Eu me pergunto, de qualquer forma, como ela, ou ele, ou
 este45, consideram o assunto. Acho que sorrindo de todas as nossas
 lutas.
 Novamente, na tempestade ou no sol, no calor e no frio, perto
 ou distante, entre amigos ou inimigos, sempre o mesmo na Obra
 Única.

 C A R TA X

 Meu caro companheiro,
 Recebi sua longa carta. Tudo o que posso dizer é que é de um
 esplendor extraordinário e de uma precisão maravilhosa. Deixe-me
 então responder-lhe com essa mensagem (...) como prova de que você
 não está parado. (...) É muito bom me encontrar fora das corredeiras,
 como você diz, mas e quando eu mesmo não ouço uma mensagem
 como a sua? Obrigado. É o som de uma trombeta que ecoa do pas-
 sado. Talvez, em alguma outra época, eu ensinei isso a você, e agora
 é você que me transmite de volta. Quando eu disse em minha carta
 que no Kali-Yuga poderia ser feito mais do que em qualquer outra
 era no mesmo período, declarei tudo o que você diz sem saber. Agora
 sua luz clara o ilumina e eu vejo bem. Mas não tema. Você se tornou
 tão familiar para mim que me permiti revelar algumas das coisas que
 sinto de vez em quando. No entanto, juro a você, eu nem sempre as

 45 No original, it. (N.E.)

 deixo correr antes de mim. Na verdade, você provou que o seu lugar é
 “onde o longo pergaminho o encontra”.
 Agora você não começa a vislumbrar mais e mais coisas? Você
 não sente coisas que sabe, sem que ninguém lhe tenha dito?
 Meu amigo Urban46, mostrou-me uma carta de ____ na qual
 este último, sentindo-se triste por várias causas, não percebe luz algu-
 ma. Eu digo a você que este é simplesmente o pântano do desânimo.
 Sabemos que a luz está adiante, e a experiência de outros mostra que
 a hora mais escura precede o amanhecer. Digo a ele também que as
 almas fortes são inevitavelmente colocadas à prova porque avançam
 ao longo do caminho em direção à luz. No épico finlandês (Kalevala),
 é dito que serpentes horríveis e lanças brilhantes guardam um deter-
 minado lugar. E realmente é assim.
 Porém, embora essa seja a verdade, devo dizer a ele que, na
 medida do possível, ele deve tentar melhorar as circunstâncias. Devo
 esclarecer minha acepção. Como você sabe, ele está vivendo agora en-
 tre pessoas de uma fé oposta. Ao redor delas estão elementais que, se
 pudessem, iriam incutir suspeita e desconfiança sobre aqueles a quem
 ele reverencia, ou, se falharem nisso, tentarão causar doenças físicas
 ou agravar as que já existem. No caso dele, os elementais tiveram
 sucesso em parte, ao causarem obscuridade. (...) Agora ____, embora
 não apenas nesse caso, não se sentindo forte, está rodeado por aqueles
 que internamente deploram suas crenças (...) e, assim, os elementais
 estão lá e lutam com os de ____, causando desespero, diminuindo a
 energia e assim por diante. Digo que tais circunstâncias devem ser

 46 Eusebio Urban era um dos pseudônimos do Sr. Judge em “The Path”. (nota da
 edição original em inglês.)

 melhoradas de vez em quando, pois sei que ele se recuperaria ime-
 diatamente se mudasse para um lugar melhor. É por isso que escrevi
 para ele, para que faça uma mudança o mais rápido possível.
 É extremamente importante não responder a ataques. Faça com
 que as pessoas se dediquem ao trabalho e ignorem os ataques. As for-
 ças de oposição tensionam todos os nervos para que alguns ou todos
 nós fiquemos perturbados e retruquemos com irritação, precipitando
 então mais insensatez. Considere apenas como melhorar o antigo
 trabalho, idealizar um novo trabalho e incutir energia neles. Caso
 contrário, as influências benéficas destinadas a todos os membros da
 Sociedade Teosófica serão anuladas.
 Anime-se e diga a ele, a partir do seu ponto de vista, como saber
 a diferença entre o intelecto e a mente espiritual. Diga-lhe como des-
 cobrir sua vontade espiritual, ignorando um pouco a atitude mental
 que assume. Não indique exemplos específicos em que ele errou, mas
 detalhe sua própria experiência interior. Isso fará bem a ele.
 No que diz respeito aos Upanishads, aqui o verbo “subsistir” não
 significa que o Ser exista por causa de alimento, mas sim que o Ser,
 como manifestação, como aquele que permite que o corpo seja visível
 e ativo, subsiste naquele estado por meio do alimento que é usado. Na
 verdade, é uma tradução invertida, e na minha opinião deveria ser: “O
 ser existe em estreita proximidade ao coração, e permite que o corpo
 exista graças ao alimento do qual se nutre para sua subsistência.” Ou
 seja, é feita uma referência contínua à doutrina de que o corpo não
 existiria se o Ser não estivesse lá. Sim, isso também significa que o
 Ser obtém atmosfera vital dos alimentos que a Vida Única produz
 para serem digeridos. Pois, observe o que você já sabe: se não nos
 alimentássemos, a unidade material da trindade morreria, e o Ser se

 decepcionaria e buscaria outro corpo para fazer uma nova tentativa.
 Porquanto, não é permitido a cada um tentar estabelecer um hábito
 na unidade material por meio do qual, como seres encarnados, pos-
 samos conhecer o Ser? Então, quando isso acontece, não vivemos
 mais como o resto dos seres humanos; porém, mesmo assim, o Ser,
 enquanto em manifestação, deve subsistir, por assim dizer, por meio
 do alimento, não importa se esse alimento é de natureza diferente,
 correspondendo ao novo estado. Até mesmo os Devas subsistem por
 meio dos alimentos. Você sabe que “eles entram naquela cor ou som,
 ou sabor, em sacrifício; eles se elevam naquela cor, etc., e por meio
 dela vivem”. Cuidado com as palavras, meu caro; elas são armadilhas.
 Capture as ideias, e eu entenderei, pelo contexto, que você não está
 confinado a significados comuns.
 Estou assoberbado de trabalho, mas minha coragem aumentou,
 e sinto a ajuda enviada do lugar certo.
 Continuemos, de um lugar a outro e de ano a ano; não importa
 quem ou o que reivindique de nós externamente, cada um de nós é
 propriedade do Ser.
 Para sempre e depois,

 C A R TA X I

 Para ____,
 Em sua carta, há uma frase que J. Niemand não explicou, e
 que precisa ser elucidada por ser fruto de uma ideia errada sua. Você

 escreve: “Posso ajudar esses elementais ignorantes com instrução
 mental? Eu tentei, mas sem sucesso completo.”
 Em todos os casos em que os elementais causam problemas ou
 angústia mental, você não pode. Os elementais não são ignorantes.
 Eles sabem tanto e tão pouco quanto você sabe. Eles geralmente sa-
 bem mais. Você não sabe que eles são refletores? Eles simplesmente
 refletem para você a sua própria mente, ou o estrato mental causado
 pelo tempo, pela raça e pela nação em que você esteja. Sua ação é in-
 variavelmente automática e inconsciente. Eles não se importam com
 o que você define como “instrução mental”. Eles não ouvem você.
 Você sabe como eles ouvem ou que língua entendem? Não é a
 linguagem humana, nem o pensamento humano comum revestido de
 linguagem mental. Para eles, tudo isso é letra morta.
 Só é possível comunicar-se com eles por correlações de cores e
 sons. No entanto, conforme você se dirige a eles, esses pensamentos
 assumem vida a partir dos elementais que se precipitam e se prendem
 a esses pensamentos.
 Portanto, não tente falar muito com eles, porque você os fez
 saber que podem exigir de você algum favor ou privilégio, ou podem
 se prender a você, já que, para que eles o entendam, eles precisam
 conhecer você — e uma chapa fotográfica não se esquece.
 Não os tema, nem recue com horror ou repulsa. O período de
 teste deve ser cumprido. Jó teve que esperar seu período até que todas
 as suas dificuldades e doenças passassem. Antes daquele momento,
 ele não podia fazer nada.
 Porém, não devemos nos sentar inativamente e reclamar; te-
 mos que suportar essas provas ao mesmo tempo que atraímos no-
 vos e bons elementais para que tenhamos, expressando-nos de uma

 maneira ocidental, um capital ao qual recorrer quando o período de
 provação tiver passado completamente. (...)
 Niemand explicou bem todos os outros pontos. Leiam-nos vo-
 cês dois juntos.
 Finalmente, conheça esta lei, escrita nas paredes do templo do
 aprendizado:
 “Tendo recebido, dê livremente; uma vez que você consagrou em
 pensamento sua vida ao grande fluxo de energia que transporta igualmen-
 te os elementais e as almas — e faz bater nossos corações —, você jamais
 poderá reivindicá-la de volta. Portanto, busque aquela devoção mental
 que você aspira dar. Pois na Lei está escrito que devemos entregar tudo ou
 o perderemos; assim como você precisa de ajuda mental, o mesmo acontece
 com outros que vagam nas trevas em busca de luz.”

 C A R TA X I I

 Hoje recebi seu telegrama. “____muito debilitado.” Isto é um
 choque para mim. Dificilmente acredito que seja de alguma forma
 um fim. Eu não consigo acreditar nisso, há muita vivacidade ali. Mas
 enviei um telegrama a você para lhe perguntar se eu que teria de dizer
 a ____ para que também lesse o segundo capítulo do ­Bhagavad-Gītā.
 Esse capítulo, meu caro amigo, resolve todos estes problemas para
 mim, embora não elimine a dor imediatamente. Além disso, é o Kar-
 ma, justo e sábio. Os defeitos estão em nós todos, e se este é o pon-
 to de partida, pois bem, significa que muito Karma obstrutivo está,
 desse modo, de uma vez por todas, esgotado, deixando ____ livre

 para trabalhos maiores em lugares melhores. Gostaria de estar aí com
 vocês. Diga a ele o quanto eu o amo e que, numa era de Kali-Yuga
 como esta, ninguém sincero como ele permanece muito tempo dis-
 tante do trabalho a ser feito. As palavras são inúteis. Eu tenho envia-
 do pensamentos, e esses são úteis, quer estejamos no corpo ou fora
 dele. Enviei todas as noites, ultimamente, toda a ajuda que podia, e
 continuei durante o dia, não somente para ____, mas também para
 você. Essa ajuda chegou aí, eu sei, mas eu não posso superar o Karma
 se for forte demais.
 Diga a ____ que se o pior tiver de acontecer, não há necessidade
 de qualquer arrependimento a respeito do trabalho. O que já foi reali-
 zado lá perdurará e efervescerá, realizando sua obra pelos vários anos
 que virão. Portanto, nesse sentido, não há nada do que se arrepender.
 Eu não posso escrever diretamente; mas se for capaz de ouvir isto —
 ou talvez quando chegar — então encaminhe como se fosse para ele,
 e não para você.
 Então, meu caro, na presença do teu telegrama isto é tudo o
 que posso escrever. Você sabe dos meus sentimentos, e eu não preciso
 dizer mais nada.
 Como sempre,

 C A R TA X I I I

 Você fez bem em me enviar aquela carta. É claro, sinto muito
 em saber notícias suas naquele estado, mas estou contente por você
 ter escrito. Deixe-me dizer uma coisa — você vai acreditar? Você não

 está num estado tão ruim assim como pensa, e sua carta, que você
 me mandou falando abertamente, mostra isso. Você não é capaz, do
 ponto de vista comum da sabedoria mundana, de ver as coisas dessa
 forma? Pois a sua carta mostra isso — uma mente e uma natureza
 inferior em um turbilhão, não no sentido comum, mas, falando me-
 taforicamente, como se estivesse girando em um círculo estreito, apa-
 rentemente morta, mas mantida viva por seu próprio movimento. E
 acima disso, uma alma humana, sem nenhuma pressa, mas esperando
 chegar a hora. E eu lhe digo, eu sei que vai acontecer.
 Se, até onde chega a sua consciência pessoal, você perdeu todo
 o desejo pelo progresso, pelo serviço e pela vida interna — o que tem
 uma coisa a ver com a outra? Você não pensa que outros tiveram de
 passar por tudo isso, e coisa pior — uma aversão positiva, talvez, por
 tudo que esteja ligado à Teosofia? Você não sabe que é preciso uma
 natureza com determinada força em si para afundar muito baixo, e
 que o mero fato de ter o poder de afundar pode significar que a mes-
 ma pessoa consiga, com o tempo, se erguer a uma altura proporcio-
 nalmente maior? Este não é o caminho mais elevado a seguir, mas é
 o caminho que muitos têm que trilhar. O mais elevado é aquele que
 segue com pouca variação, mas poucos são fortes o suficiente para en-
 carar a incessante tensão. Somente o tempo e muitas vidas de serviço
 podem dar a eles essa força. Mas, enquanto isso, existe esse disponível
 para ser percorrido. Trilhe-o corajosamente.
 Você conseguiu o ____. Em que diabos você acha que está se
 metendo? Tente encontrar e olhar para o céu correspondente. Está
 bem próximo. E eu não digo isso para tentar animá-lo artificialmen-
 te, porque isso seria inútil e não duraria, mesmo que eu conseguisse

 fazê-lo. Eu escrevo sobre fatos, e acho que em algum lugar na sua
 natureza você está muito bem ciente de que eu faço realmente isso.
 Agora, o que tem de ser feito: ____. Em minha opinião, você
 deve dar deliberadamente a si mesmo um ano de experimentação.
 Escreva-me no final desse ano e me conte (e durante esse período,
 sempre que você se sentir chamado a fazê-lo, o que não será com
 tanta frequência) como você se sente, e eu o ajudarei o máximo que
 puder se você não se sentir inclinado a prosseguir e a cumprir essa
 experimentação. Mas você mesmo tem que fazer isso, apesar de não
 querer fazê-lo. Você consegue.
 Convença a si mesmo de que em alguma parte da sua nature-
 za, em algum lugar, existe aquele que deseja ser de utilidade para o
 mundo. Perceba intelectualmente que o mundo não vai assim mara-
 vilhosamente bem e provavelmente quer uma mãozinha. Reconheça
 mentalmente que você, mais cedo ou mais tarde, deve tentar traba-
 lhar por ele. Admita para si mesmo que outra parte da sua natureza
 — e se possível perceba que é sua parte inferior — não dá a mínima
 importância à situação do mundo ou ao seu futuro, mas que esse
 cuidado e interesse devem ser cultivados. Este cultivo, logicamente,
 levará tempo — todo cultivo leva tempo. Comece gradativamente.
 Afirme constantemente para si mesmo que pretende trabalhar e que
 o fará. Mantenha isso firme o tempo todo. Não estabeleça nenhum
 limite de tempo para isso, mas assuma a atitude de que você está
 trabalhando para esse fim. Comece por trabalhar em qualquer coisa
 por dez minutos todos os dias — estudo, ou endereçamento de en-
 velopes de correspondências, ou qualquer coisa, desde que seja feito
 deliberadamente e com o objetivo em vista. Se chegar um dia em que
 isso for muito cansativo, interrompa por esse dia. Dê a si mesmo três

 ou quatro dias de descanso, e faça isso deliberadamente. Então, volte
 para o trabalho de dez minutos diariamente. Ao final de seis ou sete
 semanas, você saberá o que acrescentar à prática; mas vá devagar, não
 faça nada às pressas; seja cauteloso.
 Não tente ser mais amigável com essa ou aquela pessoa — mais
 ativamente amigável, eu deveria dizer. Essas coisas precisam surgir
 por si mesmas, e surgirão com o tempo. Mas não fique surpreso se
 você sentir que, de alguma maneira, toda a compaixão desaparece de
 você. Isso, também é uma velha história. Está tudo certo, porque isso
 não dura muito. Não fique ansioso demais para ver os resultados da
 prática que eu descrevi acima. Não procure por resultado algum: você
 não terá preocupação alguma com eles se fizer tudo isso como um
 dever. E, finalmente, não esqueça, meu querido amigo, que os mor-
 tos realmente voltam à vida e que a coisa mais fria do mundo pode
 se tornar quente por uma suave fricção. Então eu lhe desejo sorte, e
 gostaria de poder fazer mais por você. Mas farei tudo o que puder.

 C A R TA X I V

 Agora, esta é, como eu disse, uma era. Eu a chamei “Ocultismo
 ocidental”, mas você pode dar-lhe o nome que quiser. Mas é ociden-
 tal. O símbolo é a bem-intencionada República americana, que foi
 vista de antemão por Tom Paine como “uma nova era nos assuntos
 do mundo”. Estava destinada a ser, o mais próximo possível, uma fra-
 ternidade de nações, e essa é a tendência de sua Declaração e Cons-
 tituição. A S.T. está destinada a ser a mesma coisa, mas tem estado

 por muitos anos em um estado de fricção. Ela tem agora, se possível,
 de sair disso. Ela não pode constituir uma fraternidade a menos que
 cada uma, ou algumas, de suas unidades tornem-se irmãs em verdade.
 E “Irmãos” foi a nobre designação dada aos Mestres em 1875. Por-
 tanto, você e eu, e todos nós, devemos cultivá-la (a fraternidade). Nós
 precisamos perdoar nossos inimigos e aqueles que nos atacam, pois
 somente assim podem os grandes Irmãos ajudar adequadamente, tra-
 balhando por meio de nós. Parece haver muito a perdoar, mas isso é
 fácil de fazer, visto que em cinquenta anos estaremos todos mortos e
 esquecidos.
 Corte, então, os pensamentos sobre essas “crianças tolas” até
 que surjam vibrações harmoniosas em alguma medida. Deixe de lado
 esse absurdo. Eu evitei deliberadamente lançar-me em tão grande
 risco. Então, entenda, perdoe, perdoe e esqueça amplamente. Venha
 comigo, então, e vamos juntos erguer o mais rápido possível o senti-
 mento de fraternidade.
 Agora, então, você quer mais luz, e isto é o que você precisa fa-
 zer. Você terá de “desistir” de algo. Falando de modo bem claro: des-
 perte meia hora mais cedo do que de costume e dedique-a, antes do
 café da manhã, à meditação silenciosa, na qual reflita sobre todas as
 grandes e elevadas ideias. Meia hora! Certamente, você pode dispor
 desse tempo. E não coma primeiro. Se você puder pegar outra meia
 hora antes ir dormir, e sem nem trocar de roupa antes ou arrumar as
 coisas para ficarem mais agradáveis ou mais confortáveis, medite ou-
 tra vez. Agora, não me venha a falhar nisso. Isto é muito para se de-
 sistir, mas desista, relembrando que você não deve fazer todos aqueles
 preparativos aos quais a maioria das pessoas geralmente se entrega.

 “(...) O melhor e mais importante instrutor é o próprio sétimo
 Princípio centrado no sexto. Quanto mais você se despoja da ilusó-
 ria sensação de isolamento pessoal, e quanto mais você se dedica ao
 serviço dos outros, mais Māyā desaparece e mais você se aproxima da
 Divindade.” Até logo, então, e que você encontre aquela paz que vem
 do Ser.

 C A R TA X V

 Em resposta às suas perguntas:
 (I) Roupas e forma astral.
 Resposta: Você está incorreto em presumir que as roupas não
 tenham alguma forma astral. Tudo na Natureza tem seu duplo em
 outros planos, significando esse fato que nada visível na matéria ou
 espaço poderia ser produzido sem tal base. As roupas são vistas, bem
 como as pessoas, porque as primeiras existem no plano astral, assim
 como as segundas. Além disso, a razão pela qual as pessoas são vistas
 no plano astral com roupas de diversos cortes e cores é devida ao
 pensamento e ao desejo da pessoa que as veste assim. Portanto, uma
 pessoa pode ser vista na luz astral vestindo um traje totalmente di-
 ferente do que ela vestia porque seus pensamentos e desejos estavam
 em outro tipo de roupas, mais confortáveis, mais apropriadas, ou não.
 (II) O que os verdadeiros e fervorosos teósofos podem fazer
 contra a Idade das Trevas ou Kali-Yuga?
 Resposta: Nada contra ela, mas muito a empenhar-se nela; pois
 deve ser lembrado que o próprio fato de ela ser uma Idade de Ferro,

 ou era de fundação, proporciona oportunidades que não são obtidas
 em qualquer outra Idade. Sua duração é apenas um quarto da mais
 longa das outras idades47, e, portanto, é quatro vezes mais cheia de
 vida e atividade. Daí a rapidez com que todas as coisas acontecem
 nela. Uma causa muito leve produz efeitos gigantescos. Agora, as-
 pirar mesmo pouco produzirá efeitos maiores e mais duradouros do
 que em qualquer outra época. E, da mesma forma, a má intenção tem
 maiores poderes para o mal. Essas grandes forças são visivelmente
 intensificadas ao final de determinados ciclos no Kali-yuga. O ciclo
 atual, que vai de 17 de novembro de 1897 a 18 de fevereiro de 1898,
 é um dos mais importantes dentre os que já existiram. Oportunida-
 des para produzir efeitos permanentes para o bem, em si mesmos,
 e no mundo como um todo, são dadas aos teósofos da época atual
 — oportunidades que eles podem nunca mais ter outra vez se forem
 desperdiçadas.

 47 (N.E.) Os valores são obtidos do estudo da Cronologia dos Brâmanes, contida
 nos antigos Puranas e citada pela Sra. Helena Petrovna Blavatsky em A Doutrina
 Secreta (Vol. II; pp. 76-85. Ed. Pensamento, 2018). Estes valores e um estudo
 sobre os mesmos podem ser encontrados na obra O Plano Divino (tradução em
 português disponível apenas em pdf ), do Sr. Geoffrey A. Barborka, pp. 24-41, no
 Cap. 1, “A Doutrina da Constante Renovação”, no tópico intitulado “A Relação
 dos Ciclos com a Doutrina da Constante Renovação”. São estes os valores da
 duração de cada um dos YUGAS :

 1 Krita-yuga (Satya-yuga) 1.728.000 anos
 2 Treta-yuga 1.296.000 anos
 3 Dvapara-yuga 864.000 anos
 4 Kali-yuga 432.000 anos

 C A R TA X V I

 Os Mestres escreveram que nós estamos todos unidos em uma
 totalidade viva. Consequentemente, os pensamentos e as ações de um
 reagem sobre todos.
 A experiência demonstrou que isso é verdade, como dito pelos
 Mestres, que todo membro sincero, em qualquer cidade, pode ajudar
 a S.T. e beneficiar seus concidadãos. Não é um elevado aprendizado
 que é necessário, mas unicamente devoção à humanidade, fé nos Mes-
 tres, no Ser Superior, uma compreensão das verdades fundamentais
 da Teosofia, e um pouco — só um pouco — de empenho sincero em
 apresentar essas verdades fundamentais às pessoas que precisam delas
 desesperadamente. Esse empenho deve ser contínuo. Nenhum esforço
 para pregar ou provar fenômenos terá qualquer valor, pois, novamente,
 como os Mestres escreveram, um fenômeno exige outro e mais outro.
 O que as pessoas querem é uma solução prática para os proble-
 mas que nos assediam, e tal solução você encontra na Teosofia. Você
 não tentará dar-lhes mais e mais, e salvá-las do lamaçal em que se
 encontram?
 Eu gostaria de chamar distintamente a sua atenção para o ir-
 mão ____. Não há entre ele e você aquela completa simpatia e tole-
 rância que deveria haver, e, pelo bem do trabalho, isso deveria ser de
 outra forma. Você pode dizer que a culpa é dele. Não é totalmente,
 pois você também deve ter alguma culpa, se não nesta vida, então
 noutra passada. Você é capaz de negar que por um longo período ele
 sustentou a Loja lá? Pois se ele não o tivesse feito, ela teria se extin-
 guido, mesmo vocês sendo também agentes necessários.

 Algum de vocês nutre sentimentos de crueldade ou de vingança
 para com ele? Se nutrirem, vocês não deveriam expulsá-los imedia-
 tamente de seus corações? Pois eu lhe juro pela minha vida que, se
 vocês têm estado incomodados ou infelizes, isto é devido à reação a
 tais pensamentos, ou similares, sobre ele ou outras pessoas. Expulsem
 todos esses pensamentos de seus corações, e demonstrem para com ele
 tal benevolência e fraternidade que, pela força de sua vívida bondade,
 faça com que ele seja levado à plena unidade e cooperação com vocês.
 Discussões ou provas para mostrar que vocês estão certos e que
 ele está errado de nada servem. Nenhum de nós jamais está total-
 mente certo — há sempre alguma coisinha em nós que faz com que
 os outros se ofendam. A única discussão deve ser no sentido de que
 vocês encontrem uma maneira de apresentar ao mundo, em seu dis-
 trito, uma frente única, unida e sólida.
 Quanto à expressão “ver sons”, isso você entende, é claro, até
 onde vai à afirmação. Ela registra o fato de que, em certa ocasião, as
 vibrações que agora causam um som foram capazes de formar uma
 imagem — e isso elas fazem, mas no plano astral.

 C A R TA X V I I

 Em resposta à sua pergunta:
 Nem a Lei Geral nem a Loja interferem para neutralizar o efei-
 to da tensão sobre as energias físicas do discípulo, quando causada por
 exercício indevido ou falta de regularidade, exceto em determinados
 casos. Portanto, o teósofo deve cuidar para que suas horas de sono,

 trabalho e recreação sejam organizadas e ajustadas apropriadamente,
 visto que ele não tem direito nenhum de viver de maneira a se pre-
 judicar, e assim privar a Causa pela qual trabalha de seu instrumento
 útil e necessário.
 As energias do seu amigo foram desarranjadas e um tanto exau-
 ridas por irregularidades no que se refere ao repouso e à recreação,
 pois o trabalho tem sido pesado, e o repouso necessário — seja ador-
 mecido, seja acordado — não tem sido feito. Isto causa excitação, que
 reagirá (ou reagiu) de muitas maneiras no sistema e sobre os órgãos.
 Esse desarranjo causa excitação mental, que por sua vez desperta ou-
 tros distúrbios. Ele, como qualquer outro, deve tomar providências a
 fim de assegurar regularidade no que se refere ao repouso, de maneira
 que o trabalho que ele faz seja melhor, e a atual excitação diminua
 em seu sistema. Não é sábio ficar acordado até tarde, a menos que
 se tenha um bom propósito, o que não representa meramente ficar
 conversando com outros até altas horas quando nada de bom ou ne-
 cessário pode ser realizado com isso. Além de outras, esta é uma razão
 muito boa.
 Excitação é calor; se calor é aplicado sobre calor, mais calor é
 produzido. O frio tem que ser aplicado, de modo que o equilíbrio se
 estabeleça. Isto se aplica nesse caso, e o estabelecimento de regula-
 ridade com relação ao descanso é a aplicação de frio. Em segundo
 lugar, os diversos pensamentos e ações “errôneos” e excitantes dos
 outros são calor; o frio deve ser produzido por descarregar a mente
 dessas coisas e deixar de se referir a elas em palavras; de outro modo o
 calor gerado continuará. É desnecessário referir-se às razões basean-
 do-se em pontos de conduta e de exemplo, pois qualquer um é capaz
 de encontrá-los e aplicá-los.

 Como não há pressa, é fácil livrar a mente da ansiedade e da
 irritação que surge com a pressa. Mais uma vez, comparar o próprio
 trabalho ou as maneiras de fazer as coisas melhor do que os outros é
 errado, e também produz o calor acima mencionado.

 C A R TA X V I I I

 Você está certo em pensar que os princípios essenciais da Teo-
 sofia são frequentemente declarados sem que se use essa denomina-
 ção, pois ela é o sistema fundamental universal que é a base das reli-
 giões de todas as eras. O Novo Testamento, corretamente entendido,
 ensina Teosofia, e nós sabemos que tanto Jesus quanto Paulo eram
 Iniciados. É claro que, na Teosofia, como em qualquer outra Ciência,
 compreende-se mais à medida que se lê mais, e eu recomendo a você
 que leia e assimile todos os nossos livros, que você pode convenien-
 temente obter.
 Agora, a respeito da pergunta que você me faz, deixe-me dizer-
 -lhe que a Teosofia não requer de nenhum homem que abandone um
 modo de vida que não seja errado em si mesmo. O uso de carne na
 dieta não é um pecado; não é nem mesmo uma ofensa; é um hábito
 ao qual a raça se conformou imensamente, e não é uma questão sobre
 moral ou direitos. Em um determinado estágio de avanço enquanto
 chela ou discípulo, o uso de carne tem de ser abandonado por seus
 efeitos psíquicos e fisiológicos. Mas você não atingiu tal estágio, nem
 é provável que o atinja por bastante tempo. Visto que o uso da carne
 não é uma ofensa, tampouco pode ser o suprimento dela para outros,

 de forma que sua assessoria na matança de porcos para o mercado
 não se opõe de maneira alguma ao seu dever como homem ou como
 teósofo. Sendo essa a sua tarefa nas circunstâncias atuais, devo reco-
 mendar-lhe que a execute sem hesitação.
 Homens e mulheres são complementares em caráter e, portan-
 to, adaptados um ao outro. É natural que cada sexo goste da com-
 panhia do outro, e aquilo que é natural não pode estar errado. Além
 do mais, é perfeitamente apropriado que quando uma companheira
 adequada for encontrada, o homem se case e se estabeleça como che-
 fe de família, criando uma família com visões e propósitos elevados.
 Assim como a abstenção de carne, o celibato é essencial para avançar
 a partir de certo estágio, mas esse estágio ainda não foi alcançado por
 você, e, portanto, você não está sujeito às condições dele. Não pode
 haver uma regra estabelecida para todos os seres humanos, visto que
 os temperamentos e os desejos são tão diferentes. Cada um deve re-
 solver o problema da vida a seu próprio modo. Se as suas aspirações
 estão em coisas elevadas, e você considera aquelas que são inferiores
 um entrave, é evidente que você não deve ser indulgente com estas
 últimas; mas se elas não se constituem um obstáculo para você, então
 é ainda seu dever cumpri-las. Você está certo em pensar que o essen-
 cial para todo verdadeiro progresso é um desejo de se harmonizar to-
 talmente à Vontade Divina, estando seguros de que seremos ajudados
 na proporção de nossa necessidade.

 C A R TA X I X

 Sim, você está certo. Estou em perigo, mas tal perigo não está
 do lado de fora, embora seja no exterior que as tentações se apresen-
 tem. E em algum sentido todos os que estão comigo estão em perigo
 também. É um perigo de ____, que sempre tenta impedir os passos
 daqueles que seguem em frente. Então, também, meu caro, você está
 em algum tipo de perigo. Mas enquanto o perigo existir, também há
 encorajamento no próprio fato em si. Pois nós não estaríamos nessa
 situação se não tivéssemos tido a sorte de ter progredido, através do
 trabalho e da paciência, até o ponto em que ____ vê o suficiente em
 nós para tentar impedir nosso progresso, atrapalhando nosso traba-
 lho. Por isso, se eles veem que não podem nos paralisar, eles tentam
 todos os planos para criar contenda, de forma a anular nosso trabalho.
 Mas nós venceremos, pois sabendo do perigo nós adotaremos
 medidas contra ele. Eu estou decidido a não fracassar. Outros podem
 fracassar; mas ____ e eu não iremos. Aguardemos, então, todo sofri-
 mento com confiança e esperança. O próprio fato de você sofrer tanto
 é uma evidência objetiva de progresso, mesmo que seja tão doloroso,
 não só para você, mas também para aqueles que o amam. Portanto,
 embora eu não diga “continue sofrendo”, fico consolado em saber que
 será para um grande bem no futuro. Portanto, estou escrevendo isso à
 mão, em vez de fazê-lo à máquina, para que você possa sentir a força
 do meu amor e companheirismo.
 Vamos todos nos aproximar em mente e coração, alma e ação, e
 assim tentar criar a verdadeira fraternidade, através da qual, somente,
 pode vir nosso progresso universal e particular.

 A ti, ó detentor da chama, meu amor eu envio. Bem, vou de
 novo, mas nunca me esqueço. Minha melhor afeição e bênção vão
 para ti. Não posso falar dessas coisas, mas tu sabes.
 E agora, como antes, assim como agora e para sempre, e para
 todo sempre,

 C A R TA X X

 Para aqueles que eu amo e que trabalham comigo.
 Minhas últimas palavras antes de ir para a Convenção.48
 Dúvidas e questionamentos levantaram-se com relação a algu-
 mas coisas desde que essas nuvens se juntaram. Entre outras coisas,
 foi dito que seria melhor que Olcott tivesse deixado o cargo; seria
 bom para ele e assim por diante. Estas opiniões não devem ser man-
 tidas. Se forem concebidas, elas devem ser repudiadas. Há duas forças
 em atuação na S.T., bem como no mundo e no homem. São as forças
 do bem e do mal. Nós não podemos evitá-las: é a Lei! Mas nós temos
 regras, e pregamos o amor, a verdade e a bondade; e acima de tudo
 falamos de gratidão, não somente aos Mestres, mas entre nós. Ora,
 isto se aplica àqueles questionamentos sobre Olcott, e também aos
 princípios de política. Assim, deixem-me lhes dizer o que me disse
 alguém em quem eu acredito e cujas palavras eu endosso. Assim:

 48 Evidentemente a Convenção de 1892. Nós completamos o texto desta carta por
 referência ao “Theosophical Forum”, de agosto de 1893. (Nota da edição original
 em inglês.)

 “Ele mantém o cargo por duas razões: (a) Para pagar um débito
 de gratidão; (b) A S.T. não deve ser vista pelo mundo exteriormente
 como dividida, ou tornar-se entidades separadas. Ela tem de perma-
 necer um todo indiviso e sólido de uma ponta a outra, mantendo até
 mesmo seu ‘presidente incompetente’. Não se deve considerar que
 ele seja totalmente incapaz. Ele é capaz de continuar com sua pe-
 quena porção do trabalho até o fim se for bem assistido. O trabalho
 não pode falhar porque aqui e ali personalidades caem, procedem
 mal e não são sábias. A VERDADE permanece, e ELA existe não
 importa quem caia, mas a multidão olha para o líder visível. Se ele
 se desintegrar como um quebra-cabeça desmontado, imediatamente
 a multidão dirá: “Não há Verdade, nada existe”; e o trabalho de um
 século será arruinado e terá que ser reconstruído desde as suas fun-
 dações; e virão anos de tendência ao retrocesso entre a ruína de um
 empreendimento e o começo de outro. A mesma força que anulou
 sua pretendida renúncia, e a frustrou, anulará o problema presente.
 “Deixe-me dizer uma coisa que eu SEI: somente o sentimento
 de genuína fraternidade, de verdadeiro amor pela humanidade, des-
 pertado na alma de alguém forte o suficiente para conter esta cor-
 rente, pode nos levar adiante. Pois AMOR e CONFIANÇA são as
 únicas armas que podem derrotar os REAIS inimigos, os quais o
 verdadeiro teósofo tem que enfrentar. Se eu ou você entrarmos nesta
 batalha por orgulho, por obstinação, pelo desejo de manter a nossa
 posição aos olhos do mundo, por qualquer coisa diferente das mais
 puras motivações, nós falharemos. Examinemos bem nossas almas,
 olhando-as como nunca antes. Vejamos se em nós existe a realidade
 da fraternidade que pregamos e que devemos representar.”

 Lembremos as célebres palavras: “Sede sábios como as serpen-
 tes, mas inofensivos como as pombas.” Lembremos os ensinamentos
 dos Sábios de que morrer no exercício do nosso próprio dever é pre-
 ferível a cumprir o dever de outro, por melhor que possamos realizar
 este último: o dever do outro é cheio de perigos. Sejamos da paz e
 pela paz, e não apenas para a guerra.
 Sinceramente como sempre,
 WILLIAM Q. JUDGE

 C A R TA X X I

 É verdade que sofri com meus sentimentos frios e duros. Mas a
 culpa foi dela, pois eu digo agora como antes para ____ que ela, ab-
 sorta, negligenciou meus membros, que são meus filhos, para os quais
 eu queria o melhor dela e consegui o pior. Isso me deixou frio, é claro,
 e eu tive que lutar contra isso, e não me importei se ____ não gostou.
 Não tenho tempo para me preocupar. Estou feliz que ela tenha ido
 para ____.
 É a provação e a oportunidade dela; e quando ela voltar, poderá
 ver por si mesma se é capaz de evitar que a ideia do “grande líder” se
 instale, como aconteceu com outros. Se ela o fizer, então terá supor-
 tado a reação, e tenho fé que ela suportará; mas isso ainda precisa ser
 cumprido. A hora chega, com certeza, e com ela a provação. HPB foi
 a preparadora e o conforto dela, mas os homens não se tornam de aço
 pelo conforto, e observe que depois HPB morreu.

 Minha viagem por todo este país me mostra que é mais impor-
 tante que eu trabalhe agora nos EUA, onde os Mestres trabalharam
 pela primeira vez neste século. Isso requer tudo o que eu possa fazer.
 (...) Então, quando eu tiver cumprido meu compromisso no palco
 inglês, voltarei para cá rapidamente e farei este trabalho. O campo é
 ainda maior do que eu pensava, embora eu tivesse uma grande ideia
 dele. A partir dos Estados Unidos podemos influenciar o mundo, e
 eles virão até nós de todos os lugares, seja para um trabalho sólido ou
 para obter ajuda em suas necessidades.
 Bem, agora falemos de você: eu sinto tudo. São altos e baixos.
 É bom que você seja corajoso e capaz de perseverar. Na verdade, “su-
 portar” é uma palavra melhor, pois é isso que o carvalho faz quando as
 tempestades se agravam: quando não podemos fazer nada, é melhor
 suportar do que desmaiar e cair. Os fatos devem ser encarados. Espe-
 ro que eles possam acabar de outra forma, mas se não, é Karma. Dores
 à parte, o resto é sempre o mesmo. Se acontecer, não vai durar muito.
 Ainda assim, espero que não aconteça. Eu penso muito nisso, mas
 conheço a sua bravura e a alma elevada que mora dentro de você. Por
 todo o tempo de dor e de luta obstinada, sei que seu verdadeiro Ser
 permanece acima de tudo isso, sem ser afetado, assim como o meu, e
 nos consolemos com isso. Todas as coisas nesta era se movem como
 um raio, e é assim também com todo o nosso Karma, embora o meu
 muitas vezes tenha parecido lento, no que me diz respeito. Bem, eu
 não posso continuar com isso. Sinto o mesmo que você: estou ao seu
 lado de coração, e, ultimamente, tenho enviado muitas mensagens de
 esperança e força para ajudá-lo.
 Aconselhei ____ a fazer a parte dela para diminuir a constante
 divulgação do nome de HPB, em vez do pensamento independente

 sobre Teosofia. Temos demais disso, o que não é prova de lealdade,
 e dá margem a muitas falações tolas sobre nosso dogmatismo. Você
 compreenderá, e poderá influenciar alguns a uma atitude mais mo-
 derada, embora firme, que não diminua a lealdade e a devoção deles.
 Um bom ponto é que o verdadeiro chela não fala muito de seu Mestre,
 e habitualmente não se refere à existência desse Mestre. Quase se
 tornou o mesmo que agitar desnecessariamente a bandeira vermelha
 para o touro. Aqueles de nós que têm experiência, não o fazem; mas
 os mais jovens, sim. ____ faz isso aqui nos discursos dele, e eu vou
 conversar com ele sobre isso. Se isso não for evitado, a primeira coisa
 que sabemos é que haverá uma divisão entre os partidários de HPB
 e os teósofos ‘’puro-sangue”, estes últimos alegando serem os autên-
 ticos por serem desprovidos de qualquer elemento pessoal. Você, eu e
 ____ não achamos necessário ficar lançando-a (HPB) o tempo todo
 na cara dos outros, e é bom agora aceitar o alerta oferecido de fora.
 Além disso, recebi um aviso interno muito forte sobre isso. Meus
 votos mais amorosos, agora que estamos próximos ao Natal e ao Ano
 Novo, e que haja alguma claridade para iluminar o caminho. Eu lhe
 envio meu amor imaculado como um simples presente.
 Espero que seja firme e proceda conforme indicado, mas ela,
 como todos nós, deve enfrentar seus próprios velhos inimigos em si
 mesma.
 Despeço-me agora, como sempre seu,

 C A R TA X X I I

 Grande emoção ontem à noite. Era a habitual noite de ____
 na S.T., e ____ deveria discursar. Chegamos às 8h15, e o salão estava
 lotado. Ele começou, e haviam se passado apenas quinze minutos
 quando foi descoberto que o prédio estava pegando fogo. Nós in-
 terrompemos e possibilitamos às 1.000 pessoas saírem pelos vários
 corredores, e então saímos silenciosamente; ninguém se feriu, apenas
 dois, ____ e ____, que receberam alguns litros de água de uma man-
 gueira estourada.
 Foi uma saída estranha, pois descemos as escadas ao lado do
 elevador, e caíam vidros, tijolos e água da fonte de iluminação, en-
 quanto o fogo nos andares superiores rugia e produzia uma luz fina,
 e jorros de fogo desciam pelos tubos oleosos do elevador do outro
 lado; e os bombeiros puxavam a mangueira enquanto fugíamos. Foi
 a própria reunião de ____, e terminou em incêndio! Nenhum dos
 grandes médiuns presentes teve a mais remota premonição, mas um
 deles inventou depois ter experimentado uma sensação de terror.
 Diga a ____ que já passou o tempo para ele vacilar; ele conhece
 seu guru — era e é HPB. Deixe-o refletir antes de fazer aquilo que, ao
 destruir a vida e a fama dela, irá destruir sua própria vida, deixando-o
 onde nada de verdadeiro pode ser visto. (...) O silêncio é útil de vez
 em quando, mas o silêncio às vezes é algo que fala alto demais. Eu
 sou amigo dele e irei ajudar. Ninguém pode machucá-lo, exceto ele
 mesmo; o trabalho e o sacrifício dele foram nobres, e ninguém pode
 apontar o dedo para ele.

 Veja o que eu disse no volume de abertura de “The Path”: o
 estudo do que hoje se chama “Ocultismo prático” não era objeto da-
 quele periódico.

 “Nós o consideramos como incidental no percurso do caminho.
 O viajante, ao ir de uma cidade a outra, talvez tenha que atravessar
 vários rios; talvez o seu meio de transporte falhe e ele seja obrigado a
 nadar; ou, para cruzar uma grande montanha, ele deva conhecer en-
 genharia para abrir um túnel através dela, ou seja compelido a exercer
 a arte de localizar sua posição exata observando o Sol — mas tudo
 isso é apenas incidental com relação ao seu objetivo principal de che-
 gar ao destino. Admitimos a existência de forças ocultas e poderosas
 na Natureza, e acreditamos que, a cada dia, um progresso maior é
 feito em compreendê-las. A formação do corpo astral, a clarividên-
 cia, ver através da luz astral e o controle dos elementais são possíveis,
 mas nem tudo é vantajoso. A corrente elétrica, que quando contra-
 posta no carbono produz luz intensa, pode ser trazida à existência
 por qualquer ignorante que tenha a chave da casa de máquinas e gire
 a manivela que liga o dínamo, mas é incapaz de impedir seu próximo
 ou a si mesmo de ser morto instantaneamente caso essa corrente
 seja acidentalmente desviada através de seu corpo. O controle dessas
 forças ocultas não é facilmente obtido, nem os fenômenos podem ser
 produzidos sem perigo; e, em nossa opinião, a obtenção da verdadei-
 ra sabedoria não se dá por meio de fenômenos, mas pelo desenvolvi-
 mento que se inicia internamente.
 “O verdadeiro Ocultismo é claramente estabelecido no Bhaga-
 vad-Gītā e em Luz no Caminho, onde é colocada ênfase suficiente
 sobre o Ocultismo prático, pois, afinal, Krishna diz que a ciência e o

 mistério régios são a devoção à luz que vem de dentro e seu estudo. O
 primeiro passo no verdadeiro misticismo e no verdadeiro Ocultismo
 é tentar apreender o significado da Fraternidade Universal, sem a
 qual o mais elevado progresso na prática da magia se transforma em
 cinzas na boca.
 “Apelamos, portanto, a todos os que desejam elevar a si próprios e
 a seus semelhantes — homens e animais — para além da irrefletida
 corrida frenética da vida cotidiana egoísta. Não se pensa que a utopia
 possa ser estabelecida em um dia, mas, através da difusão da ideia
 da Fraternidade Universal, pode ser descoberta a verdade em todas
 as coisas. O que se deseja é o verdadeiro conhecimento da condição
 espiritual do homem, seu objetivo e destino. Tal estudo nos leva a
 aceitar a declaração de Prajapati a seus filhos: ‘Seja contido, seja libe-
 ral, seja misericordioso; essa é a morte do egoísmo.’”

 Esta é a linha que devemos seguir e perseverar, para que com o
 tempo todos possam obter a verdadeira luz.

 E X T R AT O S S O B R E A T E O S O F I A

 E A SOCIEDADE TEOSÓFICA

 Todo o trabalho que cada um de nós realiza em qualquer lugar
 redunda em interesse e em benefício de toda a S.T., e por essa razão
 sabemos que estamos unidos.
 O Ser é único e todo-poderoso, no entanto, de tempos em tem-
 pos, o buscador sentirá a singularidade de novas condições; isso não

 é motivo para sentir medo. Se a mente é mantida atenta ao Ser, e não
 desviada dele, passando a ver o Ser em todas as coisas, não importa o
 que sejam, então o medo desaparecerá com o tempo. Portanto, acon-
 selho você a estudar e meditar sobre o Bhagavad-Gītā, um livro que
 me ajudou mais do que todos os outros, em toda a variedade de livros,
 sendo aquele que pode ser estudado o tempo todo.
 Isso o beneficiará mais do que qualquer outra coisa — se os
 grandes ensinamentos forem silenciosamente assimilados e coloca-
 dos em ação, pois esse livro penetra a verdadeira raiz das coisas e
 expressa a verdadeira filosofia da vida.
 Se você tentar colocar em prática o que em sua vida interior con-
 sidera correto, estará mais preparado para receber pensamentos provei-
 tosos, e a vida interior se tornará mais real. Espero que, com você, seu
 lar possa se tornar um forte centro de trabalho para a Teosofia.
 Você quer conhecer a situação interna da S.T. Bem, é assim:
 todos nós trabalhamos há dezoito anos, e a Sociedade Teosófica,
 como um corpo, tem seu Karma, assim como cada um que a constitui.
 Aqueles que trabalharam duro têm, naturalmente, seu próprio Kar-
 ma, e se colocaram em um ponto à frente da S.T. Agora, se as Lojas
 estão enfraquecidas no conhecimento da Teosofia e na prática de seus
 preceitos e de sua compreensão do todo, o corpo está na situação de
 uma criança que cresceu excessivamente rápido para sua capacidade;
 se for esse o caso, é obrigatório haver uma verificação. De minha par-
 te, não quero muita pressa, pois sei muito bem quão fracos são mes-
 mo aqueles que estão nela há muito tempo. Quantos aos indivíduos,
 como você, ____ e assim por diante, por causa do trabalho árduo e
 independente, vocês adentraram o reino interior exatamente onde
 vocês podem começar muito em breve a atrair a atenção dos Magos

 Negros, que então tentarão nocauteá-los; portanto, tenham cuidado.
 Serão feitas tentativas silenciosas para provocar irritação e para au-
 mentá-la onde ela já existir. Assim, a única coisa a fazer é viver o má-
 ximo possível na natureza superior, e que cada um de nós subjugue as
 menores e triviais ebulições da natureza inferior, que são comumente
 negligenciadas. Dessa forma, toda a natureza é fortalecida, anulando
 os esforços do inimigo. Isso é extremamente importante e, se não for
 atendido, será um desastre. Isso era o que eu tinha em vista em todas
 as cartas que enviei a você e aos outros. Espero que, aqui e ali, você
 seja capaz de se unir àqueles que tenham a visão correta, verdadeira e
 sólida, deixando então atrás de você bons homens e agentes.

 WWWWW

 Quando eu estava em ____, apresentei a você e aos outros o
 plano de levar a Teosofia para a classe trabalhadora. Alguma coisa
 foi feita sobre isso? Ela deve ser apresentada de maneira simples. Ela
 pode ser entendida. É importante. Vejamos se não é possível executá-
 -lo — todos vocês prometeram dedicar seu trabalho ao assunto. Por
 que não fazer como o homem da Bíblia, desviando-se de todas essas
 pessoas que não virão e indo para as ruelas e valados?49 Então, tenho
 certeza de que, se administrado corretamente, muitas pessoas que
 acreditam na Teosofia, mas não querem se comprometer abertamen-
 te com ela, ajudariam esse movimento, ao verem que ele envolveria
 falar aos pobres e dar a eles coisas coerentes. Se necessário, eu faria
 uma reunião todas as noites, sem apresentar-lhes abstrações. Agregue

 49 Provável referência ao Evangelho de São Lucas, capítulo 14. (N.E.)

 música, se possível, etc. Agora, me apresente suas ideias. O tempo
 continua sua marcha, e muitas mudanças sociais estranhas estão a
 caminho.

 WWWWW

 Recebi sua carta longa de ____, e você está correto em relação à
 conduta das Lojas. Nenhuma Loja deve depender de uma só pessoa,
 nem de duas ou três, pois nesse caso ela, com certeza, capitulará. Aqui
 eles dependeram de mim por um longo período; e minha saúde pre-
 cária em relação à minha voz, que durou um ano, foi uma boa coisa
 por ter feito com que outros se apresentassem. ____ tem toda a ra-
 zão do ponto de vista dele, mas certamente ele deve se preparar para
 fazer mais do que dar palestras, uma vez que a S.T. tem que ter uma
 cabeça além de uma língua; e se um homem sabe que ele é mau nos
 negócios, ela deve se penitenciar para aprender, obtendo assim uma
 boa disciplina. Infelizmente, em todos os lugares, precisamos de pes-
 soas verdadeiramente entusiasmadas. No entanto, tudo isso virá com
 o tempo. O principal é que os membros estudem e saibam Teosofia,
 porque se eles não souberem, como podem passar qualquer parte dela
 aos outros? É óbvio, continuamente grande parte do trabalho recai
 sobre os ombros de poucos, como sempre acontece, mas devemos nos
 esforçar, como você diz, para apresentar outro material.

 WWWWW

 (...) Tenho plena certeza de que você está bastante correto ao
 dizer que as Lojas que trabalham são as que florescem, e que na-
 quelas inclinadas às “Conversas de Salão” logo surgem contendas e

 elas definham. Você foi direto à raiz da questão. Assim, eu também
 concordo com você, de coração e alma, no que você diz quanto a uma
 tímida defesa e apresentação da Teosofia. Nada se obtém com tal po-
 lítica, e toda experiência nos mostra que energia e determinação são
 essenciais para qualquer avanço real.

 WWWWW

 Acho que você está certo em tentar fazer com que todos os mem-
 bros trabalhem por seu progresso individual ao trabalharem por suas
 Lojas. Agindo dessa maneira, eles proporcionam uma proteção adicio-
 nal a si mesmos, ao mesmo tempo em que formam um centro a partir
 do qual o pensamento teosófico pode se irradiar para ajudar e encorajar
 outros que estejam apenas iniciando seu caminho ascendente.

 WWWWW

 Percebo que você afirma exatamente o meu ponto de vista. Essa
 visão é de que o ABC da Teosofia deve ser ensinado continuamente,
 não apenas para o benefício dos simpatizantes, mas também para
 os membros que, como eu sei muito bem, não estão tão avançados
 a ponto de precisarem de um trabalho elaborado o tempo todo. E é
 somente por que os membros não têm uma base sólida que eles não
 conseguem trazer mais buscadores. Exatamente como você diz, se
 forem apresentadas as verdades simples que são aplicadas na prática,
 conforme encontradas na Teosofia, você finalmente encontrará algu-
 mas pessoas mais adequadas — verdadeiros trabalhadores e membros
 valiosos. E a Teosofia pode ser mais bem apresentada, de forma sim-
 ples, por aquele que dominou tanto os elementos quanto “a natureza

 do Absoluto”. É justamente esse modo nebuloso que às vezes impede
 o avanço de uma Loja. Concordo plenamente que, se a política à qual
 eu me referi resultar temporariamente na evasão de algumas pessoas,
 isso seria um benefício, pois virão outras para ocupar o lugar delas.
 Além disso, posso concordar com você por experiência real.

 WWWWW

 Você não deve, absolutamente, se desculpar por pedir minha
 atenção para o assunto de seu ingresso na Sociedade Teosófica. É
 meu grande desejo e privilégio dar a todos os buscadores sinceros
 todas as informações que eu possua, e não pode haver prazer maior,
 certamente, do que o de favorecer o progresso interno de cada ver-
 dadeiro estudante e aspirante. Acho que você tem razão em querer
 se identificar com a Sociedade Teosófica, não apenas porque este é o
 passo natural e óbvio àquele sinceramente interessado, mas também
 que cada membro adicional, com o espírito correto, fortalece o corpo
 em sua marcha e trabalho.

 WWWWW

 Aproveitando-se de uma oportunidade para apresentar a Teo-
 sofia na imprensa secular, você está fazendo exatamente o trabalho
 inestimável para a Sociedade, em que insisto constantemente aos
 nossos membros. Dessa maneira é que são alcançadas tantas pessoas,
 que de outra forma seriam inacessíveis, e a quantidade de bem que
 uma semente assim semeada pode realizar transcende nossa com-
 preensão. Você tem minha sincera aprovação e incentivo ao seu tra-
 balho, e tenho certeza de que ele não permanecerá sem dar frutos.

 WWWWW

 NOVA IORQUE, 11 de outubro de 1892 — Esta é a era do
 Ocultismo ocidental. Nos Estados Unidos, devemos ficar lado a lado
 para apresentá-lo e expandi-lo, em vista de uma futura perversidade
 — ataques no sentido de tentar impor-nos apenas discípulos orien-
 tais. Os Mestres não são orientais nem ocidentais, mas universais.

 WWWWW

 Terei prazer em fornecer-lhe quaisquer informações possíveis
 a respeito da Teosofia e da Sociedade Teosófica, mas acho que você
 erra ao supor que o propósito de ambas seja encorajar o estudo do
 que é conhecido como “Artes Ocultas”. Em nosso estado elementar
 de progresso, o conhecimento e o controle das forças mais sutis da
 Natureza não devem ser buscados; nem tal realização seria apropria-
 da, mesmo se possível, para alguém que não domine completamente
 os princípios da própria Teosofia.
 O simples desejo de possuir poderes é uma forma de egoísmo,
 e não recebe qualquer incentivo de nossos Mestres. Madame Bla-
 vatsky afirmou esse assunto com muita clareza em um artigo inti-
 tulado “Ocultismo versus Artes Ocultas”, publicado em “Lúcifer”50.
 Quando as pessoas desprovidas de extenso treinamento preliminar
 na verdadeira Religião-Sabedoria buscam conhecimento no plano
 oculto, elas estão muito propensas a serem carregadas para a magia
 negra por causa da inexperiência e da cultura inadequada. Não tenho

 50 “Lúcifer” de maio de 1888. Reimpresso em “Theosophy” XXXI, 149. (Nota da
 edição original em inglês.)

 poder de colocá-lo em comunicação com um Adepto para guiá-lo
 ao longo do estudo do Ocultismo, e, mesmo que fosse possível, isso
 não iria beneficiá-lo. A Sociedade Teosófica não foi fundada para
 esse fim, nem alguém poderia receber instruções de um Adepto sem
 que estivesse apto para isso. Em outras palavras, tal indivíduo deve
 passar por extenso treinamento preliminar em conhecimento, em au-
 tocontrole e na subjugação de sua natureza inferior antes de estar de
 alguma forma apto para receber instruções nos planos superiores. O
 que eu recomendo que você faça é estudar os princípios elementares
 da Teosofia, adquirir uma ideia da sua própria natureza como ser hu-
 mano e indivíduo — no entanto, abandonar completamente toda a
 ambição pelo conhecimento de poderes, que seriam inadequados ao
 seu estado atual — e corrigir toda a sua concepção acerca de Teosofia
 e Ocultismo.

 SOBRE OS MESTRES

 Penso que o caminho para todos os teósofos ocidentais é por
 meio de HPB. O que quero dizer é que, como ela é a Sociedade Teo-
 sófica encarnada — sua mãe, sua guardiã e sua criadora —,a lei Kár-
 mica naturalmente providenciará que todos aqueles que aspirem por
 essa vida por meio dela estejam em conexão com ela; e se eles a ne-
 garem, não terão esperança de alcançar ____, pois como eles podem
 negar aquela que trouxe esta doutrina ao mundo ocidental? Não lhes
 servirá muito compartilhar o Karma dela se eles pensam que podem
 ignorar tal identificação e benefício, e não precisam dar prova melhor

 de não compreenderem a filosofia d’Eles. Obviamente, isso o impedi-
 ria de ____ pelas leis naturais (de crescimento). Não quero dizer que,
 no sentido comum dos negócios, ela deva salientar as solicitações ou
 os méritos deles; quero dizer que aqueles que não entendem o relacio-
 namento mútuo básico, que menosprezam seu dom e sua criação, não
 assimilaram os ensinamentos e não podem assimilar seus benefícios.
 Temos que entendê-la no que ela representa para a S.T., ou
 então não compreendemos Karma (a lei da compensação, ou de cau-
 sa e efeito), nem as primeiras leis do Ocultismo. As pessoas devem
 refletir sobre isso: somos muito propensos a supor que os eventos são
 casuais, ou não têm qualquer conexão conosco — cada evento é um
 efeito da Lei.

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 O que deve ser feito é perceber que “a Alma-Mestra é una”,
 com tudo que isso implica; e saber o significado do antigo ensina-
 mento: “Tu és Aquilo.” Feito isso, podemos identificar impunemente
 nossa consciência com a de qualquer coisa na Natureza — não antes.
 Entretanto, realizar isso é o trabalho de uma vida, e antes devemos
 exaurir todo Karma, o que significa dever; devemos viver para os ou-
 tros, e então descobriremos tudo o que devemos saber, não o que
 gostaríamos de saber.

 WWWWW

 Devoção e aspiração realmente ajudarão a gerar uma atitude
 mental adequada e a elevar o estudante a um plano superior; também
 asseguram ao estudante um auxílio que lhe é invisível, pois a devoção

 e a aspiração colocam o estudante em uma condição na qual é pos-
 sível que a ajuda lhe seja dada, embora ele possa não ter consciência
 disso. Mas a comunicação consciente do estudante com o seu Mestre
 só pode ser realizada após um longo treinamento e estudo. O que um
 estudante deve fazer, e é capaz de fazer, é preparar-se para receber
 esse treinamento.

 WWWWW

 O reconhecimento por um Guru virá quando você estiver
 pronto, e meu conselho a você é, se possível, afastar de si o desejo
 de obter esse reconhecimento, pois tal desejo o atrapalhará. Se você
 ler o Bhagavad-Gītā, especialmente o segundo e o terceiro capítulos,
 acredito que você encontrará muito auxílio. Lá está escrito: “Que o
 motivo da ação esteja, pois, na própria ação, não no evento. Não seja
 incitado às ações pela esperança de suas recompensas. (...) cumpre teu
 dever (...), e deixando de lado todo desejo de algum benefício para ti
 mesmo pela ação, faz que o evento seja igual a ti, seja ele sucesso ou
 fracasso.” É bastante natural que um estudante espere pelo reconhe-
 cimento de um Mestre, no entanto, esse desejo deve ser deixado de
 lado, e o trabalho a ser realizado é o que está diante de cada um. Ao
 mesmo tempo, todos sabemos que o efeito segue a causa; portanto, o
 que quer que nos seja devido, nós o receberemos no momento certo.

 WWWWW

 Todo chela (e todos nós o somos, uma vez que nos determinamos
 a ser) encontra essas mesmas dificuldades. Paciência e força! Pois um
 nascimento tranquilo nem sempre é bom. O reino dos céus é tomado

 apenas pela violência, e não pela fraqueza no ataque. Sua constante
 aspiração, preservada em segredo, o levou àquele ponto em que exata-
 mente essas dificuldades são apresentadas a todos. Conforte a si próprio
 com o pensamento de que outros se encontraram na mesma situação,
 superando-a com paciência e força. (...) Mais uma vez, concentre seus
 pensamentos nos Irmãos Mais Velhos, trabalhe para Eles, sirva a Eles,
 e Eles o ajudarão pelos meios apropriados, e nenhum outro. Meditar no
 Ser Superior é difícil. Procure, então, a ponte — os Mestres. “Busque
 a Verdade por meio de uma investigação firme”, servindo aos outros,
 indagando, e Aqueles que conhecem a Verdade a ensinarão. Abandone
 a dúvida, e eleve-se em seu lugar, com paciência e força. Deixe que o
 guerreiro lute, o gentil mas feroz Krishna, que, ao descobrir que você
 é seu discípulo e seu amigo, lhe comunicará a Verdade, iluminando as
 trevas com a lâmpada do conhecimento espiritual.

 WWWWW

 Os ataques não podem ferir: eles precisam acontecer; e tudo
 o que temos a fazer é seguir em frente, trabalhando constantemen-
 te, e os Mestres cuidarão do resto. Pois aquilo que é feito em nome
 d’Eles será bem sucedido; e tudo isso surgiu porque decidi proclamar
 minha crença pessoal na existência desses Seres grandiosos. Assim,
 novamente, vibremos com a confiança nascida do conhecimento da
 sabedoria dos Líderes Invisíveis, e avancemos mais uma vez, retor-
 nando ao trabalho mesmo separadamente, até nos encontrarmos em
 outra de nossas encarnações. Entretanto, quando nos encontrarmos,
 estaremos todos fortalecidos por termos mantido a fé agora.

 WWWWW

 Fico feliz que você tenha tanta fé nos Grandes Trabalhadores
 que nos dão suporte. De acordo com meu conhecimento pessoal, Eles
 estão por trás de nós, e não apenas de mim; mas de todos os trabalha-
 dores sinceros. Sei que o desejo d’Eles é que cada um ouça a voz de seu
 Ser interno, e não dependam tanto das pessoas externamente, sejam
 elas Mestres, discípulos orientais ou o que for. Por meio desse tipo de
 autonomia, você acabará se tornando completamente independente, e
 então os Auxiliares invisíveis poderão ajudar cada vez mais.

 WWWWW

 Somos todos humanos e, portanto, fracos e pecadores. Se em
 um aspecto somos melhores que outros, então, em algum outro as-
 pecto, eles são melhores que nós. Seríamos hipócritas em julgar os
 outros por nosso próprio padrão. (...) Somos assim tão sábios que
 nunca agimos de maneira tola? De forma nenhuma. (...) Na verdade,
 cheguei à conclusão de que neste século XIX não é bom fazer um
 juramento, pois todos se reservam o direito de quebrá-lo se desco-
 brem, após algum tempo, que cumpri-lo é penoso, ou que ele faz com
 que assumam uma atitude incoerente com o que podem ter dito ou
 feito em algum outro momento. (...) No caso de ____, todos deve-
 riam pensar apenas no melhor, independentemente de quais sejam as
 evidências. Ora, se os Mestres nos julgassem exatamente como de-
 vem saber quem somos, seria adeus imediatamente! Seríamos todos
 sumariamente mandados embora. Mas os Mestres nos tratam com
 bondade, mesmo sabendo mais sobre nossos fracassos e pensamentos

 maldosos, dos quais ainda ninguém está isento. Esta é minha opinião,
 e eu ficaria muito satisfeito se você pudesse compartilhá-la e divul-
 gá-la entre aqueles mais próximos que não a tenham. É fácil fazer o
 bem a quem gostamos; por aqueles que não gostamos, é nosso dever
 agir bem e ter bons pensamentos. Os Mestres dizem que pensamos
 seguindo sulcos, e que apenas poucos têm a coragem de acabar com
 esses sulcos e seguir por outras linhas. Que nós, que estamos dispos-
 tos a fazer um esforço para eliminar esses sulcos, tentemos eliminá-
 -los fazendo novas e melhores linhas a seguir.

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 (...) Mantenha sua coragem, sua fé e caridade. Aqueles que podem
 assimilar, em alguma medida, o que é o Mestre, são Seus representantes, e
 recebem a ajuda da Loja no trabalho dela. (...) Resista, mantenha um co-
 ração firme, seja forte, corajoso e gentil, e espalhe sua força e coragem.

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 HPB então disse que é por meio de quedas e fracassos que
 aprendemos, e que não podemos esperar ser subitamente grandes,
 sábios e totalmente fortes. Ela e os Mestres que a apoiam esperam
 isso de todos nós, ela e Eles nunca quiseram que nenhum de nós
 trabalhasse às cegas, mas querem somente que trabalhemos juntos.

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 HPB escreveu-me em 1890: “Seja mais caridoso com os outros
 do que consigo mesmo, e mais severo consigo próprio do que com os

 outros.” Este é um bom conselho. Uma tensão sempre enfraquece as fi-
 bras e produz atrito. Espero que todos os mal-entendidos desapareçam.

 S O B R E A F I L O S O F I A O C U LT A

 Comece tentando superar o hábito quase universal de se proje-
 tar. Isso vem da personalidade. Não monopolize a conversação. Fique
 em segundo plano. Se alguém começar a lhe falar sobre ele mesmo e
 as proezas dele, não aproveite a primeira oportunidade para lhe falar
 sobre si mesmo, mas ouça-o e fale com ele apenas para ressaltá-lo. E
 quando ele terminar, suprima em si próprio o desejo de falar sobre
 você, sobre suas opiniões e experiências. Não faça uma única pergun-
 ta, a menos que queira ouvir a resposta e examinar o seu valor. Tente
 se lembrar de que você é um elemento minúsculo no mundo e que
 as pessoas ao seu redor não o valorizam em nada, nem ficam tristes
 quando você está ausente. Sua única verdadeira grandeza é seu ver-
 dadeiro Ser interior, que não deseja receber a aprovação dos outros.
 Se você seguir essas diretrizes por uma semana, perceberá que elas
 envolvem um esforço considerável e começará a descobrir uma parte
 do significado da expressão: “Homem, conhece-te a ti mesmo.”
 Não é necessário estar ciente dos progressos alcançados. Nem
 é a data51, em qualquer sentido, exterminadora, como alguns a

 51 A “data” divulgada (erroneamente) como sendo “exterminadora” foi 1897. Ver
 dois artigos de William Q. Judge: “Will Master’s Help be Withdrawn in
 till 1975?” [Os Mestres retirarão sua ajuda de 1898 a 1975?], em “The Path” de
 novembro de 1894, e “The Closing Cycle” [O Ciclo de Fechamento], em “Irish
 Theosophist” de janeiro de 1895. (Nota da edição original em inglês.)

 denominaram. Atualmente, somos excessivamente propensos a querer
 saber tudo em um instante, especialmente em relação a nós mesmos.
 Pode ser desejável e encorajador estar ciente dessa forma, mas não é
 necessário. Avançamos muito em nossa vida interior e oculta, da qual
 estamos totalmente inconscientes. Só a conheceremos em alguma exis-
 tência subsequente. Portanto, nesse caso, muitos podem ter transcen-
 dido consideravelmente obstáculos sem estar cientes disso. O melhor
 é continuar cumprindo nosso dever, abstendo-nos dessa tentativa de
 fazer um balanço e de medir nosso progresso. Todo o nosso avanço está
 na natureza interna, e não na física, onde o cérebro vive e de onde vêm
 essa questão. O aparente progresso físico é evanescente. Ele termina
 com a morte do corpo, momento em que, se o homem interno não tiver
 permissão para nos guiar, o registro natural que nos corresponde será
 zero, ou “fracasso”. Agora, como os Adeptos vivem no plano de nossa
 natureza interior, isso implica que Eles poderiam ajudar ativamente
 cada um de nós após a data aludida, e nós, como homens dotados de
 um cérebro físico, poderíamos não ter consciência disso neste plano.
 (...) Eu o aconselho fortemente a abandonar todas as práticas de
 yoga que, em quase todos os casos, resultam em desastres, a menos que
 sejam orientadas por um instrutor competente. As concussões e explo-
 sões em sua cabeça são evidências de que você não está na condição
 ideal para tentar práticas de yoga, pois esses efeitos resultam de lesões
 cerebrais, ou seja, do rompimento das muito diminutas células cere-
 brais. Fico feliz que você tenha me escrito sobre esse assunto, me dando
 a oportunidade de alertá-lo. Além disso, eu o aconselho a interromper
 a concentração nos centros vitais, que também pode ser perigosa, a me-
 nos que você esteja sob a orientação de um instrutor. Você aprendeu até
 certo ponto o poder da concentração, e agora a maior ajuda virá a você

 a partir da concentração no Ser Superior e da aspiração a Ele. Ainda,
 se você considerar qualquer tópico ou frase do Bhagavad-Gītā, concen-
 trando sua mente e meditando nele, encontrará muitos bons resultados
 com isso, e não há nenhum perigo nessa concentração.

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 Com relação à questão sobre a desintegração do corpo astral e o
 período em que é possível vê-la com antecipação: minha resposta não
 pretendia ser definitiva em relação aos anos, exceto que eu indiquei
 um período de dois anos como longo, antes da morte do corpo físico.
 Há casos, talvez raros, em que um clarividente viu o início da desin-
 tegração do corpo astral cinco anos antes da morte física. A ideia que
 se pretende transmitir é que, independentemente do tempo, se um
 homem vai morrer naturalmente (e isso inclui doença), a degradação,
 desintegração ou dissolução do corpo astral pode ser percebida por
 aqueles capazes de ver dessa forma. Portanto, a questão de quantos
 anos não está envolvida. Esses casos não incluem as mortes violen-
 tas, pois nessas situações o astral não se desintegra antecipadamente.
 A forma de ver essa morte com antecedência é por outro método
 completamente diferente. A morte devido à velhice — que é o fecha-
 mento natural de um ciclo — está incluída na resposta sobre a morte
 por doença, e poderíamos considerar como a enfermidade de inca-
 pacidade em lutar contra o natural rompimento das forças de coesão.
 Você não pode desenvolver o terceiro olho. É difícil demais; e
 até que você tenha esclarecido muitos outros pontos em filosofia, será
 inútil, e um sacrifício sem utilidade é um crime sem sentido. Aqui
 está uma dica dada por muitos Adeptos: diariamente e sempre que

 possível, antes de adormecer e quando acordar, pense, pense, pense so-
 bre a verdade de que você não é o corpo, o cérebro ou o homem astral,
 mas você é Aquilo, e “Aquilo” é a Alma Suprema. Pois, por meio dessa
 prática, você gradualmente aniquilará a falsa noção que se esconde
 internamente, de que o falso é verdadeiro, e o verdadeiro é falso. Ao
 persistir nisso, submetendo seus pensamentos diários ao julgamento
 do seu Ser Superior todas as noites, no final você alcançará a luz.

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 Agora, quanto ao livro A Voz do Silêncio52 e os ciclos de sofri-
 mento (suportado pelo Arhan, que permanece para ajudar a huma-
 nidade), isso é fácil de entender. Ao ler essas coisas, você tem sempre
 de lembrar que devem ser usados termos que sejam inteligíveis para
 o leitor. Por isso, falando assim, deve ser dito que tais ciclos de sofri-
 mento existem — do nosso ponto de vista —, assim como o fato de
 eu não ter divertimentos, e nada além de trabalhar na S.T., pareça ser
 uma grande penitência para aqueles que apreciam seus prazeres. Eu,
 pelo contrário, encontro prazer e paz na “abnegação”, como a cha-
 mam. Portanto, quem entra na Senda secreta encontra sua paz e seu
 prazer no interminável trabalho de séculos pela humanidade. Obvia-
 mente, graças à visão e ao conhecimento mais penetrantes, ele deve
 perceber continuamente os tormentos autoinfligidos pelo homem. O
 erro que você comete consiste em atribuir à pessoa assim “sacrificada”
 as mesmas pequenas qualidades e anseios que temos agora, enquanto

 52 De H.P. Blavatsky, publicado em 1889. (Nota da edição original em inglês.) [Edi-
 ção em português publicada pela Editora Teosófica. (N.E.)]

 o alcance e o poder mais amplos da alma fazem aquilo que chama-
 mos de sacrifício e sofrimento parecerem algo diferente. Isso está cla-
 ro, então? Se fosse declarado de maneira diferente de como está em
 A Voz, você encontraria muitos fazendo o voto e depois o quebrando;
 mas aquele que faz o voto plenamente consciente de seu sofrimento
 o manterá.

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 Se todos nós pudéssemos acumular um estoque de bem para
 todos os demais, dissiparíamos assim muitas nuvens. Os desatinos
 e os chamados pecados das pessoas são, na verdade, coisas que cer-
 tamente não darão em nada se os tratarmos adequadamente. Não
 devemos ser tão propensos — como acontece com a humanidade de
 hoje, à qual pertencemos — a criticar os outros, esquecendo a trave
 em nosso próprio olho. O Bhagavad-Gītā e Jesus estão certos, pois
 ambos nos mostram como cumprir nosso dever sem interferir no dos
 outros. Toda vez que achamos que alguém fez algo errado, devemos
 nos fazer duas perguntas:
 (1) Sou eu o juiz nesta questão, que tem o direito de julgar essa
 pessoa?
 (2) Eu sou melhor em minha maneira de agir? Será que eu não
 ofendo, de alguma outra forma, tanto quanto eles ofendem desta?
 Isto resolverá o problema, eu penso. E no que diz respeito a
 ____, não deve haver nem julgamentos nem críticas. Se alguém ofen-
 der, então vamos nos perguntar o que precisa ser feito, mas apenas
 quando a ofensa for contra o todo. Caso a ofensa seja contra nós,
 vamos deixá-la ir. Segundo alguns, essa atitude é típica do “beato”, no

 entanto, eu lhe digo que o coração, a alma e a essência da compaixão
 são mais importantes que a intelectualidade; esta última certamente
 nos levará para o inferno se a deixarmos que seja a única a governar.
 Esteja certo disso, e tente espalhar o verdadeiro espírito em todas as
 direções, tanto quanto possível; caso contrário, não teremos apenas
 um fracasso individual, mas o círculo que HPB constituiu como um
 núcleo para possível crescimento também morrerá, se deteriorará, ca-
 pitulará e será reduzido a nada.
 É impossível fugir à lei da Evolução, mas essa lei não precisa
 ser efetivada de uma só maneira. Se o mesmo resultado for produ-
 zido, será o suficiente. Consequentemente, a cada hora ou minuto,
 o Ser que atinge a Adeptado poderia passar por inúmeras experiên-
 cias efetivas. No entanto, de fato, ninguém se torna um Adepto
 sem ter passado, em algum período anterior, pelas etapas exatas e
 necessárias. Por exemplo, se você e eu falharmos no Adeptado neste
 Manvantara, emergiremos novamente para retomar o trabalho em
 um ponto correspondente no próximo Manvantara, em um desen-
 volvimento muito mais elevado; embora possamos então parecer
 abaixo na escala — considerando-nos de acordo com o parâmetro
 que prevalecerá.
 Esta é a lei. Nenhum homem pode avançar e escapar à contra-
 corrente; e na proporção em que ele avance, assim será a força dessa
 corrente. Todos os membros que trabalham duro, ao final, conseguem
 atrair a atenção da Loja, e logo que isso acontece, também a Loja
 Negra toma conhecimento; assim, surgem questões, e somos testados
 de formas sutis, que ultrapassam a visão, mas são capazes de arruinar
 aquele que não estiver preparado para o combate — pelo reto pen-
 samento e pelo sacrifício à natureza superior. Eu lhe digo isto; pode

 parecer misterioso, mas é a verdade. E, neste momento, todos estamos
 destinados a sentir as forças em ação, pois à medida que crescemos, ao
 mesmo tempo, o outro lado se apronta para se opor.

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 Certifique-se de me entender bem sobre a face Negra. O que
 quero dizer é o seguinte: quando os homens trabalham por um lon-
 go tempo, e graças a isso conseguem se elevar, eles atraem a atenção
 da face Negra, se eles forem considerados importantes o suficiente
 para isso. Eu tenho a atenção deles, e isso causa dificuldades ocasio-
 nalmente. Portanto, tudo o que todos nós queremos ter é a melhor
 armadura para essa luta, e essa armadura é a paciência. Paciência é
 algo grandioso, e atua em mais de uma maneira, não apenas na vida
 pessoal, mas também em interesses mais amplos.
 A dificuldade de se lembrar do que você lê, e coisas semelhan-
 tes, pode ser devida a uma ou mais causas. Em primeiro lugar, isso
 indica a necessidade de disciplina mental no sentido de forçar-se à
 leitura e à reflexão sérias diariamente, mesmo por um curto tempo.
 Se você persistir, isso gradualmente mudará a ação mental, da mesma
 maneira que se consegue alterar o paladar por meio de diferentes ti-
 pos de alimentos ingeridos. Ainda, se você tem se dedicado ao que é
 conhecido como Cura Mental ou Cura Metafísica, você deve evitá-la,
 pois ela aumentará a dificuldade que você menciona. Ela é contrária
 à boa disciplina mental comum. Além disso, se você está seguindo o
 Espiritualismo de alguma forma, ou cedendo a pensamentos, visões
 ou experiências psíquicas, isso pode ser a causa do problema, e deve
 ser abandonado.

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 Não há necessidade de você se desesperar. Reflita sobre esse
 antigo versículo: “Que espaço pode existir para a tristeza e a dúvida
 naquele que sabe que o Ser é um, e que todas as coisas são o Ser, dife-
 rindo apenas em grau?” Esta é uma tradução livre, porém expressa seu
 significado. Ora, é verdade que um homem não pode repentinamente
 se forçar a uma nova vontade ou uma nova crença; no entanto, refle-
 tindo muito sobre a mesma coisa — como essa —, ele logo obterá
 uma nova vontade e crença; e dessa vontade virá força e também luz.
 Experimente esse plano. É puramente oculto, simples e poderoso.
 Espero que tudo fique bem, e como somos abalados de tempos em
 tempos, ficaremos mais fortes.

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 O artigo de ____ se empenha para demonstrar que HPB não
 ensinou a doutrina da reencarnação em 1877, como ela o fez mais
 tarde. Isso é bem verdadeiro no que diz respeito ao público na época.
 Mas ela ensinou a mim e a outros, tanto lá como agora. Além disso,
 parece claro o que ela quis dizer, a saber, que não há reencarnação
 para a mônada astral, que é o homem astral; e, como é uma dou-
 trina teosófica que o homem astral não reencarna, exceto em casos
 excepcionais, na época ela ensinou a mesma coisa que ela transmi-
 tiu posteriormente. Muitas vezes, HPB me falou pessoalmente sobre
 a verdadeira doutrina da reencarnação, impulsionada pelo caso da
 morte de minha própria filha; portanto, eu sei o que ela pensava e em
 que acreditava.

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 Não posso lhe dar a definição que você está pedindo, pois, a
 meu ver, o espírito não pode ser definido, exceto da seguinte maneira:
 todo o Universo é feito de espírito e matéria, ambos constituindo,
 juntos, o Absoluto. O que não está na matéria é espírito, e o que
 não está no espírito é matéria; contudo, não há qualquer partícula de
 matéria sem espírito, nem partícula de espírito sem matéria. Se tal
 tentativa de definição estiver correta, você descobrirá que é impossí-
 vel definir as coisas do espírito, e isso sempre foi dito pelos grandes
 instrutores do passado.

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 Em quantas coisas insignificantes gastamos nosso tempo,
 quando grande parte de tudo isso é transitório. Depois de cem anos,
 de que servirá tudo isso? Seria melhor se, em cem anos, um princípio
 de liberdade e um impulso ao trabalho já tivessem sido estabelecidos.
 Os pequenos erros de uma vida não são nada, mas uma soma geral de
 pensamentos é muito.
 Para mim é profundamente importante o não sectarismo pelo
 qual HPB morreu para dar início, e que agora está sendo ameaçado
 em sua própria casa. Não é verdade que os Mestres proibiram Seus
 chelas de revelarem sob que ordem eles agem, por medo da sombra
 negra que sempre segue as inovações? Sim, (...).
 Lamento muito saber que sua saúde não está boa. Em respos-
 ta à sua pergunta: não se espera ter um corpo saudável, pois nossa
 raça está doentia em toda parte. Isso é Karma. Certamente, uma reta

 posição mental e moral contribuirá, afinal, para trazer um corpo sau-
 dável; no entanto, o processo pode envolver, e frequentemente envol-
 ve, doença. Consequentemente, a doença pode ser uma bênção em
 dois planos: (1) no mental e moral, contribuindo para a abertura da
 natureza; e (2) no físico, como sendo a descarga de uma doença do
 Ser interno neste plano.

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 A questão sobre sexo não é a mais difícil. A questão pessoal é
 ainda mais complicada. Eu me refiro ao puramente pessoal, que diz
 respeito a “mim”. O aspecto sexual refere-se apenas a um plano infe-
 rior de gratificação. Se a Natureza pode derrotá-lo neste plano, então
 ela não precisa tentar o outro, e vice-versa. Se ela falhar no pessoal,
 poderá tentar o outro, mas desta vez com chances menores de sucesso.

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 Somos todos diferentes, e devemos concordar com a discordân-
 cia, pois somente através do balanceamento de coisas contraditórias é
 obtido o equilíbrio (harmonia). A harmonia não surge pela similitu-
 de. Se as pessoas simplesmente se deixarem em paz, umas às outras,
 cuidando dos próprios assuntos em silêncio, tudo ficará bem. (...) É
 dever de cada indivíduo tentar descobrir suas próprias obrigações, e
 não interferir nas dos outros. E ao fazer isso, é de suma importância
 que nós separemos nossas mentes (e também nossas línguas) dos de-
 veres e ações dos outros, sempre que eles não tiverem relação com os
 nossos. Se você puder encontrar uma tênue linha entre ação e inação,
 terá feito um grande progresso.

 Não pare jamais para considerar seu progresso, pois essa é a
 maneira de interrompê-lo; mas tire sua mente da questão de seu
 progresso e faça o melhor que puder. Espero que em pouco tempo
 você possa adquirir o estado de espírito que tanto deseja. Acredito
 que você conseguirá isso se tirar o foco de sua mente de si mes-
 mo, tanto quanto possível, direcionando-a para algum assunto em
 benefício de outros, o que, com o tempo, aniquilará a impressão
 pessoal.

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 Lamento profundamente por todos os seus problemas e difi-
 culdades. Desnecessário dizer que todos eles são questões kármicas,
 que serão resolvidos ao longo do tempo. Enquanto isso, seu tra-
 balho e dever consistem em continuar paciente e perseverante o
 tempo todo. Os problemas de seus amigos e parentes não são seu
 Karma, embora você esteja intimamente associado a eles por causa
 da própria amizade e do vínculo. Na vida de todos os que aspiram a
 coisas mais elevadas, ocorre uma precipitação mais ou menos rápida
 do Karma antigo, e é isso que está afetando você. Ele se dissipará
 em breve, e você se beneficiará muito ao se livrar de um assunto
 problemático.

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 Como muitas vidas serão necessárias antes que a natureza pes-
 soal seja superada, é inútil imaginar que tipo de coisas ou pensa-
 mentos teremos. É certo que nessa longa jornada, com a natureza
 se transformando inteiramente, ela se adaptará a todas as condições.

 Muitas dessas questões a que agora nos referimos como infortúnios
 de outras pessoas não são realmente nada, mas apenas algo “recôndi-
 to”; o verdadeiro infortúnio da raça não é esse.

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 Ao reservar um tempo específico para a meditação, um hábito
 é formado; e, quando chegar o momento, a mente torna-se treinada
 depois de um tempo, de modo que a meditação naquele momento
 específico se torne natural. Portanto, seria bom que você mantivesse
 o mesmo horário tanto quanto possível.

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 Você pergunta se eu estava no lugar onde você me viu. Deixe-
 -me contar-lhe uma coisa em segredo. Estou por toda parte, em todos
 os lugares, mas, é claro, principalmente naqueles em que você e outros
 assim estão; no entanto, não é necessário que eu me lembre disso de
 forma alguma, já que é feito sem isso, uma vez que este cérebro tem
 bastante a fazer aqui. Para me lembrar, eu teria que me aposentar e
 me dedicar a isso, o que não melhoraria em nada as coisas.

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 Um curso universitário não é necessário para o Ocultismo. Um
 dos melhores ocultistas que conheço nunca estudou em uma facul-
 dade. No entanto, se um homem acrescentar uma boa instrução à
 intuição e elevada aspiração, certamente sua situação será melhor que
 a dos outros. Eu tenho o hábito constante de consultar o dicionário,

 refletindo sobre o significado e as correlações das palavras. Faça o
 mesmo. É bom.

 WWWWW

 A antiga missão dos Rosa-cruzes, embora morta externamen-
 te, não está morta, pois os Mestres estavam envolvidos nela como
 estão agora nesta, e é possível inaugurar uma nova era de Ocultismo
 ocidental sem desatino. Todos devemos nos preparar para isso, se ela
 for possível. Com relação às imagens que você vê, observe-as com
 indiferença, sempre confiando no Ser Superior, olhando-o em busca
 de conhecimento e luz — com imagens ou sem elas.

 SOBRE O TRABALHO

 Sim, esse assunto já é uma “coisa do passado”, desgastada e sem
 interesse. Eu descobri que o trabalho conta. Enquanto outros se ir-
 ritam, se agitam e dormem, e de vez em quando começam a criticar,
 se você seguir em frente e trabalhar, deixando que o tempo, o grande
 devorador, faça o outro trabalho, você perceberá que em um curto
 período os outros acordarão mais uma vez e se verão “para trás”, como
 se diz no país da gíria. Faça, então, dessa maneira. É suficientemente
 difícil descobrir seu próprio dever, e você se beneficia cuidando disso,
 não importa o quão pequeno esse dever possa ser. O dever dos outros
 é repleto de perigos. Que você tenha luz para ver e agir! Diga a ele
 para lembrar de trabalhar até o fim, tornando-se um instrumento
 para o bom trabalho. Os tempos mudam, homens vão para lá e para

 cá, e os lugares precisam ser ocupados por aqueles capazes de fazer
 o melhor tipo de trabalho, que estão plenos do fogo da devoção, que
 possuem a reta base, e um alicerce sólido e seguro para si mesmos.
 Envio meu amor a todos.
 Lamento muito que tantos esforços de sua parte, para influen-
 ciar a imprensa pública, tenham sido malsucedidos, mas estou certo
 de que, no final, você terá sucesso. Estou inclinado a pensar que você
 quase certamente descobrirá que os artigos escritos por teósofos lo-
 cais terão mais aceitação do que se você enviar aqueles que já tenham
 sido publicados.
 Eles têm uma coloração regional maior e, portanto, um maior
 interesse local. (...) Tenho certeza de que, através do trabalho cons-
 tante e persistente, como o que você está realizando, você alcançará
 seu objetivo, e até os jornais mais conservadores acharão interessante
 inserir esses artigos.

 WWWWW

 Ambos, ____ e ____, são dois pontos fracos e parcialmente cor-
 roídos. Isso é devido a: (a) as fofocas sobre os outros, incluindo a mim
 e outros nos três países; (b) o elemento pessoal; (c) acima de tudo, a
 ausência de verdadeira fé nos Mestres, pois onde quer que essa seja
 fraca, o trabalho declina; (d) uma espécie de medo da opinião pú-
 blica; (e) um entendimento incompleto das verdades elementares; e
 assim por diante.
 Atenha-se a isso, que o caminho é fazer o máximo que você
 puder e deixar que os resultados se sucedam. Você não tem nada a
 ver com eles; o outro lado cuidará deles. Este é realmente o ponto

 culminante do trabalho de eras, e seria verdadeiramente pouco pro-
 dutivo se a Loja dependesse apenas de nossos esforços insignifican-
 tes. Portanto, persista e mantenha o espírito de que você deve apenas
 prosseguir, e deixe o resto para o tempo e para a Loja. Se todos os
 outros membros tivessem a mesma ideia, seria melhor para a velha
 S.T. Mas vamos continuar tendo esperanças, pois temos algum meio,
 e isso é melhor que nada.
 Você também está certo sobre A Doutrina Secreta: ela é uma
 mina e uma provisão para os teósofos guerreiros, que é uma descrição
 de você e de mim, e de alguns outros.

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 Vamos todos ficar em silêncio o máximo possível, e trabalhar,
 trabalhar; porque quando os inimigos se enfurecem, eles perdem seu
 tempo; ao passo que o trabalho resplandecerá depois que tudo acabar,
 e veremos que enquanto eles brigavam, nós estávamos construindo.
 Que este seja nosso lema. (...) Espero que nenhuma alma fraca seja
 estremecida em sua base. Se elas permanecerem firmes em sua pró-
 pria base, não serão abaladas.

 SOBRE A SABED ORIA EM AÇÃO

 Aqui está a conclusão correta, vamos ignorar todas as conversas
 e os interesses dos outros, sem nos intrometer. Ninguém deve relatar
 informações a outra pessoa, pois isso alimenta a chama, e agora deve-
 mos ignorar tudo e apenas continuar trabalhando, ser bons e gentis e,

 como a boa vontade de São Paulo, ignorar todas as coisas. Retire-se
 para o seu próprio silêncio, e deixe todos os outros nas mãos do Kar-
 ma, como todos estamos. “O Karma cuida de si mesmo.” É melhor
 não tomar partido, pois tudo é para o Mestre, que prestará atenção a
 todos se cada um agir corretamente, mesmo que outra pessoa não lhe
 pareça ter uma conduta justa. Ao não nos concentrarmos nos erros
 deles, o Mestre será capaz de dissipar qualquer nuvem e corrigir o
 problema. O plano de resistência passiva silenciosa, ou melhor, fican-
 do sob o vento, é bom e deve funcionar em todos os ataques. Retire-se
 para o seu próprio coração, e permaneça firmemente imóvel. Resistir
 sem resistência. Isso é possível e deve ser alcançado. Novamente, en-
 vio a você um simples au revoir, não importa o que aconteça, mesmo
 a Morte irresistível. Ontem tivemos terremotos aqui: significam que
 algumas almas úteis chegaram ao mundo em algum lugar; mas onde?

 WWWWW

 Agora, justamente neste minuto, não sei exatamente o que dizer.
 Por que não assumir uma posição simples e fluida sobre o assunto?
 Um ocultista nunca se fixa em algum plano mortal particular. Portan-
 to, não concentre sua mente em um projeto ainda. Espere. Todas as
 coisas vêm para quem sabe esperar corretamente. Torne-se um bom
 instrumento em todos os sentidos, para qualquer tipo de trabalho
 possível. Agora percebi que todas as pequenas coisas que aprendi me
 são úteis neste nosso trabalho. O melhor é ter desenvoltura no modo
 de agir e de falar. Nesta obra de lidar com outros homens — ou seja,
 com o coração humano —, o melhor é uma mente tranquila e con-
 fiante. Quanto mais sábia uma pessoa, melhor ela pode ajudar seus

 colegas, e quanto mais cosmopolita, melhor também. (...) Quando
 chegar a hora, você estará pronto; ninguém sabe quando chegará, mas
 tem que estar pronto. Veja, Jesus era realmente um ocultista e, na pa-
 rábola das virgens tolas, transmitiu uma verdadeira regra oculta, que
 vale a pena seguir. A impaciência não nos faz ganhar nada, mas nos
 faz perder muito — não apenas força, mas também visão e intuição.
 Portanto, não decida nada precipitadamente. Espere; não faça planos
 definidos.
 Aguarde a hora para tomar a decisão, porque se você decidir
 com antecedência, tenderá a causar confusão. Assim, tenha paciência,
 coragem, esperança, fé e alegria.
 O primeiro passo real para ser positivo e focado é o desempe-
 nho feliz do dever. Tente sentir prazer na realização daquilo que é o
 seu dever, especialmente nas pequenas tarefas da vida. Quando você
 fizer algo, coloque todo o seu coração nisso. Nesta vida, há muitas
 coisas que são brilhantes se apenas abrirmos nossos olhos para elas.
 Se reconhecermos isso, poderemos suportar com calma e paciência os
 problemas que nos preocupam, pois sabemos que eles se extinguirão.
 (...) Você pode fortalecer seu caráter cuidando de pequenas coi-
 sas, enfrentando as pequenas falhas uma a uma, em cada pequena
 ocasião. Isso despertará a atitude interior de atenção e cautela. Uma
 vez conquistadas as pequenas falhas e as pequenas ocasiões, o caráter
 é fortalecido. Os sentimentos e os desejos não são apenas do corpo.
 Se a mente for deliberadamente retirada de tais assuntos, colocando-
 -a em assuntos melhores, todo o corpo seguirá a mente, tornando-se
 mais dócil. Essa luta deve ser constante, e depois de um certo tempo
 será mais fácil. A velhice produz apenas essa diferença — a máquina

 física ficará menos forte; na velhice, os pensamentos serão os mes-
 mos, se os deixarmos crescer sem podá-los.

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 Nunca há necessidade de se preocupar. A boa Lei cuida de to-
 das as coisas, e tudo o que temos a fazer é cumprir nosso dever à me-
 dida que ele for surgindo, dia após dia. Nada se ganha ao se preocupar
 com as coisas e com a maneira como as pessoas não são responsivas.
 Em primeiro lugar, você não muda as pessoas, e, em segundo lugar,
 por estar ansioso com as coisas, você coloca um obstáculo oculto no
 caminho do que deseja que seja realizado. É melhor adquirir bastante
 daquilo que o mundo chama de indiferença, mas que é, em realidade,
 uma calma confiança na Lei e um cumprimento do próprio dever,
 convencidos de que os resultados, quaisquer que sejam, serão corretos.
 Reflita sobre isso e tente integrar à sua mente internamente o fato
 de que não há motivo para se preocupar; que as coisas ficarão bem,
 independentemente do que acontecer; e que você está determinado
 a fazer o que lhe é apresentado e confia no Karma para todo o resto.
 Fico triste ao saber que você está passando pelo que mencionou.
 Ainda assim, você sabia que isso teria que acontecer; e aprende-se, e
 o objetivo da vida é aprender. Ela toda consiste em aprendizagem.
 Portanto, mesmo que seja difícil, é bom aceitá-la, como você diz.
 Você sabe o que é resistir sem resistência?
 Entre outras coisas, significa que não é sábio gastar uma quan-
 tidade excessiva de força, de “fortaleza”. Se alguém luta, é atraído ao
 turbilhão de eventos e pensamentos em vez de recostar-se no grande
 oceano do Ser, que sempre permanece calmo. Agora você percebe

 isso. Então, recoste-se e observe o fluxo e o refluxo da vida, trazendo
 muitas coisas para lavar nossos pés e levando tantas outras, que não
 são nem agradáveis de acolher nem fáceis de perder. No entanto, to-
 das elas pertencem à Vida, ao Ser. O sábio não tem quaisquer posses
 pessoais.
 De qualquer forma, você está certo ao dizer que se debater é er-
 rado. Faça isso em silêncio — essa é a maneira que os Mestres fazem.
 A reação do outro lado é exatamente como você diz, mas o Mestre
 tem tanta sabedoria que raramente, ou nunca, é vítima das reações.
 Esta é a razão pela qual Ele procede lentamente. Mas é um método
 seguro. (...) Eu sei como as nuvens vêm e vão. Está tudo certo; apenas
 espere que elas se dissipem, como diz a canção.
 Desperte, desperte em você o sentido de que “Tu és Aquilo”. Tu
 és o Ser. Isso deve ser pensado durante a meditação e, se você acredita,
 então diga o mesmo aos outros. Você leu isso antes, mas agora tenta
 compreendê-lo mais e mais a cada dia, e você terá a luz que deseja.
 (...) Se buscar a sabedoria, certamente a alcançará, e isso é tudo o que
 deseja ou precisa. Estou feliz que tudo pareça bem. Sempre parecerá
 bem se todos se importarem com suas próprias coisas e mantiverem
 a mente livre de todo o resto.
 Paciência é realmente a melhor e mais importante virtude, já
 que abrange muitas outras. Você não pode tê-la se não estiver cal-
 mo e preparado para a emergência; e como a calma é a única coisa
 necessária para que o espírito seja ouvido, é evidente a importân-
 cia da paciência. Ela também impede que nos precipitemos em algo,
 pois pela precipitação podemos perder um bom sujeito ou um bom
 projeto, desperdiçar temporariamente o Karma e obstruir o fluxo de
 certos bons efeitos. Portanto, siga em frente, e tente ser paciente nas

 mínimas coisas da vida todos os dias, e você perceberá que a paciência
 crescerá muito rapidamente, e com ela virá mais força e influência
 sobre e a favor dos outros, bem como maior e mais claro auxílio do
 lado interno das coisas.
 Pelo amor de Deus, não leve qualquer boato ou informação de
 uma pessoa para outra. Às vezes, o homem que levava as notícias ao
 rei era morto. A maneira mais certa de causar problemas por nada é
 um falar para outro sobre eles. Interprete as palavras do Gītā sobre o
 dever de alguém, que significam que você não tem a menor relação
 com as fantasias, os boatos, os eventos ou quaisquer assuntos dos
 outros, pois você terá o suficiente ao cuidar de seu próprio dever. (...)
 Esforços demais, demais, para tentar impor harmonia. A harmonia
 provém do equilíbrio entre diversidades, enquanto a discórdia pro-
 vém de algum esforço para conseguir harmonia pela força. (...) Eu
 nunca me intrometo em todas essas coisas, mas digo a mim mesmo
 que elas não são de forma alguma da minha conta, e aguardo até que
 elas venham a mim — e agradeço a Deus se nunca vierem! E essa é
 uma boa diretriz para você.

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 Pense sobre estes pontos:
 (a) O criticismo deve ser abandonado. Não é bom. A coope-
 ração é melhor que o criticismo. O dever dos outros é perigoso para
 quem esse não seja o seu dever. Deve haver um alerta, uma prevenção
 e uma interrupção da vinda insidiosa do criticismo não fraterno. Você
 pode fazer muito por meio do exemplo, como também por meio de
 uma palavra na hora certa.

 (b) No momento, a calma é algo a ser obtido, a ser preservado.
 Não devemos permitir que qualquer irritação se aloje internamente.
 Ela é um inimigo mortal. Observe todas as pequenas ocasiões que a
 provocam, e então as grandes nunca surgirão para incomodá-lo.
 (c) Solidariedade.
 (d) Aceitação dos outros.

 WWWWW

 Não é sábio estar sempre analisando nossas falhas e fracassos
 — lastimar-se é um desperdício de energia. Se nos esforçarmos para
 usar toda a nossa energia a serviço da Causa, veremos que nos eleva-
 mos às nossas falhas e fracassos e, embora estes possam ocorrer, eles
 perderão seu poder de nos arrastar para baixo. É claro que devemos
 enfrentar nossas falhas e combatê-las; no entanto, a devoção e o al-
 truísmo aumentarão nossa força nessa batalha. Isso não implica que a
 vigilância sobre nossos pensamentos e ações deva ser relaxada.
 Se você confiar na verdade de que seu Ser interno é uma parte
 do grande Espírito, será capaz de vencer essas coisas que o incomo-
 dam e, se acrescentar o devido cuidado à sua saúde física, você se for-
 talecerá em todos os aspectos. Não considere as coisas como fracas-
 sos, mas, após o verdadeiro esforço, olhe para cada aparente fracasso
 como um sucesso, pois a prova real está no esforço e na motivação, e
 não no resultado. Se você refletir sobre essa ideia, como expressa no
 Bhagavad-Gītā, obterá força com ela.

 WWWWW

 Como no passado, agora também farei tudo o que puder por
 você, o que não é muito, já que cada um deve fazer por si mesmo.
 Apenas permaneça leal e verdadeiro, e procure os sinais do seu dever
 dia após dia, sem interferir no dos outros, e você encontrará o cami-
 nho mais facilmente. É melhor morrer cumprindo seu próprio dever
 do que cumprir o dever do outro, não importando o quão bem você
 o cumpra. Busque a paz que vem da compreensão da verdadeira Uni-
 dade do todo e da pequenez de si mesmo. Entregue tudo, em mente
 e coração, ao Ser, e você encontrará a paz.

 WWWWW

 O embotamento mortal de que você fala é um dos testes da
 época, mas temos algumas pessoas boas e sérias que podem agir
 como os justos das cidades do passado, pois nossas ideias são mais
 poderosas do que todo o materialismo da época, que certamente será
 extinto e substituído pela Verdade. Você deve tomar cuidado para que
 o espírito deste período, e a maldade e a apatia das pessoas, não en-
 gendrem em você um espírito de amargura. Isso acontece com muita
 frequência no início, mas agora, como você foi avisado, está antecipa-
 damente preparado.

 WWWWW

 Não permita que a amargura surja; mantenha afastadas todas as
 personalidades o tempo todo; deixe que a luta ocorra por uma causa,
 e não contra alguém. Que pedra nenhuma seja atirada. Seja caridoso.

 Não permita que as pessoas sejam convidadas a sair, não importa o
 que elas façam; quando elas quiserem sair, elas poderão partir, mas
 não use ameaças ou disciplina; isso não faz bem, pelo contrário, faz
 muito mal.

 WWWWW

 Veja só, nunca resmungue por algo que você tenha que fazer.
 Se você tiver que ir, apenas tome isso como uma coisa boa a fazer,
 que então redundará em algo benéfico para eles e para você; mas se
 for uma cruz constante, então não fará bem algum, e você não ob-
 terá coisa alguma. Aplique suas teorias assim. (...) Será um festival
 de alegria se realmente conhecermos os nossos deveres. Nunca fique
 amedrontado, nunca lamente, e elimine toda dúvida com a espada do
 conhecimento.

 WWWWW

 Eu acho que você será auxiliado se tentar ajudar alguém neces-
 sitado e angustiado simplesmente falando e expressando sua simpa-
 tia, se não puder ajudá-lo financeiramente, embora o fato de dar cin-
 co centavos a alguém que precise deles seja uma ação que, se realizada
 com o espírito correto — o da verdadeira fraternidade —, ajudará
 aquele que dá. Sugiro isso porque, ao fazê-lo, você estabelecerá novos
 laços de simpatia entre si e os outros, e ao tentar aliviar a tristeza e o
 sofrimento dos outros, verá que a força chegará a você quando mais
 precisar dela.

 WWWWW

 Deixe-os grasnar e, se ficarmos calados, não terá efeito algum;
 como já houve bastante problema, é melhor não agravar a situação fa-
 lando sobre ela. A única força que ela tem é quando recebe atenção. A
 melhor política para todos nós, que somos sérios e unidos, é manter-
 mo-nos quietos em todo assunto que tenha qualquer relevância pessoal.

 WWWWW

 O silêncio, meu caro, é quase tão bom quanto a paciência. Quem
 ri por último ri melhor, e o tempo tem um poder diabólico para moer
 as coisas. (...) Use o tempo para obter calma e uma força sólida, pois
 um rio é grande não porque ele tem um leito profundo, mas por causa
 do seu VOLUME.
 Internamente, confie sempre em seu Ser Superior, pois isso dá
 força, já que o Ser usa quem ele quiser. Persevere, e pouco a pouco
 os novos ideais e as novas formas-pensamento expulsarão de você os
 antigos. Este é o processo eterno.

 WWWWW

 É claro que as dificuldades nos aguardam, mas prefiro pensar
 que o velho cavalo de guerra do passado não será facilmente assusta-
 do ou impedido de seguir o caminho. Dê o melhor de si para gerar e
 manter bons pensamentos e sentimentos de solidariedade. (...) Nosso
 velho leão do Punjab não está tão distante, mas ele não está no lugar
 nem na condição em que alguns pensam que ele esteja.

 À medida que avançamos, o caminho se torna mais claro, mas
 quanto mais a nossa visão se abre, menos ansiosos nos tornamos quan-
 to ao caminho que temos pela frente.

 WWWWW

 Existe o serviço objetivo e sua contraparte interna, a qual, sendo
 mais forte, no final se manifestará externamente.

 WWWWW

 Não julgue quando sentir raiva, já que a raiva passa, mas o jul-
 gamento fica.

 WWWWW

 As promessas que fiz a mim mesmo são exatamente tão com-
 promissórias quanto quaisquer outras.

 WWWWW

 Sejam verdadeiros amantes, mas de Deus e não uns dos outros.
 Amem-se mutuamente no sentido de que espelhamos Deus, pois
 Deus é em cada um de nós.
 Todos nós somos; eu também. Nós nunca fomos alguma coisa,
 mas apenas continuamente somos. O que somos agora determina o
 que seremos.

 WWWWW

 Para compensar o efeito terrivelmente frio de perceber a in-
 significância dos eventos humanos, é preciso incutir em nós mesmos
 uma grande compaixão que nos incluirá também. Se isso não for
 feito, surge o desrespeito, e o resultado é árido, frio, duro, repulsivo, e
 um obstáculo a todo bom trabalho.

 WWWWW

 Eu sei que a ausência dele é uma perda para você, mas acho que
 se você considerar todas as coisas e eventos como estando no Ser e
 considerar que Aquilo está neles, tornando você parte do todo, verá
 que não há uma causa real para a tristeza ou o medo. Tente perceber
 isso, e assim obter confiança e até alegria.
 Existem vales nos quais as maiores sombras são decorrentes
 de antigas existências em outros corpos, mas a intensidade do amor
 universal e da aspiração as dissipará em um instante.

 “A LUZ DO OLHO DESAPARECE, A AUDIÇÃO ABAN-
 DONA O OUVIDO, MAS O PODER DE VER E DE OUVIR
 NUNCA ABANDONA O SER IMORTAL, QUE VIVE PARA
 SEMPRE IMPASSÍVEL E INALTERADO.” (Livro de Provér-
 bios.)

 LIVRO III

 A todos aqueles que descobriram,
 nos escritos de W.Q.J.,
 conselhos, direcionamentos e encorajamentos
 a cada passo e em todas as circunstâncias da Vida.

 21 de março de
 Compilado pelos editores da revista “Theosophy”

 Prefácio do Livro III

 William Q. Judge uma vez fez um comentário a respeito de
 um ensaio teosófico, o qual qualificou como “proveitoso para a dou-
 trina, a advertência, a correção e a instrução na retidão”. Não poderia
 haver melhor e mais adequada epítome da influência dos próprios
 escritos do Sr. Judge, sejam os artigos para revistas ou as cartas para
 os seus amigos e membros da Sociedade Teosófica. Tampouco houve
 um título mais feliz que “Cartas que me ajudaram”, pois expressa ao
 mesmo tempo a simplicidade e a autoridade de W.Q.J.
 A “extrema modéstia” com que Jasper Niemand (na época Sra.
 Julia Campbell Vers Planck) o referenciou em seu Prefácio do Livro
 I ocultou muito ao leitor desatento, cuja indiferença impede sua com-
 preensão. De fato, a “ajuda” que provém destas simples e diretas pala-
 vras do Sr. Judge só consegue chegar ao coração que esteja aberto e à
 mente ávida e disponível. Ele apelava, como era sua missão, à “visão
 sutil daqueles que a possuíssem”, e em sua sétima carta para Jasper ele
 confidenciou: “Com muitos eu errei e, comunicando a eles as palavras
 exatas, expus meu verdadeiro coração, mas eles nada ouviram; eles
 pensavam que o coração fosse algo diferente.”
 Todavia, alguns ouviram e entenderam, tanto na época como
 agora; e para estes o Sr. Judge se declara mais verdadeira e intima-
 mente, ao que às vezes parece, do que o seria se eles não tivessem

 contactado sua essência, ou sua presença, como inerentes aos seus
 escritos. W.Q.J., o instrutor, é uma figura vívida. W.Q.J, o amigo, a
 mais compassiva companhia; e W.Q.J, a grande alma, um ideal e uma
 realidade.
 Faz agora meio século que ele saiu de cena53 — “empenhado em
 qual missão elevada, nós não sabemos”. O que ele escreveu na ocasião
 da morte de HPB, podemos repetir, desta vez para ele:

 “Não devemos esquecer que o papel desempenhado por HPB
 nunca poderá ser corretamente apresentado ao mundo, pois não se-
 ria devidamente compreendido. Os serviços e esforços dela jamais
 poderão ser estimados, mas podem ser vislumbrados por naturezas
 intuitivas.”

 Para que uma imagem mais completa sobre William Q. Judge
 pudesse ser contemplada, as CARTAS QUE ME AJUDARAM foram
 cuidadosamente editadas e um tanto ampliadas, tomando como refe-
 rência as publicações originais, especialmente da própria revista “The
 Path”, publicada pelo Sr. Judge. Algumas correções óbvias de estilo
 foram feitas nestas cartas — tão apressadamente escritas — e ocasio-
 nais notas de rodapé foram adicionadas, de maneira que o livro não
 contenha obscuridades superficiais ao novo leitor, bem como para fa-
 cilitar a referência a antigas revistas teosóficas há muito tempo esgo-
 tadas. Onde foi possível, também foram feitas referências a reimpres-
 sões dos artigos mencionados na revista mais acessível, “Theosophy”.

 53 William Q. Judge faleceu em 1896, tendo sido o Livro III da presente obra com-
 pilado em 1946. (N.E.)

 Sob a direção do Sr. Judge, “Theosophy” foi o nome que a revista
 “The Path” adotou em seu décimo primeiro volume — uma mudança
 que pode ser considerada como uma direção traçada para o futuro.
 No entanto, o primeiro número — “Theosophy” de abril de 1896 —
 anunciava sua morte. Sessenta anos depois, em 1912, Robert Crosbie,
 um estudante e colega de trabalho do Sr. Judge, estabeleceu, com
 seus associados, na recém-formada United Lodge of Theosophists [Loja
 Unida de Teosofistas], uma “reencarnação” da revista “The Path”, uma
 nova revista, usando o título que o Sr. Judge havia escolhido. Tal re-
 vista ainda é publicada, e supre uma grande necessidade daqueles que
 desejam estudar os artigos nela, de autoria de Mme. Blavatsky e do
 Sr. Judge.
 Nesta semicentenária edição das CARTAS, mais algumas “co-
 lheitas” foram acrescentadas, seguindo o método descrito pelos edi-
 tores no Prefácio do Livro II. Os dez volumes de “The Path” foram
 revisados da forma mais cuidadosa possível, e todas as citações das
 cartas de Judge, tanto longas quanto curtas, estão aqui reunidas. Mui-
 tas “Tea Table Talks” [Conversas à Mesa de Chá] (uma série da “The
 Path”, com a colaboração de Jasper sob o pseudônimo de “Julius” —
 para Julia Campbell Vers Planck) foram publicadas inteiramente, por
 sua riqueza em material pelo Sr. Judge e também para ilustrar como
 os estudantes da época eram beneficiados com os comentários dele,
 cuja identidade era ocultada com o uso de vários pseudônimos.
 Os artigos de Jasper eram frequentemente enriquecidos com
 citações “de uma carta de um amigo” — sempre o Sr. Judge —, e
 portanto vários fragmentos são desta fonte. Talvez seja possível no-
 tar que as “Letters on the True” [Cartas sobre a Verdade] de Jas-
 per, no segundo volume da revista “The Path”, contêm algumas das

 declarações comentadas pelo Sr. Judge no Livro I. Além disso, em
 várias ocasiões, Jasper inseriu parágrafos das cartas do Sr. Judge sem a
 formalidade das aspas para citações. O Sr. Judge não sofria da vaida-
 de pela autoria — como se pode notar pela variedade de nomes que
 ele mesmo usou em seus escritos —, e ele estava tão empenhado em
 trazer as ideias às mentes das pessoas que não se preocupava muito
 sobre qual nome usar para assiná-los. Pode-se facilmente imaginar
 como uma conversa com ele despertava o gênio de um escritor, sendo
 então a verdadeira “autoria” do artigo resultante uma questão sem
 importância.
 Outro grupo de excertos da “The Path”, os aforismos de Quickly
 (Sr. Judge, como Jasper nos diz), sugere o caráter de suas “experiên-
 cias psíquicas”, algumas de significados manifestamente profundos.
 As “Conversas à Mesa de Chá”, como será visto, eram ricas em expli-
 cações do Sr. Judge sobre os sonhos e o sonhar. Naqueles dias, havia
 na Sociedade diversos “psíquicos” de nascença — entre eles Jasper —,
 e os escritos de Jasper ajudaram a estabelecer uma atitude de senso
 comum em relação ao psíquico, além de fornecer também certa base
 filosófica para as experiências que algumas pessoas tinham com con-
 siderável frequência, e quase todas tiveram pelo menos uma vez.
 Quanto aos fenômenos em geral, foi constatado que “na pre-
 sença de W.Q.J., HPB proporcionou mais fenômenos do que po-
 deria ser descrito em um volume”. O próprio Sr. Judge escreveu em
 “The Path”: “Os fenômenos eram aqueles espetaculares feitos mági-
 cos, centenas dos quais eu mesmo testemunhei em plena luz do dia
 ou sob flamejantes luzes fluorescentes, de 1875 a 1878.” Se não por
 outros motivos, ele estava qualificado, por tais experiências, para dis-
 cutir a ampla questão dos fenômenos com autoridade. Ele descreveu

 alguns destes acontecimentos em “Conversas sobre Ocultismo com
 HPB” (“Theosophy”, III, 36), e sua série “Conversas sobre Ocultis-
 mo” (“Theosophy”, I e II) sugere as razões pelas quais HPB o favore-
 ceu tanto com demonstrações de poderes ocultos.
 As cartas escritas por W.Q.J. durante a estadia dele em Lon-
 dres e em Paris, em 1884, introduzem uma fase de sua vida que é de
 profunda importância para o resoluto estudante de Ocultismo, pois
 os relatos do Sr. Judge sobre essas provações, conforme ele observou
 a atuação delas em sua própria natureza, contêm muitos conselhos
 aos estudantes, que algum dia enfrentarão, eles mesmos, essas expe-
 riências universais da Senda. Pode parecer, superficialmente, que o
 Sr. Judge estava “dominado” pelo conflito e pela turbulência daquele
 período; mas as evidências intrínsecas — por exemplo, a contínua
 repetição que ele suportou — demonstram que ele jamais foi abalado
 em seu centro espiritual, quaisquer que tenham sido as perturbações
 e sofrimentos enquanto homem. Durante esse período crucial, foi
 exposto outro aspecto de sua vida na segunda parte de “Um Conto
 Curioso”, na qual o Sr. Judge relata o encontro com um Adepto em
 Londres e as instruções dadas pelo Adepto a ele. Entretanto, estas
 cartas, escritas em Paris e em Londres, mais do que tudo, confirmam
 o que o leitor intuitivo já deve ter inferido a partir das cartas a Jasper
 — que ao escrever sobre testes e provações dos discípulos, W.Q.J.
 sabia o que falava.
 As “Histórias do Sr. Judge” há muito tempo estão fora de circu-
 lação, e são agora apresentadas pela primeira vez em forma de livro.
 Tais contos — “mais verdadeiros” do que alegóricos — pertencem li-
 teralmente à história de W.Q.J., e ilustram o uso de pseudônimos que
 ele fez quando desejava apresentar declarações para que delas fossem

 considerados os méritos, independentemente de qualquer questiona-
 mento de personalidade ou autoridade.
 O Sr. Crosbie, cuja amizade com o Sr. Judge começou no ano
 da fundação de “The Path”, em 1886, sugeriu:

 “É bem sabido que Wm. Q. Judge usava pseudônimos para mui-
 tos artigos publicados em sua revista, “The Path”, para esconder sua
 identidade, especialmente nos casos de artigos de significado oculto,
 com a intenção de transmitir informações ao estudante observador e
 diligente. O leitor faria bem em considerar todos estes escritos como
 narrativas de fatos e eventos nos quais o autor estava diretamente
 envolvido. Aqueles que compreendem o retorno cíclico dos indiví-
 duos à existência física, com todas as suas tendências adquiridas e
 as relações com os outros, encontrarão em muitos dos artigos tanto
 avisos quanto profecias para o futuro dessa época, cujas provas po-
 derão ser obtidas comparando o que foi então escrito e o que subse-
 quentemente ocorreu na história do Movimento. Verdadeiramente,
 ‘a história se repete’.”

 Ao ler as CARTAS, deve-se ter em mente a própria declaração
 do Sr. Judge (“The Path”, IX, 57): “As CARTAS (para Jasper) foram
 escritas por mim no curso regular de correspondências com as pes-
 soas a quem elas eram enviadas, não sendo então destinadas a pu-
 blicação, e eu também nunca sonhei com uma publicação posterior.”
 Por que o Sr. Judge veio a escrever esta série de cartas é esclarecido
 por Bertram Keightley em “The Path” (IX, 14). A Sra. Vers Planck
 ficou tão profundamente impressionada com a primeira palestra que
 ouviu sobre o Ensinamento “que ela se filiou à S.T. em duas semanas,

 e daí em diante começou seu incansável trabalho pela Teosofia”. A
 narrativa continua:

 “Morando com seus pais longe de Nova Iorque, ela escreveu para
 ‘The Path’ sob o pseudônimo de ‘Julius’, ‘August Waldensee’, ‘J’, e
 mais tarde como ‘Jasper Niemand’, bem como artigos não assinados,
 e também se correspondeu com buscadores na Sociedade Teosófica.
 Naquela época, eram tão poucos os escritores na Sociedade que eles
 tinham que usar vários nomes, e frequentemente tinham que escre-
 ver notas ou terminar artigos uns dos outros.”

 Em respostas a alguns questionadores sobre os escritos de “Jasper
 Niemand”, a Sra. Keightley (Vers Planck se casou com o Dr. Archibald
 Keightley em 1891) escreve: “(…) Recebi as Cartas que me ajudaram em
 minha casa, na Pensilvânia. Elas foram escritas pelo Sr. Judge, conforme
 o desejo expresso de H.P. Blavatsky, para mim e para o Dr. Keightley —
 e, mais tarde, para o aproveitamento por outros. A carta54 que é a fonte
 dessa solicitação (de HPB), e que transmite a garantia das qualificações
 do Sr. Judge para o ofício de instrutor, foi escrita por meio de Madame
 Blavatsky e destinada a ele; e é uma daquelas cartas tão habilmente des-
 critas pelo Cel. H.S. Olcott no “The Theosophist” de julho de 1893, em
 que ele afirma que as comunicações das elevadas fontes ocultas, recebi-
 das por meio de HPB, sempre lembravam a caligrafia dela.”
 Esta modificação da caligrafia de HPB é indiscutivelmen-
 te interessante na carta mencionada acima, cujos dados justificam

 54 É a Carta XIV do Livro I, para as omitidas “instruções privadas”, e começa com
 “Diz o Mestre”. (Nota da edição original em inglês.)

 amplamente a maneira na qual “Z” é mencionado no Prefácio de
 Niemand. Além disso, HPB se referiu a seu amigo, o Sr. Judge, como
 “o exilado”; e mais tarde Annie Besant escreveu: “Vocês são realmen-
 te afortunados por terem W.Q.J. como Chefe. Agora que HPB se foi,
 são os americanos que têm como líder imediato o maior dos exilados.”
 O significado técnico dos títulos “O maior dos Exilados” e “O
 Amigo de todas as criaturas”, como é utilizado no Oriente, é total-
 mente desconhecido no Ocidente; tendo sido o último aplicado al-
 gumas vezes meio de brincadeira por pessoas íntimas a W.Q.J., por
 conta de sua frequentemente reforçada doutrina de “aceitar a todos
 os homens e a todas as coisas” — desde que trabalhem pela Teosofia.
 O Livro II apresenta cartas e extratos escritos de 1891 a
 — os anos que se seguiram imediatamente à morte de Mme. Blavat-
 sky —, quando o Sr. Judge, como HPB antes dele, teve que enfrentar
 a força total da tormenta gerada pelos inimigos da Teosofia e da S.T.
 Estas cartas, de acordo com aqueles que as receberam, “foram escritas
 em um contexto de alguma intimidade, durante períodos de turbu-
 lência e dificuldade na maior parte, e quase sempre quando o escritor
 estava sendo atacado, aberta ou reservadamente. Elas são peculia-
 res, visto que, da primeira à última, não contêm qualquer menção
 maldosa sobre nenhuma pessoa, viva ou morta.” (“Irish Theosophist”,
 dezembro de 1894.)
 Sobre esse período, um correspondente registrou: “Na primeira
 hora do ataque, ele escreveu: ‘Seja gentil, bondoso e não atire nenhu-
 ma pedra.’ O Sr. Judge seguiu o próprio conselho, desde a primeira
 hora até a última, determinado a estar sempre ‘em paz e pela paz,
 e não apenas contra a guerra’. Ele guardou suas forças para as ver-
 dadeiras batalhas — travadas com as ideias errôneas e os cursos de

 ações equivocadas — e sua vitória nesta Guerra Santa pode ser vista
 a partir de algumas palavras de HPB55, escritas em 1889.”
 A um dos associados da revista “The Path” que perguntou o
 que os estudantes fariam sem ele — como eles poderiam prosseguir
 se ele morresse —, o Sr. Judge respondeu: “Dirija-se para as páginas
 da revista ‘The Path’. Estude o que eu escrevi nelas, e você saberá o
 que fazer.” As cartas do Sr. Judge, não menos que seus escritos mais
 formais, transmitem aquela orientação atemporal que somente as
 grandes almas sabem oferecer, e os caminhos indicados nelas são tão
 eternos quanto as verdades das quais eles se originam.
 Tal qual uma estrela, cujo brilho, visto de relance pelo canto do
 olho, oscila e desaparece quando o foco está sobre ela, assim é o Ser
 chamado “W.Q.J.”, pois desvanece e oscila sob a luz comum, alter-
 nadamente deslumbrando e surpreendendo aqueles que pretendem
 fixar sua posição na galáxia teosófica. Porém, como acontece com to-
 dos os assuntos relacionados ao real e eterno Movimento Teosófico,
 ou à vida interna de todo verdadeiro esforço teosófico, o status do Sr.
 Judge — seja como estudante, guia, amigo, instrutor e Agente do
 Mestre ou Adepto — é finalmente esclarecido não mediante afirma-
 ções dogmáticas, teorias difíceis e instáveis, testemunhos pessoais ou
 imaginários, mas por meio da própria Teosofia, quando explorada,
 estudada, compreendida e cumprida pelo próprio indivíduo.

 Os Editores56.
 21 de março de
 55 Ver capítulo “Sobre William Q. Judge”. (N.E.)
 56 Da edição original em inglês. (N.E.)

 CONVERSAS À MESA DE CHÁ

 “À Mesa de Chá” testemunhou uma estranha discussão na se-
 mana passada, entre Didymus e Quickly. Até o momento não me re-
 feri a este último, que é um homem de notável força de vontade, para
 a qual seu desenvolvimento psíquico e treinamento tiveram grande
 contribuição. Na ocasião, ele se sentou para conversar com as senho-
 ras quando Didymus, ao entrar, fez a observação: “Meu velho, acabo
 de chegar de seu escritório.”
 “Você quer dizer ao meio-dia, quando você me deixou para ir
 com a Srta. Polly à liquidação na loja Stewart.”
 “Oh! Mas eu mudei de ideia”, disse ela [a Srta. Polly].
 “Claro! Por que mencionar isso?”, eu disse, e em retribuição ob-
 tive algo raro de uma mulher, um olhar natural (bem como expressivo).
 “Então”, continuou Didymus para Quickly, “eu voltei para o seu
 gabinete. Eram só 3h20 pelo relógio da Old Trinity quando eu entrei.”
 “Bom, eu estava lá desde as 14 horas”, disse Quickly.
 “Mas você não estava lá, pois eu fiquei à sua porta olhando sem
 parar, e posso jurar que você não estava lá.”
 “Meu caro rapaz, eu sentei à minha escrivaninha às 15 horas,
 observando que eu tinha apenas quarenta e cinco minutos de tempo
 livre, e não me levantei antes das 15h40, quando vim para cá.”
 “Mas eu insisto, como eu poderia ter me enganado? Eu passei
 por seus funcionários na antessala e fui direto para o seu gabinete. É
 pequeno, bastante exposto, sem livros e armários, a luz do sol entran-
 do. A sua cadeira estava vazia, eu olhei por todo o lugar; nem um gato
 poderia ter se escondido lá.”

 Quickly permaneceu em silêncio. Sua cor mudou sutilmente.
 Os dois homens se entreolharam; então, Quickly mudou de assunto.
 Com toda devida modéstia, posso dizer que tenho a rapidez de um
 setter gordon57 numa trilha oculta, e como as leis de “À Mesa de Chá”
 estabelecem que todas as experiências como essa, uma vez abordadas,
 devem ser asseguradas como propriedade comum entre este peque-
 no círculo de sinceros buscadores, convoquei uma reunião e pedi a
 Quickly que prestasse contas.
 “Pois bem”, disse ele lentamente, “Didymus se despediu de mim ao
 meio-dia e se retirou pelo resto do dia, pois ele estava indo à liquidação.
 Às 15h10 eu estava lendo algumas cartas particulares — de fato — re-
 lacionadas a temas importantes no Ocultismo. Enquanto eu lia, subita-
 mente pensei em Didymus, e passou por minha cabeça a estranha ideia
 de que ele possivelmente voltaria e veria as cartas em minhas mãos. Em
 meio ao meu devaneio — pois sou um sujeito estranho que divaga algu-
 mas vezes —, tive um palpite aterrorizante de que ele viria e as olharia, e
 refiz mentalmente um pequeno truque de deixá-las sumir de vista.”
 “Você não precisava ter feito isso, meu velho”, disse Didymus.
 “Sei disso”, replicou o outro, fazendo seu aceno perspicaz com
 a cabeça, “mas a coisa toda passou pela minha cabeça como estou
 contando. As cartas se relacionavam a assuntos que iam às próprias
 raízes da minha vida, e parecia que eu não poderia suportar que elas
 fossem vistas bem naquele momento.”
 Um movimento de compaixão correu como uma onda pelo
 grupo, mostrando que Quickly era compreendido por todos.

 57 Raça canina desenvolvida na década de 1700, na Grã-Bretanha, utilizada para a
 caça. (N.E.)

 “Eu estava linearmente posicionado em frente à minha porta”,
 ele continuou. “Estava a pouca distância, e a luz era muito brilhante. Às
 15h25 eu terminei de ler as cartas e não havia visto ninguém. Eu escre-
 vi uma carta, terminando-a às 15h40, e me dirigi diretamente para cá.
 Eu posso jurar que não saí de minha sala entre 15h00 e 15h40.”
 “E se as vidas dos meus entes mais queridos dependessem disso,
 eu juraria que você não esteve lá. Fiquei em frente à sua cadeira às
 15h20, em vários momentos; seus funcionários me viram entrar e sair.”
 É claro que esse estranho ocorrido foi discutido com mais de-
 talhes, mas os fatos permaneceram os mesmos. Podemos explicá-los?
 Creio que sim. Sabemos que Adeptos possuem o poder de se torna-
 rem invisíveis quando desejam e que um dos métodos empregados
 consiste em hipnotizar os espectadores, para que eles não percebam
 aquele que assim o deseja. Tudo o que é requisitado é a instituição
 de certa vibração por meio de uma forte vontade autoconsciente. Isto
 Quickly58 não possuía. No entanto, a leitura daquelas cartas relacio-
 nadas ao Ser superior havia elevado tanto suas vibrações e intensifica-
 do tanto sua percepção psíquica que, quando o Ser interno levantou
 um alerta com a aproximação de Didymus e a ideia deste descobrir
 as cartas foi transmitida à consciência normal de Quickly, a vontade
 de permanecer invisível foi tão intensa que, sem que sua mente se
 desse conta, sua alma emitiu ou empregou aquela vibração necessá-
 ria para estabelecer uma agitação Akásica que perturbasse a visão do
 espectador. Essa visão dependia da transmissão de certas vibrações
 para o nervo ótico, e eram estas que estavam ausentes. Muitos desses

 58 Ou, provavelmente, seria mais correto dizer que ele não desejava que soubessem
 que ele possuía tal poder. (Nota da edição original em inglês.)

 incidentes ocorrem com aqueles em quem os sentidos psíquicos es-
 tejam gradualmente desabrochando e, quando bem atestados, como
 neste caso, são dicas úteis para os outros estudantes.
 De “The Path”, maio de 1887.

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 Mesmo Quickly, o severo, o taciturno, foi seduzido pelo verão.
 Ele escreveu: “Estou indo muito bem com as trutas, obrigado, meu
 velho; mas tive um estranho choque nervoso. Bem merecido, também.
 Enquanto chacoalhava em um daqueles detestáveis vagões Wagner, vi
 grandes barrancos às margens, onde haviam acontecido deslizamentos
 de terra. Eu comecei a pensar neles intensamente; desejei fortemente
 examiná-los; e me encontrei fora da margem em tal local. De repente,
 o ‘limitado’59 veio na direção contrária ao trem do qual meu eu astral
 havia saído. Aquilo foi um rugido em cima de mim; fiquei assusta-
 do e confuso. Embora ele não pudesse me atropelar, ainda assim me
 atingiu completa e inteiramente — eu senti os faróis lançados contra
 minha cabeça! Júpiter! Isso me arremessou de volta ao meu corpo (no
 meu próprio trem), com um tremor nervoso e uma palpitação dos
 quais eu ainda não me recuperei. Veja os perigos de deixar o corpo
 por propósitos pueris, sem que se esteja completamente equilibrado
 e com autocontrole. É verdade que eu saí antes de perceber, mas um
 ocultista deve sempre estar ciente de todas as coisas. Eu bem sabia
 que nenhuma catapulta poderia me ferir ou mesmo dispersar aquelas
 sutis moléculas, ou fazer algo mais do que atravessá-las. Ainda assim,

 59 Ônibus ou trem com número de passageiros ou paradas limitados. (N.E.)

 tão fortes são as ilusões da matéria que eu perdi minha presença de
 espírito no tumulto. Até mesmo os místicos fazem tolices! Deixe-me
 confessar a você, Julius, foi uma lição para mim.”
 Julho de 1887.

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 Uma noite, Quickly sonhou ter ido até uma rua adjacente e
 visto que várias casas haviam sido reformadas, com novas varandas
 e portas em cerejeira. No dia seguinte, ele foi até lá, mas não encon-
 trou nenhuma alteração. Um mês depois, todas haviam sido alteradas
 exatamente como ele havia sonhado, com novas varandas e portas em
 cerejeira. Havia uma porta azul que ele costumava ver na luz astral
 quando acordado, sobre a que a “Mesa de Chá” zombava dele. Agora,
 ele escreve exultante: “A porta azul que eu disse a vocês que eu via
 se revelou uma peça de intuição. A porta do outro lado da rua, que
 eu vejo todas as manhãs e noites, foi assim alterada. Eu acredito ter
 visto a imagem justamente quando o proprietário decidiu pintá-la,
 há alguns meses. O pensamento e a determinação dele formaram
 uma forte imagem que eu capturei e, portanto, vi a coisa acontecer. A
 maioria dos homens decidem em geral quase todo dia o que vão fazer
 nas semanas seguintes, e por isso o éter está repleto dessas imagens o
 tempo todo. As imagens de coisas que estão assim tão bem definidas,
 que logo devem acontecer, são o que nós vemos.”
 Agosto de 1887.

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 Recentemente, quando “À Mesa de Chá” tratava de imagens
 de futuros eventos na luz astral, Quickly deu uma excelente resposta
 a alguns questionamentos um tanto nervosos pelas senhoras a res-
 peito de “presságios”, como não levar em conta as visões de cenas de
 morte ou funerais. Disse ele: “Elas são, é claro, imagens compostas;
 nelas existem outros elementos além do pensamento. Mas as causas
 já devem existir antes, pois se eu morresse agora, meus parentes têm
 uma ideia geral do tipo de funeral que eu deveria ter (as senhoras
 sobressaltaram) e toda a cena seria facilmente retratada e vista subi-
 tamente por uma pessoa em condição nervosa de tensão. Então, na
 maioria dos casos, uma cadeia de causas similares irá sempre produzir
 imagens ou efeitos similares. A alma, por possuir enorme poder de
 indução, pode começar com uma causa conhecida; o efeito desta se
 torna outra causa. Homens irrefletidos, agindo cegamente, sempre
 serão movidos de maneiras conhecidas e facilmente previsíveis; por-
 tanto, todos os elementos podem ser calculados em um instante, e um
 evento distante pode ser visto. Isso parece ser, em alguns casos, uma
 extensão do poder de calcular a causa, possuído por muitos. Existem
 vários métodos na vida que mostram que tudo isso pode ser feito.
 Vejam a doutrina dos mínimos quadrados60 e outras.”
 Setembro de 1887.

 60 Método dos Mínimos Quadrados (MMQ) é uma técnica de otimização mate-
 mática. (N.E.)

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 Um investigador escreve: “Gostaria de contar uma pequena ex-
 periência que tive na semana passada. Eu a chamaria de sonho, mas
 ela difere de qualquer sonho que eu já tive. Era noite, é claro, e eu
 pensei que eu — o real eu — estava de pé ao lado da cama, olhando
 para baixo, para minha forma adormecida. O quarto inteiro estava
 iluminado, mas não parecia a luz do sol; a luz não vinha de um ponto
 específico, não projetava sombras; parecia estar difusa, ou permear
 igualmente todas as coisas; não era colorida como a luz do sol ou a luz
 a gás — parecia branca, ou prateada. Tudo estava claramente visível:
 a mobília, o mosquiteiro, as escovas no toucador. Reconheci nitida-
 mente a forma na cama. Estava deitado como de costume, do lado
 direito, com o braço direito curvado por baixo do travesseiro — mi-
 nha posição preferida. Eu parecia poder vê-la ainda mais claramente,
 mais nitidamente do que o reflexo comum no espelho, pois enquanto
 neste há apenas o reflexo de uma superfície plana, aqui eu a via como
 sólida, exatamente como eu vejo as outras pessoas, e eu podia inclusi-
 ve observar a respiração. Isso não durou mais do que, provavelmente,
 trinta segundos, mas tempo o bastante para eu ver o corpo nitida-
 mente, para observar e comentar sobre o fato de que a face tinha uma
 expressão de cansaço, para notar a luz como anteriormente relatada e
 alguns objetos no quarto. Então tudo se dissipou, e depois — embora
 eu não saiba quanto tempo depois, é claro — eu acordei e era dia. Isso
 foi um sonho, ou eu recordei tudo isso da viagem do meu ‘Astral’? E
 a luz que eu vi foi a Luz Astral? C.”
 Este inquiridor foi respondido: “Eu acredito que o que você viu
 foi uma recordação do que realmente aconteceu. Seu eu astral saiu

 — como sempre ocorre — e olhou para trás, para o corpo. É mais do
 que provável que tudo que você viu ocorreu quando você estava re-
 tornando ao corpo, e por isso a recordação foi tão curta. Nós nos lem-
 bramos nitidamente somente daquilo que está mais próximo de nós.
 Acho que você saiu quando adormeceu, e então, ao voltar à vigília,
 você guardou uma lembrança dos últimos segundos. Você realmente
 não esquece aquilo que viu e pensou enquanto estava fora. Isso fica
 submerso em sua mente superior, ou subconsciente, ou supercons-
 ciente, a partir da qual tudo isso irá se infiltrar em seus pensamentos
 no estado de vigília. Lembrar do que acontece durante o sono é ser
 um espectador consciente. Portanto, nós apenas conseguimos esses
 vislumbres inúteis do nosso retorno ao corpo.
 “Nós saímos em um sono profundo e sem sonhos para outras
 esferas e estados, nos quais obtemos ideias e tudo mais, e o caminho
 de volta ocorre através de muitos diferentes estados, todos com seus
 próprios habitantes e obstruções. Apesar disso, existem duas manei-
 ras de ascender e descender: o direto e o indireto. Portanto, muito é
 perdido e misturado nesses dois caminhos. Aqui eu falo de realida-
 des, e não sentimentalmente.
 “Devemos ser pacientes, porque leva tempo para descobrirmos
 como caminhar, e muito tempo é gasto em conseguir obter pistas.
 Boa parte depende da pureza de pensamento e de motivação, além
 da amplitude de visão.”
 Outubro de 1887.

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 Quickly pensou que poderia superar aquele sonho: geralmente
 ele leva vantagem sobre nós, e eu não sei se alguém o inveja ao menos
 em alguma de suas aventuras ocultas. Ele morava em Nova Iorque, e
 tinha um conhecido que era mais próximo da família por parte de seu
 tio do que dele próprio. Ele foi para Washington e se hospedou em
 uma casa na R. Street. Na segunda noite, ele sonhou que estava em
 casa e entrava pelo porão na companhia desse cavalheiro mencionado
 e de sua própria irmã falecida. Quando eles estavam prestes a entrar, o
 cavalheiro colocou a mão em uma coluna pendente que instantanea-
 mente caiu sobre ele, e ele desapareceu embaixo dela. Todos no sonho
 pareceram se sentir muito mal por ele. No dia seguinte, Quickly fez
 uma anotação a respeito do sonho em seu diário e não pensou mais
 no assunto. Como não se correspondeu com sua casa, ele nada ou-
 viu a respeito do cavalheiro, porém quando voltou para Nova Iorque
 ele soube que o seu conhecido havia sofrido uma grave queda, que
 desencadeou um antigo problema, e que ele faleceu na mesma noite
 em que o sonho ocorreu. O professor ouviu tudo com o ar genuíno
 “de pleno conhecimento sobre isso”, e observou ao final que o sonho,
 sem dúvida, foi causado por eventos da vida do homem que passaram
 rapidamente pela mente dele na hora da morte, e a lembrança de
 quando ele teve vínculo com Quickly vibrou em conexão com ele e
 lhe causaram o sonho, alcançando-o ainda mais rapidamente porque
 sua natureza física naquele momento estava quiescente no sono. “Não
 tenho dúvidas de que esta hipótese é uma pista correta para todas as
 ocorrências similares.”
 Março de 1888.

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 Na noite seguinte, o Estudante61 foi convencido a dizer alguma
 coisa sobre sonhos e sonhar.
 “Sim, embora a grande maioria dos sonhos sejam tolos, não de-
 vemos desprezá-los totalmente, mas buscar o discernimento. Se nós
 confiarmos nos sonhos, na verdade acabaremos nos tornando supers-
 ticiosos e consentindo sermos punidos por nossos amigos. O fato de
 que quase todas as pessoas são capazes de sonhar é extremamente im-
 portante. Pois nestes sonhos, tolos, tristes, graves ou proféticos, existe
 algum ego, ou pessoa, ou indivíduo, que experiencia os sentimentos que
 percebemos nos sonhos e recordamos posteriormente. Nos sonhos, o
 tipo de cognições e sensações percebido é o mesmo que quando esta-
 mos acordados. Quem é que sente, que sofre e desfruta? Essa é a ques-
 tão. É isso que devemos considerar. Mas é verdade que se pode apreen-
 der o significado dos próprios sonhos; raro, se houver, é o homem que
 pode dizer qual o significado que o sonho de outra pessoa possui.”
 Maio de 1891.

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 O Estudante observou: “Os sonhos geralmente não são com-
 preendidos, e a maior parte deles é esquecida cinco minutos após
 acordarmos. Jó62 afirmou que o homem é de fato instruído nas visões

 61 Neste período, o nome “Quickly” não era mais usado, sendo o Sr. Judge, a partir
 de então, referido simplesmente como “Estudante” ou “X”. (Nota de edição origi-
 nal em inglês.)
 62 Jó 33:15 e 16. (N.E.)

 da noite. Que este63 se tratava de um devaneio, e não altera o caso.
 Bulwer Lytton revela que as primeiras iniciações ocorrem em sonhos.
 Elas quase sempre ocorrem por símbolos, pois o Homem interno não
 tem uma linguagem como a nossa. Ele vê e fala por imagens. Ele
 externa um pensamento com uma imagem. Cabe a nós compreen-
 dê-la e lembrarmos dela. Cada imagem é modificada pelos métodos
 cambiantes de pensamento em nosso período de vigília. Seu amigo
 tem interpretado bem os sonhos dele e, se agirmos de acordo com
 nosso sonho quando ele nos trouxer uma motivação elevada, então
 nós encorajaremos, por assim dizer, o sonhador interno para que mais
 frequentemente possamos receber instrução. O impulso de Bispo foi
 fungar levemente seu parente porque ele é muito prático. No entan-
 to, mesmo ele sonha, e um grande fato, portanto, está presente em
 sua experiência — o fato de sonhar. Nossos sonhos apresentam uma
 oportunidade para que nós, enquanto homens e mulheres em estado
 de vigília, vivamos de forma que o Ser Interno possa nos falar mais
 facilmente. Pois, igualmente com novos conhecidos e línguas diferen-
 tes, é necessário nos acostumarmos com as formas de expressão e de
 pensamento, de modo que, apesar da enorme confusão reinante, nós
 possamos, em primeiro lugar, trazer ordem através da instrução. A
 lição deste sonho é para todos; para nos livrarmos do controle do eu
 sobre nós, cada um à sua maneira — pois todos somos diferentes — e
 para abandonar todo o medo. Mas não poderemos fazer nada disso
 enquanto permanecermos impuros; nós o conseguiremos na medida
 em que nos purificarmos.”
 Março de 1892.

 63 O sonho do Bispo que estava em discussão. (Nota da edição original em inglês.)

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 “Para que servem os sonhos, afinal?”, disse o professor outro
 dia. “Existe alguma utilidade em darmos qualquer atenção a eles? Te-
 nho sonhado que o pato que comemos no jantar na outra noite havia
 crescido até ficar do tamanho de um elefante e me ameaçava com um
 aceno de seu pé com membranas. Foi realmente aterrorizante.”
 “Oh!”, disse o Estudante, que olhava fixamente para o profes-
 sor, “Então foi aterrorizante? Você não percebe nada no fato de que
 alguém ficou estarrecido com esse pato imaginário?”
 “Era apenas uma imagem no meu cérebro”, respondeu o pro-
 fessor.
 “Sim, é verdade, foi uma imagem produzida por má digestão;
 mas você ignora um grandioso fato conectado à imagem. O ponto
 importante é que este pato imaginário proporcionou um choque ao
 observador interno. A pessoa e as faculdades que fazem seu corpo
 tremer com o que você chama de perigo real na vida em vigília são
 a mesma pessoa e as mesmas faculdades que estavam aterrorizados
 pelo pato do seu sonho.”
 “Realmente”, disse o professor, “eu nunca havia considerado por
 este lado. Você quer dizer então que até mesmo nesse tolo exemplo
 eu tive uma experiência introspectiva, demonstrando, por meio do
 estado de sonho, a verdadeira existência e funcionamento de mim
 mesmo como uma pessoa real internamente?”
 Neste momento, a viúva que havia parado na cidade a cami-
 nho do litoral interrompeu dizendo: “Ah, professor, você pelo menos
 aprendeu algo. Provavelmente você não vai achar tão engraçado as-
 sim meu sonho sobre meu novo gorro.”

 “Por quê? Qual foi o sonho?”
 “Bem, eu sonhei que estava provando um novo gorro em frente
 ao espelho e pensando como eu era uma pessoa sortuda por conseguir
 a primeira peça daquele novo modelo quando Lady Eleanor entrou,
 parecendo ficar, de imediato, verde de inveja com o meu sucesso.”
 “Sim”, ponderou o Estudante, “isto é exatamente o oposto do
 pato gigante. No seu caso, a causa não foi má digestão. Foi um sonho
 agradável. Exaltou seu apreço por acessórios decorativos, paralela-
 mente ao desejo de se destacar perante outras pessoas, solteiras ou
 não. Mas a pessoa interior identificou o evento que sua mente havia
 criado e ficou assim satisfeita. Essa pessoa interior nunca vê objetos
 materiais. Apenas reconhece a ideia dos objetos, estejam eles apre-
 sentados pelos sentidos de vigília ou pela mente em sonho. Ela é o
 pensador que observa essas ideias. E seja o sonho tolo ou não, o im-
 portante continua sendo o fato de que alguém o percebeu. Em nossos
 momentos de vigília, corremos atrás de tolices exatamente como o
 fazemos em nossos sonhos. Nós chamamos isso de experiência, seja
 ela sábia ou não, seja a busca por coisas elevadas ou o oposto. Por
 que deveríamos nos recusar a utilizar nossos sonhos como uma ex-
 periência apropriada a esse estado? Para o pensador, a experiência é a
 mesma, seja ela obtida pelo que o olho em vigília vê ou pelos próprios
 movimentos da mente em um sonho.”
 O professor ficou sério por um momento, e então disse: “Você
 lançou alguma luz sobre o assunto, mas e quanto aos outros tipos de
 sonhos? Todos são igualmente tolice e têm apenas a utilidade que
 você menciona?”
 “Não, eles não são todos iguais. Mas existem sonhadores e so-
 nhadores. Nem toda pessoa é um verdadeiro sonhador, no antigo

 sentido da palavra. Alguns sonhos são visões da noite. O homem real
 vê, então, muitos fatos da vida, da história, da família e das nações.
 Ele não está preso ao corpo, e assim formula conclusões imediatas.
 Ele pode ver uma guerra que esteja por vir, pois ele vê todos os fa-
 tos que possam levar a ela; dessa forma, ele imprime no cérebro as
 imagens de batalhas, de exércitos, de bandeiras. Ele também pode
 perceber futuros acontecimentos relacionados com ele ou com outros.
 Isso se dá porque nenhum fato ocorre sem uma causa antecedente.
 Ele vê as causas, instantaneamente calcula os resultados, até mesmo
 com as datas específicas, e então lança a imagem no cérebro receptivo.
 Se ele for um rei e ao mesmo tempo um bom sonhador dessa classe,
 suas visões oníricas terão relação com o reino e, portanto, poderão ter
 maior importância que as do camponês. No entanto, algumas vezes
 tais sonhadores são homens com dificuldade de entendimento, e fre-
 quentemente sonham coisas relacionadas a todo o reino. Cada ideia,
 exceto aquelas relacionadas à mais pura matemática, se apresenta à
 mente como uma imagem ou um drama, e não em palavras. Logo,
 muitas vezes o cérebro distorce a imagem, o que resulta em confusão.
 “Às vezes, ainda, sonhamos com pessoas que não sabemos se
 estão vivas ou mortas, ou que nunca existiram. Às vezes, isso é cau-
 sado por nosso Ser interno no sonho, encontrando outro Ser que
 conhecemos em uma vida anterior, e então não somos capazes de
 identificá-lo em nossa experiência cerebral presente. Mas tais sonhos
 não são absurdos ou imaginação.
 “Assim, existe o sonho que frequentemente ocorre àqueles
 que estão se esforçando em viver uma vida mais elevada e em de-
 senvolver suas faculdades internas. Neste sonho, frequentemente so-
 mos aparentemente atacados e perseguidos. Trata-se da luta entre as

 naturezas superior e inferior, na qual às vezes sobrevém o terror em
 consequência a antigas paixões e tendências que parecem predomi-
 nar. Esse medo produz uma imagem de perseguição ou confronto, e
 o sonhador acorda na condição que surge de um pesadelo comum. Se
 a inspiração por uma vida superior for mantida, mas não ocorrerem
 uma correspondente mudança no pensamento e na ação do dia a dia,
 o sonho se repetirá, variando talvez nos detalhes, e deixará de aconte-
 cer somente quando a luta for abandonada e a pessoa se entregar ao
 tipo inferior de conduta, ou quando a batalha for vencida pelo curso
 oposto de vida e pensamento.”
 O professor agradeceu ao Estudante, prometendo retornar com
 mais questões em outra noite. Nós todos, então, nos reunimos em outra
 sala para discutir profecias teosóficas, tantas vezes feitas, de que nossa
 civilização egoísta certamente provocaria sérias lutas em sociedade.
 Setembro de 1892.

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 Eu havia terminado de ler em voz alta a carta de um dos mem-
 bros do nosso círculo, uma carta enviada do Ocidente no dia anterior,
 quando o professor chegou, e vendo o Estudante sentado na extre-
 midade da mesa, ele gritou: “Ah, meu caro amigo, você é exatamente
 quem eu queria ver. Suas conversas sobre sonhos no outro dia me
 trouxeram tantas ideias novas que eu acho que tenho um enigma para
 você desta vez.”
 Todos ficamos imediatamente muito interessados na perspecti-
 va de que o Estudante fosse questionado quanto a um enigma. A ele
 dificilmente se podia fazer desistir, pois ele tinha um jeito de esperar

 até que você dissesse tudo o que queria, e então dava uma guinada
 no assunto de tal forma que sua esperada derrota fosse o próprio dia
 de Sedan64. Desta vez, ele olhou diretamente para o professor e disse
 laconicamente: “Cartas e seus precursores, eu presumo.”
 O queixo do professor começou a cair, e então eu soube que no-
 vamente nosso querido Estudante havia afrontado o outro homem;
 ao mesmo tempo, a voz da viúva sussurrou em meu ouvido: “Eu vi
 uma luz azul se apagar nos olhos dele assim que o professor começou
 a falar.”
 “Ora”, exclamou o professor, “é exatamente isso, embora eu não
 dê exatamente esse título. Mas como você soube? Puxa, foi só uma
 suposição! A questão é a seguinte: quando estou pensando em al-
 guém, e no mesmo dia, ou na mesma hora, eu recebo uma carta dele,
 haveria necessariamente uma conexão entre meus pensamentos e o
 recebimento da carta?”
 “Pode ser que sim, pode ser que não. Tudo depende. Talvez haja
 tanta conexão quanto há entre ouvirmos aqui a leitura de uma car-
 ta, você entrar no exato momento, e eu colocar a sua pergunta para
 você “por suposição”, como você diz. Uma conexão estreita é bem
 possível, e existe em grande parte dos casos. Você ouviu falar da su-
 posta superstição sobre o “precursor” na Escócia e em outros países?
 Não, você não prestou atenção no assunto? Pois bem, eles acreditam
 que algumas pessoas têm o que eles chamam de “precursor”. Trata-se,
 muitas vezes, de uma imagem fugaz de uma pessoa que vai à casa ou
 ao lugar ao qual o original está de fato a caminho, como se para avisar

 64 Provável referência à Batalha de Sedan, principal combate da Guerra Franco-
 -Prussiana de 1870-1871, que selou o destino dos dois países. (N.E.)

 que ela está chegando, mas que não fala. Em outros casos, é uma ou
 várias batidas na porta que acontecem com antecedência, como uma
 espécie de mensageiro antecipado. Isso não previne a morte, mas é
 simplesmente um “precursor”, o arauto familiar da própria pessoa.
 Bem, é a mesma coisa com as cartas. Elas têm seus “precursores”, que
 viajam com antecedência, alguns com grande antecipação, outros só
 um pouco antes. É um tipo de pressão da aura — uma aura repleta
 das características do escritor —, à qual são dados impulso e direção
 a partir dos pensamentos e ideias bem definidos do correspondente
 para seu destinatário. Mas não quero fazer pregação; não é minha
 intenção monopolizar a noite.”
 Nós todos perdemos o fôlego, pois este era exatamente o assun-
 to sobre o qual conversamos outro dia, quando o Estudante estava
 ausente, e agora ele provocativamente propôs interromper a explica-
 ção que estava apenas no começo. Então, houve um coro: “Continue!
 Não faça isso. Este não é um chá na Sociedade. Você pode ter a noite
 inteira.”
 “Você quer dizer” — questionou o professor com uma expressão
 “vou fazê-lo prolongar-se” — “que alguns objetos, como por exemplo
 cartas, têm esferas próprias, de uma natureza extensiva, podendo via-
 jar à frente, ao afetar a percepção sensorial da pessoa para quem elas
 são escritas, e produzir uma impressão, ou imagem, ou pensamento
 do autor da carta no cérebro do indivíduo a quem essa esfera afeta?”
 “É exatamente isso.” Nessa hora eu notei no Estudante um
 olhar transmitindo que foi ele quem fez uma pausa para que o pro-
 fessor se prolongasse e entrasse na rede de suas próprias palavras, que,
 sendo em seu estilo particular, seriam mais rapidamente aceitas por
 seu cérebro.

 “A existência de uma aura em volta dos objetos, especialmente
 aqueles que pertencem a alguém, foi comprovada. As cartas não a
 possuem somente em princípios gerais, mas também em um estado
 especializado, devido à concentração do escritor nos pensamentos,
 palavras e na pessoa. Permanece com a epístola, um pouco como uma
 massa de ar comprimido viaja com um projétil ou uma bala de ca-
 nhão. Esse fato é agora bem conhecido, pois através de uma fotogra-
 fia instantânea o coxim do ar comprimido e a bala foram distinta-
 mente reproduzidas na lâmina. O que vale na física vale também no
 reino da física real, para cunhar um termo. Em alguns casos, eu medi
 o tempo que o precursor levaria para chegar até mim, e descobri que
 frequentemente seria um dia, o que equivale à distância de 8.000 km
 em um dos casos e de 1.600 km em outro.”
 “Então, é claro”, eu disse, “cada parte dessa aura, que deve ser
 pessoal para o escritor, carrega consigo a ideia ou a imagem do amigo?”
 “Sim, é assim com todos os nossos pensamentos, e nós os fixa-
 mos firmemente na carta durante a redação. Então a aura fica toda
 permeada com a nossa imagem, e quando o cérebro a recebe, essa ima-
 gem produz uma ideia sobre o autor. Em algumas pessoas sensitivas, é
 obtido um conhecimento parcial do conteúdo da carta que está prestes
 a chegar, embora quase sempre da maneira mais vaga. Eu acredito que
 temos provas cumulativas disso na telepatia e na leitura da mente.”
 Bem aqui, da forma mais irritante possível, a campainha come-
 çou a tocar, anunciando a chegada de visitantes que não faziam parte
 do círculo encantado, e tanto o professor quanto o Estudante troca-
 ram comprimentos um com o outro, suponho que para continuarem
 a conversa depois.
 Outubro de 1892.

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 O editor me deixou ver o esboço do Dr. Anderson65, e nele o
 incidente de ele nunca ter aprendido a soletrar é notável. Ele explicou
 isso detalhadamente ao editor, que foi quem me contou. Ele tinha
 apenas quatro anos de idade e até então não havia estudado nada, e
 seus pais estavam pensando em como iriam proceder a respeito da
 educação dele. Eles o encontraram lendo, e ele próprio nunca con-
 seguiu explicar como isso aconteceu, apenas que simplesmente sabia
 ler. Este é um fato muito interessante, e um entre muitos outros do
 mesmo tipo que poderiam ser compilados se apenas prestássemos
 atenção. Eu contei essa história à mesa, e o Estudante disse que teve
 uma experiência parecida. Ele disse:
 “Eu não fui uma criança prodígio, nem boba, mas simplesmen-
 te comum. Fui para a escola bem cedo; o livro de ortografia era um
 terror para mim e ocupava a maior parte dos meus pensamentos. Eu
 não conseguia acompanhar e ficava abaixo na classe. Um dia eu estava
 especialmente irritado por causa disso, e depois de passar o dia todo
 pensando nisso, fui para a cama muito triste e chateado com o assun-
 to. Tive um sono profundo e acordei pela manhã com o primeiro e
 proeminente pensamento: ‘Oh! Eu já consigo soletrar as palavras, e
 não vou olhar mais para aquele livro horroroso.’ Na época eu tinha
 uns sete anos. Sem pegar o livro, eu fui à escola e progredi nas aulas.
 Nunca mais eu estudei ortografia, e hoje consigo soletrar qualquer
 palavra, exceto as muito raras ou peculiares.”

 65 O artigo “Faces of Friends” [Faces de amigos], na mesma edição de “The Path”.
 (Nota da edição original em inglês.)

 “Como foi isso?”, disse a viúva. “Foi o seu astral, o mayavi-rupa,
 ou o quê?”
 O Estudante sorriu pela completa negligência dela aos termos,
 e disse que não tinha a menor dúvida de que se tratava da retomada
 de um conhecimento antigo, de outra vida, declarando que isso sem-
 pre foi uma experiência como nenhuma outra e que ele não poderia
 esquecer ou se confundir a respeito. Incidentes como esse acontece-
 ram com ele outras vezes. Certa vez, quando pequeno, deram a ele
 um livrinho de missionários que retratava os hindus como um bando
 de homens negros miseráveis, quase selvagens. Ele levou o livro para
 casa, deu uma olhada nele, e então repentinamente lhe veio um sen-
 timento de raiva e ele jogou o livro no chão dizendo que era tudo
 mentira. Ele sabia que estava certo a partir de outra vida, embora na-
 quela época ele não tivesse meios de conhecer os fatos sobre a Índia
 e sobre os hindus, mas tivesse que confiar em contos preconceituosos
 e pessoas interessadas.66
 Todo esse tempo o professor parecia estar muito preocupado. O
 velho escárnio não estava mais presente em seu semblante, e o Estu-
 dante e eu estávamos começando a pensar que alguns avanços teriam
 ocorrido em sua mente cética. Perguntamos a ele o que ele pensava
 sobre tudo aquilo.
 “Bom”, disse ele, “estou propenso a aceitar as evidências ofe-
 recidas, e elas certamente concedem uma extraordinária experiên-
 cia introspectiva. Eu mal consigo imaginar, pois não havia qualquer

 66 Compare com o Prologue to Gorgo, de Charles Kelsey Gaines (publicado por Lo-
 throp, Lee and Shepard Co., Boston, Mass., 1903). O professor Gaines havia lido
 O Oceano da Teosofia, do Sr. Judge, publicado naquele mesmo ano, e pode também
 ter visto essa passagem em “The Path”. (Nota da edição original em inglês.)

 fundamento e, além disso, a imaginação não confere conhecimento.
 No caso do Estudante, houve um breve começo, pois ele estava es-
 tudando, mas na do Doutor não havia absolutamente base alguma.
 Será que as células do corpo têm o poder de transmitir formas de
 conhecimento, como por exemplo soletrar?”
 Naquele momento, todos nós, inclusive a viúva, tivemos que rir,
 pois percebemos que o professor se encontrava, como muitos de seus
 irmãos, em um beco sem saída, e não tinha a menor ideia de como
 sair de lá. O Estudante veio em seu socorro, para nosso espanto, di-
 zendo que nós não devíamos ridicularizar o professor, pois ele havia
 descoberto a explicação, desde que fosse um pouco além. As células
 do corpo têm esse poder, no entanto ele está latente e jamais poderá
 se manifestar até que o Ego, o Homem interno, desvele a impressão
 latente. E isso não é possível a menos que o Ego tenha passado por um
 conjunto de impressões similares às que ele tentou trazer à tona. Ou
 seja, deve haver uma interação e uma inter-relação entre as coleções fí-
 sicas dos átomos e o Homem interno. Se o Homem interno, digamos,
 tiver aprendido a soletrar em inglês e a massa de átomos que compõe
 o corpo também tiver sido usada por aqueles que tenham sido bons
 soletradores, então será possível para a pessoa acessar o conhecimento
 antigo. Mas isso demonstra que, em qualquer caso, trata-se da lem-
 brança daquilo que alguma vez aprendemos e que sempre depende
 do instrumento físico que estamos usando no momento. O professor
 pareceu aliviado; e estávamos todos tão interessados em solucionar o
 problema que esquecemos da pessoa que o apresentou.
 Os próprios casos que parecem ser contrários a isso, na verda-
 de o apoiam. Tome o caso da família do grande músico Bach. Seus
 descendentes foram, de fato, bons músicos, porém não como ele. E

 pouco a pouco suas fabulosas habilidades foram desaparecendo da fa-
 mília. À primeira vista pode parecer invalidar a ideia, mas se nos lem-
 brarmos de que o Ego deve ter o poder em si mesmo, constataremos
 que, apesar de que Bach possa ter deixado os átomos com impressões
 musicais, os novos Egos da linhagem da família não foram capazes
 de expressar o poder do instrumento, e assim essa impressão não mais
 soou. Essa é uma ótima lição sobre Karma e fraternidade universal, se
 considerada da maneira certa. Foi o Karma daquela família que atraiu
 para si Egos com capacidades indiferentes, e aqueles que usaram os
 átomos da família deram a eles novas e outras impressões e tendên-
 cias, até que finalmente Ego após Ego destituídos de talento fossem
 atraídos para a família. O mesmo pode acontecer em relação à virtu-
 de. Consequentemente, conforme vivemos e agimos nós elevamos ou
 rebaixamos o padrão geral. Esta é também, sem dúvida, a verdadeira
 razão do antigo costume de preservar a pureza da linhagem da famí-
 lia; ao mesmo tempo, é a causa da miscigenação de várias raças para
 criar uma nova, como nós vemos aqui no nosso próprio país.
 Abril de 1893.

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 O professor estava sentado, com um charuto na mão, obser-
 vando o filamento ascendente de fumaça azul se dissipar no ar, e seus
 olhos escurecidos pela intensidade de seus pensamentos. Eu sabia
 que tinha acabado de encontrar X, um teósofo “avançado” da seção
 oculta, e me sentei e esperei por alguma informação que pudesse al-
 cançar meu humilde ser. Em seguida o professor comentou, como se
 estivesse sonhando e falando do mundo da lua:

 “Nós tivemos muitas crises, mas certamente esta foi a maior.”
 “A que você se refere, professor?”
 “À partida de HPB de seu corpo físico. Deve ter sido calculado
 previamente que essa partida súbita resultaria em desfavorecimento
 para nós. Mas o fato é que os desastres afetam a S.T. na proporção in-
 versa. Quanto maior o desastre (aparente), maior é o bom resultado.
 Quanto mais forte o golpe, também maior a nossa reação. Todos os
 ataques, todas as chamadas revelações e perdas apenas removeram os
 impedimentos dos seguidores fracos e incertos. A aparente perda da
 nossa líder nem mesmo por um instante paralisou as atividades das
 equipes de trabalhadores na Índia, na Inglaterra ou na América. Ago-
 ra, dia após dia, temos evidência de crescimento em todas as direções.
 A imprensa está abrindo suas portas zelosamente guardadas. O Tra-
 balho Prático, da Liga Teosófica67, ganhou a simpatia do público para
 nós. Em toda parte, há uma repentina eclosão de energia e nova vida.
 X falou sobre isso hoje.”
 “O que ele teve a falar sobre isso?”
 “Nós estávamos falando sobre HPB e ele disse que, até onde
 ele entendia, ela (o Adepto) gastou uma imensa quantidade de ener-
 gia — vis viva68, você sabe — para manter a coesão de um corpo, no
 qual todas as moléculas tendiam a se romper. De fato, basta pensar
 na força coesiva empregada para isso! — na imensa fricção nos cen-
 tros cerebrais já desgastados pela doença. X diz que eles estavam tão
 comprometidos que logo resultaria em senilidade, tanto que pareceu

 67 Provável referência à “League of Theosophical Workers” [Liga de Trabalhadores
 pela Teosofia], cuja constituição é registrada em “The Path” de junho de 1891 e
 tinha a Sra. Julia Campbell Ver Planck como presidente. (N.E.)
 68 Do latim, força viva. (N.E.)

 ser melhor para ela (?) deixar o corpo se desintegrar assim que uma
 boa oportunidade aparecesse.”
 “Essa última frase parece muito sugestiva.”
 “E é mesmo. E acreditamos que HPB estará ocupada, por algum
 tempo, treinando um novo instrumento, e um não tão jovem a ponto
 de ser inútil na atual crise cíclica.” Ele não pretendeu falar com auto-
 ridade; mas certos ditos dela — e talvez o que eu poderia chamar de
 fatos post mortem — corroboram com ele. Certamente, ela deixou tudo
 em ordem. Tudo estava planejado, e havia evidências em abundância
 de que ela estava ciente de que sua partida estava próxima. Além disso,
 X disse que, olhando para ela como um Adepto, cujo principal traba-
 lho era feito fora do corpo objetivo, é razoável supor que ela agora está
 habilitada a usar, em planos superiores (ou internos) do ser, o poder
 previamente usado na manutenção daquele corpo.”
 “Ele achou que o atual crescimento teosófico deveria ser atri-
 buído a esse fato?”
 “Apenas em parte. Veja bem, ele acredita que as atenções dela
 estão amplamente engajadas com o novo instrumento. Mas, do ponto
 de vista dele, os correguladores e associados dela, naturalmente, iriam
 oferecer ajuda em sua ausência, especialmente se a S.T., como um
 corpo, pedisse a ajuda deles.”
 “O que você quer dizer com “pedir ajuda”?”
 “Quero dizer que o impulso unido de um grande corpo formado
 por verdadeiros buscadores — especialmente se eles trabalham pela
 humanidade — atrai a ajuda necessária para seus esforços espirituais.
 Imagine-o como um grande fluxo de energia que se desloca para o es-
 paço e regressa carregado com tudo que atraiu para si — tudo que lhe
 é similar — em sua passagem. Isso, por si só, seria uma fonte de poder.

 Reitero, o crescimento se deve amplamente ao que HPB previu. Os
 teósofos são agora capazes de se manter sozinhos, todos podem se be-
 neficiar ao serem deixados assim. (Por favor, interprete as palavras “so-
 zinhos” e “deixados” no sentido relativo.) De forma semelhante, uma
 criança é beneficiada quando deixam que ela própria aprenda a andar,
 mesmo que lhe custe alguns tombos; é o curso do crescimento normal
 e saudável em todos os departamentos da Natureza.”
 “Tudo isso parece suficientemente racional.”
 “Meu caro amigo, nada é mais racional, mais sensato, do que a
 Teosofia! É comparável a uma varinha de condão que foi usada em
 dez bilhões de plumas, de dez mil tipos diferentes; todos os fatos da
 vida se transformam em pilhas bem ordenadas.”
 “Imagine como o público receberia essa declaração!”
 “O público é bem descrito pela estimativa de população de
 Carlyle: tantos ‘milhões, a maioria deles insensatos’. Mas agora me
 diga, que verdade, que invenção, não foi rejeitada pelo desprezo deles.
 Sejamos sensatos. Todas as verdades da Teosofia, todos os axiomas
 do Ocultismo são, se me permite dizer, a apoteose do senso comum.
 Quando você perceber uma falta disso, tome cuidado! Você pode ter
 certeza de que o conhecimento deles é defeituoso, errático, mal com-
 preendido; todo psíquico, todo vidente, todo ouvinte, o contrário. O
 que seriam seus dons se não fossem complementados pela compreen-
 são das coisas ouvidas ou vistas? ‘Meu filho, procure conhecimento,
 mas, acima de tudo, busque compreensão.’ Tal poder para interpreta-
 ção deve ser alimentado. Como?”
 “Eu não saberia dizer. Você não perguntou a X?”
 “Perguntei. E a resposta dele foi: ‘Mediante o estudo da Ética. O
 Bhagavad-Gītā mostra o caminho.’ ‘Nesta ciência’, declarou ele, ‘espírito

 e natureza, ou o puro e o verdadeiro, ou a ética e a lei, são uma só e a
 mesma coisa. O Homem interno pode ser visto como um amontoado
 de poderes. Cada poder é ‘a chave para abrir a Porta’ para um plano do
 qual tal poder brota na Natureza. Um poder do plano astral inferior,
 ou psicofisiológico, abre a porta para apenas esse plano. Isto ocorre em
 parte por meio da ação e da interação nas células e moléculas do corpo.
 Ele atua sobre seu princípio correspondente em cada célula.’”
 “Você poderia elaborar mais isso, professor?”
 “Suponha que eu seja capaz de induzir no nervo ótico uma pro-
 porção vibratória que o permita identificar a cor amarela. Como eu
 poderia fazer isso? Eu agiria como a Natureza. Ela apresenta uma
 determinada vibração numérica aos nervos, e imediatamente eles
 transmitem ao cérebro a impressão sensorial do amarelo. O que você
 diria ser a coisa real em si, a impressão sensorial ou a proporção vi-
 bratória? Eu induziria (se eu pudesse!) aquela mesma proporção no
 fluido nervoso, e o cérebro novamente registraria amarelo. Logo, se
 eu continuasse com essa ação, a aura desse nervo do Homem interno
 estaria em ação e interação sincrônicas com todo o plano do ser —
 chame isso de plano inferior do feixe de luz amarelo, e todas as coisas
 desse plano relacionadas a essa vibração são percebidas. As partes de
 coisas específicas, que não têm relação com essa vibração, não são
 percebidas, e assim surge o conhecimento parcial. É literalmente ver-
 dade que você só vê aquilo que você é.”
 “Estou começando a entender.”
 “Novamente, observe que cada plano tem seus aspectos ativos
 e passivos, seus princípios, suas subdivisões e as subdivisões destas.
 Somente as forças do plano superior que podem abrir as portas dos
 planos mais elevados. O que determina essa diferença de poder?”

 “Ah, esse deve ser o ponto crucial.”
 “O pensamento o determina. A motivação o determina, pois ela
 determina a qualidade do pensamento. Através da motivação, o pen-
 samento se contrai ou se expande. É bem sabido que o pensamento
 afeta os processos de assimilação do corpo. Esse sempre foi um fator
 reconhecido nas terapêuticas. A introdução das vibrações superiores,
 mais espiritualizadas, nos centros ocultos do cérebro não apenas os
 abre para a influência das esferas mais elevadas como também in-
 fluencia a ação seletiva da esfera em sua totalidade. Como o corpo ex-
 pira e inspira o ar, também o sistema nervoso interno dilata e contrai
 com o movimento do meio etérico ou astral. Sua vibração é acelerada
 pela ação do pensamento, e essas vibrações mais rápidas impedem a
 entrada de partículas mais grosseiras de substância etérica, causando
 ainda um fluxo sobre as correntes infinitamente mais sutis da Alma
 do Mundo. Desta maneira, a inteligência superior de todo átomo é
 aberta, ‘cortejada desde o botão, assim como as folhas dos ramos’.
 Keely nos fornece uma pista de um método em que isso é feito.”
 “Você se refere à descoberta dele de que a produção do acorde,
 de qualquer massa dada, rompe as associações daquela massa e libera
 energias sutis, e de que as energias são infinitamente mais dinâmicas?”
 “Precisamente isso. A lição pode ser levada ainda mais longe.
 Você afirma que ele produz o acorde de qualquer massa dada, um
 acorde que representa a vibração total daquela massa. Portanto, nós
 também devemos usar essa força, que está em harmonia com o plano
 que desejamos entrar. É fácil falar sobre isso, mas quem entre nós
 pode de fato fazê-lo? E quando o psíquico acidentalmente o faz, ele
 vê apenas resultados parciais, somente aquilo que ele está apto a ver,
 e nada mais. Por esta razão que frequentemente é dito: ‘Um homem

 deve viver aquilo que ele conhece.’ Até que o tenha vivido, ele não o
 conhecerá; ele precisa ser aquela vibração superior; ele próprio deve
 se tornar aquela ‘Palavra perdida’. Por meio de longo treinamento
 na produção de forças dentro de si mesmo — forças que devem ser
 absolutamente puras se pretendem revelar a pureza —, o estudante
 pode se aproximar de um entendimento daquilo que vê. Caso con-
 trário, as experiências psíquicas são uma grande desvantagem. Elas se
 antecipam ao pensamento; elas detêm a mente, da mesma forma que
 os espinhos dos arbustos detêm as ovelhas. Este é o motivo por que A
 Voz do Silêncio aconselha o estudante a evitar aquela ‘Sala do Apren-
 dizado’, onde sob cada flor esgueira-se a serpente astral.”
 “Logo, é muito positivo poder esclarecer essas coisas à luz do
 senso comum.”
 “Certamente, se queremos beneficiar o sensato. Sempre vou à
 Natureza para encontrar uma explicação em Ocultismo.”
 “Nesse caso, estabelecendo um paralelo, nós podemos dizer que
 a chamada ‘morte’ de Madame Blavatsky trouxe às mentes teosófi-
 cas um foco em comum, que foi a determinação para continuar o
 trabalho dela. Essa unidade de esforço em linhas superiores induziu
 um grande volume de energia, todos fluindo de e para um centro
 comum.”
 “Sim — e os resultados dessa ação são agora vistos em dois
 aspectos. Primeiramente, no aumento das atividades, que comenta-
 mos; e, em segundo lugar, na abertura parcial das portas para planos
 elevados.”
 “Como você deduziu isso?”
 “Baseando-me no que X veio me dizer. Parece que os líderes da
 Sociedade se fizeram sentir de maneira objetiva. Por exemplo, através

 de cartas. Foi afirmado que algumas foram recebidas e nelas a es-
 sência é a ‘Obra’. Em uma das cartas, a um trabalhador é dito que
 ‘não peça por comandos detalhados, pois HPB abriu o CAMINHO.
 SIGA-O TRABALHANDO, e deixe que nós administremos os re-
 sultados’. Mais uma vez, o trabalho é referido como: ‘Você continua
 com outro trabalho em um campo que é tão vasto quanto a huma-
 nidade.’ O trabalhador aqui referido havia previamente trabalhado
 de maneiras puramente éticas. Outro estudante é aconselhado: ‘Seja
 cauteloso, de forma que sua vida não prejudique a Sociedade, em que tão
 poucos restaram. (...) Não faça de nenhuma profissão uma mentira. Lem-
 bre-se de sua responsabilidade e de seu juramento.’ A essência de todas
 essas cartas é a devoção e o trabalho em favor da presente organiza-
 ção, como um centro devidamente criado através do qual o trabalho
 deve ser realizado.”
 “Deve ser muito encorajador receber tais cartas.”
 “Foi precisamente minha observação a X, que me lançou um de
 seus repentinos olhares sagazes e então rapidamente retrucou: ‘Meu
 estimado amigo, quando uma planta está com um fungo, é destruída,
 é quebrada, crescendo impropriamente, o jardineiro responsável ou
 algum de seus assistentes vem em seu auxílio; ou algumas poucas
 plantas especiais, em destaque no jardim, podem receber um estímulo
 especial que poderá prejudicar as outras. Mas quando uma planta está
 seguindo todas as leis naturais do crescimento, ela não requer reajus-
 tes: não há necessidade de um jardineiro, pois ele sabe que ela está
 bem. No Oriente, o Guru, ou Instrutor, é chamado de Reajustador. E
 ele pode se comunicar com um tipo de subcentro já estabelecido, que
 deve distribuir o auxílio, que é assim estendido àqueles que trabalham
 na mesma linha.’”

 “Então, aqueles trabalhadores que não ouvem de uma maneira
 específica podem ainda sentir que são vistos e estão agindo correta-
 mente?”
 “Foi isso que X disse; também disse que, quanto mais próxima
 for a relação com a Loja, virá uma responsabilidade maior, colossal.”
 “É muitas vezes difícil para mim saber exatamente como tra-
 balhar.”
 “É assim mesmo que as coisas são. O melhor conselho que eu já
 ouvi foi: primeiro, use suas habilidades predominantes para a melhor
 vantagem; segundo, não impeça que seu companheiro use as dele;
 terceiro, siga os métodos da Natureza. Encontre uma corrente ou um
 núcleo, e trabalhe nele. Não importa se ele lhe parece perfeito ou não.
 Deixe os resultados para a Lei. Mas se não encontrar algum núcleo,
 torne-se você mesmo um centro. O Divino vai ocupá-lo e atuar atra-
 vés de você.”
 Setembro de 1891.

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 “Na grande luta da humanidade, nada está perdido. Nenhum
 trabalho, nenhum amor são em vão. Nós revivemos nossas próprias
 provações naqueles que desejamos ajudar. Somos atraídos para cima
 e para fora por aqueles que desejam nos ajudar.”
 Maio de 1890.

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 “Os livros pouco lhe beneficiarão. Eles servirão para confirmar
 aquilo que você já souber. Eles não podem fornecer nada de novo,

 pois o que eles tentam ensinar e nós tentamos aprender é o ancestral.
 Mantenha pura a sua motivação, forte o seu desejo por se elevar, e
 você prevalecerá. (...) Feche seus livros e reflita.
 Não dependa de livros para guiá-lo ou ensiná-lo. Eles são bons
 para dar aos homens o conhecimento terreno, para fazer com que
 os homens reflitam. Eles não vão conceder aos homens a Sabedo-
 ria Divina ou Verdade. Você poderá se beneficiar de todas as coisas,
 incluindo os livros. Você não pode conhecer a si mesmo por meio
 deles.”
 Abril de 1890.

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 “Procure o real debaixo do irreal; procure a substância por trás
 da sombra; e em meio à desordem, procure o centro silencioso no
 qual a Loja está sempre trabalhando.”
 Dezembro de 1895.

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 “As observações do nosso presidente69 na última terça-feira (fo-
 ram) sobre a força multiplicada de uma ação unificada, mostrando
 que, lado a lado com o que estamos fazendo, flui a corrente invisível do
 nosso ser, movendo-se lentamente, talvez, mas, mesmo assim, abran-
 gendo uma força irresistível, embora grandiosa para ser insuspeitada.”
 Agosto de 1889.

 69 O Sr. Judge, presidente do [grupo] Aryan Theosophical Society, a Loja Matriz
 (Nova Iorque). (Nota da edição original em inglês.)

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 NOTA: As passagens entre parênteses são do escritor (normal-
 mente “Jasper” ou “Julius”) que está citando o Sr. Judge.

 (Um Adepto escreve:)
 Antes de você se tornar um ocultista, você precisa deixar de lado
 todo preconceito, todas as preferências mundanas, todo sentimento de
 predileção por uma coisa em relação a outra. É fácil cair na Magia
 Negra. A tendência natural é a Magia Negra, e é por isso que são ne-
 cessários vários anos de treinamento para remover toda fonte de pre-
 conceito antes que o poder possa ser confiado a você. Um Adepto deve
 separar por completo ele mesmo de sua personalidade; ele deve dizer:
 ‘Eu sou um poder.’ Um mago negro prepara-se para fazer o mal sem
 pensar se isso prejudicará os outros. Um ato de bondade feito com
 parcialidade pode se tornar maligno, por exemplo, ao despertar animo-
 sidade na mente de outros. Ao agir, é necessário perder todo o senso
 de identidade e se tornar uma força abstrata. Justiça é o oposto de
 parcialidade. Existe o bem e o mal em todos os pontos do Universo, e
 se alguém trabalha, ainda que indiretamente, para sua própria parciali-
 dade, ele se torna, naquela medida, um mago negro. O Ocultismo exi-
 ge uma justiça perfeita, absoluta imparcialidade. Quando um homem
 usa indiscriminadamente os poderes da Natureza com parcialidade e
 sem consideração à justiça, isso é Magia Negra. Como um trapaceiro,
 o mago negro atua com certo conhecimento. Magia é poder sobre as
 forças da Natureza, como, por exemplo, quando o Exército da Salvação
 hipnotiza pessoas e faz com que elas fiquem psiquicamente embriaga-
 das pela excitação, está usando Magia Negra. O primeiro exercício da

 Magia Negra é psicologizar pessoas. Ajudar uma pessoa doente não é
 Magia Negra, mas nenhuma preferência pessoal deve guiá-lo.
 Quando a sexta raça chegar ao seu término, não haverá mais
 Dugpas (magos negros). Um Dugpa pode se converter durante a vida
 às custas de terríveis sofrimentos e provações. Nos planos astral e
 psíquico, os Mestres são sempre mais fortes do que os Dugpas, por-
 que nestes planos o bem é mais forte que o mal. Mas no nosso plano
 material, o mal é mais forte que o bem, e os Mestres, que precisam
 ser engenhosos para agir neste plano por ele ser contrário à nature-
 za d’Eles, encontram grandes dificuldades e são capazes apenas de
 atenuar os efeitos do mal. Nas forças que não são boas, há ausência
 do bem, mas não há presença do mal; e quanto mais elevado formos,
 mais o mal se tornará ausência do bem. Apenas seguindo a absoluta
 unidade assexuada poderá ser trilhada a Senda branca.”
 Agosto de 1890.

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 (Observações por um Adepto:)
 Todas as enfermidades, perturbações e anormalidades do corpo
 vêm do plano astral. O físico não pode infectar o astral. O oculto e o
 físico nunca devem se misturar. É absolutamente necessário se con-
 centrar em um ou no outro.
 Agosto de 1889.

 Como eu gostaria que você ficasse em silêncio; quero dizer,
 quieto internamente. Você está se permitindo irritar-se e enraive-
 cer-se internamente. O silêncio exterior não significa nada, a menos

 que tudo internamente esteja em silêncio também. Isso precisa ser
 aprendido, e como você é um bom moço, você ainda não conseguiu
 aprender isso. Você consegue? Eu aprendi, ou a esta altura eu estaria
 furioso, tanto comigo mesmo quanto com outros.
 O que deve ser aprendido é estar contente, ou melhor, resignados
 conosco e com nossas limitações, mesmo quando lutamos para superá-las;
 e quando uma natureza ousada e leal, como a sua, conquista esse conhe-
 cimento, é feito um grande avanço. Você nunca precisa se desculpar no
 fórum do seu próprio julgamento, mas quando você tiver ultrapassado seu
 julgamento, abaixe sua cabeça. Não podemos de imediato viver segundo
 esses ideais elevados, como outras pessoas vivem com os delas. Algumas
 delas estão satisfeitas consigo mesmas porque suas regras o permitem,
 e elas estão, portanto, tranquilas, mas não é esse tipo de tranquilidade
 a que me refiro. Sua alma pode estar quieta mesmo quando seu corpo
 se enfurece (leia A Voz do Silêncio). Nem eu e nem você nunca estamos
 satisfeitos conosco mesmos, mas devemos ser resignados às limitações do
 nosso caráter da maneira como elas se apresentam a nós. O maior erro
 em Ocultismo é duvidar de si mesmo, pois isso leva a todas as dúvidas. As
 dúvidas que temos a respeito de outros sempre nasce da dúvida interna do
 ser. Então, tanto quanto você admita, não duvide de si mesmo.
 Abril de 1890.

 O processo de preparação acontece silenciosamente até que
 o indivíduo, totalmente inconsciente, alcance o momento em que a
 única força necessária o toca, e então cada elemento preparado cai
 instantaneamente no lugar, e o ser é, por assim dizer, imediatamente
 reconstruído. As concepções, relações e objetivos são revolucionados.
 Maio de 1888.

 COMP I LAÇÕES

 (Uma pessoa versada nos mistérios sagrados disse recentemen-
 te, quando consultada sobre um aspirante ao Chelado:)
 Possuindo a motivação certa, ficará bem. Seus pontos de vista
 não servem a ele. (...) É melhor que ele esteja pronto para alterá-los
 conforme for adiante.
 Setembro de 1887.

 Eu quero que você cesse, o quanto for possível, qualquer desejo de
 progresso. O intenso desejo de saber e de se tornar, de alcançar a luz, é
 diferente do pensamento: “Não estou progredindo”; “Eu nada sei.” Pois
 isso implica buscar resultados. A posição correta a se tomar é o desejo
 de Ser. Pois, então, sabemos. O desejo de saber é quase exclusivamente
 intelectual, e o desejo de Ser é do coração. Por exemplo, quando você
 encontra um amigo distante, isso não é conhecimento — esse é o fato
 de estar na condição ou vibração que está aquele amigo, no momento.
 A tradução disso em um cálculo ou explicação mental é o que chama-
 mos de conhecimento. Ver um elemental no plano astral implica em
 estar, momentaneamente, em alguma parte de nossa natureza, naquele
 estado ou condição. É claro que há vastos planos do ser que ainda não
 temos a esperança de alcançar. Mas, enquanto nos esforçamos para nos
 tornar divinos e não colocar nossas esperanças finais abaixo daquela
 condição suprema, podemos aprender a estar totalmente e inteiramen-
 te naquele plano, que se apresenta para nós agora.
 Janeiro de 1888.

 Diferentemente daqueles que resmungam que não são “ajuda-
 dos”, eu penso que há mais perigo em ser “ajudado” demais do que
 de menos. As máquinas quebram por excesso de velocidade, não por
 funcionarem muito devagar — exceto em casos excepcionais.
 Abril de 1891.

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 (Alguém que ganhou o direito e o dever sagrado de ser instru-
 tor, uma vez disse:)
 Essa lei é imutavelmente fixa; declara que aquele que recebeu
 benefício espiritual, não importa quão pequeno, não deve morrer de
 bom grado, a menos que tenha comunicado o que recebeu a pelo me-
 nos uma pessoa. Nela também é afirmado que se comunicar significa
 não apenas verbalizar, mas ter o cuidado de se certificar que a outra
 pessoa tenha entendido completamente. Tendo uma vez voltado tua
 mente para a luz daquele Sol Verdadeiro, banha a ti mesmo naquela
 grande corrente de energia divina que flui de e para aquele Sol; e
 nunca mais poderás reivindicar para ti mesmo aquela vida; vive, en-
 tão, para que o dever possa ser bem executado.
 Janeiro de 1888.

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 (Um companheiro escreve:)
 Essa batalha não parece ser a batalha real. Ela virá quando, com
 o propósito de testar a força de permanência de seus apoiadores e a
 influência neles da Teosofia, HPB parecer se entregar.
 Julho de 1889.

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 A imagem do Mestre é a melhor proteção contra influências
 inferiores; pense no Mestre como um Homem vivo, que reside em
 você.
 Setembro de 1890.

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 Desfaleço com o desejo de encontrar aqueles que irão me aceitar
 altruisticamente e trabalhar para os demais. Eu me ofereço em todas
 as coisas para o seu benefício, e ficaria feliz se, pela minha morte ou
 pela minha perda, você pudesse alcançar a iluminação. Eu transferi-
 ria, se pudesse, toda a minha experiência para sua alma e a entregaria
 a você. Para quê? Por nada, exceto sua aceitação. Você sabe muito bem
 que não podemos fazer mais do que oferecer esses bens. Colocamos
 a imagem de madeira diante dos olhos dos homens, mas ninguém
 que leva a espada se atreve a cortá-la em duas para encontrar as joias
 dentro dela. Então, mais uma vez, tristemente continuamos.
 Junho de 1887.

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 (O seguinte extrato, de uma carta de X., mostra a atitude do
 buscador perspicaz:)
 Da mesma forma que você, eu quero apenas trabalhar. Não bus-
 co poderes; nada. Fiz em meu coração o voto do mártir. Sou devotado,
 tanto quanto minhas luzes em cada vida permitirem, ao serviço no
 exército do altruísmo: militar. Agora só encontro a S.T. para trabalhar

 aqui. Na próxima vez, talvez de outra maneira — ou, da mesma. Es-
 tou pronto para “sair do brilho sol e ir para a sombra, a fim de abrir
 espaço para outros”, e não busco o Nirvana. Essa é também a sua ma-
 neira; portanto, não se preocupe com palavras, títulos ou confusões.
 Dezembro de 1889.

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 (Alguns estão sendo feridos na luta e, para um deles, esta carta
 foi escrita recentemente por um amigo.)
 Ao saber que você não está bem de saúde e que também tem
 outro fardo para suportar, ouso lhe escrever para dizer que sinto mui-
 to. Não é consolo que tenho a lhe oferecer, pois acho que muitas vezes
 isso é uma mera zombaria da tristeza. Ainda assim, eu diria que você
 não está completamente sozinho. Uma amiga que está golpeando
 para todos os lados, e que de bom grado se tornaria uma inimiga, não
 o poupou a esse respeito. Mas acho que temos apenas que lembrar o
 que já aprendemos por nós mesmos — que é tudo ilusão —, e então
 não nos importaremos e estaremos preparados para esperar até que
 o grande Tempo traga suas mudanças mágicas. Nós podemos espe-
 rar: “Também servem aqueles que apenas permanecem e esperam.”
 E isso também tem que ser aprendido — sem dúvida, assim como
 outras coisas — por meio da dor. Mas não esqueçamos que somos
 nós que fazemos nossa própria dor. Descobri que a dor e a tristeza
 surgem apenas do pensar errado. Errado não no sentido de perverso,
 mas de algo fora de harmonia com o esquema da Natureza; algo não
 científico e, portanto, contrário à mais elevada ética. Se confinásse-
 mos nossos pensamentos, bem como nossos atos, ao nosso próprio

 claro dever, deixando os resultados e o amanhã para a Lei, que espaço
 haveria para a tristeza?
 Então, vamos nos recostar e sorrir para o espetáculo e a para a
 aparência das coisas, sabendo que, mesmo que estejamos de mãos e
 pés atados por um período de dias ou anos, o coração do mundo pul-
 sará muito bem sem nós. Portanto, não nos envolvamos mentalmente
 neste ou em qualquer outro assunto, mas permaneçamos afastados
 — espectadores —, apesar de realizar com energia tudo que vier a
 nós para ser feito e prontos para nada fazer, se isto for necessário.
 Então, Irmão, vamos nos alegrar com o que vier e com tudo o que
 é dito e sussurrado, por mais sombrio que o dia possa parecer, essas
 coisas acabam dando certo no final. Quanto mais violenta a tempes-
 tade, mais cedo voltaremos a ver a face do sol, que brilha por trás das
 nuvens que o ocultam apenas por um breve momento. Você é muito
 feliz e sereno, pronto para tudo e indiferente a tudo; em repouso, no
 lugar silencioso de sua própria morada. Mas, assim como todos nós,
 você não é conhecido por todos os homens, pois somente a alma
 conhece a alma. É por isso que há pouca necessidade de se esconder
 em Kali-Yuga! Você pode contar tudo, e eles não se tornarão nem um
 pouco mais sábios. Essas pessoas que imaginam conhecer o coração,
 a mente e a alma, seus ou meus, não são nada sábias. Elas não enten-
 dem. Não acreditam nos ensinamentos delas, mas apenas os mantêm
 em suas cabeças. Então, deixe-os volutear neles, e talvez, no curso de
 eras, uma flor florescerá no coração de cada um, e então nos alegrare-
 mos. Se o homem pudesse ser forte em si mesmo como parte do todo,
 o barulho do mundo não atingiria seus ouvidos. Envio-lhe meu amor.
 Abril de 1895.

 D E C A R TA S N Ã O P U B L I C A D A S

 Não há autoridades na Teosofia, exceto aquelas que cada um
 escolhe aceitar por si mesmo.

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 Nenhum esforço, mesmo o menor deles, é em vão; e sabendo
 isso, cada um pode “tentar, e sempre continuar tentando”.
 Não é sensato considerar os fenômenos ou tentar entendê-los
 sem que se tenha compreendido completamente a filosofia da Natu-
 reza e do Homem encontrada na Teosofia.

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 Os fenômenos são totalmente ilusórios e, se considerados, afas-
 tam-se da realidade da vida e da verdade.

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 Os relatos de outras encarnações não são úteis nem confiáveis;
 eles não farão bem algum no final, e podem levar à vaidade e à me-
 lancolia; portanto, eles devem ser evitados. Nunca soube de um caso
 em que tais relatos foram seguidos e que não tiveram consequências
 ruins. E os únicos Adeptos que conheci se recusam a falar da vida
 passada de alguém; é uma regra do Ocultismo que as relações de vidas
 passadas não devem ser prorrogadas, semelhantemente à regra contra
 relacionar seu progresso na vida superior à esta vida. Um estudo da

 filosofia espiritual, conforme é encontrada no Bhagavad-Gītā, lança-
 rá luz sobre todos os possíveis eventos, que são meros movimentos e
 aparições irreais, escondendo a verdade de nossa percepção.

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 Quanto a você, é claro que os poderes que surgem naturalmen-
 te são bons e podem ser naturalmente usados, e a precaução que eu
 teria (que para você pode não ser necessária) é que quanto menor o
 número de pessoas a quem você realmente se revelar, melhor para o
 seu progresso, e para eles também. A maneira para fazer o bem com
 esses poderes nunca é pela exibição deles, mas pela influência que
 eles podem silenciosamente exercer sobre os outros, pelas sugestões,
 pistas e ideias que eles podem dar ao seu possuidor, se usados cor-
 retamente; dessa forma, eles podem ser úteis, mas não falando deles,
 nem por qualquer exposição. Este é um ponto importante em todas
 as verdadeiras escolas do Ocultismo.

 (NOTA: Os fragmentos acima foram originalmente publica-
 dos na “The English Theosophist” de outubro de 1898, de abril de
 1899 e de janeiro-março de 1900.)70

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 Não fique desencorajado; não há motivo; nada que seja feito
 com facilidade é realmente muito bom ou duradouro; deve haver
 aborrecimentos e tensões aqui e ali.

 70 Acréscimo pela edição original em inglês.

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 Não abrigue a ideia de que ____ e outros não atendem por
 “razões de castas” e similares. É melhor supor que eles tenham outras
 razões; é melhor esperar o melhor, e o melhor virá... Além disso, não
 acho que isso seja fato. Fofocas levantam essas ideias.

 WWWWW

 As circunstâncias em que estamos são as melhores para nós,
 se apenas as considerarmos. Tente fazer isso e, assim, tirar o melhor
 proveito delas, escapando delas em outra vida.
 Tente levar as pessoas a praticar a verdadeira Teosofia e a fra-
 ternidade.

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 Como na questão de _____, a melhor maneira é esperar com
 moderação, fazer o melhor possível, recusar-se a dar ouvidos a ca-
 lúnias e ver o que acontecerá. (...) Não devemos estar sempre refor-
 mando os outros, enquanto, ao mesmo tempo, podemos nos recusar a
 deixar os outros prejudicarem o trabalho.
 Permaneça firme, evite controvérsias e continue trabalhando.

 WWWWW

 Tente progredir em harmonia; o outro tipo de progresso se su-
 cederá no devido tempo. Seja você mesmo um centro de harmonia, e
 outros o ajudarão a espalhar esse sentimento por toda parte.

 Vamos todos nos aproximar em mente e coração, em alma e
 ação, e assim tentar realizar a verdadeira fraternidade, através da qual,
 somente, nosso progresso universal e particular pode vir.

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 Eu acho que você e ____ devem mudar de atitude mental neste
 ponto; parece-me — embora eu possa estar enganado e, se assim for,
 me desculpe — que, ao desejar ter harmonia, você tenta tanto em
 pensamento quanto em ação fazer a harmonia. Contudo, eu não acho
 que a harmonia possa ser feita, mas é o resultado da ação ou do pen-
 samento. Consequentemente, você e ____, sendo pessoas que cum-
 prem seus deveres, devem basear-se nisso sem focar nos resultados.
 Se vocês agirem corretamente, sem pensar se isto trará harmonia ou
 não, a harmonia virá se suas ações forem harmoniosas. Essa atitude
 evitará estresses, pois muitas vezes estamos nervosos com uma coisa
 por estarmos pensando nos resultados. Contudo, se você fizer o seu
 melhor e a harmonia não resultar disso, não será por sua culpa; conse-
 quentemente, você não deve pensar nisto; quanto menos você pensar
 sobre isso, mais cedo virá a harmonia.

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 A Sociedade parece ser completamente diferente de todas as
 outras organizações neste ponto: nas outras, muito dinheiro é forne-
 cido pelos membros — clubes e igrejas podem levantar grandes so-
 mas de dinheiro, pois oferecem credos definidos. Suponho que a na-
 tureza humana exibe sua verdadeira face diante de nós na Sociedade,

 onde não oferecemos nada do tipo, mas demandamos um trabalho
 realmente altruísta.

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 E agora, quanto à loja. Um tumulto de membros não é bom
 para ela, a menos que os que estejam nela sejam capazes de lidar
 com isso. Portanto, é de grande importância que a loja se eduque e
 se fortaleça, ou ela crescerá demasiado rápido, como uma criança, e
 se enfraquecerá, retrocedendo. Se, por outro lado, um grande número
 de seus membros se tornar, cada um deles, um centro e uma força
 por ter um bom conhecimento sobre o assunto, então você verá a loja
 continuar com energia e força indubitáveis. Se vocês fizerem palestra
 após palestra e simplesmente tiverem novos membros, sem nenhum
 desenvolvimento dos antigos membros, sua loja morrerá no momen-
 to em que o suprimento de palestras for cortado. Tente e repasse isso
 sempre que algum dos membros esteja disposto a ouvir.
 Lamento saber que você não está reconciliado com a partida
 de seu filho deste plano físico. É difícil nos separarmos daqueles que
 amamos, mas a morte é apenas uma separação nos planos inferio-
 res; não é uma “perda” nos planos superiores. Mas a verdadeira união
 nos planos internos, que é sempre existente, embora possamos estar
 inconscientes dela, não pode ser sentida conscientemente enquanto
 houver qualquer sentimento de “decepção”. Tente refletir interna-
 mente, com relação à sua atitude, qual seria o verdadeiro desejo de
 seu filho e qual é o seu próprio, ainda que você não o conheça. Tal
 desejo nos planos internos seria, e é, que você não deva se entristecer
 ou se lamentar, mas “se regozijar” — sim, se regozijar na posição em

 que você está agora, porque nela está sua grande oportunidade, pois
 a Lei e a Natureza sempre proporcionam a maior oportunidade e
 concedem a nós as maiores bênçãos que somos capazes de receber.
 Do ponto de vista da alma, é tudo o que nós mesmos (as “almas”)
 devemos ter.

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 Se você encontrar atrito entre você e um outro, ou outros, nun-
 ca pare para pensar onde eles estão errados. Todo mundo está sempre
 errado em algum ponto; e, além disso, seria bem fácil encontrar os
 erros deles em sua própria imaginação. Os erros deles, reais ou ima-
 ginários, não lhe dizem respeito, não são o seu dever, e não precisam
 nem devem ser considerados por você. Para você, isso seria fazer uma
 “pausa” oculta. O que lhe diz respeito e é o seu dever, é descobrir onde
 está a sua falha. Se, ao perceber um atrito de qualquer tipo, você olhar
 para trás e examinar seus pensamentos, palavras e ações passadas, cer-
 tamente descobrirá que errou, seja direta ou indiretamente, deixando
 algo incompleto ou não dito. Vivendo dessa forma, você aprenderá
 muito sobre si mesmo, ao passo que, procurando os possíveis erros do
 outros — independentemente do quão profundo eles tenham pecado
 na sua opinião —, você não aprenderá nada, e simplesmente se mos-
 trará um estúpido.
 Dificuldades e atritos acompanham a existência, e se tudo fosse
 tranquilo e correto o tempo todo, não teríamos nada para fazer. Nos-
 so movimento é de reforma, lidando com o próprio caráter da raça e,
 portanto, nem nós nem os outros membros da raça somos perfeitos.
 Você já refletiu sobre a questão: “O que você faria se todos os nossos

 ideais para o homem fossem realizados, se o altruísmo fosse uni-
 versal?” Teríamos que emigrar para algum planeta pior, para termos
 espaço para os nossos sentimentos. Por isso, devemos aceitar todas as
 dificuldades como parte do trabalho do dia a dia, tentando conseguir
 que o maior número possível de pessoas harmonizadas, inclusive nós
 mesmos, para ajudar o máximo possível.

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 Não pense que você não está fazendo nada pela Causa que tanto
 lhe é cara, pois de fato o mais verdadeiro trabalho é feito nos planos
 internos, e sem ele não poderia haver qualquer trabalho nos planos
 externos. Então, lembre-se de que você pode trabalhar e está fazendo
 um trabalho real pela Causa sendo forte no coração, na confiança e na
 devoção. Dessa maneira, você ajuda a manter forte o centro de todo o
 movimento, e outros que estejam trabalhando no plano externo serão
 ajudados a fazer seu trabalho, pois o centro está fortalecido, e eles
 próprios recebem auxílio. Isto é o que você pode fazer, e você deve
 pensar nisso continuamente.
 Devemos agora ser como os maçons, que são todos, em to-
 das as partes do mundo, maçons. No entanto, cada Grande Loja é
 independente, autônoma. Essa é a maneira de ver isso. Nos EUA,
 existem cerca de quarenta Estados independentes; em todos eles há
 uma Grande Loja Maçônica, cada uma autônoma; apesar disso, todo
 membro é um maçom e pode visitar qualquer Loja se seguir as regras.
 Era certo que a autonomia foi acordada como método. Ha-
 veria muita inabilidade e atrito em fazer parte da S.T. Americana.
 Todo grande território, como um indivíduo, está sobre sua própria

 base, enquanto todos estão unidos pelo mesmo objetivo. (...) Depois
 que tudo estiver organizado, é de se esperar que você consiga alcan-
 çar muito mais mentes do que antes. Nossos melhores esforços terão
 bons resultados se tivermos em mente que devemos trabalhar para
 apresentar as verdades da Teosofia ao maior número de pessoas, e
 não que busquemos cargos ou honras. Parabenizo a todos, e desejo o
 melhor.
 Estou com sua carta e a respondo o melhor que posso. Em pri-
 meiro lugar, não sou nem sábio nem bom o suficiente para ser o guia
 de alguém, mas estou disposto a ajudar a todos que puder da melhor
 maneira possível, sempre tendo em mente que estamos em pé de
 igualdade. Tanta coisa, então, para começar.
 Fico feliz que você tenha um desejo tão sincero de ajudar na
 causa da S.T., e de tentar espalhar a verdade como você a entende.
 Essa atitude, se persistida, levará ao final correto, que é o único que
 você precisa assumir; e se você ouvir a voz de sua própria alma, ela o
 guiará corretamente e melhor do que eu poderia.
 Agora você está no fluxo de uma nova coisa. Esse fluxo dimi-
 nuirá até certo ponto, para ser sucedido por um conhecimento mais
 profundo e, portanto, por uma força maior. Então, tudo o que você
 precisa é continuar fazendo tudo o que pode pelos outros e, ao mes-
 mo tempo, manter o processo de purificar a mente das antigas noções
 e de obter novas ideias bem fixadas, fundamentadas e organizadas.
 Então, você estará a cada dia mais capacitado para ajudar a todos
 com quem você interagir. Mas eu não o aconselharia a usar sua força
 para curar pessoas enfermas, exceto de vez em quando, porque cada
 um tem apenas uma determinada quantidade de força, que uma vez
 gasta, estará esgotada. Os Mestres têm mais força do que você ou

 eu, mas Eles não estão curando doenças, e sim trabalhando o tempo
 todo nas almas dos homens e em suas mentes. Pois as trevas profun-
 das da alma e da mente da raça são mais importantes do que seus
 tormentos exteriores, já que estes últimos logo serão extintos com a
 morte. Portanto, não é justificável que usemos toda a nossa força para
 ajudar os poucos que uma pessoa pode alcançar em uma vida. Use sua
 força dessa maneira, e você morrerá tendo auxiliado apenas a poucos
 fisicamente; mas, utilize sua força nas almas e mentes dos homens,
 e você curará a muitos, por muitas vidas futuras, mesmo nesta curta
 vida atual.
 Mais tarde, chegará a hora de você olhar para outras esferas
 mais elevadas da Teosofia. No momento, seu teste e sua provação
 consistem no grande entusiasmo que você tem, mesmo com pouca
 expressão. Declarar isso fará bem a você; mas, usando todas as opor-
 tunidades para os outros, nas suas circunstâncias atuais, você aprovei-
 tará tudo o que a Natureza oferece e, mais tarde, ela lhe oferecerá mais
 e melhores chances se você estiver qualificado — e não o contrário.
 Em relação ao Movimento, você pode ter certeza de que será
 cuidado se os membros fizerem sua parte. HPB estabeleceu as linhas
 de trabalho, e se as seguimos podemos seguramente deixar os resul-
 tados nas mãos do Mestre e da Lei do Karma.
 Usarei a história da conversa de sua menininha no “The Path”,
 sem revelar nomes ou lugares para não envolver você.71 Será útil e
 interessante para os leitores. É muito instrutiva, e mais parecido com
 o que seria se as pessoas não reprimissem as crianças. No passado,

 71 Essa correspondência está publicada no “The Path” de março de 1894. (Nota da
 edição original em inglês.)

 publiquei na “The Path” um número considerável de histórias pare-
 cidas.
 Quanto à criança, é verdade que, obviamente, não somos per-
 feitos, mas, embora não o sejamos, não é verdade que não podemos
 proporcionar às crianças um ensino o mais próximo possível da per-
 feição; elas podem ser mais perfeitas e fazer o melhor uso dele se
 o proporcionarmos a elas. Por isso, eu diria a ela tudo sobre reen-
 carnação, e não cometeria o erro de deixá-la explicar uma verdade
 invalidando-a, como ela fez por uma mera resposta mecânica e men-
 tal — como se ela dissesse que era uma imagem na mente. Por que
 não afirmar: “Ora, é um fato, você já viveu antes, e muitas vezes, e é
 provável que tenha visto com sua memória real a imagem de outra
 mãe, que pode ter sido eu mesma quando morei com você.” Então
 diga a ela a simples verdade da alma e sua unidade, e da grande Alma
 de todos e da imortalidade real que existe agora, e não depois, que a
 eternidade é agora, e também sobre o Karma. Talvez ela entenda me-
 lhor do que você, pois a mente dela não está cheia de tolices. Quantas
 dificuldades seriam evitadas às crianças se elas não fossem deixadas
 para lutar a batalha que tivemos; e não é seu dever salvá-la de uma
 batalha tão longa para superar a má educação? O que você acha bom
 para sua própria mente madura não deve ser omitido de sua filha; ela
 pode entender muito bem e não esquecerá.
 Devo aconselhá-lo a não falar muito com sua filha sobre as
 vidas passadas dela. Deixe que esse fato seja uma coisa tacitamente
 compreendida. Ensine a ela tudo o que você quiser sobre leis, ética e
 dever, e tudo o mais, mas você fará bem em evitar entrar em detalhes
 sobre eventos passados. Com o tempo, vivendo em uma atmosfera
 onde a real verdade das coisas é ensinada e acreditada, a alma dela se

 expandirá e ela mesma saberá quando falar desses eventos anteriores
 e quando não falar.
 Quando você se sentir sozinho, lembre-se de que nos planos
 superiores nunca estamos sozinhos, e que aqueles que se esforçam
 para seguir o reto caminho estão unidos por laços de simpatia e de
 verdadeira fraternidade, e lembre-se também de que o trabalho mais
 grandioso não é realizado nos planos físicos, mas sim no plano do
 pensamento. Aqui está algo, então, para você fazer: ter pensamentos
 fortes e de auxílio a todos os membros da S.T. e a seus amigos, e
 então para toda a humanidade. Quando um brilhante pensamento
 de auxílio entrar em sua própria vida, ele pode ter sido enviado por
 alguém que está tentando aliviar a carga do sofrimento do mundo,
 e todos os amorosos pensamentos de auxílio que você puder enviar
 ajudarão a aliviar a tristeza de alguém e levarão um raio de esperança
 à vida de alguém. Cada pensamento é uma semente, e dará frutos no
 devido tempo.
 Envolvendo a palavra “espiritualismo” em sua carta existe uma
 influência negativa que é exercida contra você. Meu conselho a você é
 manter essa influência o mais distante possível, tentar trabalhar para
 os outros e confiar no seu Ser superior.
 Fico feliz em saber sobre seu trabalho em F___, e acredito que
 você será capaz de reunir um forte Centro; lembre-se, no entanto, de
 que você mesmo pode ser e é um centro, na medida em que faz da
 Teosofia uma força vívida em sua vida.
 A relação sexual é algo correto e apropriado quando usada para
 seu propósito, conforme pretendido pela Natureza, ou seja, a propa-
 gação de crianças. Mas se permitida simplesmente por gratificação

 pessoal e sensual, assemelha-se a qualquer outra paixão, e com relação
 a isso você pode decidir por si mesmo.
 Os argumentos a favor e contra com referência a este ponto
 não o ajudarão muito. É melhor tirá-los de sua mente, e contar com
 a liderança do espírito e com a voz da consciência.
 Esforce-se para fazer o que é certo do ponto de vista de sua
 consciência interna, e você será conduzido no caminho certo.
 Ao invés de incomodado, estou feliz em receber sua carta, pois
 ela mostra que você vê. No meu caso, é uma experiência de vinte anos
 saber o que você vê e não ser capaz de destruir a máscara nascida com
 outro, e que agora é minha. Mas tem sido útil. Se eu soubesse como
 destruí-la, talvez fosse melhor, talvez não — isso poderia significar a
 morte.
 Se você olhar para essa mão, verá a morte mostrada quinze anos
 atrás, e agora — ela ainda vive. Esforço exagerado pode matá-la agora
 — não sei. Mas tanta reflexão, como você faz, pode ter um efeito a
 longo prazo inconscientemente, por assim dizer. A coisa toda vem do
 fato peculiar de uma pessoa morar em uma casa que ela não construiu
 e ter dois astrais em atividade.
 Não, seus amigos não o esqueceram e não o esquecerão, mas
 lembre-se de que o maior e mais verdadeiro amigo é o seu próprio
 Ser superior. Aquele que tem o Ser superior como amigo possui todas
 as coisas e de nada carece; e para que o Ser superior seja seu amigo,
 basta que você aceite essa amizade.
 Tenha coragem e seja paciente; a luz está brilhando em seu
 coração e, se você apenas continuar, você a encontrará lá; e ela será
 muito mais brilhante do que você pode imaginar agora.

 É verdade que muitas vezes, quando começamos a meditar
 sobre algum pensamento elevado, surgem pensamentos sombrios, e
 isso não é fácil de superar; mas se nos lembrarmos de que a própria
 essência do nosso ser, o santuário mais íntimo da Alma, é divino,
 podemos entrar nele e excluir o mal. A tendência da mente é vagar
 de assunto em assunto, por isso devemos tentar seguir os conselhos
 do ­Bhagavad-Gītā: “Para qualquer que seja o objeto a que a mente
 inconstante se desvie, deve-se subjugá-la, trazê-la de volta e fixá-la
 no Espírito.”; “Não há purificador neste mundo que se compare ao
 conhecimento espiritual, e aquele que é aperfeiçoado em devoção
 descobre o conhecimento espiritual brotando espontaneamente nele
 próprio no decorrer do tempo.”
 Embora tão longe, ainda assim, por meio de ____ fico sabendo
 alguma coisa a respeito de tudo o que você e seus colaboradores estão
 fazendo. Isso me interessa muito, pois deve ser de grande efeito e
 valor tanto agora quanto nos dias posteriores. Pelo que entendi, seu
 trabalho é com aqueles que são chamados de “pessoas comuns” na
 Inglaterra. Neste país, somos todos pessoas comuns, portanto esse
 trabalho específico é quase impossível aqui. Assim, é muito interes-
 sante, porque das (assim chamadas) melhores classes, nenhuma gran-
 de melhoria virá. Se você puder transformar essas “pessoas comuns”,
 terá feito um grande trabalho para o mundo. As classes cultas não
 nos dão nenhuma esperança em relação à Teosofia — são pessoas por
 demais egoístas e superficiais.
 Tenho certeza de que você não tem essa opinião errônea de que
 a Teosofia só pode ser entendida por pessoas com alto nível de educa-
 ção. Qualquer homem pode entendê-la e torná-la parte de sua vida.
 De fato, acredito que suas verdades essenciais são mais facilmente

 compreendidas por pessoas humildes do que pelos refinados. Pois
 muita educação e um punhado de noções diferentes nas cabeças dos
 mais educados tornam difícil para eles chegarem a qualquer conclu-
 são em tais assuntos.
 Eu acredito que você continuará resolutamente. Não fique de-
 primido por nada. Isso não tem qualquer proveito. Além disso, isso
 pode ser evitado se você deixar de estabelecer certos resultados a se-
 rem alcançados com relação a pessoas, números, tempos ou outros.
 Devemos estar satisfeitos com o que o tempo e o Karma nos dão
 depois de termos realizado nosso dever e o nosso melhor.
 Simplifiquemos nossos ensinamentos, evitando palavras longas
 e estranhas. “Mérito” e “demérito” exprimem parte do Karma, e são
 palavras bem conhecidas pelos católicos. E assim por diante, em to-
 das as direções, devemos tentar evitar todo pedantismo e a criação de
 uma nova linguagem.
 Não julguemos demais os outros, pois eles também podem
 estar agindo da melhor maneira possível. Além disso, o Karma sem-
 pre atua, e a S.T. deve senti-lo ainda mais do que os outros corpos.
 O efeito do alvoroço — pois é apenas isso — deve ocorrer para o
 melhor, pois, se aniquilar a S.T., isso prova que é uma morte mere-
 cida; se não o fizer, a S.T. estará mais forte do que nunca. A última
 possibilidade é o que vejo como o objetivo ideal, por mais distante
 que esteja.
 Nosso dever, nestes dias de provação e transição, é nos engajar-
 mos na propaganda, de modo a colocar a Teosofia diante do maior
 número possível da raça. Para fazermos isso, o melhor é a mais sim-
 ples apresentação da Teosofia, e de bom senso, livre de imprecisões e
 palavras complexas.

 O melhor que posso dizer-lhe é que, como você sabe, todos
 os nossos problemas na vida surgem de nós mesmos, não importa
 o quanto pareçam vir de fora; somos todos partes do único grande
 todo, e se você tentar centrar sua mente neste fato, e se lembrar de
 que as coisas que parecem incomodá-lo são realmente devidas à sua
 própria maneira de ver o mundo e a vida, você provavelmente desen-
 volverá mais contentamento na mente. É a sua própria mente que
 você deve observar, e não as circunstâncias nas quais você está colo-
 cado. Outros estiveram em circunstâncias piores do que você pensa
 estar agora, e não foram perturbados como você parece estar. Deve,
 portanto, tratar-se da maneira como você mesmo olha para essas coi-
 sas; pare, então, de olhar para elas desse jeito e olhe para tudo com
 um espírito contente, sentindo-se seguro de que elas são todas mais
 ou menos ilusórias, e você fará melhor.
 Um instrutor, e esse é o seu status atual, não importa como ou
 por que, deve ter modos amáveis não apenas externamente, mas tam-
 bém um sentimento puramente amável e doce internamente; pois se
 o interior não coincide, de fato, com o exterior, então há problema.
 Quando o exterior é amável, mas o interior é falso, então é uma casca
 oca e todo o bom magnetismo é cortado. Quando o exterior é rude,
 mas o interior deseja estar na retidão, há sinceridade; então o magne-
 tismo não é cortado, mas frequentemente se ergue uma corrente de
 oposição que engendra erros e equívocos, criando um grande obstá-
 culo, embora surjam muitos amigos que a ignorem.
 Mas isso não será deixado assim. A atitude interna deve ser
 tornada inteiramente suave, e a externa logo será correspondente. A
 certeza da convicção não é transmitida muito bem pela força, mas
 pelo grande movimento silencioso da geleira — é o melhor exemplo

 disso. Ao movimento silencioso da geleira, acrescente o fogo cons-
 tante do benigno Sol, e nada poderá resistir. Este é o caminho e, se
 for compreendido, haverá mais e melhor trabalho sendo realizado e
 mais ajuda prestada.

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 Quando paramos para pensar, refletir e considerar o que é nos-
 so dever, ou qual dos muitos deveres deve ser executado primeiro, é
 realmente desconcertante e difícil saber o que fazer. Mas se você fizer
 exatamente o que está diante de você, sem pensar em todas as outras
 coisas e sem perturbar sua mente com todas as coisas que você não
 consegue fazer, então tudo será diferente e ficará mais vívido para
 você. Faça o que você tem que fazer agora, e não se preocupe com ou-
 tras coisas, elas serão cuidadas no devido tempo; mas o que o ajudará
 em todas essas questões é estar contente, fazer o que puder e deixar o
 resto seguir seu rumo; aja com uma motivação elevada; tenha senti-
 mentos bondosos para com todos; faça um pequeno ato de bondade
 todos os dias, e tente perceber que o fim de tudo isso será felicidade
 e paz para toda a humanidade. Então, uma amostra dessa paz entrará
 em seu próprio coração. A vida tem um lado brilhante, e o que pro-
 duz o brilho é o amor que cada um de nós pode ter pela humanidade.

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 De modo geral, o hábito de ingerir bebidas tóxicas se deve ao
 desejo de se livrar do que pode ser chamado de consciência pessoal
 presente. Quando as pessoas bebem para tentar afogar a tristeza,
 a dor, a preocupação, elas claramente o fazem com essa motivação

 em vista. Mas outros bebem sem esse motivo ostensivo, embora
 ainda com a mesma motivação real, pois anseiam por se livrar do
 que é para eles um intolerável senso de identidade, de monotonia,
 da mesmice. É um esforço produzir, por meio de ajuda extrínseca,
 o que só pode ser feito de maneira adequada e duradoura pelo de-
 senvolvimento interior. As pessoas leem romances sem valor, jogam
 e assim por diante com a mesma motivação, ou seja, com a inten-
 ção de se livrar de sua identidade pessoal no momento. No final
 das contas, a raça vai compreender que isso só pode ser alcançado
 pela identificação do ego com a natureza superior, em vez da infe-
 rior. Enquanto isso, para a pessoa comum, uma ocupação saudável
 e interessante é o melhor remédio para esse hábito. Se possível, ela
 deve ser conduzida à compreensão de que o desejo de beber é um
 hábito de certas vidas no corpo dela, e a própria existência dessas
 vidas depende de serem alimentadas com álcool. O desejo não está
 na própria pessoa, a menos que seja tola o suficiente para se iden-
 tificar com o desejo. Assim que ela deixar de se identificar, o desejo
 perderá mais da metade de seu poder sobre ela.

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 D A R E V I S TA “ T H E I R I S H

 THEOSOPHIST”

 O Sr. Judge, durante alguns comentários no encerramento da
 reunião, explicou o método de estudo adotado na América.

 Cada loja, disse ele, formou-se em seções com o propósito de
 estudar um determinado assunto, como, por exemplo, o Bhagavad-
 -Gītā. Quando o estudo era concluído, as seções comparavam notas e
 produziam, posteriormente, uma declaração geral de decisões com as
 quais todos poderiam concordar. Sem um sistema como esse, o Mo-
 vimento não poderia ter solidariedade. Além do mais, era o sistema
 adotado por grupos de chelas sob a supervisão direta dos Mestres.
 Quando ele ouviu falar pela primeira vez da loja de Dublin, ele
 sentiu “ressoar” em seus ouvidos. Quando se ouvia falar de algumas
 lojas (e ele ficava feliz em pensar que elas eram algumas), o som pa-
 recia cair de forma embotada. Nesse caso, ele sentiu que era real. Ele
 esperava que ela se tornasse uma potência viva na Irlanda. Ele não
 conhecia nenhuma raça europeia que fosse mais naturalmente afeita
 ao Ocultismo, especialmente os irlandeses ocidentais.
 Em conclusão, ele disse que aconselharia a loja a aspirar aos
 princípios dos Mestres.
 Fevereiro de 1895.

 Eu afirmo, meu amigo, lembre-se desse título: A causa da sublime
 perfeição. Esse é o nome da Teosofia. Em oposição à ideia de pecami-
 nosidade inerente, ele pode operar uma mudança. Use o título de vez
 em quando. Eu também farei isso. Esses três pontos devem ser bem di-
 fundidos no exterior: (a) A perfectibilidade da humanidade; (b) A causa
 da sublime perfeição; (c) Os Mestres são fatos vivos, e não abstrações
 frias. Eles pulverizam o terrível erro do pecado inerente; Eles, acima de
 qualquer coisa, despertam uma esperança em cada homem, iluminam o
 céu do futuro. Trabalhamos para o futuro — oh, o futuro glorioso!
 Fevereiro de 1897.

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 D A R E V I S TA “ T H E P A C I F I C

 THEOSOPHIST”

 (A experiência demonstra que a Teosofia pode ser apresentada de
 forma mais aceitável às classes trabalhadoras. Karma e reencarnação po-
 dem ser especialmente explicados como fortalecedores da Fraternidade.
 Às pessoas que desejem estudar e trabalhar nessa linha devem ser refe-
 renciadas aos capítulos VI e VII do livro A Chave para a Teosofia, para
 dicas práticas. Também no capítulo XI da mesma obra são encontrados
 valiosos pontos para serem apresentados em tais reuniões. Não é requeri-
 da qualquer política de preparação. A Teosofia simples e direta — Karma
 e reencarnação — é o necessário. Estas Leis, e apenas elas, atendem às
 necessidades e resolvem os problemas dos trabalhadores. Estes são al-
 guns extratos de cartas de William Q. Judge, a esse respeito:)72
 Esforce-se para conseguir uma visão clara, compreensiva e de
 bom senso sobre a Teosofia, expresse ao mundo apenas essa visão, e
 o mundo apreciará. Nunca considere a si mesmo como um ator, mas
 pense no verdadeiro Ser.
 Nunca considere que você fez melhor do que outra pessoa; es-
 force-se sempre para melhorar.
 Não se eleve a níveis absurdos, onde ninguém poderá acompa-
 nhá-lo, e onde você mesmo não estará em casa.

 72 Acréscimo pela edição original em inglês. (N.E.)

 Karma, reencarnação e a constituição setenária do homem são as
 doutrinas importantes, e podem ser apresentadas de todas as formas.
 Dê o seu melhor e você terá todas as oportunidades que puder
 manejar e todas as experiências de que necessita.
 Outubro de 1895.

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 D A R E V I S TA “ T H E

 I N T E R N AT I O N A L I S T ”

 É essencial que você encontre a si mesmo. E é melhor você fazer
 algo concretamente prático para alguma pessoa necessitada do que
 buscar “pensamentos ideais”, pairando nas nuvens e em outras coisas
 inúteis. Não inveje a ninguém. Você está expressando inveja a ____.
 Eles precisam de ajuda tanto quanto você. As condições e as capacida-
 des deles são diferentes das suas; é melhor que você descubra e avalie
 as suas próprias. Como você diz, seu cérebro hesita, então dê a ele um
 longo descanso e faça simples e constantes ações de gentileza pelos
 outros. (...) Há muitos membros que aspiram muito precipitadamente
 a se tornarem grandes escritores, oradores, líderes. (...) A tartaruga
 ganhou a corrida, e não a lebre. A parte puramente prática do Movi-
 mento precisa de trabalhadores. Já existem sonhadores demais.
 Outubro de 1897.

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 DE “THE SCREEN OF TIME”

 Certa vez, um vidente previu. O escritor o conhecia apenas
 através de cartas, embora ele seja famoso. Ele estava em Paris. Ao sair
 dos Jardins de Luxemburgo por estreitas ruas que pareciam ser igual-
 mente atrativas para padres, restaurantes e funerárias — embora pro-
 vavelmente ele estivesse escondendo, sob esse seguro disfarce, uma
 vida interna de ordem distinta e mais elevada —, seguiu em direção
 ao Quai, exatamente do lado oposto do Tulherias73. Apoiado no pa-
 rapeito, contemplando as águas turvas do Sena, seus pensamentos
 não estavam de forma alguma atraídos pelas milhas de prateleiras de
 livros de segunda mão que se estendiam ao longo do lado sul do rio.
 Volumes em todas as línguas e sobre os mais variados assuntos (uma
 Chave desgastada no meio deles), raros e curiosos, baratos e asque-
 rosos, nada disso ocupava sua mente, a não ser a tragédia do Império
 caído74, que havia feito sua última aposta a quase duzentos metros
 de onde ele se encontrava. Paris, uma vez considerada o templo do
 prazer e ainda o ponto de encontro dos buscadores do prazer, estava
 toda caracterizada para o feriado. Risadas pairavam no ar — mas que
 importa o ambiente a um homem cuja mente esteja ocupada com

 73 Referência à via que segue o curso do Rio Sena, ficando o Jardim das Tulherias,
 na Praça da Concórdia, às margens dele. (N.E.)
 74 Provável referência ao Segundo Império francês implantado em 1852 por Napo-
 leão III, chegando ao fim em 1870, com a derrota na Batalha de Sedan durante a
 Guerra Franco-Prussiana. (N.E.)

 pensamentos que valham a pena pensar? Nada. Verdadeiramente, é
 a mente que faz o ambiente, e Archimedes não foi o primeiro nem
 será o último pensador que permaneceu fiel ao pensamento durante
 o saqueio da própria cidade.

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 (Esta parte final de um artigo por “Julius” (“Path” de agosto de
 1895) evidentemente apresenta uma experiência do Sr. Judge.)75

 Meu amigo logo encontrou o verdadeiro significado desse fre-
 quente ditado. Ele tem investigado a história de uma vida, a vida de
 um amigo, estudando-a não grosseiramente, mas sim em relação aos
 princípios universais e com simpatia fraternal. Ele acompanhou o
 registro de eventos até chegar ao presente. Olhando a margem opos-
 ta do rio, contemplando sem vislumbrar o que uma vez foi o palácio
 de um César ouropel, subitamente lhe apareceu uma grisalha figura,
 curvada e meditativa. Então ficou mais claro e ele percebeu que a
 cabeça da figura estava arqueada em direção a algum objeto que se-
 gurava na mão. Parecia que todo o seu ser — mente, coração e alma
 desse silencioso espectro — estava unicamente concentrado naquele
 objeto. Meu amigo olhou mais de perto para descobrir o que era
 aquilo: era apenas uma minhoca, uma pobre minhoca, transpassada
 em um alfinete, se contorcendo em agonia. Um sentimento de repul-
 sa pela crueldade daquela cena o consumiu, e ele se virou para repro-
 var o torturador, que não havia notado a presença dele, pois só tinha

 75 Acréscimo pela edição original em inglês. (N.E.)

 olhos para o sofrimento da minhoca capturada, olhando-a com uma
 interessada piedade e mesmo com satisfação. “Por que não a liberta?”,
 disse meu amigo, mas quando a figura se virou para responder ele
 recuou em profundo terror. A figura era a pessoa cuja história de vida
 ele estava investigando, e a minhoca, que agora ele conseguia ver, ti-
 nha uma aparência similar — a imagem da mente se regozijando com
 seus próprios sofrimentos autoinfligidos.
 Em seguida, tudo desapareceu. Uma companhia da infantaria
 francesa passou por ele com um clarim estridente, de forma que po-
 dia ser ouvido a quilômetros de distância. Ressoou por lugares muito
 distantes. A imagem ainda o dominava. Que piedade daquilo! Pois era
 verdade; era o símbolo daquela vida. A veneração da dor; uma forma
 distorcida do egoísmo que ansiava por uma coroa de mártir, mas que
 acolheria o martírio por seu próprio benefício, mesmo sem a coroa.
 Um egoísmo que em sua forma mais grosseira seria apenas hipocrisia e
 presunção. Uma paixão pela dor, fazendo parecer que infringir dor em
 outros seria conferir um benefício, e não um mal. Como eles poderiam
 evoluir sem dor? Vejam como eu me fortaleci com a dor! Uma doença,
 meus irmãos, uma doença da mente. “Não pense naquele osso fratura-
 do, naquela carne e músculos dilacerados, une-te a teu ‘Ser silencioso’.”
 E lembre-se de que “esses vícios do homem comum passam por trans-
 formações sutis e reaparecem com aspectos diferentes no coração do
 discípulo”. O São Domingos de ontem76 pode muito bem continuar a

 76 Referência a São Domingos de Gusmão, enviado pelo Papa Inocêncio III no
 século XIII para o sul da França, para combater o catarismo, doutrina na qual
 as almas deveriam se purificar através de sucessivas reencarnações até atingir um
 grau de autoconhecimento que as levaria à visão da Divindade. Essa doutrina foi
 considerada heresia pela Igreja. (N.E.)

 tentar purificar as almas dos outros e a própria pela dor que ele acha
 certo infringir, embora agora ele provavelmente use alguma forma de
 tortura mental. Os Simeões Estilitas77 de uma só vida podem passar da
 tortura do próprio corpo, para “a maior glória de Deus”, para a tortura
 de sua mente, com o mesmo motivo. Talvez agora eles chorem, assim
 como antes, mas de forma diferente:
 Ó, meus filhos, meus filhos... Mortifiquem sua carne, como eu,
 com flagelos e com espinhos; castiguem-se, não se acanhem, não se
 poupem.

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 Ó Jesus, se tu não queres salvar minha alma,
 Quem pode ser salvo? A quem salvarás?
 Quem pode ser feito santo, se eu falhar aqui?
 Mostra-me o homem que sofreu mais do que eu.

 Mas isso não é Teosofia; nem Ocultismo. Está bem longe de
 ambos. Mais uma vez percebemos que o crescimento não depende
 de quantidade de dor ou de prazer que são experimentadas, mas de
 nossa atitude mental em relação a tudo que possa nos encontrar na
 jornada da vida. “Não é o que é feito que conta, mas o espírito com o
 qual fazemos a menor coisa.”
 Julius

 77 Simeão ganhou o apelido de Estilita — do grego stylos, “coluna” — por ter se
 penitenciado, no século V, permanecendo por 36 anos no topo de uma coluna de
 pedra. (N.E.)

 D E C A R TA S M A N U S C R I TA S

 Nova Iorque, 25 de julho de 1893.

 Querido irmão,
 Tenho pouco tempo para respondê-lo, pois minha recente via-
 gem a Londres fez os compromissos crescerem, e o Congresso da
 S.T., em Chicago, aumentou ainda mais à carga.
 Eu pedi a ____ que escrevesse para você sobre a Escola de Do-
 mingo, como a organizamos aqui, e ele o fez. Essa Escola pode ser
 feita em qualquer lugar, por membros sinceros, se eles quiserem ten-
 tar. É um sucesso aqui. Espero que seja o mesmo com vocês.
 Em relação ao outro assunto, deixe-me contar o que tem me
 guiado por toda a minha vida e talvez possa guiá-lo também. Quan-
 do surge em minha cabeça uma ideia de trabalho para a S.T., eu vou
 atrás de colocá-la em prática mesmo que eu não consiga ver muito
 bem como; a ajuda e a direção certa sempre vêm a mim, pois te-
 nho uma suprema fé que a grande Loja cuidará de tudo isso, mesmo
 que nós não recebamos mensagens da Loja. Então, se você tem uma
 ideia para uma reunião regular e sistemática, vá em frente, sua fé e
 sua sinceridade o levarão adiante. Mas faça-a inteiramente teosófica;
 quer dizer, não sectária. Isso vai possibilitá-lo expor aquilo que você
 acredita ser o certo, se você sempre disser e deixar continuamente
 entendido que ninguém é forçado a acreditar.
 E que se torne uma grande S.T., se assim desejar, com sua
 crença em uma fraternidade universal; e se alguns contestarem que
 ela seja uma parte real da S.T., então deixe que a parte formal da

 loja seja para aqueles que estão abertos a isso — os outros se bene-
 ficiarão pela participação. Não há nada que impeça que haja mú-
 sica em tais reuniões, se o quiserem. O que é preciso é que alguém
 com mente clara e punho firme esteja no comando, para garantir
 que nenhum credo seja permitido. Poderá ser um sucesso. Eu sei
 de muitos que gostarão de participar de reuniões como essa e que
 apreciarão um pouco de música. Contudo, nesse caso eu iria (a)
 eliminar todas as referências a Jesus e à religião nos cânticos; ou (b)
 inserir referências a todas as religiões, fazendo com que todas sejam
 igualmente proeminentes.
 Talvez essa sua ideia seja o começo de um grande e novo su-
 cesso, pois, na verdade, enquanto muitos ministros se apropriam e
 pregam nossas ideias sem dar o devido crédito, ninguém é ousado o
 bastante para dizer “eu sou um teósofo e prego isso, mas não o obrigo
 a acreditar”. Se você fizer isso, poderá ganhar respeito e, ao mesmo
 tempo, provavelmente ganhe uma grande audiência. Eu tenho me
 perguntado por que não fazem isso, mas percebo que a vaidade, a
 personalidade e o medo os impediram. Se você o fizesse, seria o pri-
 meiro esforço do tipo e, ao mesmo tempo, poderia ser realizado em
 completa simpatia com a S.T. e sua administração.

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 (As cartas a seguir, todas (exceto a última) para a mesma pessoa,
 estão nos arquivos da United Lodge of Theosophists.)78

 78 Acréscimo pela edição original em inglês. (N.E.)

 Conte-me o que pensa sobre tudo isso, e que você tenha sorte,
 e também confiança, esperança e uma boa inspiração.
 Meus sinceros cumprimentos,
 William Q. Judge

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 Nova Iorque, 8 de novembro de 1893.

 Querido irmão ____,
 Em agosto escrevi-lhe uma longa carta em resposta à sua do dia
 13 de julho, incluindo o catecismo, e esperava uma resposta sua quanto
 a isso. Como imediatamente depois disso eu mergulhei no trabalho do
 Congresso de Chicago, que ainda não está totalmente concluído, te-
 nho estado ocupado demais para retomar o catecismo particularmente,
 e, como eu disse, estava esperando, mais propriamente, ouvir algo de
 você. Logo me esforçarei para conseguir tempo para examiná-lo no-
 vamente e o enviar a você. É extremamente difícil tratar desse assunto,
 já que na elaboração de um catecismo há uma tendência ao dogma-
 tismo, que é algo que devemos evitar. Mesmo que eu tenha minhas
 próprias crenças bem definidas, eu ainda hesito em apresentá-las de
 uma forma dogmática para o uso por outras pessoas, como um catecis-
 mo iria necessariamente envolver. Uma grande dificuldade que temos
 que enfrentar é que, embora as crianças sejam facilmente ensinadas e
 aprendam rapidamente, os adultos que se dedicam à Teosofia não a
 compreendem, pois possuem muitas noções antigas das quais se livrar.
 Meus sinceros cumprimentos,
 William Q. Judge

 Sei muito bem que aquele catecismo foi um erro. (Anotação
 feita a lápis, no final da carta, pelo destinatário.)79

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 Nova Iorque, 3 de maio de 1894.

 Querido irmão ____,
 Na volta de uma viagem de 13.000 km, tenho comigo sua carta
 de 23/03/94. Pois bem, então você está fora disso. Talvez seja uma
 boa coisa ter se livrado do íncubo de um culto em que você não acre-
 dita. Desejo todo sucesso a você. Fico feliz que você esteja motivado
 pelo início de sua própria nova empreitada.
 O assunto de ____ ainda está pendente, e como eu logo estarei
 a caminho de Londres para participar daquele bendito JudiciaI Com-
 mittee [Comitê Judicial]80, não posso fazer muito em relação a ele.

 79 Acréscimo pela edição original em inglês. (N.E.)
 80 Judge foi acusado de forjar cartas dos Mahātmās e processado pelo coronel Henry
 Olcott, por Annie Besant e mais alguns outros membros. O episódio ficou conhe-
 cido como “O Caso Judge” (1893-1895).
 Anos depois do ocorrido, que culminou com a criação de uma Sociedade Teo-
 sófica autônoma nos Estados Unidos em 1895, o coronel Olcott reviu o episódio
 sob uma nova ótica.
 Em Os Pioneiros do Movimento Teosófico, no capítulo referente a Henry S. Ol-
 cott (1832-1907), Laura Holloway, teósofa americana e amiga tanto de Olcott
 quanto de HPB, relata um diálogo entre ela e o coronel Olcott ocorrido em Nova
 Iorque em 1906, um ano antes da morte de Olcott e dez anos após a morte de
 Judge:
 “Subitamente me ocorreu falar dos outros companheiros capazes e fiéis que
 tinham trabalhado com HPB e com ele desde o início da Sociedade, e não resisti
 ao impulso de dizer a ele: (...)‘Você não lamenta por ele, aquele querido amigo

 O que seu clarividente viu sobre a Igreja é verdade, mas isso
 pode levar cerca de 100 anos, talvez. Agora, ela está cambaleando
 sobre seus próprios credos apodrecidos.
 Agradeço-lhes pelas notícias. Peço que me escreva novamen-
 te. E tenha paciência comigo, por minhas cartas curtas, pois estou
 completamente tomado pelo trabalho e pelo acúmulo de cartas a se-
 rem respondidas por todos os lados, junto com o trabalho da revista
 “Path”, que é feito com dois meses em antecedência — tudo isso para
 ser feito em três semanas.

 de tempos atrás? Ele está indelevelmente associado a vocês dois [Olcott e HPB]
 em minha mente.’
 “Daí, segurando minha mão na dele, ele olhou-me nos olhos antes de respon-
 der de uma maneira suave e impressionante: ‘Aprendemos muito e superamos
 muito, e eu vivi muito e aprendi mais, em especial com relação a Judge. (...) Agora
 sei, e vai confortá-la ouvir isso, eu prejudiquei Judge, não intencionalmente ou
 por malícia; todavia fiz isso e o lamento. (...) Oh, como somos tolos por passar
 momentos dessa breve vida em contendas, em acusações; eu gostaria de poder
 apagá-las — todas elas — completamente da minha mente.’”
 Nos livros The Theosophical Movement: 1875-1950 (The Cunningham Press,
 1951) e The Judge Case: Part I, de Ernest E. Pelletier (Edmonton Theosophical
 Society, Canadá), encontramos:
 “Nos anos de 1920, um respeitado membro da Sociedade de Adyar, um ho-
 mem que havia estudado cuidadosamente as alegações e evidências apresentadas
 por ambos os lados no Caso Judge, foi ver a Sra. Besant para entrevistá-la sobre
 o assunto.
 “O Sr. B.P. Wadia, de Bombaim, Índia, durante anos um membro e orador
 ativo da Sociedade em Adyar, forneceu ao editor deste volume uma declaração
 assinada, dando este relato de sua entrevista com a Sra. Besant.
 “No decorrer de uma séria conversa, a Sra. Besant admitiu aquilo que foi apre-
 sentado a ela — ou seja, que Judge era inocente das acusações contra ele — estava,
 no geral, correto, e ela disse que algum tempo antes ela chegara à conclusão de
 que Judge não tinha cometido nenhuma falsificação, e que as mensagens recebi-
 das por ele eram autênticas, embora ela discordasse de muitas coisas.
 “Ao ser solicitada a dizer apenas isso, ou até mais, ao público teosófico ao
 redor do mundo, a Sra. Besant objetou e observou que aquela era uma questão
 antiga e esquecida — ‘Por que revivê-la?’”

 Até logo e boa sorte,
 William Q. Judge

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 (Cincinnati)81 20 de maio de 1895.

 Querido irmão ____,
 Estou longe de casa por minha saúde, muito prejudicada pelo
 ódio dos outros. (...)
 Besant expôs o que parece ser sua última palavra, e eu li minha
 explicação sobre as acusações para os delegados em nossa Convenção
 — minha última palavra. Em breve será publicada.
 Eu gostaria que todos nós pudéssemos ignorar a Sra. B. de uma
 vez por todas. Ela agora vive de conflitos e bajulações. Mas mesmo se
 eu fosse culpado, que blasfêmia dizer que o Mestre se diminuiria tan-
 to, a ponto de mandar que ela me perseguisse pelo mundo tentando
 aniquilar minha pessoa. Tenho pena dela em sua próxima vida. Não
 serei eu quem irá incomodá-la, mas as centenas a quem ela insultou e
 humilhou com seus atos e palavras contra mim. Ao invés de um, ele
 terá então centenas de inimigos e obstáculos.
 Bom, meus melhores votos e até logo...
 Atenciosamente,
 William Q. Judge

 81 Acréscimo pela edição original em inglês. (N.E.)

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 3 de outubro de 1895.

 Querido irmão,
 (...) Quanto à organização da S.T. na Nova Zelândia e na Aus-
 trália, eu não posso expressar qualquer opinião. Vocês devem fazer o
 que vocês, enquanto um corpo, consideram o melhor a ser feito, e se
 as pessoas não trabalharem caso não haja um escritório, ora, deixe que
 o tenham — o que queremos é trabalho. Mas reflita cuidadosamente
 sobre o assunto, e consulte a opinião de todos, para que vocês façam
 o que o grupo considere melhor para o Movimento.
 Espero que você seja capaz de formar um centro forte.
 Meus fraternos cumprimentos,
 William Q. Judge

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 Nova Iorque, 18 de novembro de 1895.

 Querido irmão,
 Agradeço a você mais uma vez pelo seu gentil convite para
 que eu visite a Nova Zelândia e a Austrália, mas eu certamente
 não posso ir agora, pois minha saúde não permitiria a longa jorna-
 da, nem eu poderia, no presente momento e na atual situação em
 relação aos compromissos, me afastar tanto do centro do Trabalho
 na América. O assunto, portanto, precisa ser postergado indefini-
 damente, mas peço a você que, por favor, expresse minha gratidão e

 meus melhores votos a todos que se uniram a você nesse convite a
 mim, para visitá-los.
 Fico feliz em ouvir que “seus companheiros” participam das
 suas palestras teosóficas nos domingos — muitas sementes boas po-
 dem ser semeadas dessa maneira. Quanto às outras lojas e centros na
 Nova Zelândia, eles precisam de liberdade para seguir o curso que
 considerem correto. ____me escreveu dizendo que há membros, aqui
 e ali, que pelo menos não são hostis. Isso é bom; e um trabalho silen-
 cioso e constante de sua parte não falhará em surtir efeito.
 Você não havia mencionado as anotações feitas a partir das pa-
 lestras de A.B. em Auckland. Como regra geral, é melhor você deixar
 de lado assuntos como esse, voltando suas energias em outras dire-
 ções. Mas use sempre seu próprio julgamento, e se uma oportunidade
 se apresentar em um caso particular e você achar que deve trazer o as-
 sunto à tona, tudo bem se o fizer. Mas acredito que A.B. de fato falou
 assim da “velha mulher tibetana”, pois isso era constantemente dito
 na Av. Rd por ela e por outros, que nada sabiam a respeito. B. tem o
 hábito de “esquecer” — nós chamamos isso de “um péssimo engodo”.
 Muito obrigado por seus gentis votos.
 Meus fraternos cumprimentos,
 William Q. Judge

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 26 de maio de 1888.

 Prezado ____,
 Recebi sua carta. Fico feliz que tenha gostado do Bhagavad-Gī-
 tā. A razão para essas similaridades e os tempos coincidentes é que nós
 todos nos movemos em conjunto. Você notará que o artigo de junho82,
 muito tempo atrás, sobre o Bhagavad-Gītā, em tipologia e manuscrito,
 concorda precisamente com a “Lucifer” que acaba de sair, no seu primei-
 ro artigo.83 Esse último deve ser estudado por todos, principalmente por
 aqueles aspirantes que trariam a Lua sem ter nem uma escada, enquanto
 ignoram seus deveres cotidianos. O último dos “Idylls”84 já está pronto. A
 grande pressão e pressa por que passei me impediram de enviar uma pré-
 via. E quanto a isso direi que em quaisquer artigos futuros para “Path”,
 serei obrigado a cortar tanta poesia. É um desperdício de espaço e não
 é tão bem recebida quanto a prosa. A Parte 2 do seu poema ocupa oito
 páginas e, portanto, amontou matérias igualmente valiosas. Baxter está
 de volta, e estou feliz. Ele deve ter feito falta para S.T. de Malden.
 A velha obrigação não foi alterada. Está solenemente relaciona-
 da a sinais e senhas. Eu o enviei algumas.
 Fraternalmente,
 William Q. Judge

 82 O quarto artigo, no segundo capítulo. Ver Notes on the Bhagavad-Gītā, p.69. (Nota
 da edição original em inglês.)
 83 “Ocultismo versus Artes Ocultas”, na “Lucifer” de maio (republicado na “Theoso-
 phy”, XXXI, 149). (Nota da edição original em inglês.)
 84 Theosophy in Tennyson’s ‘Idylls of the King’ [A Teosofia em ‘Os Idílios do Rei’ de
 Tennyson], “Path” de maio-junho de 1888. (Nota da edição original em inglês.)

 Ficar fora do Devachan é para aqueles realmente juramentados
 e aceitos, e não para aqueles que meramente aspiraram. Além disso, o
 Devachan pode ser apreciado enquanto você ainda está vivo. ( J.)

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 C A R TA S D E L O N D R E S

 E D E PA R I S

 (A caminho da Índia, em 1884, o Sr. Judge teve que passar
 algumas semanas em Londres, esperando pela chegada de HPB e
 do Col. Olcott, que vinham da Índia. Durante esses dias, ele escre-
 veu cartas para “uma amiga de longa data”, Sra. Laura Langford
 — anteriormente Sra. Holloway, coautora de Man — Fragments of
 Forgotten History [Homem — Fragmentos da História Esquecida].
 Para outra fase de suas experiências em Londres, ver “Um Conto
 Estranho”.)85

 Esse é o fim deste capítulo. Esta página de extratos que estou
 anexando a você eu peguei na noite passada das cartas em posse de
 Sinnett,86. Claro, isso não chega a ser nem à vigésima parte do que

 85 Acréscimo pela edição original em inglês. (N.E.)
 86 A.P. Sinnett, Vice-presidente da Loja em Londres. (Nota da edição original em
 inglês.)

 ele possui, mas eu pensei que estes seriam úteis para você e para
 os outros dois discípulos.87 Ontem chegou uma carta de H.S.O.
 para S., postada em Marselha, dizendo que eles, H.S.O., HPB,
 Mohini88 e um outro chela, chegariam a Paris provavelmente em
 uma semana e então estariam aqui, exceto HPB, que está furiosa
 pelo tratamento de ____ pela loja em Londres e diz que ela não
 virá, mas irá parar em Boulogne, na França, ou em outro lugar, para
 seguir com a nova Ísis89.
 Hoje pela manhã tive uma experiência terrível, como nunca tive
 antes. Foi desde as 5h00 da manhã no seu horário, mas às 10h00 aqui,
 e até agora. Horrível. Algo como uma pressão externa, me forçando
 a voltar para os EUA e para qualquer outra fantasia que você possa
 imaginar — suicídio, qualquer coisa. Não existe nenhuma causa para
 isso em mim. Fui dormir cedo na noite passada. Talvez a influência
 em ____ seja ruim, ou a do meu hotel. Mas o que quer que tenha sido
 ou seja, começou de repente na rua, sem nenhum aviso, e ao invés
 de crescer em potência, me atacou subitamente exatamente como se
 tivesse me forçado a desviar do meu caminho.
 Ah, meu amigo, a senda é escura, e agora, enquanto eu escrevo,
 estou no vale das sombras, o que é horrível, pois eu sei que não é cau-
 sado por minhas ações erradas. Durante o dia, meu tempo tem sido
 gasto em ir ver esse lugar, ao invés de escrever, e à noite, na residência
 de S., exceto na noite passada, que estive em casa desde as 21h15, li

 87 Sras. Hollis-Billings e Emma Hardinge Britten, referidas mais tarde por ____.
 (Nota da edição original em inglês.)
 88 O outro autor de Man — Fragments of Forgotten History. (Nota da edição original
 em inglês.)
 89 Referência, provavelmente, à redação de A Doutrina Secreta. (N.E.)

 a revista “Theosophist” até as 23h00, e então fui dormir. Nem tive
 pensamentos ruins. Eles têm se concentrado nos Mestres, em vocês
 e na situação.

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 (Originalmente publicada em “The Word” de março-abril
 de 1912.)90

 Vou telegrafar para Olcott hoje, e quando eu receber uma res-
 posta — o quê? Tal é o meu estado mental. Perdi meu equilíbrio, e
 depois de todos esses anos. Querido amigo, me ajude. É claro que
 quando você receber essa carta, provavelmente terei me livrado de
 tudo que me incomoda, mas há conforto em me dirigir a você. Ago-
 ra você deve estar de pé ou acordado, pois são 11h30 da manhã por
 aqui... Até breve, Amor a toda, e que nós sejamos capazes de ver cla-
 ramente o que toda essa situação irá revelar.
 Pouco antes do jantar e fui à Cúpula [da Catedral] de St. Paul,
 até o topo, onde foi colocado um grande sino e de onde se pode des-
 lumbrar uma ótima vista. Contudo, a eterna névoa a impediu, embo-
 ra, de fato, este seja um dia excepcionalmente agradável.
 A escadaria fica no interior, entre os dois lados da Cúpula, e a
 subida até o sino é difícil. Não sei como você poderia fazê-la. Trata-
 -se de um cilindro com pesadas barras de metal de cada lado e uma
 escada perpendicular de madeira. Você se apoia nos lados e sobe a
 escada, segurando-se nas barras pesadas — é permitido que apenas

 90 Acréscimo pela edição original em inglês. (N.E.)

 uma pessoa suba por vez, e lá em cima é aberto, mas não o bastante
 para alguém cair. Então eu fiz praticamente tudo. Hoje estou indo
 com Thomas91, um amigo, ao Parlamento.
 Minha depressão não deve afetá-lo, pois, muito provavelmente,
 logo vai passar.
 Preciso encerrar novamente. Primeiro, tenho um compromisso;
 segundo, o correio vai fechar; terceiro, tem um homem cheirando
 rapé nesta sala, e seu contínuo fungar está me deixando louco. Des-
 peço-me novamente.
 Seu Irmão, W.

 WWWWW

 Da grama do jardim da Catedral de St. Paul.

 Na noite passada, fui jantar na casa da Srta. Arundale, (...) Oes-
 te. Guarde este endereço. Ela é uma mulher fascinante e igualmente
 muito séria. Ela mora com sua velha mãe, que, embora idosa, é tão
 vigorosa e intensa nas atividades teosóficas quanto um jovem. Hoje
 fui ver Sinnett. Ele estava muito satisfeito em me ver e me mostrou
 seus tesouros. Farei uma cópia do retrato de M. para você — de perfil
 — e enviarei na minha próxima correspondência. Ele tem três rostos
 de K.H., um homem muito belo. Um está perfeitamente finalizado, e
 os outros não passam de meras linhas de rascunho em azul. Mas ele
 diz que são todos genuínos. Ele também tem retratos de dois ou três

 91 Provavelmente Thomas Green, coeditor do Livro II. (Nota da edição original em
 inglês.)

 chelas em Madras. Ele tem um outro retrato de um homem deitado
 ao lado dele, com cabelos longos — e que olhar! A expressão facial
 me afetou de uma maneira estranha desde então. Essa é a posição
 dele. Ele está apoiado no braço esquerdo com dois dedos embaixo
 do bigode, que é volumoso e negro. Seu nariz é bem grande e reto, e
 os olhos são enormes e têm uma expressão similar àquela do retrato
 de seu Mestre. A feição é juvenil e estranhamente envelhecida. Você
 sabe quem é?
 O jantar servido na residência de Sinnett foi vegetariano, e fi-
 quei lá até as 23h30, voltando para o hotel de metrô. Eu estava, por-
 tanto, na casa de Sinnett e pensei muito em você — das 15h00 às
 19h00, no seu horário. Zeno estava lá com força total, correndo pela
 sala depois do jantar, e eu me perguntava por que, quando lá che-
 gou uma correspondência indiana contendo uma carta de Olcott, de
 Adyar, aos cuidados de Sinnett. Olcott e HPB, se ela vier, vão ficar
 com Sinnett. O que você viu sobre a prostração dela estava correto.
 Sinnett diz que ela está muito doente, e — oh! como está cansada. Há
 uma foto recente dela lá, mostrando a imagem de sua fadiga.
 Eu li para eles algumas das cartas de Damodar, e eles ficaram
 muito interessados. Mas, apesar das grandes oportunidades deles, não
 acho que eles estejam tão avançados quanto você, e, é claro, não pos-
 suem poderes como os seus.
 Estou um tanto desorientado, não descobrindo nada da Índia;
 e antes de ouvir sobre Olcott e HPB estarem chegando em breve,
 estava tentado a seguir no próximo vapor para Madras. Acho que irei
 esperar a chegada deles, pois Mohini poderá se comunicar com____.
 Mohini está vindo com o propósito de instruir esses londrinos.

 Bom, outra semana se passou, e eu estou realmente mais atra-
 sado do que jamais estive. A atmosfera magnética de Londres é hor-
 rível. Nesta manhã, localizei um lugar na [rua] Strand, no meu cami-
 nho para cá, onde uma onda de desespero simplesmente tomou conta
 de mim, se mantendo por quase todo o dia; e não há outro caminho
 para chegar aqui. E então tenho pesadelos. Na noite passada, eu es-
 tava observando o mar enquanto as ondas quebravam ferozmente na
 praia e, embora eu estivesse a salvo, não gostava daquilo. Depois eu
 estava em rios praticamente secos, com peixes morrendo sufocados.
 O único aspecto redentor é que eu tinha muitos pássaros. Depois eu
 dormi de novo e encontrei minha irmã A., e eu perguntei a ela o que
 tais sonhos significavam. Ela disse, “Eles trazem bons presságios, ou
 significam que você irá arruinar seus negócios ou seus objetivos por
 suas próprias ações.” Curioso, não é?
 O domingo em Londres é estúpido. Tanto é o respeito pelo
 domingo que, por lei, todos os bares são fechados durante os horários
 de missas nas igrejas, e todos os trens do metrô ficam parados. Então,
 quando terminam as missas, todos os palácios do gin são escancara-
 dos novamente, e tudo continua com pleno vigor. Que hipocrisia é
 tudo isso! Suponho que eles temam que a classe trabalhadora possa
 atrapalhá-los enquanto eles adoram o Deus Altíssimo, se os bares
 forem autorizados a abrir. Depois que a adoração termina, e todos
 aqueles em seda e tecidos finos forem para casa, as pessoas pobres po-
 dem festejar e beber o quanto quiserem, e então ir para a abadia para
 o serviço da noite. Ontem à noite eu fui às 19h00, e logo fui flan-
 queado por um velho habitué das casas de gin, cujo hálito carregado
 de licor se misturava aos acordes da música e à voz do sacerdote, de
 modo que comecei a imaginar que eu estava em uma cela junto com

 um guarda enquanto os sacerdotes e os meninos auxiliares passavam
 cantando pela janela da minha cela. Essas são influências atenuantes
 da civilização inglesa e das regulamentações municipais. Aqui estava,
 de fato esse homem bêbado ouvindo, na sagrada Abadia, aos chavões
 que o rev. cônego Maurice Spence, que explanava a necessidade de os
 abastados fazerem sacrifícios pelos pobres, enquanto ele, o rev. cône-
 go, sem dúvidas ia para casa todas as noites para suas costeletas e suas
 cervejas e parava nos bares para petiscos e cerveja. O quê? Um cônego
 bebendo cerveja? Ora, é claro. Todos aqui bebem cerveja e comem
 costeletas incessantemente. O ditado inglês é ou “Vamos sair e matar
 alguma coisa”, ou “Vamos comer uma costeleta e tomar umas cerve-
 jas”. Considerando esse amor pela cerveja, eu não consigo entender,
 de minha parte, por que os ingleses e os alemães não formalizaram
 há muito tempo uma aliança com a cerveja como base. Presumo que
 razão seja a dificuldade de beber e falar alemão ao mesmo tempo. Eu
 fui ver M__y92 às 11h30... M__y agora está bem de vida, pois seu pai,
 tendo falecido, lhe deixou recursos. Ele desistiu do Direito e agora
 estuda Filosofia. Ele conheceu HPB e o Ocultismo há tanto tempo
 quanto eu, e está hesitante com relação à Índia. Hoje perguntei a ele
 por que, e ele respondeu que, para ele, existem muitas coisas dúbias
 sobre ela. Ele sabe que a viagem não é o problema, mas tem receio de
 não encontrar nada depois que chegar lá; parece que eles não gostam
 nem de ingleses nem de americanos. A viagem dele para a América,
 em 1875, aconteceu unicamente por conta do livro de Olcott, People

 92 C.C. Massey, um espiritualista, um dos membros originais da S.T. e o primeiro
 presidente da Sociedade Teosófica Britânica, formada em 1876. (Nota da edição
 original em inglês.)

 from the Other World [Pessoas do outro mundo], e para que pudesse
 ver os Eddies. Foi então que ele conheceu HPB.
 Nenhuma notícia nem de Olcott nem do nativo. Caminhei do
 hotel até a casa de M__y, e levou quarenta minutos. Fui ao longo do
 aterro do Tâmisa, atravessei pela Abadia e o Parlamento e desci pela
 Victoria Street. O trajeto foi muito bom, e a caminhada aprazível. Du-
 rante todo o percurso pensei em você, desejando que estivesse comigo.
 Esta carta partirá amanhã, quinta-feira — então a postarei ago-
 ra, pois estou saindo com Thomas.
 Esse artigo que estou escrevendo é a última das minhas aquisi-
 ções por meio de minhas especulações na América do Sul. Contem-
 ple, então, o resultado de muita exaustão espiritual e muito dinheiro
 investido.
 Ontem fui ao Museu Britânico e constatei que o prédio, como
 quase todos os outros em Londres, fica escondido da vista enquanto
 você se aproxima.
 É uma bela construção, localizada em frente à Russell Street, e
 você poderia andar dois quarteirões dela, como eu fiz várias vezes, e
 não notar que está ali. Asseguro-lhe que, se eu soubesse que o Museu
 era ali, eu o teria visitado várias vezes. Como não é adornado com
 uma cúpula como a St. Paul, ele não é percebido à distância. A rua
 do Museu é a Museum Street, e é de fato muito estreita, tanto que,
 conforme você se aproxima, tudo que consegue ver é uma pequena
 parte da fachada. A Museum Street leva até a velha Drury Lane, uma
 das mais tortuosas, estreitas e antigas ruas que eu conheço.
 Do lado de fora, nas escadas, estão colocadas duas estruturas
 de pedra da Nova Zelândia, presentes da rainha Victoria. Ao entrar,
 você deve deixar a bengala e o guarda-chuva, e pode comprar, caso

 queira, o catálogo completo — do qual envio-lhe, nesta correspon-
 dência, uma cópia — ou qualquer edição dos catálogos especiais.
 Subindo a escadaria à esquerda, ao longo dela, estão muitos
 baixos-relevos da Índia Oriental, do Templo Budista de Amravati.
 Eles me despertaram muito interesse, e passei um bom tempo, que
 eu sabia que poderia gastar se passasse menos tempo na galeria grega,
 examinando as figuras e suas atitudes. A coleção de artigos da Índia
 não é volumosa, mas as coleções assírias e egípcias são grandiosas e
 esplêndidas. Há alguns corredores repletos desses objetos, tais como
 estátuas, tumbas, etc.; e a impressão que fica na mente é de fato sole-
 ne. Aqueles enormes sarcófagos de pedra e as estátuas colossais fasci-
 nam e enchem o observador de admiração pelas pessoas que os cons-
 truíram. Eu me senti mais em casa naquele lugar do que em qualquer
 outro de lá. Havia um enorme braço e mão de pedra avermelhada,
 com cerca de 5 metros entre o ombro e o punho. Imagine o todo
 do qual aquilo era apenas um braço! Quando se olha para a colossal
 figura de granito preto de um guardião de um dos portões do mundo
 inferior, a imaginação nos leva de volta para o glorioso passado no
 Egito, quando aquela estátua permanecia em silêncio e imóvel na
 entrada do templo enquanto passavam as procissões dos sacerdotes,
 ou enquanto seus encantamentos invocavam a visão de formas ele-
 mentais, das quais a estátua era apenas uma cópia. Oh, como eu quis
 que você estivesse lá comigo, para que você pudesse relatar as formas
 tênues que viria pairando, inofensivas, tristes, querendo saber para
 onde o passado havia ido; questionando por que os rituais dos tem-
 pos ancestrais não aconteciam mais, e olhando com espanto ainda
 maior para nós, os bárbaros da modernidade.

 Lá não havia qualquer influência terrível ou maligna, e meu
 sono depois não foi tão perturbado quanto frequentemente é pelas
 coisas que me vêm dos companheiros teósofos.
 Quero muito descobrir qual a conexão entre mim, você e o pas-
 sado do Egito.
 Eu me senti também em casa em outra galeria ou escadaria, onde
 está o Livro dos Mortos egípcio e onde eu pude ver as mesmas figuras
 que você encontra naquele pequeno painel que eu pintei para você.
 A sala da múmia também foi intensamente interessante. Quan-
 tos pensamentos se amontoam sobre alguém em um lugar como esse!
 Como você se dá conta da vaidade da vida humana e do constante
 movimento da grande roda do Universo, no rápido e impetuoso rio
 do Tempo. Lá, em uma prateleira, está o braço e a mão de um ser que
 viveu muitos séculos atrás.
 Depois do jantar, eu passei em um alfaiate na Ludgate Hill e
 encomendei calças que custaram $4. Elas custariam $10 em Nova
 Iorque. Você não se importa com isso, mas é uma novidade!
 Na noite passada, fui até a casa de S. em resposta à carta em
 anexo que envio a você. Estive com ele, a esposa dele e madame Ge-
 bhard. Ele havia recebido outra carta de Olcott, informando que, an-
 tes de partirem, eles haviam enviado para Londres Sorabjé Padshah,
 um nativo e chela, a quem pediram que Sinnett fosse encontrar. O
 motivo de S. me chamar foi para que eu acolhesse o jovem rapaz, o
 que farei com todo prazer. S. disse que, é claro, iria encontrá-lo, mas
 não fazia ideia do motivo deles em enviá-lo, nem o que eles espera-
 vam que ele fizesse. Pois bem, minha ideia (que eu cuidadosamente
 ocultei) é que eles o enviaram para testar S.; e antecipadamente S. já
 não age com hospitalidade.

 A ideia é um londrino passando a um estranho a tarefa de en-
 contrar um local para hospedar um hindu, que, é claro, é um vegeta-
 riano estrito. Ele não consegue se virar como eu, e é ridículo propor
 que eu o coloque em meu hotel. Eu sugeri que ele ficasse em um
 quarto próximo à casa de S., e ele respondeu que isso seria algo muito
 vago. Bom, seria vago até que ele selecionasse o quarto.
 Ele passou boa parte da noite em um discurso sobre quais po-
 deriam ser os nomes dos netos do Duque de Edinburgh. É claro que
 não havia nenhum problema nisso, mas me parecia que tínhamos
 pouco tempo para perder com tais discussões.
 Eu participei do jantar na casa de S. na noite passada, e recusei
 um convite para jantar lá hoje à noite com a alegação de um compro-
 misso marcado. Perguntei a ele sobre a visão que ele teve de K.H., e
 ele relatou o seguinte. Certa noite, ele estava deitado na cama dele, na
 Índia, quando de repente, ao despertar, ele encontrou K.H. de pé ao
 lado da cama. Ele se ergueu um pouco, quando K.H. então colocou
 a mão em sua cabeça, levando-o de volta ao travesseiro. Em seguida,
 ele disse, percebeu que estava fora do corpo no quarto ao lado, conver-
 sando com outro Adepto, a quem ele descreve como um inglês ou um
 europeu, com cabelos e tez claros, e de grande beleza. Esse é o mesmo
 que Olcott me descreveu em 1876 e chamou pelo nome de ____. Por
 favor, apague isso depois de ler. Eu acredito que se trata também do
 mesmo que você viu e chamou de inglês, de cabelos claros. S. diz que
 ele é bem alto. Ele descreveu K.H. não exatamente com a mesma
 aparência do retrato agora em sua posse, mas com alguma semelhança.
 Então, não sou um bom correspondente? Desde 27 de feverei-
 ro, não encontrei nenhuma alma agradável a não ser Thomas, e ele
 não chega aos seus pés em simpatia para comigo. Certamente, jamais

 encontrarei novamente três almas tão bondosas para comigo como
 vocês, e nunca mais uma como a sua, até que eu encontre a mim
 mesmo. Boa noite.
 20 de março. Bom dia. Sem mais notícias de Olcott ou dos ou-
 tros. Transmita o meu amor aos outros dois lados do triângulo. Vou
 remeter esta como está, e escreverei para você novamente no sábado.
 E permaneço sempre
 Seu irmão,
 WILL

 WWWWW

 Ontem passei algumas horas no Hyde Park, caminhando pela
 Rotten Row e observando a elite passar em seus carros. Era um pa-
 norama bem comum. A melhor parte das pessoas está fora, dizem,
 mas eu vi o bastante para saber qual o padrão de beleza que há aqui.
 O Albert Memorial fica no parque, com aqueles grupos nas es-
 quinas que têm sido tão fotografados e conhecidos por toda a Amé-
 rica. No geral, ele é pouco atraente: muito dourado e colorido. O
 príncipe Albert, em tamanho colossal, todo dourado da cabeça aos
 pés, está sentado em uma cadeira de ouro dentro de um pequeno
 templo. No entanto, como memorial, é magnífico. Agora, a próxima
 coisa para sua majestade imperial fazer é construir um memorial para
 John Brown.
 Ontem, telegrafei para Olcott, que está em Nice, e acabei de
 receber uma resposta. Agora são 11h00. Ele pede que o encontre em
 Paris no dia 27 e diz que uma carta seguirá o telegrama. Bem, isso

 é algum encorajamento para um peregrino cansado, especialmente
 porque tal peregrino está ficando deprimido.
 Você pode facilmente perceber como eu estava ficando depri-
 mido com esse ambiente daqui.
 Oh, como eu queria estar fora disso. Londres é horrível. Muito
 bife e cerveja. Eu ando por aí em um manto mental, e não me impor-
 to nem em ver, nem em ouvir.
 Não há mais nada para mim em Londres, então minha próxima
 epístola será de Paris.
 W.Q.J.

 WWWWW

 (No final de março de 1884, Madame Blavatsky, o Col. Olcott
 e o jovem hindu Mohini Chatterjee chegaram a Paris vindos da Ín-
 dia. O quarto integrante do grupo era Babula, um jovem hindu que
 era o assistente especial de Madame Blavatsky. O Sr. Judge estava
 na estação para saudá-los em sua chegada, e permaneceu por vários
 meses hospedado com eles, trabalhando na edição revisada de Ísis sem
 Véu, que se tornou A Doutrina Secreta, então sendo preparada para
 publicação.)93

 Estou aqui desde o dia 25 (março), e HPB chegou no dia 28.
 Multidões de pessoas vêm continuamente aqui e, portanto, não pude
 ter uma conversa longa em particular com ela. Tive alguns diálogos
 com ela, e agora posso dizer que tenho a confirmação de muito do

 93 Acréscimo pela edição original em inglês. (N.E.)

 que ocorreu. Ela me disse, independente e voluntariamente, que o
 Mestre havia dito a ela, na Índia, que Ele estava fazendo ou que “es-
 tava prestes a fazer algo comigo e por mim”.

 WWWWW

 Fico feliz por poder enviar-lhe a primeira confirmação da ver-
 dade sobre a experiência e as mensagens que tive em ____ — e espero
 enviar-lhe um retrato do jovem hindu que apareceu lá — e também
 de que há um Adepto inglês ou europeu com cabelos claros, que é
 muito alto. Esse primeiro, o jovem rapaz, é um amigo de Mohini,
 e esteve estudando por muitos anos. Eu o descrevi hipoteticamente
 para Mohini, que correu para sua bolsa e me entregou um retrato, e
 eu disse que era ele.

 WWWWW

 Tenho um forte sentimento de que vou ficar aqui por um bom
 tempo, e possivelmente voltar para Londres.

 WWWWW

 Apesar de eu ter escrito para vocês ontem, não pude resistir à
 tentação de escrever-lhes novamente, porque estou postando mui-
 tas cartas para os EUA no correio hoje. Por muitos dias, até ontem,
 tenho tido as piores depressões que já tive. Tão ruins que deixaram
 HPB muito preocupada. Parecia impossível afastá-las, e como vi-
 nham acompanhadas de um incontrolável desejo de chorar, eu estava
 péssimo. Ela me disse que eu entrei na corrente do meu passado e

 também que, andando por aí, eu absorvi alguns antigos elementares
 que ela viu em mim. Ela me deu seu anel talismã para que eu o usasse
 o dia todo, que é muito valioso e possui grande força. Contém um
 triângulo duplo e nele está escrito “vida”, em sânscrito. Isso me aju-
 dou, mas todo o tempo eu senti que eu estava para fazer algo.
 É um caminho árduo, e toda alma deve empreendê-lo e tra-
 balhar para se tornar forte. Sinto que esse ponto em minha jornada
 é um ponto de inflexão, e espero conseguir fazer a virada favoravel-
 mente. Acredito que vocês não são a causa da minha depressão, mas
 se forem, será melhor do que qualquer outra causa. Parecia vir de
 fora. Transmitam meu amor aos seus amados, e guardem recordações
 amáveis minhas.
 Enviei-lhes, no outro dia, um rascunho rudimentar, sendo uma
 semelhança com o Mahātmā M., e incluo a vocês uma fotografia de
 Madame, Subba Row e Dabajeri Nath, ou Babaji, como eles o cha-
 mam, na sede. Ele nem sempre está na sede. S. me contou que havia
 algo misterioso sobre ele. Mohini também me disse que ele estava
 muitíssimo mais avançado, e podia facilmente deixar o próprio corpo
 se assim o desejasse.
 Enviei-lhes um telegrama ontem informando-lhes que meu
 endereço, durante um mês, será American Exchange, Paris, conforme
 me foi ordenado pelos Mestres que eu fique aqui e ajude Madame
 a escrever A Doutrina Secreta, que vocês verão anunciada na revista
 “Theosophist”.
 Resumindo com coerência. Depois que a primeira correria
 passou por aqui, eu disse que precisava ir imediatamente para a Ín-
 dia. Olcott achava melhor que eu permanecesse com HPB, e ela
 também. Mas eu disse que todas as ordens que recebi eram de que

 eu fosse para a Índia, e sem mais delongas eu estava indo; então ela
 disse que eu provavelmente estava certo; e assim foi decidido que eu
 esperaria aqui até que O. pudesse me arrumar um vapor em Lon-
 dres, para onde ele havia ido no dia 5. Tudo estava, portanto, defi-
 nitivamente arranjado. Mas na manhã seguinte, enquanto eu estava
 sentado no quarto com Mohini, no qual eu e ele dormimos, cerca
 de uma hora depois do café, Olcott veio de seu quarto, que ficava na
 outra extremidade do corredor, me chamou e me disse em particular
 que o Mestre havia estado no quarto dele e lhe dito que eu ainda
 não deveria ir para a Índia, mas ficar e ajudar HPB com A Doutrina
 Secreta. A propósito, meu destino está entrelaçado a Ísis sem Véu.
 Eu a ajudei nesta obra, e, como ela me lembrou ontem, eu sugeri o
 uso da palavra “elemental” para tornar clara a distinção entre esta e
 “elementar”. Como ela disse: “Essa palavra foi sua, Judge.” Isso mos-
 tra que ela não é ingrata, e nem como tantos que não se dispõem a
 admitir que estão em dívida com outros.
 Mohini e eu ainda não havíamos saído do nosso quarto, e HPB
 ainda estava dormindo. Depois de alguns minutos, eu estava perfei-
 tamente convencido de que O. estava certo, especialmente porque na
 tarde anterior eu tive uma intuição sobre isso enquanto estava na rua;
 retornei então para o nosso quarto e não disse nada a Mohini. Mas
 cerca de meia hora depois, ele me olhou e disse: “Judge, acredito que
 seu Mestre esteve aqui em casa essa manhã com algum propósito.”
 E então contei a ele sobre a mudança de planos, e ele disse: “Deve
 ser o correto.” Portanto, aqui estou eu, por quanto tempo eu não sei,
 para fazer sugestões e escrever sobre a obra. Assim, vejo meu destino
 novamente ligado à segunda elaboração de Ísis. Nesse ponto, você vai

 lembrar da carta dela, de junho passado, que dizia que meu destino
 estava indissoluvelmente ligado ao d’Eles (os ‥․).
 Agora eu posso lhes dar provas dos Adeptos desses hindus que
 os conhecem e os reverenciam.
 Também ficou claro para mim que eu estava certo em insistir
 no Bhagavad-Gītā. Mohini disse que o lê o tempo todo, e que ainda
 não o entende. Os comentários que ele fizer a esse respeito, eu os
 passarei a vocês. Mas, permitam-me insistir que tentem perceber por
 si mesmos que vocês são parte do Todo. Esse é o constante objeto de
 meditação, e trará o melhor e mais rápido progresso.
 Além disso, não devemos esperar demais dos Mahātmās. Eles
 não podem interferir no Karma; e, portanto, se um homem se põe em
 marcha com Eles, Eles dizem: “Tente.” Se ele falhar, ele o fez por sua
 própria conta. Não é verdade que Eles o estariam sempre auxiliando
 por ele ter se tornado um chela. Claro, existem aqueles cujo Karma é
 tal que são ajudados. Mas não é certo supor, como fazem alguns, que
 por serem chelas eles podem, portanto, entrar em um covil de leões e
 saírem ilesos. Certamente, se o Mestre o enviar, então Ele o protegerá.
 Outra coisa. Como eu disse a D.94, o baço é a sede do ar astral
 ou vital, o ar da vida. Ele irradia sua força em curvas similares às pro-
 duzidas pelo ímã sobre limalhas de ferro em um papel. Existem cinco
 centros, começando no baço e terminando no ponto da testa logo aci-
 ma do nariz. Quando você é capaz de alinhar todas essas curvas, então

 94 Refere-se a Damodar K. Mavalankar. Ver o capítulo “Correspondência entre Da-
 modar K. Mavalankar e William Q. Judge” em Os Pioneiros do Movimento Teosófi-
 co. As várias cartas entre eles, presumivelmente, são a base para “A Hindu Chela’s
 Diary” [O Diário de um Chela Hindu], uma série publicada pelo Sr. Judge em
 “The Path”. (N.E.)

 você pode projetar seu duplo. É assim que você consegue fazê-lo. Falei
 com ele sobre meditação, e ele disse que nós deveríamos tentar reali-
 zar primeiro intelectualmente, e então transmutar o conhecimento em
 nós próprios, de forma que ele se torne parte de nós mesmos.
 Dizemos que somos parte do Todo. Bem, devemos meditar in-
 tensamente sobre isso até que comecemos a realizá-lo, e a partir daí,
 a receber instrução.
 Nós conversamos sobre muitas coisas, e não poderei agora con-
 tar-lhes tudo, pois hoje estou sem tempo. Mas acredito que ele ratifi-
 cou minhas antigas visões sobre o assunto, e me mostrou que minha
 falha estava em eu não ter tido fé o bastante em minhas próprias
 convicções, não apenas quanto a em que acreditar, mas também como
 acreditar e meditar. Ele disse também que não pode haver nenhuma
 dúvida a respeito da veracidade das mensagens de Maji, e que ele
 acredita que elas têm o selo do Mestre. Mohini disse que foi enviado
 para cá a fim de tentar resolver as dificuldades nas sociedades, mas
 que ele foi mais ou menos deixado a seu próprio julgamento.
 Se ele errar, ele será avisado, mas nem sempre isso ocorrerá quan-
 do ele estiver certo. Isto é apropriado, do contrário o julgamento não
 seria formado, a Fraternidade se tornaria meramente os Deuses das
 Igrejas para nós, e nós seríamos como criancinhas, que não conseguem
 andar sem assistência. Existe uma resposta para o questionamento so-
 bre se os Mestres amam alguém, que eu irei contar a você. O Mahātmā
 escreveu em uma carta, referindo-se à Sra. K.95, que está causando a
 polêmica em Londres, que “os esforços dela pelos pobres animais com
 relação à vivissecção renderam a ela a consideração do Chohan”. O

 95 Dra. Anna Bonus Kingsford. (Nota da edição original em inglês.)

 Chohan, como vocês devem saber, é o Guru dos Adeptos. Se esses são
 os sentimentos d’Eles, com certeza Eles amam os seres humanos.
 Sem dúvida, você se interessará pelo meu relato de uma obser-
 vação por Mohini. Ocorreu outra noite, enquanto nós falávamos so-
 bre as calúnias que muitas pessoas fazem circular a respeito de fraude.
 Ele disse: “Bom, tem uma coisa que é muito afortunada, que é o fato
 de que eu vi o Mestre antes mesmo de ouvir falar sobre a Sociedade
 Teosófica.” Preciso contar a vocês uma pequena dica que ele me deu
 sobre Karma e Dechavan, que não está no livro de Sinnett96, mas de-
 veria. Lá está colocado que você leva o bom Karma para o Devachan,
 e que o mau Karma fica esperando por você. Isso incomodou um
 pouco a mim e a outros. Ele (Mohini) disse que você leva ambos con-
 sigo, mas que o mau Karma não tem oportunidade para se manifes-
 tar lá, permanecendo quiescente até que você retorne, quando então
 começa a atuar. Você deve se lembrar, é claro, que os termos usados
 aqui são indefinidos, e que incluído no “mau Karma” está um Karma
 material “bom”. Pois, ao dizer “mau Karma”, eu me refiro ao Karma
 que atua fora, no mundo físico, seja ele bom ou ruim; e ao dizer “bom
 Karma no Devachan” eu me refiro ao Karma bom ou espiritual que
 somente pode se manifestar no Devachan.
 Ele me disse também que há muitos erros naquele Bhagavad-
 -Gītā que eu enviei a você, e agora eu vejo que se trata da tradução
 de Thompson, e não a de Hurrychund. Vá ao primeiro capítulo, no
 primeiro verso, e corrija para o que segue:

 96 Esoteric Buddhism, publicado em 1883, a partir dos ensinamentos transmitidos
 pelos Mestres e publicados em Cartas dos Mahatmas para A.P. Sinnett pela Edito-
 ra Teosófica. (N.E.)

 “O que fazem as partes mais inferiores da natureza do homem,
 que têm sede por uma vida renovada, e suas outras partes, espirituais,
 que estão reunidas com o propósito de lutar no corpo que é adquirido
 pelo Karma, Sañjaya?”
 “Oh, Brahma, que mistério é esse que acontece todas as noites?
 Quando deitado na esteira, com os olhos fechados, o corpo perde a
 visão e a alma escapa para conversar com os ancestrais (Pitris). Cuida
 dela, Brahma, quando, ao abandonar o corpo em repouso, ela se afasta
 para flutuar sobre as águas, para vagar na imensidão do céu e penetrar
 nos sombrios e misteriosos vales e grandes florestas do abençoado
 Himavat (Himalaias).”

 WWWWW

 Este, me parece, é exatamente o nosso trabalho agora. Vamos
 fazer por merecer e então desejar.
 É um desafio e tanto selecionar e agrupar a partir do conteúdo
 de Ísis, de maneira que tudo seja preservado e expurgada toda a ma-
 téria inútil. Você está peculiarmente adequado para esse trabalho; e
 mesmo se você trabalhasse nisso com a intenção de retornar a Nova
 Iorque, seria um bom Karma para você. Eu também estou adequado
 para certas partes do trabalho, e juntos nos deleitaríamos com o co-
 nhecimento e avançaríamos de mãos dadas nesse caminho.
 N. foi embora à noite, e então, por mais ou menos uma hora, os
 Mestres enviaram mensagens por meio de HPB na sala de estar, per-
 guntas para que eu a testasse. Cada mensagem teve um efeito distinto
 na minha pele, antes que ela a repetisse.

 Ela disse que quando eu parti para o México, um dos Mestres
 disse: “Por que ele vai para lá? Não estou gostando disso.” Mas meu
 Mestre apenas me olhou e sorriu.
 No dia 5, Olcott e Mohini partiram para Londres, deixando a
 mim e a Madame aqui, pois ela recebeu ordens de não ir para Lon-
 dres. Passamos o dia, e à noite, sentados sozinhos na sala de estar,
 conversamos muito seriamente sobre os velhos tempos.
 Enquanto estávamos sentados lá, senti o antigo sinal de uma
 mensagem do Mestre, e percebi que ela estava ouvindo. Ela disse:
 “Judge, o Mestre me pediu para tentar adivinhar qual seria a coisa
 mais extraordinária que Ele poderia ordenar agora.” Eu disse: “Que a
 Sra. K. seja eleita presidente da Loja em Londres.” Tentei mais uma
 vez: “Que HPB receba ordens de ir para Londres.” Estava certo, e Ele
 a ordenou que pegasse o expresso das 7h45, dando os horários exatos
 em que ela passaria pelas diferentes estações e chegaria em Londres
 — tudo estava correto, e nós não tínhamos a escala de horários em
 casa. Ela não gostou nem um pouco da ordem, e eu posso dizer-lhe
 que, sabendo de sua saúde precária e de seu peso atual, difícil de ma-
 nejar, foi uma péssima viagem. Mas ontem à noite eu a levei para a
 estação, e a vi entrar no trem com uma pequena bagagem de mão.
 Houve alguma finalidade particular nisso, pois ela poderia ter ido
 com Olcott. Ela recebeu ordens para permanecer em Londres apenas
 por 24 horas e então retornar para cá na quarta-feira.
 O tempo todo ela confessou sua incapacidade de ver por que
 ela foi ordenada, pois os londrinos, depois de ela ter se recusado a ir,
 pensarão que isso seria para causar impressão; e Olcott, quando a vir,
 certamente sentirá vontade de praguejar. Mas a situação em Londres
 é séria, e talvez eles tenham a intenção de produzir algum fenômeno

 lá, para algum benefício final. Portanto, eu fui deixado sozinho aqui
 nessa casa, e trabalharei um pouco no livro.
 Permita-me retomar à mudança nas ordens que me foram da-
 das. Veja só, nós havíamos decidido que eu iria para Índia, e nesse
 sentido foram enviadas cartas para Damodar e vários outros por Ol-
 cott, HPB e por mim próprio.
 Estou rodeado por condes, condessas e duquesas. Ontem, fui
 chamado pela Condessa d’Ademar, que é uma moça de Kentucky.
 Lady Caithness, Duquesa de Pomar, deverá chegar aqui em alguns
 dias, e solicitou o imenso prazer de minha companhia. E assim vão
 as coisas.
 Vou lhe dar um pequeno resumo da semana passada. Depois
 que Olcott partiu, e Madame também, como eu disse a você, per-
 maneci aqui com Babula, o assistente de Madame. Ele é um garoto
 hindu que ela acolheu há cinco anos. Ela ensinou a ele o francês, e
 ele já falava inglês e hindustani; é um genuíno assistente e um bom
 rapaz. Quando ela está aqui, ele dorme no chão do lado de fora, à
 porta do quarto dela. Agora ele me atende nas refeições. Há uma
 senhora francesa que cozinha e arruma os quartos. Ela tem bastante
 folga. Pela manhã, tomo café e pão; às 13 horas, arroz: às 18, jantar
 de vegetais. O clima está frio, e estou sentado nesse cômodo ao leste,
 com um fogo de lenha em uma lareira francesa horrível, da qual dois
 terços do calor sobem pela chaminé. Depois que Mme. partiu, passei
 um dia inteiro com o pior e mais severo ataque de neuralgia, que
 nenhum pobre demônio jamais teve. Nos outros dias, me ocupei exa-
 minando Ísis e fazendo anotações e sugestões para A Doutrina Secreta.
 Portanto, tenho levado uma vida de eremita, exceto quando tiro uma
 hora para caminhar, o que fiz todos os dias.

 Tenho dedicado algum tempo todo dia ao esforço para ver ____,
 mas não posso relatar sucesso. Pode não ser bom para mim ir lá em
 espírito, pois, não sendo hábil, posso facilmente trazer comigo de vol-
 ta influências encontradas lá, entre as quais algumas que podem ser
 bastante aflitivas. Talvez seja essa a explicação para alguns dos meus
 piores dias de aflição e desespero. Nenhuma novidade ainda (...). Ol-
 cott ainda está em Londres, onde eles agora têm duas sociedades,
 causada por uma divisão em favor da Sra. K. Esses últimos dias (12)
 têm sido uma provação para mim. De forma bastante vívida, surgiu
 a questão de agarrar rapidamente ou deixar passar. Acredito que fui
 deixado sozinho para me testar. Mas eu venci. Não vou desistir; e
 não importa o aborrecimento ou a amargura, vou resistir. Na noite
 passada eu abri a “Theosophist” que Mme. tem aqui, e quase imedia-
 tamente me deparei com alguns artigos sobre o Chelado, suas prova-
 ções e perigos. Pareceu uma confirmação dos meus pensamentos e,
 embora o quadro em certo sentido fosse bastante sombrio, mesmo
 assim esses artigos me fortaleceram. Havia ainda uma passagem por
 Damodar, na qual ele insinuou que aqueles que os próprios Mestres
 escolheram não falharam. Você não acha que eu poderia me conside-
 rar um dos escolhidos pelos Mestres? Mas mesmo que eu não possa,
 isso não fará qualquer diferença para mim.

 WWWWW

 Bom, então, me despeço, e que você perceba diariamente, cada
 dia mais, a indivisibilidade do Espírito Supremo, que é Um com to-
 dos nós.

 WWWWW

 Você se lembra o que o Mestre diz sobre motivações? Eu vou
 citar o parágrafo, caso você o tenha esquecido:
 “Motivações são vapores, tão atenuados quanto à umidade at-
 mosférica; e como esta última, que desenvolve sua energia dinâmica
 para o uso pelo homem apenas quando concentrada e aplicada como
 vapor ou energia hidráulica, também o valor prático das boas motiva-
 ções é melhor observado quando elas tomam forma de ações.”
 Agora, envio esta antes de ir ver HPB, e lhe enviarei apenas o
 que ela disser. Não tenho dúvida sobre tudo isso, nem que o Karma
 tenha nos unido e nos manterá assim.
 Eu nunca esqueço
 Eu nunca esquecerei
 Eu nunca esqueci
 Branco nunca será preto.

 Nas mãos do Mestre, eu o entrego.

 AS HISTÓRIAS DO SR. JUDGE

 Nunca faltou ao Sr. Judge novas formas de chamar a atenção
 para as velhas verdades. Além dos vários pseudônimos que ele utili-
 zou em “The Path” — Hadji-Erinn, Murdhna Joti, William Brehon
 (“brehon” significa “judge” [juiz] em gaélico), Eusebio Urban, Ro-
 drigez Undiano, e uma dúzia de outros criados por ele e usados pelo

 menos uma vez —, ele usava o antigo instrumento da alegoria his-
 tórica. Assim, no intervalo de 1885 a 1893, ele publicou dez desses
 estranhos contos usando o nome de Bryan Kinnavan (em todos, ex-
 ceto no primeiro, “Um Conto Estranho”, que foi publicado na “The
 Theosophist” e mais tarde se tornou um recital de acontecimentos
 contemporâneos).
 Tanto filosofia quanto história serão encontradas nessas his-
 tórias — ensinamentos sobre os elementais, sobre símbolos, sobre
 “corpos emprestados” e quadros gráficos de Karma atrasado, dúvida,
 superstição, e o abandono da verdadeira religião e sua prática. Aqui,
 também, há um relato histórico da submersão final de Atlântida, do
 estabelecimento da Loja na Irlanda, e da saída dos Instrutores da ilha
 no desfecho de um certo ciclo. “A Tela Mágica do Tempo” e “A Pele
 da Terra”, em especial, pertencem à maravilhosa série “Conversations
 on Occultism” [Conversas sobre Ocultismo], com o Sr. Judge.
 Acima de tudo, esses contos curiosos são direcionamentos,
 orientações, advertências e profecias para os teósofos. Mês após mês,
 ano após ano, em “The Path”, o Sr. Judge lutou para levar às mentes
 de seus leitores o significado da Obra na qual estavam engajados,
 e como ela deve ser levada adiante — cada um por si mesmo, em
 relação ao método, mas todos juntos em relação aos princípios da
 Teosofia. Ele apontou os desvios, descreveu os perigos e forneceu
 a fórmula para superar todas as adversidades — Devoção, Estudo e
 Serviço. Então, a partir da história antiga, ele selecionou os materiais
 para contar a história mais uma vez.
 “Um Romance Oculto” (ou as anotações para esse fim), que se-
 gue as histórias, é outra série de valiosas dicas — sobre morte violen-
 ta; reencarnação através das nuvens; chuva, semente e assim o homem

 (compare com Oceano da Teosofia97, do Sr. Judge); sobre insanidade; e
 sobre corpos emprestados, a mais importante e extensa de todas. Das
 várias ideias para contos entre esses rascunhos do Sr. Judge, apenas
 um foi desenvolvido e publicado — “Um Conto Estranho”.

 Um Conto Estranho

 I
 Os leitores dessa revista98 leram, em suas páginas, narrativas
 muito mais curiosas e difíceis de acreditar do que a que eu estou
 prestes a apresentar fragmentos. O extraordinário conto russo do
 Adepto no castelo de um homem rico, quando uma criança assumiu
 a aparência de um idoso, não será esquecido. Mas o presente conto,
 embora não contenha algo extremamente novo, na opinião do escri-
 tor, difere de muitos outros contos porque farei um relato de algumas
 coisas que eu mesmo vi. Nesse ponto, inclusive, a relação não é ino-
 portuna, e talvez algumas coisas postas aqui possam se tornar, para
 muitos, explicações de várias ocorrências curiosas durante os últimos
 cinco anos na Índia e na Europa.
 Para começar, essa história parcial é escrita de acordo com uma
 orientação recebida de uma fonte à qual não posso desobedecer, e
 nesse aspecto, por si só, deve possuir interesse, porque somos levados
 a especular por que ela é necessária agora.

 97 Edição em português publicada pela Editora Teosófica. (N.E.)
 98 Este conto foi publicado primeiramente em “The Theosophist”, em julho e em
 dezembro de 1885. (Nota da edição original em inglês.)

 Quase todos os meus amigos na Índia e na Europa estão cien-
 tes de que eu viajava com frequência para a parte norte da América
 do Sul e também para o México. Esse fato foi inclusive noticiado
 nesta revista. Em um dia muito quente de julho de 1881, eu estava
 no vestíbulo da Igreja de Santa Teresa, na cidade de Caracas, na Ve-
 nezuela. Essa cidade foi colonizada pelos espanhóis que invadiram o
 Peru e o México, e a língua falada é o espanhol. Uma grande mul-
 tidão de pessoas estava à porta, e naquele exato momento começou
 uma procissão, com um pequeno menino correndo à frente, batendo
 palmas bem alto para afugentar o diabo. Ao notar isso, uma voz me
 falou em inglês: “Curioso que eles tenham preservado esse antigo
 costume singular.” Ao me virar, vi um homem mais velho de aparên-
 cia notável, que me sorriu de maneira peculiar e disse: “Venha comi-
 go, vamos conversar.” Eu consenti, e logo ele me conduziu a uma casa
 que eu havia notado várias vezes, sobre cuja porta havia uma antiga
 tábua espanhola curiosa, dedicando o lugar ao patronato de São José
 e Maria. A seu convite, entrei e imediatamente percebi que não se
 tratava de uma casa comum em Caracas. Ao invés de serventes ve-
 nezuelanos preguiçosos e desleixados, havia apenas hindus asseados,
 como eu frequentemente via na vizinha ilha inglesa de Trinidad; no
 lugar dos desagradáveis vapores de alho e outras coisas típicas da
 cidade, pairavam no ar deliciosos perfumes conhecidos apenas pelos
 orientais. Logo concluí que eu havia me deparado com uma praze-
 rosa aventura.
 Acomodados em uma sala adornada com tapeçaria e punkahs99,
 que evidentemente haviam sido colocados lá há pouco tempo, nos

 99 Do hindi, é um tipo de ventilador usado desde o início do século VI a.C. (N.E.)

 engajamos em uma conversa. Tentei descobrir quem era aquele ho-
 mem, mas ele se evadia. Embora ele não admitisse ou negasse conhe-
 cimento a respeito da Sociedade Teosófica, de Madame Blavatsky ou
 dos Mahātmās, ele constantemente fazia referências a eles, de forma
 que tive certeza de que ele sabia a respeito deles e havia se aproxima-
 do deliberadamente de mim na igreja. Depois de uma longa conversa,
 durante a qual eu pude perceber que ele estava me avaliando e pude
 sentir a influência de seu olhar, ele disse que tinha a liberdade para
 explicar um pouco, já que havíamos nos conhecido o suficiente. Não
 foi nem prazer nem lucro que o chamaram ali, mas apenas o dever.
 Eu me referi às passagens subterrâneas que dizem existir no Peru,
 cheias de tesouros, e então ele disse que a história era verdade e que
 a presença dele ali tinha relação com ela. Aquelas passagens se esten-
 diam desde o Peru até Caracas, onde estávamos naquele momento.
 No Peru, elas foram ocultadas e obstruídas para além da capacidade
 humana de chegar até elas; mas nesse lugar as entradas não estavam
 tão bem guardadas, embora em 1812 um terrível terremoto tenha
 destruído muito a cidade. Os venezuelanos eram vorazes, e esses ho-
 mens da Índia, que sabiam do segredo, o enviaram até lá para impedir
 que alguém encontre as entradas. Em certas estações do ano, apenas,
 havia possibilidades de descobri-las; passadas essas estações, ele po-
 deria partir em segurança, pois até que chegasse novamente o perío-
 do, ninguém poderia encontrar as entradas sem o consentimento e
 o auxílio dos Adeptos. Nesse exato momento, um curioso sino soou,
 e ele me implorou para permanecer ali até que ele voltasse, pois ele
 havia sido chamado, e assim deixou a sala. Eu esperei por um longo
 tempo, cheio de especulações, e como estava ficando tarde e já havia
 passado a hora do jantar, eu estava prestes a ir embora. No momento

 em que ia fazê-lo, um servente hindu rapidamente entrou e parou
 em frente à única porta. Enquanto ele permanecia lá, eu ouvi uma
 voz dizer, como através de um longo cano: “Não se apresse ainda.”
 Voltando a me sentar, vi que havia pendurado na parede, onde eu
 anteriormente não havia notado, uma curiosa placa de prata relu-
 zente. Chegada a hora em que a luz do Sol atingiu essa placa,, vi
 que nela havia figuras que eu não consegui decifrar. Acidentalmente,
 olhando para a parede oposta, vi que a placa projetava ali um reflexo
 sobre uma superfície evidentemente preparada com tal propósito, e
 lá era reproduzida toda a superfície da placa. Era um diagrama com
 bússola, símbolos e marcas curiosas. Eu me aproximei para examinar,
 mas bem nessa hora o Sol se escondeu atrás da casa e as figuras se
 esvaneceram. Tudo que pude distinguir foi que as letras pareciam tâ-
 mil ou télugo — talvez zende. Outro sino soou debilmente, e o velho
 homem retornou. Ele se desculpou dizendo que havia ido longe, mas
 que nos encontraríamos novamente. Eu perguntei a ele onde e ele me
 disse “em Londres”. Prometendo retornar, eu me retirei apressada-
 mente. No dia seguinte, eu não consegui encontrá-lo, e descobri que
 havia duas casas dedicadas a José e Maria, e eu não sabia dizer em
 qual delas eu o havia visto. Mas em ambas eu encontrei espanhóis,
 serventes espanhóis e aromas espanhóis.
 Em 1884, fui a Londres, e havia me esquecido da aventura.
 Um dia eu caminhava em uma ruela para examinar a velha muralha
 romana na Strand, que dizem ter 2.000 anos; ao entrar e contemplar
 a obra, reparei em um homem com aspecto estrangeiro que me ob-
 servava enquanto eu me aproximava. Eu senti como se ele me conhe-
 cesse ou tivéssemos nos encontrado antes, mas era completamente
 incapaz de assegurar isso. Os olhos dele não pareciam pertencer ao

 seu corpo, e sua aparência era, ao mesmo tempo, surpreendente e
 atrativa. Ele falou com o atendente, mas sua voz não me ajudou. En-
 tão o atendente se retirou e ele, voltando-se para mim, disse:
 “Você se esqueceu da casa de José e Maria?”
 Instantaneamente eu reconheci a expressão que se manifestava
 através daquelas janelas da alma, mas ainda assim aquele não era o
 mesmo homem. Determinado a não dar a ele qualquer satisfação, eu
 simplesmente disse, “não”, e esperei.
 “Você conseguiu desvendar o reflexo do prato de prata na pa-
 rede?” Aqui estava uma completa identificação do lugar, mas não da
 pessoa.
 “Bem”, eu disse, “eu vi seus olhos em Caracas, mas não seu
 corpo.” Ele então riu e disse: “Eu havia me esquecido disso. Sou o
 mesmo homem, mas por enquanto peguei emprestado esse corpo e
 devo, na verdade, usá-lo por algum tempo; porém estou achando um
 trabalho muito difícil controlá-lo. Não é bem do meu agrado. Você,
 é claro, reconheceu a expressão do meu olhar, mas eu não parei para
 pensar no fato de que você olhou para o corpo com olhos comuns.”
 Mais uma vez, eu o acompanhei até sua residência e, enquanto
 não pensava na pessoa, mas apenas ouvia com a alma, eu me esqueci
 da mudança. Mesmo assim, ela estava sempre presente, e ele gentil-
 mente me deu alguns relatos sobre coisas relacionadas a ele, de envol-
 vente interesse. Ele começou dessa forma:
 “Eu estava me permitindo enganar a mim mesmo, me esque-
 cendo do Bhagavad-Gītā, onde ele nos diz que o homem é o amigo e
 o inimigo da própria alma, naquele retiro no norte da Índia onde eu
 passei muitos anos. Mas surgiu novamente a chance de recuperar a
 perda sofrida por isso, e foi-me dada a escolha de assumir este corpo.”

 Nesse momento, ouvi outra vez o sino, e ele me deixou de novo.
 Ao retornar, ele retomou a história.
 Se em breve eu tiver de novo a oportunidade, descreverei essa
 cena, mas por hora eu devo fazer uma pausa.

 II
 Muitos não acreditaram que eu fui impedido de escrever todo
 esse conto de uma só vez, e riram quando leram que eu continuaria
 apenas se me “fosse permitido”. Mas todos que me conhecem bem
 sentirão que há alguma verdade em minha declaração. Talvez inte-
 resse àqueles capazes de ler nas entrelinhas saber que eu tentei várias
 vezes terminar o conto para que o enviasse todo, em uma só remessa,
 para a revista, mas sempre que chegava no ponto onde termina o pri-
 meiro capítulo, meus olhos embaçavam, ou as anotações prontas para
 o trabalho se tornavam simplesmente sem sentido, ou alguma outra
 dificuldade intervinha, fazendo com que eu nunca fosse capaz de ir
 além da primeira parte, até o presente momento. É muito claro para
 mim que ele nunca será terminado, embora eu saiba muito bem o que
 tenho a dizer. Essa parte deverá, portanto, ser a última, pois ao tentar
 chegar a uma conclusão, muito tempo é desperdiçado lutando contra
 seja o que for que deseja impedir que eu entre em detalhes. Então,
 para conseguir publicar mesmo isso, fui levado a omitir muitos in-
 cidentes que talvez fossem interessantes para muitas pessoas. Mas
 tentarei lembrar particularmente e relatar quais as coisas de natureza
 filosófica me foram repetidas.
 Enquanto eu esperava sentado até que o anfitrião retornasse,
 eu senti uma influência moral de outra mente, como uma brisa fresca
 soprando de uma montanha. Era uma mente de quem chegou ao

 menos àquele ponto onde ele não desejava outra coisa senão o que o
 Karma pode conceder, e, mesmo quando essa influência se insinuava
 sobre mim, eu comecei a ouvir uma voz falando através de um cano
 cuja extremidade estava dentro da minha cabeça, mas que se estendia
 por uma imensa distância no espaço100, fazendo com que a voz soasse
 fraca e distante. Ela dizia:
 “O homem cujas paixões entram em seu coração como as águas
 que correm o oceano passivo e não revolto obtém felicidade; não
 aquele consumido pela luxúria. O homem que, tendo abandonado as
 tentações da carne, trabalha com desejos altruístas, é despretensioso e
 livre do orgulho, obtém a felicidade. Essa é a dependência divina. Um
 homem sendo possuidor dessa confiança no Supremo não se extra-
 viará; mesmo na hora da morte ele deve alcançá-la, deve fundir-se à
 natureza incorpórea de Brahm. Aquele que desfruta do Amreeta101 que
 resta de suas oferendas obtém o espírito eterno de Brahm, o Supremo.”
 A atmosfera da sala parecia dar à memória um grande poder re-
 tentivo, e quando eu retornei para o meu quarto naquela noite, mer-
 gulhei naquelas frases no Bhagavad-Gītā, que eu sabia que tinham
 vindo a mim de um lugar ou de uma pessoa que eu deveria ter res-
 peito. Tomado por tais pensamentos, não percebi que meu anfitrião
 havia retornado, e, levantando a vista, fiquei um tanto surpreso ao
 vê-lo sentado do outro lado do aposento lendo um livro. As roupas
 inglesas haviam desaparecido, e um dhoti indiano branco o cobria; eu
 pude notar que ele usava a corda bramânica ao redor do corpo. Por

 100 Alguns teósofos reconhecerão isso. (W.Q.J.)
 101 Na mitologia hindu, a bebida que é consumida pelos deuses e concede imortali-
 dade. (N.E.)

 alguma razão, ele tinha uma corrente envolta do pescoço, um orna-
 mento que, se não fosse rosacruciano, certamente era antigo. Então
 eu reparei em outra mudança. Parecia que outros visitantes, que não
 eram humanos, vieram junto com ele, porém não pela porta. A prin-
 cípio eu não conseguia vê-los, apesar de sentir a presença deles; e de-
 pois de alguns instantes eu percebi que eles, o que quer que fossem, se
 moviam para lá e para cá pelo quarto como se sem propósito algum.
 Ainda assim, não tinham forma. Aquilo me deixou tão atordoado
 que eu não disse nada, e meu anfitrião também estava em silêncio.
 Passado algum tempo, esses visitantes apressados haviam retirado da
 atmosfera material suficiente para ficarem parcialmente visíveis. De
 vez em quando, eles deixavam uma onda no ar como se perturbassem
 o meio em que se moviam, como a nadadeira de um peixe agita a su-
 perfície da água. Eu comecei a pensar nas formas elementais que nós
 lemos no Zanoni de Bulwer Lytton102, que foram ilustradas no curio-
 so livro de Henry Kuntath sobre a Cabala dos hebreus. “Bem,” disse
 meu estranho amigo, “você consegue vê-los? Não precisa ter medo,
 eles são inofensivos. Eles não conseguem vê-lo, com exceção de um
 que parece conhecê-lo. Eu fui convocado para que testasse se você
 poderia vê-los, e estou feliz que consiga.” “E esse que me conhece?”,
 eu disse. “Você pode identificá-lo de alguma maneira?”
 “Bom,” disse ele, “vamos chamá-lo de ele. Ele parece tê-lo visto
 em algum lugar — foi gravado por sua imagem, exatamente como
 uma fotografia em uma chapa —, e vejo também que ele está conec-
 tado a você por um nome. Sim, é ____.” E então ele mencionou o

 102 O famoso romance ocultista do escritor inglês Edward Bulwer-Lytton (1803-
 1873). (N.E.)

 nome de um suposto elemental ou espírito da Natureza que uma vez,
 há alguns anos, me foi mencionado em Nova Iorque.
 “Ele está olhando para você agora, e parece estar procurando
 algo. O que você tinha ou fez alguma vez, que ele soube a respeito?”
 Então me lembrei de uma certa imagem, uma cópia de um pa-
 piro egípcio sobre a Sala das Duas Verdades103, que mostrava o jul-
 gamento dos mortos, e assim respondi, lamentando não o ter comigo
 para mostrá-lo ao meu amigo. Mas no mesmo instante que eu disse
 isso, vi a própria imagem dele sobre a mesa. De onde veio, eu não sei
 dizer, pois não me recordava de o ter trazido comigo. No entanto,
 eu não levantei qualquer questão e esperei, enquanto meu anfitrião
 estava olhando fixamente para o espaço acima da minha cabeça. “Ah,
 era isso que ele procurava, e parece estar bastante satisfeito”, disse ele,
 como se eu pudesse ouvir e ver exatamente como ele. Eu sabia que ele
 estava se referindo ao elemental. Em outro momento, minha atenção
 se voltou para a imagem. Sua superfície balançava para cima e para
 baixo como se ondas passassem por ela, e sons crepitantes soavam de
 todos os lados. O barulho aumentou e o movimento cessou, enquan-
 to, de um certo ponto, começou a sair um vapor fino e esbranquiçado
 que oscilava desordenadamente para lá e para cá. Enquanto isso, os
 estranhos visitantes que eu havia mencionado pareciam correr ainda
 mais de um lado para o outro nas proximidades do papel, e vez ou
 outra um deles dava o que parecia um salto voando de uma extremi-
 dade a outra da sala, com um estranho e fraco estrondo de caráter

 103 Os antigos egípcios acreditavam que a alma do morto passava pelo julgamento
 de Osíris no tribunal subterrâneo, chamado Sala das Duas Verdades, em que seu
 coração era pesado contra uma pena para indicar sua pureza. (N.E.)

 metálico acompanhando seu rápido movimento. Aqui eu devo baixar
 as cortinas a contra gosto. Permitam-me violar a harmonia e a estru-
 tura deste conto apenas escrevendo algumas frases, deixando que a
 imaginação de cada um faça suas próprias inferências.
 “Aquelas estranhas delineações na forma? Muito fácil. Foram
 vistas por videntes no templo. É fato que os elementais não têm for-
 mas como esta. (...) Mas, sem dúvida, existem tipos, e (aqueles) egíp-
 cios não eram homens que fizessem algo que não fosse científico.
 “Há uma razão oculta pela qual, embora sem forma, esses for-
 matos particulares foram assumidos. E uma vez tendo sido assumi-
 dos, e portanto vistos pelos videntes, eles sempre repetiam a mesma
 forma para aquelas pessoas. Então, o representante da luz astral, ou
 da sabedoria, ou do anjo registrador, tem a cor amarela, é muito alto,
 com um longo bico como uma cegonha. Ou aquele que afere o peso
 da alma sempre é visto com a cabeça de chacal104. Não, não há proi-
 bição de contar a razão oculta. É simplesmente isso: se fosse dita,
 apenas um entre mil ouvintes veria qualquer sentido ou razão nela.
 (...) Deixe que sua mente reflita também a respeito da peculiaridade
 de que todos os juízes sentados lá em cima possuem cabeças iguais,
 embora sejam diferentes nas cores, cada um com uma pena, o emble-
 ma da verdade, em sua cabeça.
 “Não, não é hindu, e no entanto é o mesmo. Eles costumavam
 dizer, e eu acredito que você possa encontrar isso em um de seus
 livros, que ‘tudo está na alma Suprema, e a alma Suprema está em
 tudo’. Então a grande verdade é uma só, embora possa ser vista de mil

 104 Um animal parecido com a raposa, do mesmo gênero (Canis) que inclui lobos,
 coiotes e cães. (N.E.)

 maneiras diferentes. Nós (egípcios) tínhamos um certo ponto de vista
 e fizemos cada símbolo consistente e de uma classe consonante com
 nossa visão.105 (...) E assim como os hindus são acusados de serem
 idólatras, porque eles representaram Krishna com oito braços sobre
 o grande elefante, nós, que não retratamos uma divindade de oito
 braços, somos acusados de termos adorado chacais, gatos e pássaros.
 “Sim, é uma pena, mas a areia que enterrou o Egito não foi
 capaz de abafar a grande voz da Esfinge, a doutrina esotérica. Mas
 não por meio de nós, com exceção de alguma maneira como esta, de
 vez em quando. Na Índia a luz ainda está acesa, e em um povo vivo
 ainda reside a chave.” Naquele exato momento o balançar da ima-
 gem começou novamente e a mesma coluna de vapor esbranquiçado
 ondulava sobre ela. O leve estrondo dos elementais recomeçou e no-
 vamente chamaram minha atenção, e então a imagem ficou estável.
 Posso dizer que a íntegra da conversa não foi exposta. Não é
 necessário que seja. Meu anfitrião se manteve em perfeito silêncio
 durante todo o tempo, e parecia esperar a minha voz, então eu disse:
 “O que poderia ter levado você a deixar esses pacíficos lugares,
 nos quais o verdadeiro progresso pode ser obtido?”
 “Bem”, respondeu ele, “muito provavelmente eles eram pacíficos,
 e o progresso era verdadeiramente possível, mas você também não
 avalia os perigos. Você leu Zanoni, e talvez tenha uma ideia exagerada
 do terrível Morador do Umbral, imaginando-o como uma pessoa ou
 coisa real. Mas a realidade é muito pior. Quando você adentra o que
 você chamou ‘lugares pacíficos’, essa força se torna dez vezes maior do
 que a que encontramos no plano em que agora vivemos em Londres.”

 105 Bhagavad-Gītā.

 “Ora, eu supunha que lá, livre das ansiedades malignas da vida
 moderna, o neófito velejasse feliz por mares calmos para as praias de
 ilhas afortunadas.”
 “Longe disso. Naquele plano se descobre que, embora do sol
 espiritual caia sobre nós a influência benigna daqueles grandes sábios,
 que, entrando no Paranirvana, vertem sua própria bondade acumu-
 lada para nosso benefício, a influência maligna que é canalizada pelo
 lado escuro da lua também cai sobre nós, e com poder inalterado. As
 pequenas tentações e dificuldades da sua vida são como nada compa-
 rado àquela batalha, pois então é percebido que o eu é o inimigo do
 Ser, e também seu amigo.”106
 “Mas”, disse eu, “a falta cometida foi tão grande para condená-
 -lo a essa tarefa?”
 “Não, não tanto quanto você menciona. Mas grande o bastante;
 e em consequência eu tive que fazer uma escolha. Em Caracas você
 me viu como uma ilusão de um certo personagem. Lá eu fiz o que foi
 solicitado, a ilusão foi perfeita, com exceção dos olhos. Agora você vê
 outra ilusão, e ao mesmo tempo uma realidade, tal como é sugerida
 por essa palavra quando usada por cientistas modernos. É um corpo
 que vive e que morrerá. Talvez o Karma seja difícil, mas eu não re-
 clamo. Porém, não é uma ilusão de qualquer forma, se você sabe que,
 embora esse corpo fale e pense, ainda eu, o locutor, não sou visível
 para você?” Essas palavras não são minhas. Se algumas delas parecem
 sem sentido ou estranhas para muitos leitores, não culpem o escri-
 tor. Existem aqueles que podem compreender. Há ainda outros que
 têm pensamentos latentes que precisam apenas dessas palavras para

 106 Bhagavad-Gītā.

 chamá-los à vida. Eu não posso dar maiores detalhes do que os acima
 a seu respeito porque ele tinha razões para me impedir, apesar de que
 talvez ele mesmo conte mais para outro. Ele disse uma coisa curiosa
 e interessante que nutrirá os pensamentos de alguns. Foi quando eu
 me referi ao uso do corpo que ele tinha, podemos dizer, emprestado,
 e ele disse: “Você não sabe que muitos experimentos são possíveis
 dessa forma, e que alguns estudantes são especificamente ensinados?
 Eu me afastei desse tabernáculo terreno muitas vezes para permitir
 a entrada daqueles que, apesar de eles operarem a máquina bem o
 bastante e fazerem um uso bastante respeitável dela, eles não sabiam
 o que faziam. Estavam, como se diz, sonhando. Enquanto aqui, neste
 corpo, durante um período, eles eram essencialmente ele, pronun-
 ciavam suas palavras, pensavam seus pensamentos e eram incapazes
 de controlá-lo. Na verdade, não estavam nem desejando controlar,
 porque estavam completamente identificados com ele. Quando eles
 acordaram em seus próprios aposentos, ou um sonho singular sussur-
 rou uma canção fragmentária em seus cérebros, ou eles não guarda-
 ram qualquer lembrança disso. Em tal caso, o corpo, sendo realmente
 o mestre, pode fazer ou dizer aquilo que eu não faria — ou o ocu-
 pante, temporariamente forte, talvez fale de recordações reais, coisas
 que tenham relação apenas com aquela vida da qual seus ouvintes não
 teriam conhecimento.” Nesse momento, um relógio soou. A atmos-
 fera pareceu clarear-se. Um perfume estranho e familiar se dispersou
 pela sala, e meu anfitrião disse: “Sim, eu vou mostrar-lhe um verso
 que alguém me diz para mostrar.”
 Ele caminhou até a mesa e pegou um estranho livrinho escrito
 em sânscrito, amarelado pelo tempo e que parecia ter sido muito usa-
 do. Abrindo-o, ele leu: “Esse Espírito supremo e o Ser incorruptível,

 mesmo quando está no corpo, nem age, nem é afetado, porque sua
 natureza é sem começo e sem atributo. Como o todo movente Akas,
 ou éter, desde a pequenez de suas partes, perpassa tudo sem ser afeta-
 do, da mesma forma que o Espírito onipresente permanece no corpo
 sem ser afetado. Assim como um único sol ilumina o mundo inteiro,
 da mesma forma o Espírito ilumina todos os corpos. Aqueles que,
 com o olho da sabedoria, percebem que o corpo e o Espírito são as-
 sim distintos e que há uma libertação final da natureza animal atin-
 gem o Supremo.”107
 W.Q.J.

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 Um conto curioso

 Alguns anos atrás, eu fui até os Lagos de Killarney, mas não com
 o propósito de apenas observar a paisagem, como muitos viajantes. Du-
 rante minha infância, a ideia de ir até lá sempre esteve presente, e em
 sonhos eu frequentemente me via na água ou vagueando por lá. Depois
 que isso aconteceu diversas vezes, eu busquei fotografias do cenário, e
 fiquei muito surpreso ao perceber que os sonhos eram precisos o bas-
 tante para parecerem recordações. Mas várias vicissitudes me levaram
 para outras partes do mundo, de maneira que passei minha juventude
 sem visitar o lugar, e, de fato, a decisão de ir não foi tomada até que um
 dia, enquanto olhava uma vitrine em Dublin, me chamou a atenção

 107 Bhagavad-Gītā, Discurso XIII, último verso.

 uma fotografia de Killarney, e em um instante fui tomado por um forte
 desejo de vê-los. Então, peguei o primeiro trem e rapidamente cheguei
 lá, alojado com um ancião, que à primeira vista parecia um velho amigo.
 Os dois dias seguintes foram dedicados a divagar sem propó-
 sito e sem grande satisfação, pois o lugar, um tanto rural, não me
 interessou, depois de todas as minhas andanças por diferentes re-
 giões. Porém, no terceiro dia, fui para um campo não muito longe
 das margens de um dos lençóis de água, e sentei-me perto de um
 velho poço. Ainda era início de tarde e estava surpreendentemente
 agradável. Não tinha qualquer objeto específico em minha mente,
 e eu me dei conta de uma inabilidade, bastante incomum, de seguir
 uma linha definida de pensamento. Enquanto eu estava sentado, uma
 sonolência tomou conta dos meus sentidos, o campo e o poço se tor-
 naram cinza, mas ainda permaneceram visíveis; mas eu parecia estar
 me transformando em outro homem, e, conforme os minutos passa-
 vam, eu vi uma sombria forma ou imagem de uma torre alta e circular
 se erguendo, com mais ou menos quinze metros de altura, logo atrás
 do poço. Eu me sacudi, a visão desapareceu e eu pensei que tivesse
 lutado contra a sonolência, mas apenas por um momento. Ela voltou
 com uma nova intensidade.
 O poço havia desaparecido e um prédio ocupava seu lugar, en-
 quanto a grande torre ficou sólida; e então desapareceu todo o desejo
 de permanecer eu mesmo. Eu me levantei com um sentimento mecâ-
 nico de que meu dever, de uma forma ou de outra, me chamava para
 a torre, e entrei no prédio, pelo qual eu sabia que deveria passar para
 chegar até a torre. Quando passei pelo muro, lá estava o velho poço
 que eu havia visto da primeira vez no campo, mas o estranho aconte-
 cimento não atraiu minha atenção, pois eu sabia que aquele poço era

 um antigo marco do lugar. Ao chegar à torre, os degraus se ergueram
 à minha frente até o topo, e enquanto eu subia uma voz bastante
 familiar chamou meu nome — um nome diferente do que eu tinha
 quando estava sentado ao lado do poço, mas isso não chamou minha
 atenção, assim como o poço por dentro do muro. Por fim, emergi no
 topo da torre, e lá estava um ancião alimentando um fogo. Era o fogo
 eterno, que nunca um dia se soube ter apagado, e apenas eu, de todos
 os outros jovens discípulos, fui autorizado a ajudar o ancião.
 Quando minha cabeça se elevou acima do rebordo da torre, vi
 uma linda e calma montanha não muito distante e outras torres mais
 próximas da montanha do que a que eu estava.
 “Você está atrasado”, disse o ancião. Eu não respondi, pois não
 havia resposta para aquela constatação; mas eu me aproximei e mos-
 trei, por minha atitude, que eu estava pronto para ficar de vigia no
 lugar dele. Quando eu fiz isso, tive o lampejo de que o sol estava se
 aproximando do horizonte, e por um instante a memória do ancião
 com quem eu havia me hospedado veio à minha mente, assim como o
 trem expresso a ser alcançado de carro, mas que desapareceu quando
 o velho observador olhou meu cérebro com seus olhos perfurantes.
 “Estou temeroso em deixá-lo no comando”, foi seu primeiro
 comentário. “Há uma sombra, escura e silenciosa perto de você.”
 “Não tenha medo, pai”, disse eu. “Eu não vou abandonar o fogo
 e nem permitir que ele se apague.”
 “Se você permitir, nossa ruína estará selada e o destino de In-
 nisfallen sofrerá um atraso.”
 Com essas palavras ele se virou e me deixou, e logo eu não pude
 mais ouvir seus passos na escada sinuosa que levava ao solo.

 O fogo parecia enfeitiçado. Queimava com dificuldade, e uma
 ou duas vezes quase me paralisou de medo, tão perto chegou de se
 apagar. Quando o ancião se foi, estava queimando intensamente. Por
 fim, parece que meus esforços e orações foram bem-sucedidos; a cha-
 ma se ergueu, e tudo parecia bem. Nessa hora um barulho nas escadas
 fez com que eu me voltasse e, para minha surpresa, um completo
 estranho chegou na plataforma a que ninguém, exceto os guardiões,
 eram permitidos.
 “Veja”, ele disse, “aquelas chamas distantes parecem estar se
 apagando.”
 Eu olhei, e fui tomado pelo medo ao ver que a fumaça naquelas
 torres próximas à montanha indicava que o fogo tinha se apagado, e
 no meu repentino assombro corri para o parapeito para ver mais de
 perto. Convencido de que o que o estranho havia dito era verdade, me
 virei para continuar minha vigia e então, Ó, terror! Meu próprio fogo
 estava a ponto de apagar. Nenhum acendedor ou material inflamá-
 vel eram permitidos ali; o vigia era encarregado de alimentar o fogo
 com o próprio fogo. Em um frenesi de medo, saltei e coloquei novo
 combustível no fogo, abanei, fiquei em cima dele e soprei loucamente
 a chama para reanimá-la, mas todos os meus esforços foram em vão
 — estava extinto.
 Um pavor nauseante tomou conta de mim, seguido por uma
 paralisia de todos os nervos, exceto o da audição. Eu escutei o estra-
 nho se aproximando de mim, e então reconheci sua voz quando ele
 falou. Não havia qualquer ruído no ar, tudo estava morto e frio, e eu
 parecia saber que o ancião guardião do fogo não mais retornaria, que
 ninguém mais retornaria, que uma calamidade havia acontecido ali.

 “É o passado”, começou o estranho. “Você acaba de chegar ao
 ponto em que falhou em alimentar o fogo tempos atrás. Está feito.
 Você quer mesmo ouvir sobre essas coisas? O ancião partiu há muito
 tempo, e não pode mais te causar nenhum mal. Em breve você retor-
 nará para o ciclo do século XIX.”
 Então, recuperei minha fala e disse: “Sim, me diga o que isso
 significa ou o que foi tudo isso.”
 “Está é uma velha torre usada pelos descendentes diretos dos
 Magos brancos que se estabeleceram na Irlanda quando a Ilha da
 Inglaterra não havia ainda emergido do mar. Quando os grandes
 Mestres tiveram que partir, foram deixadas ordens estritas para que
 nenhuma dessas chamas nessas torres se apagassem, e também foi
 dado o aviso de que, se os deveres da vida fossem negligenciados, se
 a caridade, o dever e a virtude fossem esquecidos, o poder de manter
 essas chamas acessas iria desaparecer gradativamente. A decadência
 das virtudes coincidiria com a extinção das chamas, e essa, a última
 torre, guardada por um ancião e um jovem, seria a última a cair, e que
 mesmo ela poderia salvar as restantes se seus guardiões fossem fiéis.
 “Muitos anos se passaram, e a joia brilhante colocada sobre o
 monte de Innisfallen reluzia tanto de dia quanto de noite, até que,
 por fim, pareceu desvanecer-se um pouco. As curiosas pedras sonoras,
 agora encontradas na Irlanda, não eram facilmente tocadas; somen-
 te quando um puro e fiel servo descia da Torre Branca, os longos,
 estranhos e comoventes sons flutuavam pela montanha a partir da
 pedra colocada próxima ao monte em que estava a joia. Essas pedras
 tinham sido usadas pelos grandes mágicos, e quando a maior de to-
 das, localizada perto da grandiosa Torre Branca, era tocada, as fadas
 dos lagos apareciam; quando a pedra do monte era tocada junto com

 aquela na Torre Branca, os espíritos do ar e da água alinhavam-se
 obedientemente ao redor.
 “Mas tudo isso mudou, e a incredulidade insinuava-se enquan-
 to as chamas eram mantidas acesas como uma forma.”
 “Foi confiada a você e ao ancião. Mas sonhos vãos o detiveram
 uma hora além do seu horário marcado nesse dia fatal, que agora está
 no passado, mas foi mostrado a você por minha concessão especial.
 Você veio, mas estava atrasado. O ancião foi obrigado a esperar, mas
 ainda temia deixá-lo, pois ele viu com olhos proféticos a mão obs-
 cura do destino. Ele desceu as escadas, e aos pés dela caiu e morreu.
 Sua curiosidade, então, no exato momento fatal, o atraiu a olhar para
 a torre longínqua, embora conhecesse a profecia e nela acreditasse.
 Aquele momento decidiu tudo — e, pobre rapaz, você não poderia
 deter a mão de ferro do destino.
 “O fogo se apagou. Você retornou aos andares de baixo; aos pés
 da escada você os viu carregando o ancião — (...).”
 Nesse momento, eu vi a sombria e ondulante forma da torre;
 o prédio havia desaparecido, o poço estava ao meu dado, e eu estava
 novamente no campo. Oh!
 BRYAN KINNAVAN
 Dezembro de 1888.

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 O sangue da serpente

 Era uma antiga ilha mágica. Muitos séculos atrás, os grandes
 bons Adeptos desembarcaram em suas praias do Oeste e estabelece-
 ram por um tempo a Verdade. Mas mesmo Eles não poderiam conter
 o implacável passo do destino, e sabiam que aquele era apenas um
 lugar temporário, um local que deveria concentrar poder espiritual
 suficientemente forte para permanecer como estímulo por vários ci-
 clos e ser a base sobre a qual, longas eras depois, pudesse ser erguido
 novamente o templo espiritual da verdade. Esses seres abençoados
 permaneceram ali por incontáveis séculos e viram surgir outras ter-
 ras dos mares adjacentes, primeiro de lama amolecida, que depois se
 endureceu em pedras e terra. Eles ensinaram o povo e encontraram
 aptos estudantes, e a partir destes atraíram muitos discípulos, que
 estavam cheios de zelo e também de paciência e de fé. Entre os me-
 nores deles estava eu, e trabalhei longo tempo e ardorosamente por
 sucessivas vidas na Ilha. E a ilha ficou conhecida como a Ilha do
 Destino, a partir de misteriosos eventos futuros preditos para ela pelo
 maior dos Adeptos e seus videntes.
 Ainda assim, não tive êxito em alcançar o ponto em que eu pu-
 desse ter esperança de sair da Ilha com os instrutores, que diziam que
 um certo dia eles deveriam viajar para outras terras, deixando para
 trás suas bençãos para os discípulos que de boa vontade permane-
 cessem; aqueles que se rebelassem teriam ainda que permanecer, mas
 sem a ajuda e o conforto da benção dos bem-aventurados.

 Finalmente, o dia da separação chegou, e os majestosos guias
 partiram, deixando bem estabelecida a verdadeira religião e sua prá-
 tica. Ainda que nós todos soubéssemos que mesmo isso terá sua de-
 cadência, na qual talvez até alguns de nós tenham parte, mas o centro
 de força não partiria da Ilha até que seu destino fosse cumprido; a
 força poderia estar oculta, mas permaneceria latente até que a hora
 certa chegasse.
 Muitos anos vieram e se foram; ainda assim eu me vi reencar-
 nado na Ilha repetidas vezes. Com tristeza, eu vi as práticas ances-
 trais negligenciadas e diferentes visões prevalecerem. Era o poder da
 serpente.
 Em uma bem conhecida montanha os Mestres colocaram uma
 joia, e na base da montanha uma torre. Por acaso, falei sobre isso em
 um conto anterior. Eu conhecia bem aquela montanha, e a via todos
 os dias da torre, de uma certa distância, onde meus deveres jaziam.
 Eu estava presente quando a magnífica joia foi colocada na monta-
 nha e, entre todos aqueles que viram o grande evento, somente eu
 me lembrei. Desde aquele dia, muitos anos se passaram, e os outros
 discípulos, que também reencarnaram lá, haviam esquecido o evento,
 mas sabiam sobre a joia. Alguns deles, que em outras vidas foram
 meus servos na torre, agora eram meus superiores no mundo terreno,
 pois devotaram suas mentes ao poder externo formal, que é apenas o
 enfraquecido símbolo da realidade que existe internamente.
 E assim somente a tradição permaneceu, mas o diamante bri-
 lhava menos intensamente que nos dias em que eu o vi pela primei-
 ra vez. À noite, seus raios disparavam para os céus, e os sacerdotes,
 mês após mês, tentaram em vão cerimônias e orações a fim de fazer
 com que ele irrompesse em toda a glória de seus dias prístinos. Eles

 sabiam que tal esplendor era uma possibilidade — de fato, uma an-
 tiga profecia —, mas isso era tudo que eles podiam dizer, e desco-
 nheciam o restante; se soubessem, provavelmente nenhuma de suas
 cerimônias teria sido realizada. A profecia era que o grande e glorioso
 clarão de luz do diamante da montanha só ocorreria quando a última
 gota do sangue da serpente fosse derramada sobre a Ilha, e que então
 o próprio diamante nunca mais seria encontrado na rocha onde ele
 esteve apoiado por tantas eras.
 Apenas eu, entre todos, sabia disso; contudo, eu não sabia onde
 a serpente seria encontrada. Sua influência era sentida e vista, pois,
 nos primeiros dias, ela era o único réptil que havia escapado da per-
 seguição, já que seu nascimento foi devido aos pensamentos malig-
 nos de um mago negro errante, que havia chegado para passar uma
 semana na Ilha — muito antes disso, os sacerdotes não tinham qual-
 quer registro disso. Essa serpente precisava ser morta, e seu sangue
 derramado no solo para remover para sempre os últimos traços do
 mal realizado pelo mago; e somente para esse evento o diamante foi
 mantido na montanha pelo poder dos bons Adeptos que o coloca-
 ram lá. Ele preservava o germe da verdade do sopro da serpente, e
 não seria mais necessário após a destruição dela. Se os sacerdotes
 soubessem disso, nenhuma cerimônia com o intuito de aumentar seu
 brilho teria sido tentada, pois eles prefeririam sofrer com a influência
 da serpente do que perder a joia. Na verdade, eles acreditavam que a
 posse do poder deles estava, de alguma maneira, ligado à montanha
 do diamante. Eles estavam certos. Eu soube do resultado fatal para
 eles quando consegui encontrar o local onde estava a serpente. Dia
 após dia e por muito tempo na escuridão da noite, eu meditei e vas-
 culhei cada canto da Ilha. Na lua cheia, quando o diamante ficava um

 pouco mais brilhante, eu vi rastros viscosos deixados pela serpente
 por toda a Ilha, mas nunca consegui encontrar seu ninho. Até que,
 numa noite, um colega estudante que havia passado por mim junto
 àqueles que haviam encravado o diamante e que, vez ou outra, retor-
 nava através do ar para ajudar seu velho amigo, veio me ver e, enquan-
 to ia embora, disse, “observe o pé da montanha”. Era tão perto do
 sagrado diamante que eu nunca pensei que fosse possível encontrar
 ali o réptil asqueroso; no entanto, foi lá, por meio da natureza ma-
 ligna do sumo sacerdote, que ele tomou por seu esconderijo seguro.
 Eu procurei e o encontrei na margem, respirando veneno e exalando
 nuvens pretas de almas em desespero. O grande dia para cerimônias
 ao diamante estava novamente próximo, e eu determinei que neste
 dia eu iria testemunhar a morte da serpente e o último brilho emiti-
 do pelo diamante. A manhã raiou clara e morna. Uma multidão de
 pessoas se reuniu em torno do templo da montanha, na expectativa
 de algum resultado grandioso das cerimônias. Parecia como se esses
 psíquicos naturais sentissem internamente que o diamante reluziria
 em seu brilho ancestral, embora, de vez em quando, expressassem um
 certo medo de que ele, em sua grandiosa beleza, estaria para sempre
 perdido para eles.
 Era minha vez de oficiar a cerimônia depois do sumo sacerdo-
 te, e somente eu estava ciente de que a serpente havia rastejado até
 mesmo para o interior do templo e estava enrolada atrás do santuário.
 Decidi agarrá-la e, invocando nosso antigo mestre, estrangulá-la e
 derramar seu sangue no chão.
 No mesmo instante em que pensei isso, vi meu amigo de ou-
 tras terras entrar no templo disfarçado de monge errante, e percebi
 que minha aspiração mesmo parcialmente expressa foi atendida. No

 entanto, a morte me encarou. Lá, perto do altar, estava o machado
 sagrado pronto para cair sobre o homem que de alguma forma errasse
 na cerimônia. Essa era uma das vis degenerações da lei ancestral, e
 embora antes ele tenha sido usado apenas sobre aqueles que erraram
 nas formas, eu sabia que o próprio sacerdote me mataria assim que
 a grande chama do diamante se extinguisse. A escuridão da noite
 cairia sobre nós no momento em que o ritual me permitisse destruir
 o inimigo de nossa raça. Por isso eu não temia a morte, pois eu já não
 havia enfrentado isso centenas de vezes como um fim abençoado e
 uma nova chance?
 Finalmente, havia chegado a hora. Eu me abaixei, desobede-
 cendo a regra, e colocando minha mão atrás do altar peguei o rép-
 til pelo pescoço. O sumo sacerdote me viu abaixar e se apressou até
 o machado. Um pequeno atraso e toda a esperança estaria perdida.
 Com uma força sobre-humana eu a agarrei e a apertei. Em direção
 ao meu crânio alinhou-se uma linha de fogo, e eu podia ver o monge
 errante acenar com a mão; instantaneamente o sacerdote tropeçou e
 caiu em direção ao machado. Mais um pouco de pressão e a serpente
 estaria morta. Minha faca! Estava em meu cinto, e com ela eu cortei
 seu pescoço. Seu sangue vermelho vibrante escorreu pelo chão e — o
 machado foi lançado contra minha cabeça, e o jovem sacerdote do
 templo caiu morto no chão.
 Mas apenas meu corpo morreu. Eu me ergui no ar e vi a mim
 mesmo caído lá. As pessoas não se mexiam nem falavam. O sacer-
 dote se curvou sobre mim. Eu vi o monge errante sorrir. O sangue
 da serpente se espalhou lentamente ao lado do meu corpo, e então se
 juntou em pequenas esferas, cada uma com um tom vermelho vibran-
 te. O diamante no topo da montanha atrás do templo lentamente se

 tornou mais brilhante, e então reluziu e resplandeceu. Sua irradiância
 penetrou o templo, enquanto os sacerdotes e as pessoas, exceto meu
 monge errante, se prostraram. Então, doces sons e um suave sussurro
 preencheram o ar, e vozes em uma estranha língua pronunciaram
 estranhas palavras que vinham da montanha. Ainda assim as pessoas
 não se mexiam. A luz do diamante parecia se reunir em volta do san-
 gue da serpente. Lentamente cada esfera de sangue era consumida
 pela luz, exceto uma que era mais malévola que as outras, e então
 aquela esfera fatídica se ergueu no ar e de repente se transformou
 em uma pequena e maligna cobra, que com movimentos ondulantes
 voou no ar e adentrou a noite em direção às Ilhas distantes. O sacer-
 dote e as pessoas se ergueram com medo, as vozes da montanha ces-
 saram, os sons pararam, a luz regrediu e a escuridão cobriu tudo. Um
 grito selvagem de desespero se ergueu na noite, e o sacerdote correu
 para fora, para olhar a montanha.
 O sangue da serpente ainda manchava o chão, e o diamante
 havia desaparecido.
 BRYAN KINNAVAN
 Janeiro de 1889.

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 A tela mágica do tempo

 Um antigo ditado hindu diz: “Aquele que conhece aquilo que
 no Tempo se resolve, conhece tudo.”

 “Tempo”, em sânscrito, é chamado “Kala”. Ele é o destruidor
 e também o renovador. Yama, o senhor da morte, embora poderoso,
 não o é tanto quanto Kala, pois “até que chegue a hora, Yama nada
 pode fazer”. Os momentos, que voam e passam por nós carregando
 todas as coisas com eles em uma longa procissão, são os átomos do
 Tempo, os filhos de Kala. Anos se tornam séculos, séculos se tornam
 ciclos, e ciclos se tornam eras; mas o Tempo reina sobre todos, pois
 eles são apenas suas divisões.
 Ah, por quantos séculos eu vi o tempo, ele próprio invisível, de-
 senhando imagens em sua tela mágica! Quando eu vi o rastro viscoso
 da serpente na sagrada Ilha do Destino, eu não conhecia o Tempo,
 pois eu acreditava que o momento futuro fosse diferente daquele que
 eu vivi, e ambos tinham seu fim. Naquela época, também, eu não
 sabia que a serpente, ao invés de tirar sua respiração do éter eterno,
 vivia na forma mais grosseira de matéria; eu não via então como o
 brilho do diamante incrustado na montanha era a eterna irradiância
 da própria verdade, mas em minha infantilidade imaginava que ela
 tivesse uma origem.
 A tragédia no templo em que fui vítima — abatido pelo ma-
 chado do sumo sacerdote — foi seguida por outra, como eu descobri
 quando, assim que liberto de meu corpo, conversei em espírito com
 meu amigo, o estranho monge. Ele me contou que no dia seguin-
 te o sumo sacerdote, ao se recuperar do trágico incidente, foi até o
 templo onde meu sangue ainda manchava o chão. O objetivo de sua
 visita era ganhar tempo enquanto meditava sobre novos planos para
 reconquistar seu domínio sobre o povo, que havia sido enfraquecido
 pela escuridão e desaparecimento do diamante da montanha. Seus
 pensamentos o levaram à ideia de fabricar um substituto para a linda

 gema, mas depois de permanecer por um tempo mergulhado nesses
 devaneios, seus olhos foram atraídos por uma cena curiosa. Da pla-
 taforma de onde ele havia arrebatado o machado que expeliu meu
 sangue vital, ele viu uma nuvem que parecia ser o final de um fluxo
 de vapor se erguendo do chão. Ao se aproximar, ele percebeu que
 meu sangue tinha, de alguma forma peculiar, se misturado com o que
 sobrou das manchas deixadas pelo réptil, cuja morte eu havia efeti-
 vado, e daí subia o vapor, depositando-se, ou agregando-se, naquela
 plataforma. E lá, para sua surpresa, no centro da nuvem, ele viu se
 formando lentamente uma gema cujo brilho permeou o lugar.
 “Ah”, gritou ele, “aqui está novamente o diamante. Vou esperar
 e vê-lo totalmente restaurado, e assim meu triunfo estará completo.
 O que pareceu ser um assassinato se tornará um milagre.”
 Ao terminar a sentença, a nuvem desapareceu, meu sangue ha-
 via sido completamente absorvido e o brilho da gema o encheu de
 alegria.
 Estendendo sua mão ele pegou a gema da plataforma, e então
 um terror terrível tomou conta de sua expressão. Em vão ele lutou
 para se mover ou soltar a pedra; mas ela parecia estar presa à sua mão;
 ela se tornou menor, e uma dor ardente percorreu seu corpo. Os ou-
 tros sacerdotes, que chegavam naquele exato momento para limpar
 o local, ficaram paralisados nos degraus da entrada. A face do sumo
 sacerdote estava virada em direção a eles, e de seu corpo veio um fluxo
 de luz vermelha e cintilante que encheu o coração deles de medo; eles
 não podiam nem se mover nem falar. Isso não durou muito tempo —
 apenas até que o diamante tivesse desaparecido completamente de
 sua mão —, e então seu corpo se dividiu em mil pedaços, enquanto
 sua alma condenada voava gemendo pelo espaço acompanhada de

 formas demoníacas. O diamante era uma ilusão; foi o meu sangue
 “lamentando no chão” que tomou aquela forma devido aos pensa-
 mentos e ambições dele.
 “Venha”, disse o monge, “venha comigo para a montanha.”
 Subimos a montanha em silêncio, e quando chegamos ao topo
 ele se virou, fixando em mim um olhar perfurante, através do qual eu
 logo tive a sensação de estar olhando para uma tela que escondia algo
 de minha vista. A montanha e o monge desapareceram, e no lugar
 deles eu vi uma cidade abaixo de mim, pois eu estava agora na elevada
 torre interior de um prédio muito alto. Era um templo antigo que do-
 minava uma cidade de mágicos. Não muito longe estava um homem
 alto e belo; eu sabia que ele era o meu monge, mas, nossa, como ele
 havia mudado; e perto dele estava um homem mais jovem, de quem
 parecia fluir até mim um feixe de luz tênue mas nítido, fino embora
 claramente definido. Eu sabia que era eu mesmo. Dirigindo-me ao
 meu monge, eu disse:
 “O que significa isso, e por quê?”
 “Isto é o passado e o presente”, ele respondeu, “e tu és o futuro.”
 “E ele?”, apontando para o jovem.
 “Ele é tu mesmo.” “Como eu posso vê-lo, e o que o mantém
 ali?” “É a Tela Mágica do Tempo, que o mantém por você e o esconde
 para todo o sempre. Olhe em volta e acima de sua cabeça.” Obede-
 cendo seu comando, eu lancei meu olhar pela cidade abaixo, e então,
 olhando para cima, a princípio não vi nada além do céu e das estrelas.
 Mas logo uma forma apareceu, como se estivesse no éter, através do
 qual as estrelas ainda brilhavam; e então, como se meu olhar contem-
 plativo se expandisse rapidamente, a superfície se tornou palpável e
 as estrelas sumiram; eu sabia quase que instintivamente que, se meus

 pensamentos vagassem por um momento, o céu se tornaria mais uma
 vez visível. Assim, permaneci imóvel. Então lentamente imagens se
 formaram no ar — a cidade, as pessoas, com todas as cores da vida. E
 um zumbido contido parecia ressoar de cima, como se pessoas estives-
 sem vivendo lá. A cena oscilou e se esvaneceu, sendo sucedida pelos
 pensamentos e desejos daqueles vivendo abaixo. Não havia atividade
 ali, somente imagens adoráveis fabricadas pelo pensamento — vívidos
 arco-íris, joias cintilantes, cristais diáfanos —, até que rapidamente
 uma linha sinuosa e escura rastejou pela visão deslumbrante, com ne-
 gros pontos e linhas aqui e ali. Então escutei a agradável e penetrante
 voz de meu monge: “A tela do tempo se desenvolve; ambição, dese-
 jo, inveja, vaidade estão desfigurando-a. Tudo isso logo desaparecerá.
 Veja.” E enquanto eu assistia, séculos se passaram por mim através da
 tela. Sua beleza desapareceu. Apenas um fundo preto, com desagradá-
 veis e corrompidos contornos das circunstâncias que rodeavam a dis-
 córdia e ganância, me era visível. Aqui e ali, eram visíveis fracos pontos
 e linhas de luz — as boas ações e pensamentos daqueles que ainda
 tinham mente espiritual. Então, uma questão veio à minha mente:
 “O que é essa tela?” “Ela será chamada de luz astral na próxima vez
 que você nascer na Terra”, disse a voz de meu monge. Naquele exato
 momento, um poderoso som de marcha ressoou pelo espaço. A tela
 etérea parecia palpitar, sua substância, se havia alguma, estava sendo
 comprimida, como se uma força externa se impusesse sobre ela; seu
 movimento aumentou de forma tumultuada; e então as estrelas uma
 vez mais brilharam no céu, e eu pairava em espírito na montanha
 escura onde estava a gema. Não havia seres por perto, mas de espaços
 distantes veio uma voz que disse: “Ouça a marcha do Futuro.”
 BRYAN KINNAVAN

 Abril de 1889.

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 O olho errante

 Este não é um conto em que eu fantasio sobre um monstro
 mítico e impossível como a Cabeça de Rahu108, o qual o povo comum
 na Índia acredita que engole a Lua a cada eclipse. Rahu é apenas um
 mito que corporifica o fato de que a sombra da Terra devora o disco
 branco, mas eu vou contar a respeito de um verídico olho humano;
 um andarilho, um buscador, um suplicante; um olho que procurou por
 você e o segurou como o pássaro fascinado pela serpente, enquanto
 busca em sua natureza algo que nunca encontrou. Um olho como
 este é, algumas vezes, mencionado atualmente por muitas pessoas,
 mas eles o veem no plano físico, na luz astral, e ele não é encontrado
 ou sentido na luz do dia,se movendo como outros objetos.
 Este olho errante sobre o qual escrevo sempre esteve na estra-
 nha e sagrada Ilha onde tantas coisas aconteceram muitas eras atrás.
 Ah! Sim, a Ilha ainda é sagrada, agora obscurecida e seu poder per-
 dido — alguns acham que para sempre. Mas seu verdadeiro poder
 será espiritual, e embora as mentes dos homens hoje desconheçam
 o espírito, interessadas apenas na glória temporal, a antiga virtude
 da Ilha retornará uma vez mais. Que estranhas e fantasmagóricas

 108 Na mitologia hindu, Rahu foi um demônio derrotado por Vishnu, sendo respon-
 sável pelos eclipses. (N.E.)

 formas ainda vagam por suas costas; que baixos sussurros inusitados
 varrem as montanhas; como, quando a noite acabou de se separar do
 dia, suas fadas, lembrando-se de seus governantes humanos — agora
 enterrados por homens que as temem parcialmente —, de repente se
 reúnem em torno dos locais onde o mistério está enterrado e então
 partem suspirando! Foi aqui que o olho errante foi visto pela primeira
 vez. Durante o dia, tinha apenas uma cor cinza, penetrante, imóvel, e
 sempre empenhado em encontrar uma certa coisa da qual não podia
 ser desviado; à noite, ele brilhava com uma luz própria, e podia ser
 visto vagando pela Ilha, ora rapidamente, ora lentamente, como se
 obstinado a procurar por aquilo que não encontrava.
 As pessoas temiam esse olho, embora estivessem acostumadas a
 todos os tipos de eventos mágicos, agora desconhecidos para a maio-
 ria dos ocidentais. Inicialmente, aqueles que se sentiam incomodados
 por ele tentaram destruí-lo ou capturá-lo, mas nunca conseguiram,
 porque, no momento em que eles faziam a tentativa, o olho desapa-
 recia. Ele nunca manifestou ressentimento, mas parecia ter um pro-
 pósito definido e voltado a um fim bem estabelecido. Mesmo aqueles
 que haviam tentado destruí-lo se surpreenderam ao não encontrarem
 qualquer ameaça em suas profundezas quando, na escuridão da noite,
 ele flutuou ao lado de suas camas e os examinou novamente.
 Se alguém, exceto eu próprio, sabia da ocasião quando esse ma-
 ravilhoso errante surgiu, a quem havia pertencido, nunca ouvi falar.
 Eu estava vinculado ao segredo e não podia revelá-lo.
 Nos mesmos antigos templo e torre aos quais me referi ante-
 riormente, havia um ancião que sempre teve grande intimidade comi-
 go. Ele era questionador e desconfiado, mas terrivelmente ardoroso e
 ansioso para descobrir as verdades da Natureza, e ele continuamente

 levantava a questão: “Se ao menos eu pudesse saber a verdade; isso é
 tudo que eu desejo saber.”
 Então, sempre que eu sugeria soluções recebidas de meus ins-
 trutores, ele divagava em suas eternas dúvidas. Uma história que era
 sussurrada no templo era que ele havia entrado na vida naquele es-
 tado de mente, e era conhecido pelo superior como alguém que, em
 uma vida anterior, havia levantado dúvidas e impossibilidades apenas
 para ouvir soluções, sem o desejo de provar nada, e havia jurado, de-
 pois de muitos anos de discussões inúteis, buscar somente a verdade.
 Mas, o Karma acumulado pelo hábito de toda a vida não havia sido
 esgotado, e na encarnação em que eu o conheci, apesar de sincero
 e sério, ele foi prejudicado pelo hábito pernicioso da vida anterior.
 Consequentemente, as soluções que ele buscava sempre estiveram
 próximas, porém sempre perdidas.
 Contudo, no final da vida da qual estou discorrendo, ele obteve
 a certeza de que, por meio de práticas peculiares, ele poderia concen-
 trar em seu olho não apenas a visão, mas também todas as demais
 forças, e deliberadamente se empenhou na tarefa contra meu forte
 protesto. Gradualmente, seus olhos assumiram a mais extraordiná-
 ria e penetrante expressão, que se intensificava toda vez que ele se
 envolvia em uma discussão. Ele estava se apegando à única certeza,
 mas ainda sofria por conta de seu antigo Karma da dúvida. Então ele
 adoeceu, e por sua idade chegou próximo à morte. Uma noite eu o
 visitei a seu pedido, e ao seu lado percebi que ele se aproximava da
 dissolução. Nós estávamos sozinhos. Ele falou livremente, mas com
 muita tristeza, pois, conforme a morte se aproximava, ele podia ver
 mais claramente; e à medida que se passavam as horas, seus olhos se

 tornaram mais extraordinariamente penetrantes do que nunca, com
 uma expressão suplicante e questionadora.
 “Ah”, ele disse, “eu me enganei mais uma vez; mas é apenas
 Karma. Tive sucesso em uma única coisa, e isso irá para sempre me
 atrasar.”
 “Qual coisa?”, eu perguntei.
 A expressão em seus olhos parecia abraçar ao futuro enquanto
 ele me contava que sua prática peculiar o compeliria a permanecer
 por um longo período acorrentado ao seu olho mais forte — o di-
 reito — até que a força da energia despendida para aprender aquela
 façanha fosse totalmente exaurida. Eu vi a morte se rastejando len-
 tamente sobre suas feições; e quando pensei que ele estava morto, ele
 de repente ganhou força para me fazer prometer que não revelaria o
 segredo — e expirou.
 Quando ele faleceu, estava escurecendo. Depois que seu cor-
 po esfriou, em meio à escuridão eu vi um olho humano brilhando e
 olhando para mim. Era dele, pois eu reconheci a expressão. Todas as
 suas peculiaridades e seus modos de pensamento pareciam ligados ao
 olho, voando sobre mim a partir dele. Depois ele se afastou de mim e
 logo desapareceu. O corpo dele foi enterrado; ninguém além de mim
 e nossos superiores sabia sobre essas coisas. Mas, por muitos anos
 depois, o olho errante foi visto em todos os cantos da Ilha, sempre
 buscando, sempre perguntando, e nunca esperando pela resposta.
 BRYAN KINNAVAN
 Maio de 1889.

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 A galeria de imagens que contam histórias

 Apesar de a galeria de imagens, sobre a qual escrevo agora, ter
 sido há muito tempo abandonada e nunca mais ter sido vista, desde
 que seus guardiões deixaram o local onde ela estava, galerias simila-
 res ainda podem ser encontradas em lugares nos quais não se pode
 entrar, exceto guiado até eles. Elas estão agora escondidas em lugares
 distantes e inacessíveis — nas montanhas dos Himalaias; além des-
 tas, no Tibete, na Índia subterrânea e em outras localidades igual-
 mente misteriosas. A necessidade de relatos por espiões ou confis-
 sões por transgressores não é sentida pelas fraternidades secretas, que
 possuem estranhos registros de feitos, pensamentos e condição por
 aqueles a quem retratam. Nas irmandades da Igreja Católica Romana
 ou na Maçonaria, nenhuma falha em cumprir as regras jamais pode-
 ria ser considerada, a não ser que alguém denunciasse o delinquente,
 ou ele mesmo fizesse uma confissão. Todos os dias maçons quebram
 tanto a letra quanto o espírito dos votos que fizeram, mas, sem nin-
 guém saber ou fazer acusações, eles continuam sendo maçons em boa
 situação. O soldado acampado ou em campo infringe as mais restritas
 regras de conduta, mas se isso for feito fora da vista daqueles que
 poderiam divulgar ou punir, ele permanecerá intocado. E em vários
 corpos religiosos os membros continuamente quebram, seja em ato
 ou em pensamento, todos os mandamentos e, sendo tal ato ou pen-
 samento ignorado por seus companheiros e pelos líderes da Igreja,
 eles não perdem posição. Mas nem a grande Igreja Romana, nem a

 Maçonaria ou qualquer seita religiosa possui uma galeria como a que
 eu vou tentar descrever, na qual estão registrados todos os mínimos
 atos e pensamentos.
 Não estou me referindo à magnífica Luz Astral que retém ima-
 gens fiéis de tudo que fazemos, sejamos teósofos ou escarnecedores,
 católicos ou maçons, mas a uma autêntica coletânea de simulacros
 deliberadamente construída, de modo a especializar uma das muitas
 funções da Luz Astral.
 Foi durante uma das minhas conversas com o ancião que se
 transformou em um olho errante que, pela primeira vez, ouvi falar
 sobre essa maravilhosa galeria, e me foi mostrado o lugar do qual
 ele falava após a morte dele. Ela foi mantida na Ilha Sagrada, onde
 antigamente existiam muitas coisas mágicas e estranhas e aconte-
 ciam muitos eventos. Você pode perguntar por que eles não são mais
 encontrados lá, mas você também pode me pedir que eu explique
 por que Atlântida afundou sob a onda ou por que o grande Império
 Assírio desapareceu. Eles tiveram seus dias, assim como nossa atual
 civilização orgulhosa terá seu fim e se extinguirá. A lei cíclica não
 pode ser impedida de sua operação, e tão certo quanto a mudança das
 marés pelo globo e o fluxo de sangue no corpo, também é certo que
 grandes realizações chegam ao fim e poderosas nações desaparecem.
 Foi apenas alguns meses antes do falecimento do ancião, quan-
 do se aproximava a dissolução ou ordens superiores, não sei dizer
 qual, que o levou a revelar muitas coisas e deixar escapar pistas para
 outros. Um dia, ele estava se arrependendo de seus inúmeros erros,
 quando se virou para mim e disse: “E você, nunca viu a galeria onde
 seu verdadeiro estado de espírito registra a si mesmo?”

 Não compreendendo o ele queria dizer, respondi: “Eu não sabia
 que havia uma aqui.”
 “Ah, sim, fica no antigo templo perto da montanha, e o dia-
 mante irradia mais luz lá do que em qualquer outro lugar.”
 Temendo revelar minha densa ignorância, não apenas a respeito
 do que ele queria dizer com aquilo, mas também sobre a natureza de
 tal galeria, continuei a conversa de maneira a obter mais informações,
 e ele, supondo que eu tinha conhecimento sobre outras, começou a
 descrever esta da qual falava. Mas, em um ponto muito importante da
 descrição, ele mudou tão subitamente de assunto quanto ao introdu-
 zi-lo, me fazendo refém da curiosidade. E até o dia de sua morte ele
 não tocou mais no assunto. A maneira extraordinária de sua morte,
 seguida pelo estranho olho errante, tirou de minha cabeça o pensa-
 mento das imagens.
 Mas parece que o efeito deste inteligente olho, flutuante e so-
 litário, sobre o meu caráter, era uma sombra ou um presságio de mi-
 nha apresentação à galeria. A pergunta casual dele, em conexão com
 suas próprias falhas, e a lição impressa em mim pela intensificação e
 concentração de toda a natureza dele em um olho que para sempre
 vagava pela Ilha me fizeram voltar meus pensamentos para dentro, de
 forma a descobrir e destruir as sementes do mal em mim mesmo. En-
 quanto isso, todos os deveres no templo onde eu vivia eram assidua-
 mente executados. Uma noite, depois de atingir alguma humildade
 de espírito, adormeci serenamente com a luz da lua cheia iluminando
 ao redor, e sonhei que eu encontrava novamente o ancião, como se
 ele ainda estivesse vivo, e que ele me perguntava se eu já havia visto a
 galeria de imagens. “Não”, respondi no sonho, “eu havia me esquecido
 dela”, e acordei com o som de minha própria voz.

 Ao olhar para cima, eu vi iluminada pela luz da Lua uma figura
 de alguém que eu nunca havia visto em nenhum dos templos. Este
 ser me olhava com olhos brilhantes e frios, e de longe soou o que
 supus ser sua voz: “Venha comigo.” Levantei-me da cama e saí noite
 adentro, seguindo este guia lacônico. Era lua cheia, em seu apogeu,
 e todo o local estava iluminado por sua irradiância. À distância, as
 paredes do templo mais próximas da montanha do diamante pare-
 ciam irradiar uma luz própria. O guia caminhou em direção a elas,
 e chegamos até a porta, que agora estava totalmente aberta. Quando
 cheguei à soleira, de repente, flutuou por mim o solitário e cinza olho
 errante do meu falecido velho amigo e condiscípulo, olhando no fun-
 do dos meus olhos, e eu decifrei sua expressão; era como se dissesse:
 “Aqui está a galeria de imagens.”
 Nós entramos e, apesar de haver alguns sacerdotes lá, ninguém
 pareceu me notar. Passamos por um pátio, atravessamos um salão,
 descemos um longo corredor e então chegamos a um amplo local,
 alto e sem telhado, com apenas uma porta. Somente as estrelas no céu
 adornavam o espaço acima, enquanto fluxos de luz, mais fortes que o
 luar, vertiam no lugar a partir do diamante, de forma que não havia
 sombras nem qualquer necessidade de iluminação. Uma música triste
 ressoava do lugar, e parou logo que a porta se fechou silenciosamente
 atrás de nós; neste momento, uma sombra repentina pareceu crescer
 em um ponto, mas foi rapidamente engolida pela luz.
 “Examine com cuidado, mas não toque e nem tema nada”, disse
 meu taciturno cicerone. Com essas palavras, ele se virou e me deixou
 sozinho.
 Mas como eu poderia dizer que estava sozinho? O lugar estava
 repleto de rostos. Eles estavam enfileirados em cima e embaixo, por

 todos os lados; perto do chão, acima dele; mais acima, nas paredes; no
 ar; em todo lugar, com exceção de um corredor; mas nenhum deles
 mudava de lugar, embora todos estivessem aparentemente vivos. E, a
 intervalos, estranhas criaturas vigilantes do mundo elemental se mo-
 viam de um lugar para outro. Eles estariam me vigiando ou vigiando
 os rostos? Agora eu sentia que elas me observavam, pois lançavam
 súbitos olhares de canto do olho em minha direção; mas pouco de-
 pois algo aconteceu confirmando que elas observavam os rostos.
 Eu estava olhando para o rosto de um velho amigo, quase da
 minha idade, que havia sido enviado para outra parte da Ilha, e isso
 inexplicavelmente me encheu de tristeza. Uma das curiosas criaturas
 elementais se moveu silenciosamente para perto dele. Surpreso, esfre-
 guei meus olhos, pois a figura do meu amigo parecia descolorir. Sua
 expressão se alterava a todo momento. Passou de branco para cinza
 e amarelo, para preto e cinza, e então de repente se tornou comple-
 tamente preto, como se estivesse em uma acelerada decomposição.109
 Depois, novamente, aquela mesma música triste que eu havia escuta-
 do na entrada flutuou por mim, enquanto a escuridão do rosto pare-
 cia lançar uma sombra, mas não por muito tempo. O elemental saltou
 sobre o rosto enegrecido, agora sem alma, rasgando-o em pedaços; e
 por algum processo conhecido por ele próprio, dissipou os átomos
 e restaurou a luminescência do local. Mas, que pena. A imagem do
 meu velho amigo não estava mais lá, e eu senti em mim um peso
 quase insuportável, como de desespero.

 109 Comparar com “Culture of Concentration” [Cultura da Concentração], do Sr.
 Judge, onde são descritos os efeitos de vários vícios (Theosophy, XIV, 439). (Nota
 da edição original em inglês.)

 Enquanto eu me acostumava com os arredores, meus sentidos
 percebiam, de vez em quando, doces e suaves sons que pareciam ema-
 nar dos rostos ou de seus arredores. Então, selecionando um deles,
 fiquei de frente a ele e observei. Era brilhante e puro. Seus olhos fita-
 vam os meus com a meia inteligência de um sonho. De vez enquanto
 ficava um pouco mais brilhante, e quando isso acontecia eu escutava
 a música suave. Isso me convenceu de que as mudanças na expressão
 estavam conectadas com a música.
 Mas, temendo ser convidado a me retirar, eu comecei a examinar
 cuidadosamente a coletânea, e descobri que todos os meus condiscípu-
 los estavam representados ali, bem como centenas que eu nunca havia
 visto e todos os sacerdotes, sumos ou inferiores, que eu havia observado
 pela Ilha. Ainda, a mesma música triste, de vez em quando, me lembra-
 va da cena da imagem do meu amigo escurecendo. Eu sabia que isso
 significava que outros escureceram e foram destruídos pelos elementais
 vigilantes, os quais eu podia vagamente perceber que se lançavam sobre
 alguma coisa toda vez que aquelas notas soavam. Elas eram como o
 lamento dos anjos ao verem outro mortal se suicidando moralmente.
 Depois de um tempo, surgiu vagamente em mim uma explicação
 sobre esta galeria. Aqui estavam todas as imagens vivas de todos os
 estudantes ou sacerdotes da ordem fundada pelos Adeptos da Monta-
 nha do Diamante. Essas imagens vitalizadas estavam conectadas por
 cordões invisíveis com o caráter daqueles que representavam; e como
 um instrumento telegráfico, elas registraram instantaneamente o exato
 estado mental do discípulo. Quando ele falhava completamente, elas
 escureciam e eram destruídas; quando ele progredia na vida espiritual,
 os graus de brilho ou beleza mostravam seu exato estado. Enquanto eu
 chegava a tais conclusões, tons musicais mais altos e fortes preenchiam

 o salão. Diretamente à minha frente estava um rosto belo e pacífico; seu
 brilho ofuscava a luz ao redor, e eu sabia que um irmão invisível — quão
 perto ou longe, eu não sabia — havia atingido algum nível de avanço
 que correspondia a tais tons. Naquele exato momento, meu guia entrou
 novamente; percebi que eu estava perto da porta; ela estava aberta; e
 juntos nós passamos por ela, refazendo o mesmo caminho pelo qual
 havíamos entrado. De novo, lá fora, a posição da Lua me mostrava por
 quanto tempo eu havia permanecido na galeria. O silêncio do meu guia
 me impedia de falar, e ele retornou comigo até a sala de onde eu havia
 saído. Lá, ele ficou me olhando, e uma vez mais eu escutei, como se de
 longe, uma voz que indagava, como se ele dissesse: “Bem?”
 Em minha mente veio a questão: “Como são feitos aqueles ros-
 tos?” Dele todo, exceto dos lábios dele, veio a resposta: “Você não
 entenderia. Eles não são as pessoas, apesar de serem feitos a partir de
 suas mentes e seus corpos.”
 “Eu estava certo na ideia de que eles estavam conectados àque-
 les a quem representam por cordões invisíveis, pelos quais a condição
 da pessoa era transmitida?”
 “Sim, perfeitamente, e eles nunca erram. A cada dia eles mu-
 dam para melhor ou para pior. Uma vez que o discípulo tenha en-
 trado nesta senda, sua imagem se forma lá; e nós não precisamos
 de espiões, nem de colegas discípulos oficiosos para fazer acusações,
 de nenhum relatório, nenhum maquinário. Tudo se registra sozinho.
 Nós precisamos apenas inspecionar as imagens para saber se o discí-
 pulo avança ou retrocede.”
 “E aqueles elementais curiosos”, eu pensei, “eles se alimentam
 das imagens enegrecidas?”

 “Eles são nossos necrófagos. Eles reúnem e dissipam os átomos
 decompostos e deletérios que formavam a imagem antes de ela escu-
 recer — que não são mais adequadas para tão boa companhia.”
 “E a música — ela vinha das imagens?”
 “Ah, meu jovem, você tem tanto a aprender. Vinha delas, mas
 pertencia também a todas as demais almas. É a vibração dos pensa-
 mentos e da vida espiritual dos discípulos; é a música de suas boas
 ações e de seu amor fraternal.” E então me ocorreu um pensamento
 terrível: “Como poderia alguém — se isso for possível — restaurar a
 própria imagem, uma vez que tenha escurecido na galeria?” Mas meu
 guia já não estava mais lá. Um fraco farfalhar foi tudo o que ouvi — e
 três notas profundas, como se de um grande sino de bronze!
 BRYAN KINNAVAN
 Junho de 1889.

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 A p e l e d a Te r r a

 O materialismo frio do século 19 paralisa o sentimento e ani-
 quila o misticismo. Portanto, comete um crime duplo, ao roubar o
 homem e impedir muitas classes de seres sencientes de progredirem
 na escada que leva da terra ao céu. Por isso, ao contar essas histórias,
 me sinto protegido pelo escudo do editor da revista para a qual es-
 crevo, pois, se eu fosse conhecido por acreditar que quaisquer seres,
 que não o homem, sejam afetados pelas negações mentais do século,
 minha vida logo se tornaria um fardo. Esta era está tão tomada pela

 ignorância que não vê e não se importa com os gemidos que repercu-
 tem pelas cavernas da mãe Terra, a braças de profundidade da super-
 fície. E nem se importará até que seu desprezo por aquilo que chama
 de superstição tenha causado sua ruína e, então, outra era terá nascido
 e outros homens terão vindo.
 Não foi assim em nossa Ilha Sagrada nos ciclos passados. Na
 época, o que chamamos superstição era conhecimento, que agora foi
 substituído pelo desprezo impudente por qualquer coisa, salvo a clas-
 sificação empírica de alguns fatos; uma herança de glória abandonada
 por uma mera declaração dos limites de nossa ignorância. Mas mer-
 gulharei no passado e esquecerei o presente momento.
 Sete meses se passaram desde o momento em que eu, encon-
 trando-me na galeria de imagens, vi o simulacro de um velho amigo
 escurecer e desaparecer, e agora, na manhã do dia que eu deveria pas-
 sar pela montanha do diamante, chegaram a mim notícias de como
 ele havia caído sem fé em sua confiança, tomado pela vaidade acom-
 panhada por sua obscura companheira, a dúvida.
 Por isso, na hora marcada, eu esperei pelo mensageiro. Uma vez
 mais os raios brancos do luar iluminaram a sala e me informaram, em
 uma linguagem pálida e fria, que este era o 17º dia, revelando o mos-
 trador mensal curiosamente trabalhado no chão e nas paredes por
 uma arte química que não permitia que nada fosse revelado, exceto
 pela luz da Lua após o 14º dia de seu curso. Eu fiquei parado e olhei o
 mostrador, fascinado pelos símbolos que surgiam com a luz prateada,
 embora durante anos eu tenha visto a mesma coisa todos os meses.
 Mas agora, enquanto eu observava, algumas novas combinações da
 nossa antiga magia foram reveladas. De vez em quando, nuvens pare-
 ciam rolar pelo chão, enquanto sobre elas repousava a própria Terra.

 Eu nunca havia visto aquilo antes. Sete vezes passou por mim, e en-
 tão eu senti que perto de mim estava o mensageiro silencioso. Ao me
 virar, eu o vi exatamente como quando ele me chamou para a galeria.
 “Você não conhece essa imagem?”, ele disse.
 “Não. Tudo está escuro para mim.”
 “É o sinal de que você deve ir ao salão da Terra, para além da
 galeria. Olhe novamente, mais de perto, para a bola rolante em cima
 das nuvens, e me diga o que você vê.”
 Essas palavras não pareciam vir dos lábios do homem, mas de
 tudo ao seu redor, como se o ar estivesse carregado de sons. Então,
 obedecendo à direção, olhei para a imagem e percebi que a superfície
 do globo místico estava se movendo, e então miríades de pequenas
 criaturas passavam por dele.
 “Chegou a hora”, disseram os sons vindos de todo o entorno do
 ser impassível. “Este é o sinal. Iremos partir.” E ele se virou.
 Eu o segui enquanto ele me guiava até o prédio e para além da
 galeria de imagens que contam histórias, onde os rostos ainda em
 silêncio mudavam e a música suave soava. Eu teria ficado lá para ver
 aquelas imagens mágicas, mas um cordão parecia me atrair para per-
 to do meu guia. Quando nos aproximávamos da outra extremidade
 da galeria, nada estava visível aos olhos, com exceção de uma parede
 branca, mas o mensageiro passou através dela e desapareceu. Com
 medo de parar, incapacitado de resistir à atração do cordão invisível,
 caminhei de encontro à parede. Em um breve momento de suspen-
 se, e segurando a respiração, eu passei através dela; era apenas uma
 nuvem, ou vapor — e eu estava do outro lado. Ao me virar, esperan-
 do ainda ver através daquela parede imaterial, percebi que ela era
 impenetrável à visão, e então o cordão que me puxava enfraqueceu,

 pois meu guia havia parado. Aproximando-me da parede, meus de-
 dos estendidos a atravessaram, ou melhor, desapareceram dentro dela,
 pois eles ficaram sem sensação. Então a voz do mensageiro disse:
 “Assim é a pele da Terra para aqueles que vivem abaixo dela.” Com
 essas palavras, ele caminhou novamente passando por uma porta de
 uma grande sala, e eu o segui. Aqui, um cheiro de terra, fraco mas
 opressivo, tomou conta de todo o lugar; parado logo depois da porta,
 que se fechou silenciosamente, eu vi que todo o lugar, salvo onde nós
 estávamos, se movia, como se víssemos o grande globo rotacionando
 aqui em seu eixo e fossem sentidos todos os seus movimentos.
 Enquanto eu admirava, a superfície da massa giratória pare-
 cia estar coberta por hostes circulantes de pequenas criaturas, cujos
 movimentos causavam as rotações, e de repente pareceu como se o
 corpo em movimento se tornasse transparente, e dentro dele estavam
 as mesmas criaturas. Elas estavam constantemente movendo-se da
 superfície para o centro ao longo de caminhos bem definidos. Aqui
 estava representado todo o globo em uma poderosa miniatura, e essas
 criaturas em seu interior e na superfície a movimentavam com sua
 própria natureza, guiadas por algum misterioso Ser, cuja presença só
 era revelada por feixes de luz. Ninguém conseguia vê-lo, mas suas
 direções silenciosas eram seguidas.
 Esses pequenos seres tinham as mais diversas cores e formas;
 alguns tinham uma aparência similar ao do próprio homem, outros
 pareciam flores estrela do mar, suas tonalidades puras aumentando
 e diminuindo conforme palpitava o pulso de luz no interior delas.
 Quaisquer que fossem suas formas, eles pareciam evanescentes, trans-
 lúcidos, e facilmente se dissipavam; em sua real essência, as criatu-
 ras eram centros de energia, um nucléolo em volta do qual a luz se

 condensava, ora nessa forma, ora em outra, com uma constante pro-
 gressão de tipo e forma. Algumas eram mais velozes e harmoniosas
 em seus movimentos do que outras, e eu compreendi que estas eram
 as mais avançadas na escala do Ser. Estas tinham uma órbita maior, e
 satélites circulavam ao redor delas. O lugar estava repleto desses sis-
 temas, e todos obedeciam à sutil Força interior que eu não conseguia
 discernir. Cada sistema existia a serviço de todo o resto: cada um com-
 plementava e sustentava os outros, enquanto eles avançavam em uma
 harmonia que era trabalho e amor. O objetivo deles parecia ser duplo:
 eles ajudavam na manutenção das rotações da Terra sobre seu eixo e a
 guiavam em sua órbita. Eles também cresciam em esplendor e brilho
 com a rapidez sempre maior de seus próprios movimentos, se aproxi-
 mando de uma inteligência maior, chegando cada vez mais próximos
 da razão autoconsciente e do amor; e conforme cresciam, estimulavam
 a centelha latente nos metais e todo o crescimento do submundo, à
 medida que o toque flamejante da chama desperta outra chama.
 Guiadas pelo Poder Invisível e com obediência automática (pois
 obedecer era a natureza delas), havia algumas que, pela grandiosida-
 de de seu próprio ímpeto e pelo fermento de novas forças atraídas e
 reunidas ao redor de si, pareciam estar a ponto de atingir a máxima
 expansão, algum estado elevado de inteligência e vida, mas elas eram
 contidas por algo que não era o Poder que as guiava. Olhando mais de
 perto, vi que uma influência antagônica estava em ação naquele lugar.
 A órbita de muitas dessas dóceis e belas criaturas incluía a
 passagem de e para a parede mística. O dever delas era sobre a su-
 perfície da Terra, bem como abaixo da superfície; o cumprimento
 fiel dessas funções abrangia uma evolução para um serviço elevado e
 uma forma superior. A influência maligna frequentemente impedia

 isso. Parecia uma névoa escura composta por um vapor nocivo que
 amortecia enquanto arrefecia. Na proporção em que as nuvens rola-
 vam para dentro do salão, suas espirais assumiam ora uma forma e
 ora outra, sugestões mutantes e chocantes de ódio, luxúria e orgulho.
 Muitas das criaturas que entravam em contato com isso tiveram essa
 influência estampada em suas sensíveis esferas, dando-lhes a horrí-
 vel semelhança, da qual eles eram incapazes de se livrar, tornando-se
 assim servos da própria nefasta névoa com movimentos alterados e
 discordantes. Outras ficavam paralisadas com o toque frio. E outras
 ficavam tão sobrecarregadas para compensar a suspensão parcial da
 atividade de suas companheiras que sua atuação era instável e suas re-
 voluções orbitais refreadas. Mas, mesmo assim, a multidão inteira de
 criaturas oscilava como uma esplêndida criação, clareando, brilhando,
 pulsando, pausando, um enorme coração iridescente cintilando, can-
 tando na escuridão. Aqui a névoa era contida por grandes esforços
 que vibravam em harmonia; ali ela se reunia, condensava, e em seu
 vil abraço varria sistemas brilhantes, sufocando seus movimentos, e
 depois deixando-os paralisados onde caíam, enquanto ela se rastejava
 para novas vítimas. E através de todo esse estranho cenário e esplên-
 dida batalha, eu pude ver as tênues formas enevoadas das cidades
 habitadas pelos homens na Terra, meus companheiros, e também os
 rios, as montanhas e as árvores do globo.
 Em minha mente, surgiu a questão: “As cidades da Terra pare-
 cem sonhos?”
 E então, através da parede, brilhou essa frase, enquanto seu sig-
 nificado ressoava em cada letra: “Quando a você são mostrados os
 seres elementais, os homens de sua Terra e suas cidades aparecem

 como nuvens porque não é para eles que sua mente está voltada. Olhe
 de novo!”
 Eu vi que a névoa maligna havia ganhado força em uma parte
 do lugar e destruído a harmonia e a velocidade de tantos dos peque-
 nos seres que o grande globo rotatório estava se movendo fora de
 seu eixo, girando cada vez mais. Então eu soube que sobre qualquer
 terra em que isso acontecesse, grandes mudanças ocorreriam, e que
 no caminho da névoa passando sobre o homem haveria epidemias
 de doenças e crimes. Aterrorizado com tais iminentes calamidades,
 eu busquei uma resposta e olhei para o meu guia. Ao fazer isso, ele
 desapareceu, e através da parece sua voz parecia desenhar-se em letras
 vivas que emitiam um som por si próprias.
 “São os pensamentos dos homens.” Eu escondi meu rosto, hor-
 rorizado por fazer parte de tal herança; e quando eu olhei novamente
 grandes jatos saíram pela Pele da Terra, pensamentos jorrando e se
 derramando em fluxos miasmáticos.
 Eu teria feito muitas outras perguntas, mas, novamente, de uma
 vasta distância vieram os tons profundos de um sino de bronze; uma
 chuva de flores da terra caiu sobre mim; eu havia passado pela parede;
 meu guia havia desaparecido; e eu estava sozinho em meu próprio
 quarto, refletindo sobre o que tinha visto.
 BRYAN KINNAVAN
 Outubro de 1889.

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 O giro da roda

 Um pequeno conto sobre Karma

 I
 Ele era o filho de um pequeno governante em Rajpootana. Seu
 pai, da casta dos guerreiros, governava um distrito que incluía várias
 vilas, assim como sua própria pequena cidade, com justiça e sabedo-
 ria, para que todos fossem prósperos e felizes. O governante se cha-
 mava Rajah; ele vivia em um prédio feito de pedra, construído sobre
 uma colina que dominava a cidade. O filho, sobre quem este conto
 fala, nasceu depois de Rajah estava há muitos anos sem filhos, sendo
 o único descendente da honra e do poder do pai. Ele foi chamado
 Rama, em homenagem ao grande Avatar. Desde o momento em que
 nasceu até que ele pudesse falar, um estranho olhar sempre era nota-
 do em seus olhos de bebê; um olhar que fitava sem hesitação, ousado,
 calculista, como se esperasse algo de você; e ainda, algumas vezes,
 parecia que ele estava rindo de si mesmo, arrependido, e também às
 vezes melancólico.
 Rama cresceu e encantou seu pai com sua bondade e for-
 ça mental. O estranho olhar, de quando era bebê, permaneceu com
 ele, fazendo com que todos, embora o amassem, também sentissem
 um respeito singular, que ocasionalmente era reverente. Quando ele
 concluiu seus estudos, uma primeira pequena peregrinação para um
 célebre santuário foi organizada muito cedo a seu próprio pedido, e

 ele começou a se envolver na administração dos assuntos do velho e
 agora debilitado Rajah. Todos os dias ele se recolhia em seus apo-
 sentos sozinho; ninguém era autorizado a entrar em nenhum de seus
 três aposentos; e no 14º do mês, ele passava todo o dia em retiro. Em
 nossa imaginação, nos juntemos a ele em um desses dias de retiro e
 ouçamos, com seu consentimento.

 II
 Era um quarto hindu comum. O chão duro de chunam110, a
 cama enrolada no canto, e nas paredes uma ou duas chapas de metal
 incrustradas com esmalte, representando diferentes deuses e heróis.
 Ele entra e vai até a parede em frente a uma dessas placas — Krishna.
 A estranha expressão em seus olhos se torna mais profunda, forte, e
 um feixe de luz parece emanar deles para o objeto na parede. Seus
 lábios se movem.
 “Ātmanam, ātmana” — ele parece dizer; o resto são apenas mur-
 múrios tão baixos que não somos capazes de ouvir. As palavras estão
 em seu próprio dialeto, mas na mente do ouvinte elas se traduzem
 por si mesmas. Ele diz:
 “Esse peso em meu coração não é dessa vida. Eu não conheci
 sofrimento, nunca perdi nada que amasse. Minhas ambições se rea-
 lizaram; o presente é brilhante, o futuro não traz nenhuma sombra.
 Quando, ó Krishna, conhecerei o que agora eu nada sei, e aprenderei
 aquilo que tanto anseio aprender? Mas, mesmo agora, um raio de
 esperança invade minha alma.”

 110 Um tipo de gesso usado na Índia, feito de cal e areia. (N.E.)

 No momento em que ele pronunciou essas últimas palavras,
 soou um toque que vinha da placa de metal, e Rama a observou imó-
 vel. A placa vibrava e um aroma sutil se espalhou por todo o quarto.
 O ar parecia vibrar lentamente, ondulante, e então uma deslumbran-
 te forma de um jovem rapaz parecia se formar no chão, enquanto a
 vibração se concentrava na forma e o aroma se transformava em luz.
 Rama olhou paralisado para esse ser que estava ali, erguido e assusta-
 dor, mas calmo e com toda a paz. Era justamente a calma e o poder
 dele que aterrorizavam. Enquanto Rama o observava, o ser falou:
 “Você se esqueceu do Upanishad, ‘Dois pássaros pousam sobre
 uma arvore; um come uma fruta, o outro permanece vigilante’?”
 “Não”, disse Rama, “eu não me esqueci. Eles são o pessoal e o
 universal. Aquele que olha é o meu Ser superior — Ātman.”
 “Eu sou teu Ser superior. Eu vim para te falar sobre três pala-
 vras. Não te esquece delas, não te esquece de mim. Elas são: Ação, Lei
 e Fruto da Ação.”
 “Essas”, disse Rama, “eu ouvi. Ação e Lei, eu conheço, mas o
 Fruto da Ação, é isso que consome internamente?”
 A forma da beleza respondeu: “É a ignorância disso que te afli-
 ge. Tu estás preso ao teu futuro. Este teu presente nascimento é para
 te permitir que faças com que o Karma do teu próximo nascimento
 tenha um fim melhor, mas que será sempre obscuro e doloroso se não
 for melhorado agora. No presente encontra-se teu futuro. O potencial
 agora reside no efeito da causa que tu criares.” Então, com um olhar
 direto como uma flecha no rosto de Rama, a forma se desintegrou,
 e a placa emitiu um som de adeus. Através da parede, passava uma
 imagem que parecia de miséria e fortuna, de cabanas e prédios de
 pedra. Rama deixou o quarto no dia seguinte, e nunca mais pareceu

 sofrer ou se perturbar com algo. Seu velho pai morreu, e ele conti-
 nuou a governar por muitos anos, espalhando bençãos em todas as
 direções, até que um rajah rival veio e demandou todos os seus bens,
 reivindicando-os por meio de uma ramificação familiar esquecida.
 Ao invés de rejeitar a reivindicação, que era justa, ao invés de matar o
 rival, como poderia ter feito, Rama renunciou a tudo, retirou-se para
 a floresta e morreu após alguns anos de austeridade.

 III
 A roda do tempo girou e Rama renasceu em uma cidade go-
 vernada pelo rajah que havia, na vida anterior, reivindicado as posses
 de Rama. Mas agora Rama era pobre, desconhecido, um sem casta,
 um chandalah111 que varria o lixo e esperava que o Karma pudesse
 ajudá-lo. Ele não sabia que era Rama; ele apenas varria o lixo perto
 do palácio do rajah.
 Uma audiência solene foi realizada pelo rajah com todos os
 sacerdotes e adivinhos presentes. Perturbado por um sonho na noite
 anterior, o governante supersticioso convocou-os para interpretá-lo,
 para que declarassem suas causas com sabedoria e para que propu-
 sessem medidas paliativas oficiais. Ele havia sonhado que, enquanto
 caminhava por seu jardim, escutando de seu tesoureiro um relato de
 sua crescente riqueza, um enorme edifício de pedra gigante de repen-
 te se formava à sua frente. Ele parou surpreso, o edifício desmoronou
 e parecia enterrar a ele e sua riqueza. Isso se repetiu por três vezes, e
 o encheu de pavor.

 111 Classe de pessoas da Índia consideradas sem casta ou intocáveis. (N.E.)

 Os astrólogos se retiraram e consultaram seus livros. A solução
 era simples, um deles sugeriu. “O rei deve doar uma vasta quantia de
 dinheiro amanhã para a primeira pessoa que ele vir ao acordar.” A
 decisão foi aceita, e o proponente planejava estar a postos bem cedo
 pela manhã, de forma a apropriar-se do dinheiro. O rajah concordou
 com o direcionamento das estrelas, e se retirou para seus aposen-
 tos, decidido a conceder imensuráveis presentes na manhã seguinte.
 Nenhum pesadelo perturbou seus sonhos. As estrelas cintilantes se
 moviam na abóbada celeste e, de todas as hostes, a Lua parecia sorrir
 sobre a cidade, como se, de perto, ela ouvisse e soubesse de tudo. O
 frio do início da manhã, escura mas com a promessa do amanhecer,
 viu o chandalah — outrora Rama — varrendo o lixo próximo ao pa-
 lácio onde, em seu interior, o rajah estava prestes a acordar. A última
 estrela no céu parecia deter-se, como se estivesse ansiosa para que
 Rama pudesse ir varrendo até o lado do palácio onde a janela do rajah
 se abria. Lentamente o chandalah se arrastava em sua tarefa, devagar,
 seguro. Aos poucos os sentidos do rajah se despertaram e, com eles, a
 memória de um sonho horrível lhe passou de relance. Levantando-se
 do tapete em que estava deitado, ele se ergueu e pareceu pensativo:
 “O que eu deveria fazer? Ah, sim, dar os presentes. Mas não ama-
 nheceu ainda. Ainda assim, o adivinho disse ‘imediatamente ao acordar’.”
 Enquanto ele hesitava, o pobre varredor de lixo varria do lado
 de fora, aproximando-se mais de sua janela. A estrela que se punha
 quase parecia lançar um raio na parede, que o atingisse e o empur-
 rasse para a janela. Abrindo a veneziana para respirar o ar fresco, ele
 olhou para baixo, e diante dele estava o pobre chandalah, com roupas
 humildes e sem turbante, suando com o esforço, apressando-se para

 terminar a tarefa, que deixaria o jardim do grande rajah limpo e pron-
 to para o seu senhor.
 “Graças aos deuses”, disse o rajah, “é o destino; uma decisão
 justa; ao pobre e devoto devem ser dados os presentes.”
 Logo cedo ele reuniu seus ministros e sacerdotes, e disse: “Dou
 presentes aos devas por meio dos pobres; redimo meus votos. Cha-
 mem o chandalah que esta manhã varria meu jardim.”
 Rama foi chamado, e pensou que seria preso ou morto. Mas o
 rajah o surpreendeu com um presente de muitos milhares de rúpias;
 e quando o chandalah, agora rico, desmaiou, ele acreditou sentir um
 cheiro, estranhamente familiar, e viu uma forma deslumbrante passar
 por ele. “Este”, ele pensou, “é um deva.”
 O dinheiro tornou Rama rico. Ele se estabeleceu e convidou
 brāhmins112 instruídos para ensinar a outros; ele distribuiu esmolas, e
 um dia ele fez um enorme edifício de pedra ser construído com cor-
 rentes de pedra quebradas nas laterais para representar como o destino
 rompeu suas correntes. E, mais tarde, um sábio vidente, um brāhmin de
 muitas austeridades, vendo sua vida, disse a ele brevemente:
 “Na próxima vida tu serás livre. Teu nome é Rama.”
 BRYAN KINNAVAN
 Outubro de 1889.

 112 O mesmo que “brâmanes”, a mais elevada das quatro castas na Índia. (N.E.)

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 Onde os Rishis estavam

 Os Rishis foram os Bardos sagrados, os Santos,
 os grandes Adeptos conhecidos pelos hindus,
 que deram grandiosos impulsos espirituais no passado
 e dizem às vezes reencarnar, e que um dia viveram
 na Terra entre os homens.

 O mundo é feito de mares e ilhas. Pois continentes são apenas
 grandes terras cercadas por água. Os homens devem, então, sempre
 viver sobre o mar ou sobre a terra, a não ser que fiquem suspensos
 no ar; e, se viverem no ar, não são homens como os conhecemos. Era
 sobre isso que eu pensava quando o grande navio chegou lentamente
 no porto de uma pequena ilha, e antes que a âncora caísse, todo o ce-
 nário pareceu mudar e a luz ofuscante do passado apagou os quadros
 sombrios da civilização moderna. Ao invés de um navio inglês, eu es-
 tava em um veículo antigo impulsionado por uma força desconhecida
 hoje, até que os altos ruídos do desembarque me trouxeram de volta.
 Mas agora em terra firme, eu estava parado no cais fitando a
 cidade e a baía. A estranha luz e o veículo curioso de novo obtiveram
 domínio sobre os sentidos e os olhos, enquanto todos os majestosos
 anos esquecidos passavam na frente do oceano. Em vão a educação

 moderna lutou e avançou: eu deixei a cortina cair sobre o miserável
 presente.
 Agora, pode se ouvir suavemente o canto da água que se choca
 contra a praia, com o sol, uma hora após o nascer, brilhando sobre
 toda a superfície. Mas, distante, o que é o ponto no céu que se aproxi-
 ma, vindo do Oeste, seguido por outro e outro, até além do horizon-
 te, tendo aparecido centenas, e agora alguns estão tão próximos que
 podem ser plenamente vistos? Eram os mesmos veículos estranhos
 que eu havia visto anteriormente. Como pássaros, eles voam pelo ar.
 Eles vêm lentamente agora, e alguns foram trazidos para a terra. Eles
 iluminavam a terra com uma suavidade que parecem quase humanos,
 com uma habilidade maravilhosa, sem qualquer choque ou ricochete.
 Deles saem homens de semblante nobre que se dirigem a mim como
 amigos, e um mais nobre que os outros parece dizer: “Gostaria de sa-
 ber sobre tudo isso? Então siga-nos.” Enquanto ele se vira novamente
 para seu veículo, que estava parado lá, como um pássaro esperando
 para levantar voo.
 “Sim, eu irei”; e eu sentia que o passado e o presente eram um
 só, e sabia o que eu deveria ver, ainda assim conseguia me lembrar,
 mas com uma imprecisão que apagou todos os detalhes.
 Nós entramos no rápido veículo, que se movia inteligentemen-
 te, e então nos erguemos no ar e ele voou com braços abertos e nova-
 mente para o Oeste, de onde viera. Voamos ainda mais o leste da Ilha,
 onde a água ainda cantava suavemente com o toque dos raios de Sol.
 O horizonte lentamente se ergueu e a Ilha atrás de nós foi escondida
 de nossa vista pelo mar. E ainda, enquanto avançávamos em direção
 ao ocidente, muitos mais pássaros feitos pelo homem, como o que
 estávamos, voaram por nós como se ávidos pela água que cantava

 suavemente, lapidando a costa daquele pico da montanha do mar,
 que havíamos deixado no oriente. Voamos muito alto; no começo
 não ouvimos nenhum barulho do mar, mas logo um vapor úmido das
 profundezas de sal soprou no meu rosto, mostrando que estávamos
 descendo, e então meu amigo falou:
 “Olhe abaixo, a sua volta e diante de você!”
 Lá embaixo estava o rugido e ondas bravas que quebravam para o
 céu, vastas cavidades que sugavam um mundo. Nuvens pretas bloquea-
 vam o grande sol, e eu vi que a crosta da Terra estava atraída para suas
 próprias profundezas subterrâneas. Voltando-me agora para o mestre,
 vi que ele ouviu meu questionamento não formulado. Ele disse:
 “Um ciclo se completou. As grandes barras que mantinham o
 mar negro foram quebradas por seu peso. Delas nós viemos e conti-
 nuamos a vir.”
 Então, o nosso pássaro navegou mais rápido, e eu vi que a gran-
 de Ilha estava perecendo. O que havia restado da costa desmoronava,
 ainda sendo engolida pelo mar. E lá estavam carros voadores, como o
 que eu estava, mas eram pretos e inutilmente tentavam levantar voo
 com seus capitães; se erguendo lentamente, depois caindo e então
 sendo engolidos.
 Mas aqui estávamos longe, onde a água não havia transbordado,
 e agora nós vemos que poucos são os carros do ar brilhantes que estão
 aguardando enquanto o capitão deles entrava e estragava os podero-
 sos veículos pretos dos homens cujas roupas eram vermelhas e cujos
 corpos, enormes e incríveis, estavam adormecidos, como se por conta
 de uma fumaça inebriante.
 Enquanto esses bravos homens cochilavam, os capitães de pas-
 sos leves e mantos da cor do Sol finalizavam o trabalho de destruição.

 E agora, embora tenhamos vindo rapidamente, as águas correram
 atrás de nós, o hálito salgado das profundezas que tudo devora varria
 sobre nós. Os capitães da cor do Sol entram em seus leves carros aé-
 reos e sobem com uma varredura que logo deixa os dormentes, agora
 despertados, atrás deles. Os enormes gigantes de vestes vermelhas
 ouvem o rugido das águas e sentem as ondas frias rolando sobre si.
 Eles entram em seus veículos, mas apenas para perceber que todos os
 seus esforços eram em vão. Logo a terra desmoronando não mais os
 suporta, e todos são engolfados por uma impetuosa onda, arrastados
 para a foz do mar, e o oceano traiçoeiro que rugia, como se fosse de
 prazer pela conquista, reivindicou a última raça da Ilha. Mas um en-
 tre todos os gigantes vermelhos escapou, e lenta mas seguramente seu
 carro subiu, e subiu, como se para escapar dos homens de cor do Sol,
 que eram espoliadores.
 Então, soou alto, claro e emocionante uma nota do esplêndido
 poder de meu capitão, e centenas daqueles carros brilhantes e velo-
 zes, que se dirigiam para o leste, retornaram. Agora eles perseguem
 o carro pesado, vasto e lento do gigante, cercam-no e parecem evitar
 seus ataques. Então, novamente, surge aquela nota do meu mestre,
 quando nosso carro ainda está pendurado em suas asas. Era um sinal,
 obedecido imediatamente.
 Um carro brilhante, pequeno, com ponta afiada é direcionado
 totalmente para o veículo do gigante vermelho. Impulsionado por
 uma força que ultrapassa a velocidade de uma bala, ele perfura o ou-
 tro, sendo ele próprio quebrado e caindo nas ondas com sua vítima.
 Tremendo, eu olhei para baixo, mas meu capitão disse gentilmente:

 “Ele está a salvo, pois entrou em outro carro brilhante ao sinal.
 Todos aqueles homens de vermelho agora estão extintos, e aquele
 último era o maior e o pior de todos eles.”
 De volta para o Leste, uma vez mais através dos jatos de nevoa
 salgada até que logo a luz brilhante reluziu novamente e a Ilha se
 ergueu sobre o mar com o murmúrio suave da água de volta ao Sol.
 Nós pousamos e, em seguida, enquanto eu me virava, toda a frota de
 velozes carros voadores desapareceu, e no céu brilhou um raio bri-
 lhante de luz da cor do Sol formando letras que diziam:
 “Este é o lugar onde os Rishis estavam antes dos penhascos de
 calcário de Albion emergirem da onda. Eles eram, mas não são mais.”
 E alto, claro e emocionante aumentou aquela nota que eu havia
 ouvido no carro dos velozes pinhões. Isso me emocionou com triste-
 za, pois o passado foi glorioso e nada foi deixado para o futuro, a não
 ser o destino.
 BRYAN KINNAVAN
 Janeiro,
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 A vinda da serpente

 Os brancos raios iluminaram toda a ilha quando o Diamante
 na montanha encandeceu sua última luz e continuou ____ brilhando
 até que a cobra maligna, formada a partir do sangue da serpente, es-
 capou cruzando o oceano e chegou até a grande ilha distante. Então
 tudo ficou escuro como a noite para as pessoas. Desprovido de meu

 corpo, que repousava frio e sem vida ao lado do altar, eu pude ver o
 sumo sacerdote se debruçar por cima do corpo até que a escuridão
 crescente o preencheu com um alerta, que se transformou em terror.
 Quando ele se levantou, ouvi uma voz solene que ressoou por todo o
 espaço ao redor, proferindo as seguintes palavras:
 “O ciclo se completou. Completaste tua parte em teu trabalho,
 deixando apenas um pouco a ser feito na nova cobra maligna. Deves
 segui-la para as outras ilhas até que o destino te conduza a outro lu-
 gar. Não temas, mas prossegue com calma e coragem, pois estaremos
 sempre a teu lado, tanto na luz quanto na escuridão.”
 Um súbito desfalecimento tomou conta do meu corpo etéreo,
 formas sombrias se formaram ao meu redor, e eu sabia que estava
 voando para o leste com o vasto mar revolto abaixo de mim. Fugi sem
 parar, e logo pude sentir o cheiro da terra. Sobre a outra Ilha a oeste,
 eu estava flutuando em uma atmosfera carregada com emanações pe-
 sadas. Eu perdi a consciência — e então nasci em outra terra, na Ilha
 do Leste, e mesmo quando criança eu sabia que o sangue da serpente
 havia chegado antes de mim, eu sabia muito bem que um dia deveria
 encontrá-lo. Algum tempo se passou e eu me juntei aos Druidas, e
 um deles me contou da vinda da serpente.
 Meu instrutor e narrador era um homem alto e velho, com mais
 de um século de vida. Uma longa barba branca caía sobre seu peito.
 Grandes olhos azuis, que pareciam iluminados com uma luz própria,
 transpareciam a alma dele olhando para mim, mas eles tinham uma
 expressão forte e destemida. Penetravam o meu ser, mas carregavam
 calma e esperança com eles. Uma calma nascida de muitas vidas de
 lutas e triunfos, uma esperança que surgia de uma ampla e abrangente

 visão do futuro; pois ele era um vidente e conhecia o vaivém das ma-
 rés do tempo. Ele disse:
 “Meu rapaz, teus questionamentos provêm da experiência no
 passado. A serpente está nesta terra. Aqui chegamos muito tempo
 atrás, depois de séculos de observações, da costa da Ilha do Diamante,
 enquanto essa terra lentamente se erguia das profundezas para tocar
 a superfície da água e então emergir. Pois tua própria ilha é muito
 mais antiga do que essa. Plantamos no lodo enormes pedras de po-
 tência mágica quando ela se aproximava da superfície, e as mantive-
 mos no lugar com o mesmo poder, com esperanças de preparar com
 antecedência a chegada da Serpente, que sabíamos que estava por vir.
 Mas apenas os corações humanos e a força de vontade podem triun-
 far; pedras mágicas, amuletos e encantos servem apenas a um fim
 temporário. Muitos séculos assim se passaram, e depois que a terra se
 elevou, foi revestida pela vegetação e habitada pelas pessoas, nós vi-
 mos, com muito pesar, as emanações dos colonizadores se adensarem
 dia após dia.
 “Do outro lado do mar, a Montanha do Diamante lançava no
 horizonte uma suave e bela luz à noite, e uma neblina azulada de dia.
 Então, uma noite, enquanto estava com meus irmãos sentado para o
 Oeste, a luz no céu brilhou de repente com mais força. Nós sabíamos
 que havia chegado a hora. A escuridão se tornava maior à medida que
 a luz sagrada se desvanecia, e pelo ar um som sibilante cruzou o mar.
 Era o sangue da serpente, uma gota se transformou em uma cobra
 menor e então voou do Oeste. Esse foi o dia em que tu violaste as
 regras, estrangulaste a antiga serpente diante do altar e perdeste tua
 vida nas mãos do sumo sacerdote de uma religião falsa e dissimulada.

 “Em vão nossos cantos se elevaram ao redor das poderosas pe-
 dras que se erguiam majestosamente na planície. E assim continuou,
 cada vez mais alto, aquele silvo maligno; no chão, mesmo perto das
 pedras do Sol, a serpente caiu e desapareceu de nossas vistas.
 “Desde então sua influência funesta tem sido sentida sobre toda
 a Terra, e até a tua vinda nós não sabíamos quando um Libertador
 chegaria. Em ti está guardada a força para destruir os últimos vestí-
 gios do poder do sangue da serpente. Talvez teus amigos ancestrais
 ajudem, pois embora tu sejas o mais jovem aqui, és também mais
 velho que todos nós. Sê sábio e verdadeiro. Não esqueças os deveres,
 não omitas qualquer esforço; e um dia a última gota daquele sangue
 ofídico será modificada pelo teu poder e maestria, será transmutada
 em elixir.”
 BRYAN KINNAVAN
 Março de 1893.

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 Um romance ocultista

 Trabalhador incansável, o Sr. Judge estava sempre propondo
 novos planos de atividade. Nunca se sabia que ideia inovadora iria
 emanar de sua mente infatigável. Uma ideia com a qual ele ocupou
 alguns de seus momentos mais brilhantes foi a de um romance ocul-
 tista. A ideia dele era que uma amiga deveria escrevê-lo a partir de in-
 cidentes e material fornecido por ele próprio; e ele aderiu a essa ideia
 mesmo registrando os direitos autorais do título com o nome do seu

 autor, apesar de sua amiga rir-se protestando que ela jamais poderia,
 e nunca deveria, escrever um romance, a cujos protestos e declara-
 ções o Sr. Judge respondeu sorrindo: “Oh, sim, você escreverá quando
 chegar a hora.” De tempos em tempos ele enviava para essa amiga
 sugestões, acontecimentos e outros materiais para esse romance, o
 que ele fazia em pedaços de papéis avulsos, muitas vezes em papel ás-
 pero de embrulhos, anotados à noite sob a luz de um poste enquanto
 ele esperava por seu bonde, ou no tribunal, enquanto esperava que
 o caso no qual estava trabalhando começasse. Nesses rascunhos há
 também notas marginais, na medida em que aceitasse ou rejeitasse
 as ideias de sua própria mente prolífica. Essas notas estão registradas
 aqui como tais. Foi sugerido que o destinatário desse material deveria
 ainda escrever o romance como proposto, mas deixando de lado o
 fato de que ela poderia não estar segura de transmitir adequadamen-
 te as verdadeiras ideias do Sr. Judge; também foi considerado que os
 leitores preferirão ter as anotações precisamente como o Sr. Judge as
 escreveu.
 Segue a cópia da página do título:

 Em um cor po emprestado

 A Jornada de uma Alma
 Por
 J. CAMPBELL VERS PLANCK, M.S.T.113

 113 Membro da Sociedade Teosófica. (N.E.)

 O nome estava escrito com a letra do Sr. Judge, com esta nota
 marginal: “Direitos autorais enviados para Washngn114.”
 (Todas as “Notas” devem ser compreendidas como sendo notas
 marginais escritas pelo Sr. Judge, a menos que sejam referenciadas
 como sendo de outra pessoa.)115

 ANOTAÇÕES SOBRE

 Um Corpo Emprestado

 O ponto em questão não deve se voltar tanto para reencarnação,
 mas para o uso de um corpo emprestado, que seria um tipo diferente
 de reencarnação sobre o qual Arnold fala em Phra The Phoenician116.
 Isso também dará oportunidade de mostrar os outros dois tipos
 de reencarnação:
 a) Reencarnação comum, na qual não há qualquer me-
 mória da antiga personalidade, pois o corpo astral é novo;
 b) Exceção quanto ao corpo astral; mas semelhança de
 concepção com a dos casos mais comuns, em que a criança mantém
 o antigo corpo astral e, portanto, a memória da antiga personalidade
 e a familiaridade com o conhecimento e as habilidades que possuía.

 114 Possivelmente uma abreviação de “Washington”. (N.E.)
 115 Acréscimo por Jasper Niemand. (N.E.)
 116 Referência à obra de ficção The Wonderful Adventures of Phra The Phoenician [As
 Maravilhosas Aventuras de Phra, o Fenício], de Edwin Lester Lindon Arnold.
 (N.E.)

 UM CAPÍTULO

 A Reunião dos Skandhas

 Com a morte do corpo, o princípio Kāma reúne os Skandhas no
 espaço; ou, no renascimento do Ego, os Skandhas agrupam-se apres-
 sadamente e se reúnem em torno dele na nova vida.

 OUTRO CAPÍTULO

 A Revelação do Sol

 Existem o Sol real e o irreal. O real está escondido em um vaso
 de ouro, e o devoto reza:
 “Revela, Ó Pushan, a verdadeira face do Sol”, etc. Uma voz (ou
 outra) diz, “Tu és aquele vaso”, e assim ele sabe que só ele próprio
 esconde o verdadeiro Sol de si mesmo.
 Pushan é o guia, e observa o caminho para o Sol.
 O louvor do Sol e da Alma estão guardados em uma rosa ou
 lótus de ouro, no coração que é inexpugnável.
 O tema do livro não é sempre instrutor e discípulo.
 Ele primeiro se esforça normalmente por algumas vidas, e então
 em uma delas ele envelhece e se torna sábio; um dia, sentado diante
 de um templo em Madura, ele morre lentamente, e como uma visão
 desvanecente ele vê os Adeptos ao seu redor, ajudando-o; vê também
 uma criança pequena, que parece ser ele mesmo, e então tudo fica
 completamente escuro. Ele nasce em seguida de maneira usual. Duas

 vezes isso se repete, cada vez passando pelo útero, mas com o mesmo
 corpo astral.
 Então ele vive a terceira vida até os 49 anos,117 e mais uma
 vez está para morrer, e com a mesma ajuda ele escolhe uma criança
 estrangeira que está morrendo. Criança morrendo. Skandhas se agru-
 pando, o Ego da criança saindo — já partiu, a chispa da vida é fraca:
 familiares em volta da cama. Ele entra pelo caminho que a mente
 usou para sair e revivifica o corpo. Recuperação, juventude, etc., etc.
 Este é seu corpo emprestado.

 ANOTAÇÕES Nº
 Alguns Incidentes para o Livro

 I. Uma torre redonda usada pelos adoradores do fogo na Irlanda
 e outras ilhas em tempos antigos. Um templo está conectado a essa
 torre; uma estrutura singular — um sacerdote e um neófito. Pessoas
 abaixo da torre entrando nas terras do templo, já que a religião está
 em decadência. No topo da torre está o neófito, que em face do ceti-
 cismo dominante se apega à fé morta e ao grande sacerdote. O dever
 dele é manter o fogo aceso na torre, com madeiras aromáticas. Ele se
 inclina sobre o fogo; a chama é débil; a madeira parece estar verde;
 ele assopra; a chama queima brandamente; ele ouve as vozes dos que

 117 Compare a declaração de Judge em uma carta para Olcott, de 4 de março de
 1880: “Eu vivi uma vez na índia até os 19 anos, e duas vezes antes disso, cerca de
 2 ou 3 anos cada; assim, você pode ver, eu não sou muito mais jovem do que você,
 eu penso.” (“The Theosophist” de março de 1931.) Olcott nasceu em 1832, W.Q.J.
 em 1851. (Nota da edição original em inglês.)

 discutem e dos vendedores abaixo; vai até a torre e observa de cima
 enquanto o fogo lentamente se apaga. Ele é um jovem com expressão
 singular, não tão bonito, mas com uma face poderosa; olhos intensos;
 longos cabelos escuros e olhos contemplativos de um tom acinzenta-
 do incomum àquele cabelo; pele clara com uma luz oscilante sendo
 emitida a partir dela. Face sensível, ruboriza-se facilmente, mas de
 vez em quando assume um aspecto severo. Enquanto ele ainda ob-
 serva, o fogo se apaga. Nesse momento um homem alto e velho sobe
 as escadas e se põe de pé no topo da torre, do lado oposto, olhando
 para o fogo e depois para o jovem, e não desvia o olhar nem por um
 instante. Era um severo e poderoso olhar. Ele era muito alto, olhos
 castanho-escuros, cabelo grisalho, barba longa. O jovem sente o olhar
 dele e, ao se virar, vê o fogo completamente apagado, enquanto sua
 última pequena nuvem de fumaça está flutuando para além da torre.
 Eles olham um para o outro. Na face do jovem rapaz é perceptível o
 primeiro impulso desesperado de se desculpar, mas subitamente veio
 o pensamento de que desculpas são inúteis por serem infantis, pois
 ele sabia qual era o seu dever — manter a pequena espiral de fumaça
 sempre conectando o céu com a terra, na esperança, embora vã, de
 que assim a velhice sofresse um encantamento para ser revertida. O
 velho ancião levanta sua mão, aponta para fora da torre e diz: “Vá.” O
 jovem rapaz desce.

 II. Uma batalha. No extremo calor, um jovem soldado, armado
 até os dentes, lutava como se não importasse ganhar ou perder, mor-
 rer ou viver. Armas estranhas, sons e nuvens.
 Ferido, sangrando. É o mesmo jovem da torre. Ele cai gradual-
 mente, é feito prisioneiro. Está em uma cela, condenado, pois eles

 temem seu poder espiritual. Conflito entre o último remanescente da
 velha religião e a nova fé egoísta.
 Levado para sua execução. Dois algozes. Eles o amarram em
 pé e se posicionam atrás e ao lado; cada um segura uma arma longa e
 reta com uma lâmina curva e cega, curvada para (adaptar-se?)118 em
 volta do pescoço. Eles ficam em lados opostos, colocam aquelas lâmi-
 nas curvas e sem corte segurando seu pescoço, enganchando-o. Eles
 puxam — um som nauseante: sua cabeça violentamente arrancada
 próximo ao ombro, deixando uma borda irregular. O corpo balança
 e cai. Foi essa maneira como eles fizeram a violenta partida de uma
 alma nobre, pois pensavam que ela ficaria presa na esfera astral ter-
 restre por muitas eras.

 III. Esse jovem novamente. Ele se aproxima de um velho (o
 mesmo da torre). O jovem segura pergaminhos e flores nas mãos,
 aponta para os pergaminhos e pede explicações. O ancião diz: “Agora
 não; quando eu voltar eu lhe direi.”

 NOTA: Guarde isso, Julius.
 W.Q.J.
 Z.L.Z.

 118 Acréscimo pela edição original em inglês. (N.E.)

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 O próximo lote de anotações é encabeçado por uma única pa-
 lavra: “Livro”. Em seguida há quatro linhas, em taquigrafia. Depois
 disso, as palavras:

 “Acontecimentos mostrando por meio de imagens a vida dele
 em outras épocas; as torres; a batalha; a morte; a busca pelo conheci-
 mento; e o sentimento expresso nas flores.”
 Eusebio Rodriguez de Undiano119 foi um tabelião na Espanha que
 encontrou entre os pertences de seu pai muitos pergaminhos antigos, es-
 critos em uma língua que ele desconhecia. Ele descobriu que essa língua
 era árabe e, para decifrá-los, ele a aprendeu. Eles continham a história.
 Nota: Nenhum iniciado; Lytton apenas.

 Eusebio de Undiano é apenas um dos velhos camaradas renas-
 cidos na Espanha que procuram, como Nicodemos, pela luz.
 Nota: Sim.

 Ensebio de Undiano encontra nos pergaminhos de seu pai a
 confirmação do que a posse do corpo muitas vezes lhe disse.
 Nota: Sim.

 Essa pessoa no corpo nunca deu seu nome a ninguém e não
 tem nome.

 119 Compare os pseudônimos do Sr. Judge, “Eusebio Urban” e “Undiano”.

 Uma história autobiográfica? Não? Sim! Narrada por alguém
 que foi impressionado; por um admirador que suspeitou de algo?
 Não; porque isso é evidência de boatos; a prova está incompleta, en-
 quanto ele próprio relatá-la ou a faz verdade ou uma simples fantasia
 insana. É melhor ser insano do que ser o instrumento de outro.
 Atenha-se à torre e ao episódio da decapitação. Que ele seja
 aquele jovem; e após a perda da cabeça, ele vagueia no Kāma-loka e
 lá ele vê o velho que foi morto na torre logo após o fogo se extinguir.
 O velho diz a ele que contará tudo quando eles retornarem à terra.
 Ele vagueia pelos arredores da torre em busca de um nascimen-
 to, até que um dia vê formas vagas, aparecendo e desaparecendo de
 repente. Eles não estão vestidos como seus compatriotas lá embaixo,
 na terra. Isso continua. Eles parecem amigáveis e familiares; um deles
 pede para ele ir com eles, ele se recusa. Eles são mais poderosos do
 que ele; apesar de não o compelirem, eles demonstram sua força. Um
 dia um deles conversava com ele; mas ele recusa novamente, a menos
 que algo mostrasse a ele que ele deveria ir. Logo em seguida ele ouve
 o som de um sino, como nunca tinha ouvido antes. O som vibra atra-
 vés dele; parece abrir perspectivas de um passado estranho, e em um
 instante ele consente em ir.
 Eles chegam ao sul da Índia, e lá ele vê o velho da torre, a quem
 ele se dirige, e novamente faz a veemente pergunta sobre o pergami-
 nho. O velho repete o mesmo que antes e acrescenta que é melhor ele
 voltar ao mundo naquele lugar.
 Escuridão e silêncio. O dia claro e quente. A ausência de chuva.
 Depois de ouvir o velho homem, ele consente interiormente em as-
 sumir a vida ali, e logo surge uma forte tempestade; a chuva castiga,
 e ele se sente carregado para a terra em uma profunda escuridão. Um

 barulho ressoa sobre ele. É o barulho das plantas em crescimento. É
 um campo de arroz com um pouco de gergelim. A umidade desce e
 causa a expansão; ele olha ao redor, tudo é movimento e vida. En-
 capsulado na esfera de um pequeno grão de arroz, ele lamenta seu
 destino. Ele nasceu na casa de um brāhmin.
 Nota: Deveria a questão da reencarnação — através da nuvem,
 da chuva e da semente, e, portanto, da semente do homem — ser
 aprofundada?

 Ele é o jovem. Ele sabe muito. Ele morre aos dezenove. Formas
 estranhas ao redor de sua cama que o seguram. Elas o carregam de
 volta para a terra das torres. Ele a reconhece novamente, e percebe
 que séculos se passaram desde que o fogo se apagou, e no ar ele perce-
 be formas estranhas e vê incessantemente uma mão como a do Desti-
 no, apontando para aquela Ilha. As torres desapareceram, assim como
 os templos e os monumentos. Tudo está alterado. Elas o levam para
 uma cidade populosa, e quando ele se aproxima vê sobre uma casa
 uma grande comoção no ar. Formas se movendo. Flashes brilhantes e
 nuvens como se fossem de fumaça. Eles entram no quarto, e na cama
 está a forma de um menino que está prestes a morrer, com os parentes
 chorando. Seus guias perguntam se ele vai tomar emprestado aquele
 corpo prestes a ser abandonado e usá-lo para o bem da Loja deles.
 Ele consente. Eles o alertam sobre os riscos e os perigos.
 A respiração do menino cessa e seus olhos se fecham, e um flash
 brilhante é visto saindo dele (do corpo)120. Ele vê o sangue desace-
 lerando. ELES o empurram, e ele se sente na escuridão de novo. O

 120 Acréscimo pela edição original em inglês. (N.E.)

 menino revive. O médico se enche de esperança. “Sim; ele vai se re-
 cuperar, com cuidado.” Ele se recupera facilmente. Há uma mudança
 em seu caráter. Sente-se estranho em seu ambiente, etc.
 O lugar na Índia para onde ele foi após a morte, que foi, nova-
 mente, repentina (como?)121. Um grande edifício branco. Mármore
 brilhante. Passos. Pilares. Um buraco que tem um brilho amarelado
 que parece água. A instrução quanto ao trabalho a ser feito, e a via-
 gem até o local da torre em busca de um corpo para pedir empresta-
 do. Quanto aos corpos abandonados pelo próprio inquilino, eles po-
 deriam viver se bem conhecidos e bem conectados com a nova alma.
 A diferença entre um nascimento assim e um nascimento comum,
 em que a alma realmente possui o corpo, e entre aqueles corpos de
 pessoas insanas que não estão abandonados, mas nos quais os donos
 de fato vivem do lado de fora. Os corpos de pessoas insanas não são
 usados ​​porque a própria máquina está avariada, e seria inútil para a
 alma de uma pessoa sã.
 Nota: Julius; guarde estas anotações. Vou enviá-las de vez em
 quando. Mas antes de você ir embora, retorne-as para mim para que
 eu possa manter a sequência. Pode mudar o esquema. O motivo está
 no título que passei a você.

 Observe que quem não viveu conscientemente a vida dupla de
 um homem que esteja fazendo uso e em posse de um corpo que não é
 o seu próprio não poderá saber da agonia que tantas vezes recai sobre
 alguém em tal caso. Não sou o dono original deste corpo que agora
 uso. Ele foi feito para outro, e por pouco tempo usado por ele, mas na

 121 Acréscimo pela edição original em inglês. (N.E.)

 tormenta da doença ele o deixou aqui para ser enterrado, e esse corpo
 teria sido colocado na terra se eu não o tivesse tomado, vivificado suas
 energias moribundas e o mantido por alguns anos de provações, por
 meio de doenças e acidentes. Mas o primeiro dono não esteve nesse
 corpo por tempo suficiente para plantar quaisquer sementes proble-
 máticas de doenças; ele deixou uma herança de bom sangue familiar
 e maravilhosa resistência. Parece inconcebível, ao menos, que ele te-
 nha deixado essa forma tão bem adaptada para viver, a menos que não
 pudesse usá-la, doente ou não, para qualquer dos seus propósitos. De
 qualquer forma, é meu agora, contudo, embora no início eu achasse
 que havia sido uma grande aquisição, são muitas as vezes em que eu
 gostaria de não ter tomado a estrutura de outro homem, mas de ter
 vindo à vida da maneira usual.

 Alguns acontecimentos para o livro

 O Episódio da Carta e da Imagem

 Havia um velho homem muito curioso (descrição suficiente a
 acrescentar)122.
 Enviou uma pequena cartolina na qual havia uma imagem,
 uma cabeça, e sobre ela parecia estar colocada uma fina folha de pa-
 pel, colada nas laterais e atrás. Ele perguntou se eu poderia dizer-lhe
 algo sobre a imagem, que era visível através do fino papel. Com muita

 122 Acréscimo pela edição original em inglês. (N.E.)

 curiosidade levantei o papel, e imediatamente parecia estar impresso,
 na parte de baixo, um círculo vermelho que rodeava a cabeça na carto-
 lina. Em um instante, o círculo se tornou preto, e o mesmo aconteceu
 com todo o espaço interno, incluindo a cabeça, que foi então oblite-
 rada. No outro, o círculo vermelho parecia pegar fogo por dentro e,
 então, toda a parte incluída queimava. Ao examinar o papel fino do
 lado de baixo, havia vestígios de um círculo, como se fosse uma cola.
 Ele riu e disse que a curiosidade nem sempre é recompensada.
 Levei a vários químicos em Paris, que disseram que não conhe-
 ciam qualquer substância que pudesse fazer isso. O velho químico da
 Irlanda disse que havia uma substância muito destrutiva, chamada
 flúor, que poderia ser liberada assim e causar tal reação, mas que era
 apenas usada por químicos e analistas.

 (Nota do compilador: Em suas viagens, o Sr. Judge conheceu
 muitas pessoas estranhas e viu algumas paisagens extraordinárias. De
 vez em quando ele contava sobre alguma delas para que fosse incluí-
 da no romance, mas apenas dessa forma inacabada e vaga. Quando
 solicitado para que contasse mais, ele sorria e balançava a cabeça di-
 zendo: “Não, não. Os irmãozinhos mais novos devem terminá-la.”)123

 Outro Episódio

 O templo no local da atual cidade de Conjeveram estava para
 ser consagrado, e os sacerdotes regulares estavam todos prontos para

 123 Acréscimo pela edição original em inglês. (N.E.)

 a cerimônia. Cerimônias menores aconteceram na colocação da pe-
 dra fundamental, mas o presente evento deveria exceder aquela oca-
 sião em importância. Um grande corpo de fiéis se reuniu não para
 satisfazer a curiosidade, mas para receber os benefícios espirituais
 da ocasião, e encheram o edifício, de modo que eu não pude entrar.
 Fui, portanto, compelido a ficar bem na beira da porta, e aquele foi,
 como descobri depois, o melhor lugar que eu poderia ter escolhi-
 do se eu soubesse com antecedência o que aconteceria. Poucos dias
 antes, muitos ascetas errantes haviam chegado e acampado em um
 local próximo ao templo, mas ninguém se importava muito com isso
 porque todos estavam acostumados a ver essas pessoas. Não havia
 nada de anormal sobre esses homens, e tudo o que poderia ser dito
 é que uma espécie de ar misterioso pairava sobre eles. Uma ou duas
 crianças declararam que, em uma noite, nenhum dos visitantes foi
 encontrado em seu acampamento, nem havia qualquer evidência de
 que os homens estiveram lá. Mas ninguém acreditou nelas, porque os
 ascetas estavam lá como de costume na manhã seguinte. Dois velhos
 homens na cidade disseram que os Visitantes eram Devas em sua
 “forma ilusória”, mas havia muita empolgação com a dedicação aos
 preparativos para permitir que se pensasse muito sobre o assunto. O
 evento, no entanto, provou que os velhos estavam certos.
 No momento em que as pessoas no templo esperavam a chega-
 da dos sacerdotes, todo o corpo de ascetas apareceu na porta com um
 homem de aparência maravilhosa como um sábio tomando a frente
 dos demais; eles entraram no edifício da maneira formal dos sacerdo-
 tes, e estes, ao chegar, não se incomodaram, mas tomaram os lugares
 que puderam, simplesmente dizendo: “Eles são os Devas.” Os desco-
 nhecidos continuaram com as cerimônias, e, o tempo todo, uma luz

 preenchia o edifício e ressoava música pelo ar, sobre os adoradores
 maravilhados.
 Quando chegou a hora de eles irem, todos seguiram o líder em
 silêncio até a porta. Eu podia ver o interior e, como estava na porta,
 também podia também ver o exterior. Todos os ascetas chegaram à
 entrada, mas nenhum foi visto passando por ela, e nem foi percebido
 por qualquer homem na cidade novamente. Eles se desintegraram
 na soleira. Essa foi a última aparição deles, pois a sombra da era das
 trevas estava sobre o povo, impedindo tais visões no futuro. O acon-
 tecimento foi tema de conversas durante anos, e tudo foi registrado
 nos arquivos da cidade.

 Em um corpo emprestado

 Devo contar-lhe primeiro o que me aconteceu nesta vida atual,
 pois é nesta que estou lhe contando sobre muitas outras vidas mi-
 nhas. Fui um simples estudante de nossa alta Filosofia por muitas
 vidas na Terra, em vários países, e então, finalmente, desenvolvi em
 mim mesmo um desejo de ação. Assim, eu morri mais uma vez, como
 tantas vezes antes, e renasci novamente na família de um rajah, e com
 o tempo cheguei a sentar em seu trono após sua morte. Dois anos
 depois daquele triste acontecimento, um dia, um velho brāhmin er-
 rante veio até mim e perguntou se eu estava pronto para seguir meus
 votos de vidas anteriores muito distantes e ir fazer algum trabalho
 para meu antigo mestre em uma terra estrangeira. Pensando que isso
 significava apenas mais uma jornada, eu disse que sim.

 “Sim”, disse ele, “mas não é apenas uma jornada. Isso fará com
 que você esteja aqui e ali todos os dias e anos. Hoje aqui, à noite ali.”
 “Bem”, eu respondi, “farei até isso, pois há condições em meus
 votos e o mestre ordena.”
 Eu sabia da ordem, pois o velho brāhmin me deu o sinal mar-
 cado em minha testa. Ele tomou minha mão e, cobrindo-a com sua
 faixa, traçou o sinal na palma da minha mão sob o pano, fazendo com
 que se destacasse em linhas de luz diante dos meus olhos.
 Ele foi embora sem nenhuma outra palavra, como você sabe
 que costumam fazer, deixando-me em meu palácio. Adormeci com
 o calor, apenas com o fiel Gopal ao meu lado. Sonhei e pensei que
 estava ao lado da cama de uma simples criança, um menino, em uma
 terra estranha, não familiar para mim, só que as pessoas se pareciam
 com o que eu conhecia dos europeus. O menino estava deitado como
 se estivesse morrendo, e os parentes estavam todos em volta da cama.
 Um sentimento estranho e irresistível aproximou-me da crian-
 ça e por um momento senti neste sonho como se estivesse para perder
 a consciência. Com um sobressalto, acordei em meu próprio palácio
 — no tapete onde havia adormecido, sem ninguém além de Gopal
 por perto, e nenhum ruído além do uivo de chacais perto da esquina
 do edifício.
 “Gopal”, eu disse, “por quanto tempo eu dormi?”
 “Cinco horas, senhor, desde que um velho brāhmin partiu, e a
 noite está quase acabando, amo.”
 Eu ia perguntar-lhe alguma outra coisa quando mais uma vez
 a sonolência tomou conta dos meus sentidos, e mais uma vez sonhei
 com a pequena criança estrangeira moribunda.

 A cena mudou um pouco, outras pessoas entraram, havia um
 médico lá, e o menino olhou para mim, sonhando tão vividamente,
 como se estivesse morto. As pessoas choravam e sua mãe se ajoelhou
 ao lado da cama. O médico encostou a cabeça no peito da criança por
 um momento. Quanto a mim, fui atraído novamente para mais perto
 do corpo, e pensei que certamente as pessoas estavam estranhas, pois
 não podiam me notar. Elas agiam como se nenhum desconhecido
 estivesse ali, e eu olhei para minhas roupas e vi que eram orientais
 e bizarras para elas. Uma linha magnética parecia me puxar para a
 forma da criança.
 E naquele momento, ao meu lado, eu pude ver o velho brāhmin
 de pé. Ele sorriu.
 “Esta é a criança”, ele disse, “e aqui você deverá cumprir parte
 dos seus votos. Rápido, agora! Não há tempo a perder, a criança está
 quase morta. Essas pessoas acreditam que já não há esperanças. Veja,
 o médico acaba de dizer as temidas palavras, ‘ele está morto’!”
 Sim, eles choravam. Mas o velho brāhmin colocou as mãos so-
 bre a minha cabeça e, me deixando levar por seu toque, senti como
 se estivesse adormecendo, a sonhar. Um sonho dentro de um sonho.
 Mas eu acordei no meu sonho, no entanto não no meu antigo tape-
 te, ao lado de Gopal. Eu era aquele menino, pensei. Eu via por seus
 olhos, e perto de mim eu ouvi como se sua alma tivesse escorregado
 para o éter com um suspiro de alívio. O médico se voltou mais uma
 vez,, e eu abri meus olhos — os olhos do menino — para ele.
 O médico estremeceu e ficou pálido. Para outro, ouvi-o sus-
 surrar “é uma reação nervosa automática”. Ele se aproximou, e a in-
 teligência naquele olho o deixou pálido. Ele não viu o velho brāhmin
 fazendo passes sobre o corpo em que eu estava, dos quais eu senti

 grandes ondas de calor e a vida passando sobre mim — ou sobre o
 menino.
 E, no entanto, tudo isso agora parecia real, como se minha
 identidade estivesse fundida na do menino.
 Eu era aquele menino, e ainda estava confuso; sonhos vagos pa-
 reciam passar pela minha cabeça vindos de algum outro plano, onde
 eu pensava que estava de novo, e tinha um servo fiel chamado Gopal;
 mas isso deve ser um sonho, esta é a realidade. Pois nunca havia visto
 minha mãe e meu pai, o velho médico e a babá por tanto tempo em
 nossa casa com as crianças. Sim; claro que esta é a realidade.
 E então sorri debilmente, por causa do que o médico disse:
 “Extraordinário. Ele reviveu. Ele continua vivo.” Ele estava me-
 dindo a pulsação lenta, e notava que a respiração aos poucos voltava
 e que a vitalidade parecia mais uma vez retornar à criança, mas ele
 não viu o velho brāhmin em seu corpo ilusório enviando correntes de
 vida de sobre o corpo do menino, que sonhou que tinha sido um rajah
 com um fiel servo chamado Gopal. Então, no sonho, o sono pareceu
 cair sobre mim. Uma sensação de queda veio ao meu cérebro, e com
 um sobressalto acordei em meu palácio em próprio tapete. Virando-
 -me para ver se meu servo estava lá, eu o vi parado como se estivesse
 tomado por imensa tristeza ou medo por mim.
 “Gopal, por quanto tempo eu dormi dessa vez?”
 “Já é de manhã, mestre, e temi que você tivesse ido para os do-
 mínios de Yama e deixado seu Gopal para trás.” Não, eu não estava
 dormindo. Isso era realidade, e esses eram meus próprios domínios.
 E assim este dia se passou como todos os outros, exceto que o sonho
 do pequeno garoto em uma terra estrangeira veio à minha mente du-
 rante todo o dia até a noite, quando me senti mais sonolento do que

 o normal. Mais uma vez, dormi e sonhei. O mesmo lugar e a mesma
 casa, só que agora era de manhã ali. Que sonho estranho pensei ter
 tido; quando o médico entrou com minha mãe e se curvou sobre
 mim, ouvi-o dizer baixinho:
 “Sim, ele vai se recuperar. A noite de sono lhe fez bem. Leve-o,
 quando ele puder, para o campo, onde possa ver e andar na grama.”
 Enquanto ele falava, vi atrás dele a forma de um homem de
 aparência estrangeira com um turbante. Ele se parecia com as ima-
 gens dos brāhmins que eu vi nos livros antes de ficar doente. Depois
 fiquei muito confuso e disse à minha mãe: “Tive dois sonhos por duas
 noites, o mesmo em cada um deles. Sonhei que era um rei e tinha
 um servo fiel por quem eu lamentava, pois gostava muito dele; e era
 apenas um sonho, e ambos se desvaneceram.”
 Minha mãe me acalmou e disse: “Sim, sim, meu querido.”
 E assim aquele dia se passou, como passam os dias para meni-
 nos doentes, e no início da noite eu adormeci profundamente como
 um menino em uma terra estrangeira, em meu sonho, mas não sonhei
 mais como sendo um rei, e como antes eu parecia cair, até que acordei
 novamente em meu tapete em meu próprio palácio, com Gopal sen-
 tado perto. Antes que eu pudesse me levantar, o velho brāhmin, que
 havia partido, entrou, e eu pedi para Gopal nos deixar a sós.
 “Rama”, disse ele, “como menino, você não sonhará em ser rajah,
 mas agora você deve saber que todas as noites, como rei adormecido,
 você é um menino acordado em uma terra estrangeira. Cumpra bem
 seu dever e não falhe. Levará alguns anos, mas o carro do Tempo, que
 nunca para, continua. Lembre-se de minhas palavras.” E então ele
 passou pela porta aberta.

 Assim, eu soube que aqueles sonhos com um menino estrangei-
 ro doente não eram meros sonhos, mas sim lembranças, e eu estava
 condenado todas as noites a reanimar aquela pequena criança que
 acabava de escapar da morte, como acreditavam seus parentes. Mas
 eu sabia que por muitos anos sua mente não se conheceria e sempre
 se sentiria estranha em seu meio, pois, de fato, aquele menino era eu
 mesmo, por dentro, e ele, por fora; seus amigos não viam que ele havia
 partido e que outro havia tomado seu lugar. Toda noite, eu, como ra-
 jah adormecido, que conhecia as palavras dos sábios, seria um menino
 estrangeiro ignorante até que, no lapso de anos e por meio de um
 esforço incessante, eu aprendesse a viver duas vidas ao mesmo tempo.
 No entanto, no início parecia horrível o pensamento de que, embora
 minha vida naquela terra estrangeira como um jovem em crescimen-
 to não fosse perturbada por vagos sonhos de poder independente
 como rajah, eu sempre, quando acordasse em meu tapete, teria uma
 clara lembrança daquilo que a princípio parecia apenas sonhos de
 ser um rei, com vívido conhecimento de que, enquanto meu fiel ser-
 vo observava minha forma adormecida, eu estava disfarçado em um
 corpo emprestado, indisciplinado como o vento. Assim, como um
 menino, eu posso ser feliz, mas como um rei, infeliz, talvez. E então,
 depois que eu me acostumasse a essa vida dupla, possivelmente mi-
 nha mente e meus hábitos estrangeiros dominariam tanto o corpo do
 menino, que a existência ali cresceria cheia de dor devido à luta com
 um ambiente totalmente em guerra com o pensador interno.
 Mas um voto, uma vez feito, deve ser cumprido, e o Pai Tempo
 devora todas as coisas, e também os séculos.

 N O TA S B I O G R Á F I C A S

 O esboço de Jasper Niemand sobre a vida do Sr. Judge foi con-
 sideravelmente ampliado nesta edição das CARTAS, pela adição do
 material retirado de sua história em quatro partes de W.Q.J., publica-
 do por A.E. (George Russell)124 no “Irish Theosophist”, começando
 em fevereiro de 1896. Este relato, ela própria resumiu, evidentemen-
 te, ao preparar o segundo livro de cartas.
 Quase todas as citações foram também ampliadas pela referên-
 cia aos textos completos na “Path Magazine” (então começando seu
 primeiro ano sob o nome de “Theosophy”)125, onde artigos sobre o Sr.
 Judge por seus alunos e amigos continuaram a aparecer por três me-
 ses. Alguns deles foram adicionadas aqui, bem como cartas e artigos
 de especial relevância.
 Esta seção também não estaria completa sem as próprias pa-
 lavras de W.Q.J. — a descrição de seu primeiro encontro com a Sra.
 Blavatsky. O relacionamento assim renovado entre HPB e seu “ami-
 go, irmão e filho” — W.Q.J. — fala por si mesmo:
 “Foi o olho dela que me atraiu — o olho de alguém que devo
 ter conhecido em vidas que se foram há muito tempo. Ela olhou para
 mim em reconhecimento naquela primeira vez, e nunca mais aquele
 olhar se alterou. Eu me apresentei a ela não como um questionador

 124 George William Russel (1867-1935) foi um escritor anglo-irlandês que usava o
 pseudônimo de A.E. Era aluno de HPB, tendo se filiado à ST em 1887. Em 1895,
 ele seguiu o grupo liderado por Judge, desligando-se da ST de Adyar. Muitos de
 seus poemas, de natureza mística, refletem seus conhecimentos teosóficos. (N.E.)
 125 Acréscimo pela edição original em inglês. (N.E.)

 de filosofias, nem como alguém tateando no escuro em busca de lu-
 zes que escolas e teorias fantasiosas haviam obscurecido, mas como
 alguém que, vagando por muitos períodos pelos corredores da vida,
 procurava pelos amigos que pudessem mostrar onde os projetos para
 a obra haviam sido escondidos. E fiel ao chamado, ela respondeu,
 revelando os planos mais uma vez; e sem precisar falar nenhuma pa-
 lavra para explicá-los, simplesmente os apontou e continuou a tarefa.
 Foi como se tivéssemos nos separado na noite anterior, deixando ain-
 da algo por fazer de uma tarefa assumida para um fim comum; era
 instrutora e aluno, irmã mais velha e irmão mais novo, ambos incli-
 nados a um único fim, porém ela com o poder e o conhecimento que
 pertencem apenas a leões e sábios. Portanto, amigos, desde o início
 me senti seguro.”

 William Q. Judge

 William Quan Judge, filho de Alice Mary Quan e Frederick H.
 Judge, nasceu em Dublin, Irlanda, em 13 de abril de 1851. Seu pai era
 maçom e estudante de misticismo. Sua mãe morreu jovem, dando à
 luz seu sétimo filho. O rapaz foi criado em Dublin até os 13 anos de
 idade, quando o pai se mudou para os Estados Unidos com seus fi-
 lhos órfãos de mãe, embarcando no Inman Liner, “City of Limerick”,
 que chegou ao porto de Nova Iorque em 14 de julho de 1864. Sobre
 a infância de William, há pouco a dizer, embora tenhamos ouvido
 falar de uma doença memorável em seu sétimo ano de vida — uma
 doença supostamente mortal. O médico declarou que o pequeno so-
 fredor estava morrendo, e em seguida, morto; mas, na explosão de

 tristeza que se seguiu ao anúncio, foi descoberto que a criança havia
 ressuscitado e que tudo estava bem com ele. Durante a convalescença,
 o menino mostrou aptidões e conhecimentos nunca antes apresen-
 tados, provocando admiração e questionamento entre os mais velhos
 sobre quando e como ele aprendera todas essas coisas novas. Ele pa-
 recia o mesmo, mas ainda assim diferente; ele teve que ser averiguado
 novamente por sua família e, embora ninguém soubesse que ele havia
 aprendido a ler126, desde sua recuperação, em seu oitavo ano de vida, o
 encontravam devorando o conteúdo de todos os livros que conseguia
 obter, relativos a Mesmerismo, Frenologia, Leitura do Caráter, Reli-
 gião, Magia, Rosacrucianismo, e ficou profundamente fascinado pelo
 Livro do Apocalipse, tentando descobrir seu real significado.
 Talvez o elo magnético, tão abruptamente renovado após a
 doença, nunca tenha sido totalmente vitalizado no sentido físico, pois
 o rapaz nunca adquiriu um físico forte. Sem estar adoentado, ele era
 frágil, mas indomável e perseverante além de sua idade. Uma anedota
 de sua infância ilustra esses traços. Ele estava com outros meninos
 na margem de um riacho. Seus companheiros nadaram até uma ilha
 um pouco longe da margem, de cujo terreno vantajoso zombaram
 de seu colega mais jovem, que não sabia nadar. O pequeno coração
 de William rebelou-se dentro dele; ele mergulhou na água, decidido
 a chegar àquela ilha ou morrer. Quando chegou na parte do rio que
 não dava mais pé, ele se deixou afundar, tocou o fundo, correu alguns
 passos nas profundezas do rio, levantou-se, é claro, chutou, afundou,
 deu um passo e outro, repetiu o processo, e assim lutando, subindo,

 126 Comparar o relato em “Conversas à Mesa de Chá,” p. 152. (Nota da edição origi-
 nal em inglês.)

 afundando, tropeçando e, acima de tudo, prendendo a respiração,
 chegou de fato à margem da ilha, para ser arrastado, meio incons-
 ciente, por seus atônitos companheiros de brincadeira. Nada poderia
 ser mais característico do Sr. Judge.
 O velho Judge, com seus filhos, morou por um breve período
 no antigo Hotel Merchants, na Cortland Street, em Nova Iorque;
 em seguida, na Tenth Street, e depois se estabeleceu no Brooklyn.
 William começou a trabalhar em Nova Iorque como escriturário, e
 depois ingressou no Escritório de Advocacia de George P. Andrews,
 que mais tarde se tornou Juiz da Suprema Corte de Nova Iorque. Lá
 o rapaz estudou Direito enquanto morava com o pai, que, no entanto,
 morreu logo depois. Ao atingir a maioridade, William Q. Judge foi
 naturalizado cidadão dos Estados Unidos, em abril de 1872. Em maio
 daquele ano, foi admitido na Ordem dos Advogados de Nova Iorque.
 Seus traços marcantes como advogado, no exercício do Direito Co-
 mercial, que se tornou sua especialidade, foram sua meticulosidade,
 sua inflexível persistência e seu trabalho, que conquistou o respeito de
 empregadores e clientes. Como foi dito dele, então e depois:
 “Judge andaria sobre brasa quente daqui até a Índia para cum-
 prir seu dever.”
 Em 1874, ele se casou com Ella M. Smith, do Brooklyn, com
 quem teve uma filha, uma garotinha de grande encanto e futuro pro-
 missor, cuja morte, muito cedo na infância, foi por muito tempo uma
 fonte de profunda, embora silenciosa, tristeza para ambos. O Sr. Jud-
 ge, em especial, gostava muito das crianças, e tinha o dom de atraí-las
 ao seu redor. Quando ele desenhava no convés de um navio a vapor,
 as crianças se esgueiravam, chegando cada vez mais perto, até que es-
 tivessem empoleiradas onde pudesse haver um lugar — muitas vezes,

 antes que ele parecesse notar a presença delas. Os filhos de seus ami-
 gos sempre o recebiam com alegria, e não era raro ele ser arrastado
 para o chão, o parquinho comum às crianças, em meio aos brinquedos
 delas. Uma criança, na companhia dele, certamente encontraria o re-
 fúgio de seus braços, e ali se aninharia enquanto a discussão metafísica
 prosseguia acima dos cachos de cabelo dela. Mas, por mais animada
 que fosse a discussão, não era de se surpreender que aquela pequena
 forma, tão suavemente embalada, seria tão pouco perturbada.
 Logo após seu casamento, o Sr. Judge ouviu falar de Madame
 Blavatsky, da seguinte forma. Ele encontrou um livro que muito o
 interessou: People from the Other World127, de H.S. Olcott.
 O Sr. Judge escreveu ao Coronel Olcott pedindo o endereço de
 um bom médium, pois nessa época a maré de investigação e de espe-
 culação ocultas tinha acabado de se estabelecer, e as experiências de
 várias pessoas, incluindo as de Madame Blavatsky, na “Fazendola dos
 Eddy128” eram o assunto de todo o mundo. Embora nenhum médium
 estivesse disponível, o Sr. Judge foi convidado a visitar HPB.
 O encontro aconteceu na Irving Place nº 40, em Nova Iorque,
 e H.P. Blavatsky então, pela primeira vez nesta vida, encontrou seu
 mais devotado aluno e amigo cara a cara129, em um relacionamento
 que continuou inabalável e justificou o que a própria H. P. Blavat-
 sky escreveu sobre ele — “até a morte e além”. Houve momentos

 127 Pessoas do Outro Mundo. (N.E.)
 128 No original: “homestead”. Essa palavra tem significado semelhante a “farm”, que cor-
 responde a “fazenda” em português, mas trata-se de uma fazenda pequena. (N.E.)
 129 Para os relatos do Sr. Judge a respeito deste primeiro encontro, ver a citação de seu
 artigo “Yours Till Death and After” (Seu até a morte e além), publicado na revista
 “Theosophy”, V, 289. (Nota da edição original em inglês.)

 tempestuosos, sem dúvida, bem como momentos em que o sol bri-
 lhava em sua mais intensa forma, pois o discípulo era detentor de
 uma mente poderosa e a instrutora era a esfinge de sua época, de
 modo que as lutas intelectuais seguiram como uma sequência natural;
 mas o que quer que o discípulo pensasse da instrutora foi dito a ela,
 corajosamente — nenhuma dúvida, nenhum medo ficavam escon-
 didos quando surgiam essas questões, como devem surgir, quando
 chega a hora da instrução oculta e desponta a provação. Que HPB
 honrou essa abertura, é evidenciado por suas longas cartas — há al-
 gumas com quarenta e oito páginas —, em que muitos enigmas são
 explicados com profundo afeto.
 Houve uma tentativa recente de tirar proveito de algum episó-
 dio passageiro, transformando-o em uma inimizade prolongada da
 parte do Sr. Judge para com HPB. Novatos, talvez, em sua atividade
 diosa, os caluniadores eram mais tolos do que habilidosos; eles não
 sabiam da existência dessas cartas de HPB, que não só mostram quão
 completo era o entendimento final, mas também expõem por meio
 de qual artifício, e de qual indivíduo, a falta temporária de compreen-
 são surgiu. Nunca a linha kármica foi mais claramente traçada, nem
 a ferramenta do Karma mais misericordiosamente — e ainda assim
 completamente — exposta por HPB. Esse esforço foi tão vão quanto
 qualquer outra tentativa de separar aquela instrutora daquele discí-
 pulo. O veredicto final de HPB sobre o relacionamento é amplo. Ele
 se estende ao longo dos dez anos anteriores à partida dela de nosso
 meio, e está repleto de uma nobre gratidão vertida constantemente. A
 esplêndida amizade seguiu seu caminho de júbilo, uma coisa de vida
 imortal, destinada a passar além dos confins do túmulo, como além
 de muitas vidas mortais.

 O Sr. Judge passou muito tempo com HPB na Irving Place,
 Nova Iorque, estudando sob sua direção e instrução, e ajudou-a em
 Ísis sem Véu (conforme indicado em sua carta de Paris, p. 199)130. Ele
 foi uma das pessoas presentes na sala dela em 7 de setembro de 1875,
 quando foi feita a primeira proposta para a Sociedade Teosófica e
 sua organização começou. Ísis foi publicada em 1877 e, pouco mais
 de um ano depois, Madame Blavatsky e o Coronel Olcott foram
 para a Índia, enquanto o Sr. Judge foi deixado para continuar com
 a S.T. em Nova Iorque da melhor maneira possível — sendo estes
 três, como HPB subsequentemente escreveu, os únicos fundadores
 que permaneceram fiéis à Causa e à Sociedade. Era uma posição com
 que o jovem advogado parecia bastante sobrecarregado, mas ele fez
 tudo o que pôde. Pode ter sido muito ou pouco no plano externo, e
 àquela época. Não podemos dizer. Ele era um discípulo em provação,
 que logo seria aceito e reconhecido. Entretanto, no que diz respeito
 a esta vida, era um neófito, um de um conjunto que fez o voto de
 pobreza interior, e cuja obra invisível e não registrada é considerada
 como sendo de muito mais importância do que o trabalho exterior e
 visível. O fluxo principal de vidas como essa corre ocultamente. H.P.
 Blavatsky já havia escrito e dito que ele tinha feito parte dela e da
 Grande Loja “durante éons” (suas palavras exatas)131, e que ele era
 um daqueles Egos provados que reencarnaram várias vezes imediata-
 mente após a morte; auxiliado para assim fazê-lo, e sem descanso de-
 vachânico, a fim de continuar seu trabalho na Loja. É uma questão de
 registro que, quando os sete anos de provação desta vida terminaram,

 130 Acréscimo pela edição original em inglês. (N.E.)
 131 Acréscimo pela edição original em inglês. (N.E.)

 o Mestre mais conhecido em conexão com a S.T. enviou ao Sr. Judge,
 através de HPB, sua fotografia, na qual estava escrito no verso, “para
 meu colega”, com um criptograma e assinatura; e, um pouco mais tar-
 de, uma carta de agradecimento e conselho foi entregue ao Sr. Judge
 em Paris por HPB. A mensagem enviada da Loja a ele, por meio de
 HPB, mais ou menos nessa época, termina dizendo: “Aqueles que fa-
 zem tudo o que podem, e o melhor que eles sabem, fazem o suficiente
 para nós.”
 A tarefa do Sr. Judge foi difícil, de fato, quando ela, que era en-
 tão a grande expoente, deixou o campo, e a curiosidade e o interesse
 despertados por sua original e impressionante missão feneceram. A
 S.T. deveria, doravante, subsistir em sua base filosófica, e após longos
 anos de labuta e persistência inflexível, este foi o ponto atingido pelo
 Sr. Judge. De seus vinte e três anos até sua morte, seus melhores es-
 forços e todas as impetuosas energias de sua alma destemida foram
 dedicados a esta Obra. Temos a imagem dele abrindo reuniões, lendo
 um capítulo do Bhagavad-Gītā, organizando a Ata, e cuidando de
 todos os detalhes como se ele fosse a única pessoa presente; e isso ele
 fazia, a cada vez, determinado a ter uma sociedade. A vontade, como
 está, abre caminho através de todos os obstáculos. Por meio de seu
 trabalho incansável, ele construiu a S.T. na América, auxiliando tam-
 bém o Movimento em todas as partes do mundo, e conquistando do
 Mestre o nome de “Ressuscitador da Teosofia na América”. Seu lema
 naquela época era “Promulgação, não Especulação”. “Teosofia”, dizia
 ele, “é um grito da Alma.”
 O trabalho foi lento no início. Não houve muita atividade, mas
 o elo foi mantido intacto, e a correspondência com H.P. Blavatsky
 era ativa. Em meio ao trabalho externo que conseguiu fazer, o jovem

 discípulo ainda manteve a busca interna. Foi um período de escuridão
 e silêncio, o período de provação. H.P. Blavatsky também passou por
 tal período, e sobre isso ela disse e escreveu: “Por longos anos pensei
 que o Mestre havia me abandonado totalmente.” Ela havia visto o
 Mestre em Londres, em corpo físico, como se um oficial na comitiva
 de algum príncipe indiano, e, em uma conversa com ela no Hyde
 Park, o Mestre disse que ela poderia ir para o Tibete, mas deixou para
 ela encontrar seu caminho sem ajuda, e também que descobrisse para
 onde deveria ir quando ela chegasse àquele país, o que ela só realizou
 após vários fracassos e alguns anos de busca e aparente deserção. So-
 bre esse período, a autora de Luz no Caminho escreveu, em “Lúcifer”,
 algumas notas explicativas que, embora o Mestre pudesse realmente
 estar perto do neófito e pudesse estender a ele a máxima assistência
 que uma alma possa dar a outra, ainda assim o neófito se sentiria
 totalmente sozinho, e que ninguém passou por este período de sofri-
 mento sem reclamar amargamente. A reclamação foi arrancada dessa
 alma forte, cujo retrato é debilmente tentado aqui em cartas de sagra-
 da privacidade para sua instrutora, H.P. Blavatsky, e para Damodar,
 seu companheiro.
 O esboço retratado nessas cartas se elevou, o discípulo veio a
 saber, como era conhecido, e em 1888 vemos HPB escrevendo sobre
 ele em certos documentos oficiais como sendo então “um chela por
 treze anos, com toda confiança nele depositada”, e como “o principal e
 único agente da (Loja)132 de Dzyan na América”. (Esse, será lembra-
 do, é o nome pelo qual a chamada “Loja” é conhecida no Tibete.)133

 132 Acréscimo pela edição original em inglês. (N.E.)
 133 Acréscimo pela edição original em inglês. (N.E.)

 O Sr. Judge esteve na América do Sul, onde HPB disse que
 havia um ramo da Grande Loja e onde ele viu muitas coisas estra-
 nhas134. Naquele país135 ele contraiu a temida febre de Chagres136, que
 ataca o sistema de suas vítimas como se fosse um incêndio, muitas
 vezes levando-os a óbito em vinte anos. O Sr. Judge sempre sofreu
 muito com essa torturante doença — apesar de nunca ter parado de
 trabalhar por causa dela —, e 1896 foi o vigésimo ano.
 Ele também esteve na Europa, em 1884, encontrando-se com
 HPB em Paris e passando algum tempo com ela lá, e daí foi para a
 Índia, aonde chegou logo após a eclosão do escândalo Coulomb137.
 Após uma breve estada lá, o Sr. Judge retornou à América e aos de-
 veres de sua vida profissional e teosófica. O momento era crítico, um
 ponto de inflexão. Como tantas vezes acontece, o escândalo atraiu a
 atenção do público para a Sociedade Teosófica, e começaram a che-
 gar cartas com questionamentos. O Sr. Judge aproveitou a maré da
 enchente e levou o barco da Sociedade para destinos mais amplos.
 A imprensa levantou o assunto, repórteres ligaram, inquiridores tor-
 naram-se membros, a comunidade tomou conhecimento do traba-
 lhador silencioso e enérgico em seu meio. Seu método e suas ma-
 neiras conquistaram o respeito daqueles que o ouviam. A imprensa
 começou a aceitar seus artigos sobre Teosofia e posteriormente sobre
 outros assuntos; parou de escarnecer e zombar, e aceitou admitir um

 134 Ver “Um Conto Estranho”. (Nota da edição original em inglês.)
 135 Refere-se à Venezuela, país em que é relatado “Um Conto Estranho”. (N.E.)
 136 A forma mais severa de malária, originária do vale do rio Chagres, no Panamá. (N.E.)
 137 Para um relato completo desse incidente, ver The Theosophical Movement, da Edi-
 tora E.P. Dutton & Company, Nova Iorque, 1925, capítulos V e VI. (Nota da
 edição original em inglês.)

 item teosófico sem comentários insultuosos, passando a noticiar esses
 itens como os outros. Mais tarde ainda, a influência pessoal do Sr.
 Judge induziu os editores do “New York Sun” a se retratarem138 por
 uma calúnia que haviam publicado contra a S.T. e Madame Blavat-
 sky, e foi então retirado um processo instaurado contra esse jornal
 pelo Sr. Judge, por conta desse episódio.
 O Sr. Judge criou a revista “The Path” em 1886, suprindo to-
 dos os seus custos e dando continuidade às suas várias atividades,
 assim como as da S.T. Ele escrevia, sem cessar, livros, artigos e car-
 tas. Nos Estados Unidos, ministrou palestras por todo o país, e fez
 o trabalho equivalente ao de vários homens. Todo momento livre
 era dedicado à Teosofia, tirando pausas apenas para suas refeições e
 seu descanso. Finalmente, quando a Sede de Nova Iorque foi com-
 prada e quando o trabalho atingiu grandes proporções, o Sr. Judge
 abandonou sua profissão, dedicando toda a sua vida e seu tempo
 à Sociedade. Sua saúde, sempre frágil, continuou a piorar. Um dia
 sem dor era raro para ele. Frequentemente, ele corria um perigo
 real. Mas ele sempre desprezou todo sofrimento trabalhando, quan-
 do outro homem estaria prostrado, enquanto seus amigos e médicos
 se surpreendiam ao vê-lo. À medida que a S.T. crescia, sua equipe
 de trabalho também crescia, mas ele trabalhou ainda mais do que
 todos eles. Destemido, indomável, ele estava sempre inaugurando
 novos projetos de trabalho.

 138 A retratação foi acompanhada de um longo artigo do Sr. Judge, sobre HPB, “The
 Esoteric She”, publicado em 26 de setembro de 1892, e republicado em “Theoso-
 phy” IX, 142. (Nota da edição original em inglês.)

 Ele também teve seus momentos de tristeza, mas a alegria de
 sua postura e sua energia incansável nunca lhe faltaram. Aos que lhe
 pediam conselhos, durante as crises que costumavam abalar a árvore
 da S.T., ele respondia: “Trabalhe! Trabalhe! Trabalhe pela Teosofia!”
 E quando finalmente a Grande Traição chegou a ele, e alguns da-
 queles a quem ele havia erguido, servido e ensinado como trabalhar
 lutaram para abatê-lo e expulsá-lo da Sociedade, na ignorância das
 próprias limitações deles, ele se resguardou com o devido silêncio
 de um Iniciado. Ele curvou sua cabeça indefesa para a Vontade e a
 Lei, e com o coração doce e sereno passou pelas águas da amargu-
 ra — consolado pelo respeito e pela confiança da comunidade na
 qual sua vida havia sido passada, e pelos milhares de estudantes que
 o conheciam e o amavam — ele exortou todos ao perdão e esfor-
 ço renovado. Ele os lembrava de que muitos (erros)139 haviam sido
 cometidos pela falta de fraternidade de seus adversários, mas eles
 próprios, com o tempo, iriam ver e compreender o mal que fizeram
 à Obra pelas ações realizadas, que à época eles não compreendiam
 tal Obra em todas as suas instruções.140 Ele implorou aos alunos que
 estivessem prontos para encarar esse dia e que tomassem as mãos
 que seriam então estendidas por aqueles que, por ignorância, com-
 partilharam o mal feito a ele, e, por meio dele, a todos. Com essa
 confiança, ele passou para trás do véu. Em 21 de março de 1896, ele
 encontrou a “Eloquente, Justa e Poderosa Morte”.

 139 Acréscimo pela edição original em inglês. (N.E.)
 140 A história do período a que essa passagem se refere pode ser encontrada em The
 Theosophical Movement, começando no capítulo XIX. (Nota da edição original em
 inglês.)

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 Isto é o bastante para os fatos abertos e materiais de sua vida.
 Há muito mais que não deve ser dito. Sua solicitação a nós era a da
 Obra. A Obra foi o seu Ideal. Ele valorizava homens e mulheres ape-
 nas pelo Trabalho teosófico que realizavam e pelo espírito com que
 ele era realizado. Ele considerava o Reto Pensamento como o melhor
 Trabalho. Ele trabalhava com qualquer um que estivesse disposto a
 realizar a Obra no sentido real, sem se importar se eram amigos,
 estranhos, ou inimigos ativos ou secretos. Muitas vezes ele foi re-
 conhecido por estar trabalhando energicamente com aqueles que o
 estavam atacando, ou planejando um ataque em suposta ocultação;
 e seu sorriso, como foi comentado, era algo para ser sempre lembra-
 do — um sorriso caprichoso e original, que era seguido por alguma
 piada irlandesa.

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 (A seção seguinte faz parte da última parcela das memórias de
 Jasper Niemand sobre o Sr. Judge, que, embora não tenha sido publi-
 cada até junho de 1896, foi escrita antes da morte dele, e que guar-
 damos até o presente momento. Ao final foi anexada uma nota sobre
 o falecimento do Sr. Judge, cuja data teria sido seu 45º aniversário,
 trazendo a mensagem que conclui o esboço biográfico.)141

 141 Acréscimo pela edição original em inglês. (N.E.)

 A mente do Sr. Judge tem uma dualidade muito pronuncia-
 da. É imensamente prática e também profundamente mística. Como
 homem de negócios, ele é bem-sucedido; a respeito disso, um comer-
 ciante rico disse certa vez que ele era um homem que poderia vender
 qualquer coisa que se propusesse a vender. Seu dom de praticidade
 tem sua mais brilhante exposição em seu poder de organização. Ele
 é, de fato, um mestre construtor, e a esta qualidade a S.T. na América
 deve sua força e seu crescimento. Ele enxerga longe, com prontidão e
 engenhosidade em caso de emergências; jamais é dissuadido de rea-
 lizar o que ele tenha decidido por conveniência, por mera opinião
 pública, nem por qualquer consideração de natureza pessoal. Nada
 teme, exceto sua própria consciência. Quando os planos de trabalho
 estão sendo considerados, ele consulta todos os principais trabalha-
 dores e membros nos distritos para os quais o plano é proposto. Ele
 reúne as opiniões de todos e é guiado por aquelas de maior valor, e
 assim, como um hábil general, nunca se afasta de sua base de supri-
 mentos, mas leva consigo seu apoio.
 Como místico, o Sr. Judge teve outro ofício, simples mas pro-
 fundo, raramente visível na superfície mas luminoso. Nos anos de
 1887 e 1888, ele escreveu, por ordem do Mestre, a dois amigos, ma-
 rido e mulher, uma série de cartas posteriormente publicadas sob o
 título Cartas que me ajudaram. Seria difícil rastrear as vidas em que
 essas cartas foram como uma luz para a alma. Nelas se encontra o
 dom que aquele que tenha se tornado um ocultista em qualquer grau
 deve possuir em rara perfeição — a arte de desenvolver almas.
 Pois assim atuam os Portadores da Chama, os Irmãos do
 Coração Ardente, de uma geração para outra. Esses são os servos
 de Krishna. Esses são os que desenvolvem a alma. E aqueles que

 estiveram mais próximos do homem sobre quem o Mestre escreveu
 em 1887 por meio de HPB, “de todos os chelas, ele é quem mais sofre
 e menos pede, ou espera”; aqueles que trabalharam com real devoção
 e no verdadeiro espírito com William Q. Judge, seja perto ou longe
 fisicamente, conheceram bem a força edificante e expansiva que fluiu
 através dele, amadurecendo o caráter, desenvolvendo a natureza su-
 perior, e permitindo à paciência realizar seu mais perfeito trabalho.
 Trabalhando, portanto, em planos variados, a vida de William
 Q. Judge seguiu seu caminho silencioso. Suas profundezas jazem es-
 condidas, mas delas jorra uma força irresistível que estimula a devo-
 ção, a abnegação, a generosidade e a atividade incessante pelo mundo.
 Amigo de todos os homens e mulheres, embora sempre impessoal
 — a bajulação ou os seguidores pessoais, ele os encara com impaciên-
 cia; e logo põe o ofensor em seu devido lugar. Para ele, amigo ideal é
 aquele que nos ensina a permanecer em nossa própria base, a confiar
 no Ser interno; e esta foi a amizade que ele próprio praticou.
 Uma senhora, recentemente questionada se havia recebido en-
 sinamentos psíquicos do Sr. Judge, respondeu: “Vou lhe contar o tipo
 de instrução psíquica que ele me deu. Era o seguinte: ‘Não expulse
 ninguém de seu coração.’” Assim, o encontramos sempre aceitando a
 todos, como um Ser Único, sem fechar qualquer porta para ninguém;
 deixando o caminho sempre aberto a todos os que desejem retor-
 nar a ele ou ao trabalho; não excluindo ninguém que esteja naquele
 trabalho, seja amigo ou inimigo; oferecendo a mão aos seus adver-
 sários, e pronto para oferecê-la novamente quando fosse rejeitada;
 conquistando animosidade pessoal pela pura força de seu caráter, à
 medida que ele prossegue firmemente com aquela obra, da qual pro-
 curaram removê-lo. Vendo nele nosso mais construtivo e infatigável

 trabalhador, podemos entender muito bem que ele é o ponto alto
 contra o qual toda força subversiva à evolução está sendo lançada.
 Eliminar nossa confiança no “Ressuscitador”, obscurecer sua reputa-
 ção e impedir sua mão construtora é enfraquecer o trabalho.

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 13 de abril de
 Uma mensagem em 1893 prenunciou a tempestade e os raios
 das acusações judiciais contra W.Q. Judge, a crise de 3 de novembro
 de 1894 e a morte de William Q. Judge:
 “Tome ainda de mais ânimo. Não o deixamos desamparado.
 A Loja está sempre pronta para ajudar. Um novo dia vai amanhecer.
 Mas ainda há muita escuridão para atravessar, e Judge está em perigo.
 Você deve ficar atento e resistir, resistir e RESISTIR.”

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 Na página 50 do primeiro livro de CARTAS está uma carta de
 um Adepto, da qual uma certa porção (“instrução privativa”) foi omi-
 tida. Essa parte omitida dizia o seguinte:
 “A escolha foi feita? Então, Y. fará bem em ver W.Q.J. e inteirá-
 -lo desta carta. Durante o primeiro ano ou dois, nenhum guia melhor
 poderia ser encontrado, pois quando a ‘PRESENÇA’ está sobre ele,
 ele conhece bem o que os outros apenas suspeitam e ‘conjecturam’.
 ______ será útil para a ‘Path’, no entanto tarefas mais importantes
 serão passadas a ele, que, de todos os chelas, é quem mais sofre e me-
 nos pede, ou espera.”

 Se este extrato for inserido na carta original, sua imensa impor-
 tância em relação ao Sr. Judge poderá ser percebida pelo estudante
 intuitivo.
 J. N.

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 A r e s p e i t o d a s “c a r t a s ”

 Para o editor de “THE IRISH THEOSOPHIST”:

 Prezado Senhor e Irmão, tendo surgido um relato de que
 William Q. Judge não escreveu, ele próprio, Cartas que me ajudaram,
 pedimos sua fraterna ajuda para corrigir esse boato. Isto é falso. O
 boato atribui as cartas ao ditado ou instrução do Mestre “Hilarion”,
 que se sabe ter tido encontros (físicos) diários com o Sr. Judge no
 ano de1888, em Nova Iorque. As cartas começaram em 1886 e ter-
 minaram em 1888, no que diz respeito às já publicadas. De fato, elas
 continuam a aparecer até os dias de hoje, e não somos as únicas pes-
 soas a recebê-las, como amplamente testemunham os extratos que
 estão aparecendo agora em suas colunas — nenhum deles sendo das
 cartas que recebemos.

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 (NOTA: Esta carta foi publicada originalmente no “The Irish
 Theosophist” de fevereiro de 1895.)142

 Aqueles entre nós para quem o Mestre Hilarion é conhecido
 tanto objetivamente quanto psiquicamente têm os melhores motivos
 para afirmar que essas cartas não são dele, e isso declaramos aqui e
 agora. O material que provém dele, seja “inspirado” ou objetivamente
 ditado, tem um estilo completamente diferente.143

 Além disso, na página 50 do pequeno volume referido, há uma
 carta impressa em itálico, começando com: “Diz o Mestre.” Essa é
 uma carta escrita por meio de HPB, pelo Mestre dela, e está escrita
 com a caligrafia dela modificada, a que o Coronel Olcott se refere
 como sendo a forma pela qual o Mestre dela escreveu pela primeira
 vez por meio dela. As “orientações privativas” omitidas daquela carta
 conferem ao Sr. Judge o cargo de “guia”, ali atribuído a ele pelo Mes-
 tre, e especificam a fonte interior de sua inspiração:
 “(...) ele conhece bem o que os outros apenas suspeitam e ‘con-
 jecturam’.” Ficaremos felizes em mostrar o original a qualquer esote-
 rista que você indicar.
 Seus leitores podem estar interessados ​​em saber que um segun-
 do volume dessas Cartas provavelmente aparecerá.

 142 Acréscimo pela edição original em inglês. (N.E.)
 143 O Mestre mencionado é o autor de Luz no Caminho. (Nota da edição original em
 inglês.)

 Somos gratos pela cortesia de suas colunas.

 Fraternalmente,

 Julia C. Keightley
 Archibald Keightley
 Londres, 13 de janeiro de
 O S Ú LT I M O S D I A S

 DE W.Q. JUDGE

 O Sr. Judge chegou à conclusão de que o clima não era favorá-
 vel e resolveu voltar para Nova Iorque, onde estaria em meio a ami-
 gos e próximo da Sede de seu trabalho. Ele pretendia dedicar suas
 noites a escrever um livro sobre Ocultismo, e nós passamos muitas
 horas falando sobre seu conteúdo e sobre o esboço geral da obra.
 Os estudantes nunca verão esse livro, e aqueles que sabiam algo do
 vasto repertório sobre assuntos relacionados ao Ocultismo que W.Q.
 Judge possuía compreenderam sua perda e a perda para a causa da
 educação teosófica.
 Em 22 de fevereiro, por volta das 14h30, ele foi, em uma car-
 ruagem fechada, até o apartamento no terceiro andar da 325 West,
 6th Street, uma das últimas vezes em que saiu de casa. Doente como
 estava, seu desprezo pelas precauções que todos os inválidos ortodo-
 xos deveriam tomar — na forma de xales, mantas, etc. — era a carac-
 terística desse homem, embora alarmante para seus amigos.

 A partir daquele dia, ele foi ficando cada vez mais fraco, com
 raras ondas de força renovada, embora, até o fim, ele tenha mantido
 seu poder de energizar e inspirar os outros. Cerca de duas semanas
 antes de sua morte, ele foi avisado pelo Dr. Rounds, que o atendia
 diariamente, que sua única chance de vida seria destruída, a menos
 que ele consentisse em renunciar a todo o trabalho. Ele relutante-
 mente concordou em fazer isso, mas o primeiro efeito de tal mudança
 em toda a sua prática de vida foi provocar uma reação que ameaçou
 um colapso imediato. Depois disso, ele lia muito pouco, e apenas o
 tipo mais leve de literatura. Ele cochilava sempre que podia, pois
 suas noites eram interrompidas pela tosse; e durante semanas, antes
 de finalmente falecer, não conseguira dormir mais do que três horas
 contínuas a cada vez. Quase incapaz de falar, tão fraco que tinha de
 ser sustentado de cadeira em cadeira, despedaçado por sua tosse vio-
 lenta — que tornava impossível para ele se deitar —, ainda assim ele
 se agarrava à vida, e assim o fez até lhe chegar a hora de relaxar seus
 esforços e morrer. E ao longo de tudo isso ele preservou seu magnífi-
 co poder de resistência e autocontrole.
 Na manhã de 19 de março, ele me pediu para fazer investiga-
 ções completas a respeito de casas de repouso no Sul e lhe informar
 imediatamente. Ao mesmo tempo, eu deveria telegrafar ao Sr. B.A.
 Neresheimer, para que viesse visitá-lo. Ele disse que se ele pudesse
 “apenas chegar a um lugar onde pudesse sentar-se à luz do sol e em
 meio às flores”, talvez ainda pudesse se recuperar. O Sr. Neresheimer
 ligou depois do meio-dia, e foi depois que ele se despediu, quando eu
 estava sentado ao lado do sofá do Sr. Judge, que o “rajah” de repente
 despertou do corpo meio adormecido, em que estava deitado, e, com
 sua força inconfundível, disse: “Deve haver calma. Aguentem firme.

 Vão devagar.” A princípio, considerei isso como direcionado a uma
 viagem planejada para um clima mais quente, e somente dias depois,
 quando examinava suas anotações, que o completo significado dessa
 mensagem apareceu. Ela foi aplicada, nesse meio-tempo, a todos as
 questões que surgiram, e foi bom que fosse feito assim, pois uma ação
 precipitada tomada durante o primeiro ou os dois dias que se segui-
 ram à sua morte poderia, como vejo agora, ter trazido um desastre
 permanente para a Sociedade.
 Posteriormente, o Dr. Rounds disse que a condição de seus pul-
 mões não poderia ter causado sua morte; que a morte foi devida a
 uma “falha de ação do coração”. Mas todos os médicos que o exami-
 naram concordaram que seu coração batia tão forte quanto um sino,
 e com isso é certo concluir que ele morreu como HPB morreu, sem
 uma causa física imediata, mas porque a hora certa havia chegado.
 E.T. HARGROVE

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 “The Path”, maio de 1896.

 (Do discurso de E.T. Hargrove, em 23 de março de 1896.)144

 Sua última mensagem para nós foi esta: “Deve haver calma.
 Aguentem firme. Vão devagar.” E se você anotar essas palavras e se
 lembrar delas, descobrirá que elas contêm um epítome de toda a
 luta de sua vida. Ele acreditava na Teosofia e a viveu. Ele acreditava

 144 Acréscimo pela edição original em inglês. (N.E.)

 porque sabia que o grande Ser, de que tanto falava, era o Ser eterno,
 era ele mesmo. Portanto, ele estava sempre calmo.
 Ele se manteve firme, com tenacidade inabalável, ao seu propó-
 sito e ao seu ideal.
 Ele foi cuidadoso, e nunca se permitiu agir precipitadamente.
 Ele usou o tempo a seu favor e, por conta disso, ele era a própria
 justiça. Ele tinha o poder de agir com a rapidez de um raio quando
 chegava a hora de agir.
 Agora podemos nos confortar por conta da vida que ele viveu,
 e devemos também lembrar que este homem, William Quan Jud-
 ge, tinha mais amigos devotos, acredito, do que qualquer outro ho-
 mem vivo — amigos que literalmente morreriam por ele a qualquer
 momento, que iriam para qualquer parte do mundo impulsionados
 pela força de uma sugestão dele. E nunca ele usou esse poder e in-
 fluência para fins pessoais — ele nunca usou esse poder, por maior
 que fosse, seja na América, na Europa, na Australásia e em outros
 lugares também, para qualquer coisa que não fosse o bem do Mo-
 vimento Teosófico.
 Pobre Judge. Não foram as acusações que o feriram, elas eram
 falsas demais para machucar. Foi o fato de que aqueles que uma vez
 se proclamaram mais fortemente seus devedores e amigos estavam
 entre os primeiros a se voltarem contra ele. Ele tinha o coração de
 uma criança, e sua ternura só era igualada à sua força.
 Ele nunca se importou com o que as pessoas pensavam dele
 ou de seu trabalho, desde que trabalhassem para a fraternidade... Sua
 esposa disse que nunca o ouviu dizer uma mentira sequer, e aqueles
 mais proximamente ligados a ele, através da Teosofia, concordavam
 que ele foi o homem mais verdadeiro que já conheceram.

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 W.Q. Judge, em uma carta datada de 5 de agosto de 1895, es-
 creveu: “O que quero é trabalhar em uma propaganda napoleônica,
 na qual eu esperava ajudar, mas não posso. (...) Temos que encher o
 ar com a Teosofia e a S.T. na A. (América)145. (...) Temos que infundir
 força nesses pontos.”
 E.T. HARGROVE

 “MEU ÚNICO AMIGO”

 H.P. Blavatsky sobre William Q. Judge

 (Não há, entre os teósofos, ninguém — nem mesmo HPB —
 sobre quem existe uma gama tão grande de opiniões contraditórias
 quanto William Q. Judge. Ela foi a grande Personagem, o alvo de to-
 dos os inimigos externos da Teosofia, do Movimento Teosófico e da
 Sociedade Teosófica Matriz. “Eu não peço a ninguém que me ajude
 ou me defenda. Mas o caso de Judge é diferente, e é de mais difícil
 comprovação ou refutação”, como ela mesma disse, em uma ocasião
 importante — a da conspiração Coues-Collins — “e eu agora apelo
 a todos a permanecerem fiéis ao seu juramento de cumprir seu dever
 quando chegar a hora, e especialmente por seu irmão americano.”

 145 Acréscimo pela edição original em inglês. (N.E.)

 Em que o caso de Judge era “diferente” do dela? Seus inimigos esta-
 vam todos dentro do Movimento, dentro da Sociedade.
 Será, portanto, de interesse e valor para todos os estudantes re-
 unirmos aqui algumas das declarações, públicas e privadas, formais e
 informais, que H.P. Blavatsky fez em referência ao Sr. Judge. Elas são
 todas únicas — pois ela não fez em relação a nenhum outro — e as
 circunstâncias sob as quais e nas quais foram feitas aumentam ainda
 mais sua importância. Os leitores do livro The Theosophical Movement
 podem recorrer a ele para o cenário de eventos nos quais suas várias
 declarações foram feitas.)146

 Para WILLIAM Q. JUDGE, Secretário Geral da Seção Ameri-
 cana da Sociedade Teosófica.

 MEU QUERIDO IRMÃO E CO-FUNDADOR DA SO-
 CIEDADE TEOSÓFICA,

 Ao enviar-lhe esta carta, que peço que leia na convenção con-
 vocada para 22 de abril, devo inicialmente apresentar minhas sin-
 ceras felicitações e os mais cordiais votos aos Delegados reunidos e
 aos bons Companheiros de nossa Sociedade, e a você mesmo — o
 coração e a alma desse corpo na América. Éramos vários a chamá-lo
 à vida em 1875. Desde então, você tem permanecido sozinho para
 preservar essa vida por meio de boas e más notícias. É a você, prin-
 cipalmente, senão inteiramente, que a Sociedade Teosófica deve sua
 existência em 1888. Permita-me, então, agradecê-lo, pela primeira

 146 Acréscimo pela edição original em inglês. (N.E.)

 e talvez pela última vez publicamente, e do fundo do meu coração,
 que bate apenas pela causa que você representa tão bem e serve tão
 fielmente. Peço-lhe também que você lembre-se de que, nesta impor-
 tante ocasião, minha voz é apenas o débil eco de outras vozes mais
 sagradas, e o transmissor da aprovação d’Aqueles cuja presença está
 viva em mais de um verdadeiro coração teosófico, e vive, como eu sei,
 preeminentemente no seu.
 (Da primeira mensagem de HPB aos teósofos americanos,
 em abril de 1888.)

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 Em resposta à sua carta, só posso dizer o seguinte: Se W.Q.
 Judge, o homem que mais fez pela Teosofia na América, que traba-
 lhou de forma mais altruísta em seu país e sempre cumpriu as ordens
 do Mestre, o melhor que sabia, for deixado sozinho, (...) então eu
 digo — deixe-os ir! Eles não são teósofos; e se tal coisa acontecer e
 Judge for deixado para lutar sozinho em suas batalhas, então eu darei
 a todos eles um eterno adeus. Eu juro, pelo santo nome do Mestre,
 afastar-me de cada um deles. (...) Eu sou incapaz de acreditar que
 na hora da dificuldade e da suprema luta (...) qualquer verdadeiro
 teósofo hesitaria por um momento em apoiar W.Q.J. publicamente e
 se apresentar em protesto. Deixe-os ler a carta do Mestre na introdu-
 ção. (...)Tudo o que eu disse sobre W.Q.J. foram as palavras DELE
 na carta que ELE escreveu para mim. (...) Faça com esta carta o que
 quiser. Mostre a quem você quiser como prova da minha firme de-
 terminação.
 (HPB)

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 Aquele que acredita que, sob quaisquer circunstâncias, provo-
 cações, fofocas, calúnias ou qualquer coisa inventada pelo inimigo,
 HPB ao menos sonharia em ir contra W.Q.J.— não conhece HPB—
 mesmo quem conheça H.P. Blavatsky, ou pense que a conhece.
 A ideia é absolutamente absurda.
 Se W.Q.J. ficasse irritado com qualquer provocação — por mais
 de cinco minutos pelo relógio da cidade —, então ele seria um tolo.
 HPB daria 7 dúzias de Bridges, 77 dúzias de Noyses, todo o grupo
 esotérico nos EUA por um único W.Q.J., que faz parte dela mesma
 há vários éons. Aqueles que têm ouvidos ouvirão; aqueles que são sur-
 dos e cegos, deixe que eles consigam ouvidos falsos e olhos de vidro,
 ou — que desapareçam.
 A Seção Esotérica e sua existência nos EUA dependem de
 que W.Q.J. permaneça seu agente, o que ele é agora. O dia em que
 W.Q.J. renunciar, HPB estará virtualmente morta para os america-
 nos. W.Q.J. é o Antaskarana entre os dois Manas, o pensamento ame-
 ricano e o indiano — ou melhor, o Conhecimento Esotérico transi-
 malaico. (Afirmou HPB.)
 P.S.: W.Q.J. faria bem em mostrar e imprimir isso na mente de
 todos aqueles a quem possa interessar. (HPB)
 (De uma carta de HPB, em 1889.)

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 MANTENHAM O ELO (o Antaskarana) INTACTO! NÃO
 DEIXEM QUE MINHA ÚLTIMA ENCARNAÇÃO SEJA UM
 FRACASSO.
 (As últimas palavras de HPB.)

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 De cartas de HPB

 (Os seguintes trechos das cartas de H.P. Blavatsky são, de várias
 formas, proféticos. Enviadas a mais de uma pessoa, os originais estão
 todos em posse dos destinatários. Algumas cartas foram escritas ao final
 de 1890, como será visto pela alusão à viagem da Sra. Besant à América.
 Duas são evidentemente para o Sr. Judge (como declarado), que foi
 persuadido a entregá-las a amigos devido à sua natureza profética.)147

 “Se, sabendo que W.Q.J. é o único homem na S.E.148 em quem
 tenho confiança, a ponto de não ter extraído dele um voto, ele me
 interpreta mal ou duvida de minha afeição ou gratidão por ele, então,
 além de outras coisas, ele deve ser um tolo149. (...) Não há nada que eu

 147 Acréscimo pelo “Irish Theosophist”. (Nota da edição original em inglês.)
 148 Seção Esotérica. (N.E.)
 149 [No original] “Flapdoodle”; foi dito ser “um termo conveniente, que ela (HPB)
 usava frequentemente, com muitas nuances de significado, mas todas elas pejora-
 tivas.” (Nota da edição original em inglês.)

 não faria por ele, e ficarei com ele até a morte, nos bons e nos maus
 momentos. (...) Ele diz, escreve e imprime que é meu agente (antes,
 do Mestre, não meu). Portanto, é fácil para ele dizer que quaisquer
 alterações são feitas por mim.
 E olhe aqui, se ele protestar (...) contra o que eu disser sobre
 ele em minhas próximas Instruções, então irei amaldiçoá-lo em meu
 leito de morte. Ele não sabe o que eu sei. Ele tem que ser defendido,
 quer queira quer não. Ele tem muito o que suportar, e está sobrecarre-
 gado. Mas eu também, e se ele me ameaçar com tal coisa (renúncia),
 então é melhor eu fechar a porta. (...) Que nosso Salvador, o piedoso
 Jesus, o tenha sob seus cuidados.”

 “Aquele que faz tudo e o melhor que pode, e sabe fazê-lo, faz
 o SUFICIENTE para Eles. Esta é uma mensagem para Judge. Sua
 ‘Path’ começa a eclipsar ‘The Theosophist’. É excelente. ‘The Path’,
 por si só, é seu certificado em Teosofia.”

 “(...) Oh, meu pobre amigo desamparado, o que eu daria para
 ajudá-lo. Tento estar com ele o máximo que posso. Estou sempre ze-
 lando por ele. (...) Ele deve unir forças com alguém que está com ele
 com mais frequência do que ele imagina.”

 “Judge, (...) em quem eu confiava talvez mais do que em Olcott
 — ou em mim mesma.”

 (Publicado em “The Irish Theosophist”, de junho de 1895.)

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 “Meu Cofundador, W.Q. Judge, Secretário-Geral na América.

 “O Mestre quer que Judge seja eleito vitaliciamente, por razões
 de Sua própria vontade — essa é a verdade divina. (...) Eu gostaria
 menos do que você de ver X____ ou qualquer outro (com exceção de
 Judge) eleito vitaliciamente. (...) Mas se não gosto da ideia é porque
 não confio mais em ninguém, exceto em Judge e talvez em Olcott.
 Eu perdi minha última fé na humanidade, e enxergo e cheiro (meta-
 foricamente, é claro) os Judas em todos os lugares. Mas com Judge é
 diferente.
 “(...) meu querido W.Q.J., (...) meu único amigo. (...) Judge tem
 feito tanto por mim ultimamente, devo a ele muita gratidão, não há
 nada que eu não faria por ele. (...) Dou minha palavra, eu não sabia
 que me importava tanto com ele pessoalmente. (...) Jamais esquecerei
 a lealdade e a devoção de Judge, sua amizade inabalável.
 “Obrigado por tudo, meu caro amigo (W.Q.J.)150; que os Mes-
 tres o protejam. Serei eternamente fiel a ele, até e APÓS a morte.”
 (Para W. Q. Judge.)151 “Bem, meu caro e único amigo, a crise
 está se aproximando. Estou finalizando minha D.S.152, e você vai me
 substituir ou tomar o meu lugar na América. Sei que você terá sucesso
 se não desanimar, mas, sim, permanecer fiel aos Mestres e à Teosofia
 deles, e aos NOMES (...). Que Eles possam ajudá-lo e nos permitam

 150 Acréscimo pela edição original em inglês. (N.E.)
 151 Acréscimo pela edição original em inglês. (N.E.)
 152 No original, S.D., provavelmente em alusão a The Secret Doctrine (A Doutrina
 Secreta), a obra magna de HPB, publicada em 1888, em dois volumes. (N.E.)

 lhe dar as nossas melhores bênçãos. Oferecem-me qualquer quantia
 em dinheiro, uma renda, alimentação, hospedagem, tudo grátis para
 eu ir para a América e trabalhar sem você, ou seja, contra (...). Prefiro
 perder todo o grupo americano até o último homem, incluindo X,
 do que perder você. Talvez em breve, você saberá por quê. (...) Agora,
 tenha a gentileza de me escrever claramente (PARA que eu consiga
 ler) o que você espera que eu faça e o que não devo fazer. E eu lhe
 dou minha palavra de que vou seguir suas instruções. Vamos nos en-
 tender, mutuamente. Mas, até agora, ninguém me disse uma palavra
 sobre você pedir para fazer isso ou aquilo. Escreva para mim direta-
 mente, e eu o farei. Adeus, meu crocodilo irlandês, e que os Mestres
 o protejam.”
 “Negócios e eventos podem ser desfeitos por mãos invisíveis
 em um ritmo tal que você será eleito por unanimidade para o resto da
 vida — assim como Olcott e eu fomos —, para que possa continuar
 o trabalho depois de nossas mortes. Você entende o que isso signi-
 fica? Significa que, a menos que você consinta, você me força a uma
 vida infeliz e a uma MORTE MISERÁVEL, com a ideia oprimindo
 minha mente de que há um término da Teosofia. Significa que, du-
 rante vários anos, não poderei continuar ajudando a Teosofia e nem
 orientar seu curso, pois terei que atuar em um corpo que terá que ser
 assimilado ao Nirmanakaya, porque mesmo no Ocultismo existem
 coisas como o fracasso, um retardamento e um desajuste (...) Nada do
 que você fará jamais será desacreditado por mim, meu amado W.Q.J.”
 “Se eu pensasse por um momento que ‘Lúcifer’ poderia ‘eclipsar’
 ‘Path’, nunca consentiria em ser o editor. Mas ouça, então, meu bom e
 velho amigo. Uma vez que os Mestres proclamaram sua ‘Path’ a me-
 lhor, a mais teosófica de todas as publicações teosóficas, certamente

 não será permitido que seja eclipsada.... Uma [‘Lúcifer’] é o Manas
 combativo, lutador; a outra (‘Path’)153 é puro Buddhi. (...) ‘Lúcifer’
 será o militante da Teosofia e ‘Path’ a luz brilhante, a Estrela da Paz.
 Se sua intuição não sussurra para você, ‘Assim o é’, então essa intui-
 ção deve estar distraída. Não, senhor, ‘Path’ é muito boa, muito bem
 teosoficamente editada para que eu interfira.”
 “Eu confio em Judge mais do que em qualquer pessoa no mun-
 do. (...) Ele tem vários inimigos que trabalham contra ele sorrateira-
 mente, e também abertamente, como faz ____. Agora eu tenho que
 controlar e contra-atacar as maquinações deles quando eles escrevem
 ou dizem a Olcott que Judge é um mentiroso, etc. Veja, isso é uma
 mentira ____. (...) Eu estou pensando em ir para os EUA com Annie
 Besant, quando o espírito me impulsionar.”
 (Para William Q. Judge, em 1888.)154 “Bem, meu único amigo,
 você deveria saber melhor. Olhe para a minha vida e tente compreendê-
 -la — pelo menos em seu curso externo, pois o resto está oculto. Estou
 sob a maldição de escrever para sempre, como o judeu errante, que tinha
 que estar sempre em movimento, sem nunca parar um momento para
 descansar. Três pessoas normais e saudáveis ​​dificilmente poderiam fazer
 o que tenho que fazer. Eu vivo uma vida artificial; sou um autômato
 funcionando a todo vapor até que a energia de geração de vapor pare e
 então — adeus!”
 “Na noite de anteontem, no entanto, foi-me mostrada uma vi-
 são panorâmica do estado atual da Teosofia e suas Sociedades. Eu
 vi alguns teósofos ardorosos e confiáveis ​​em uma luta mortal com o

 153 Acréscimo pela edição original em inglês. (N.E.)
 154 Acréscimo pela edição original em inglês. (N.E.)

 mundo em geral e com outros teósofos — só de nome, mas ambicio-
 sos. Os primeiros são maiores em número do que você imagina, e eles
 prevaleceram, como vocês na América irão prevalecer se apenas permane-
 cerem fiéis ao programa do Mestre e fiéis a si mesmos.
 “E ontem à noite eu vi, e agora me sinto forte — tal como me
 sinto em meu corpo — e pronto para lutar pela Teosofia e pelos pou-
 cos verdadeiros teósofos até meu último suspiro. As forças de defesa
 devem ser judiciosamente distribuídas — por serem tão escassas —
 ao redor do mundo, onde quer que a Teosofia esteja lutando contra
 os poderes das trevas.”
 “Judge está pronto para me ajudar a levar adiante o sacrifício —
 o de aceitar e carregar o pesado fardo da vida? Minha escolha está fei-
 ta, e não vou voltar atrás. Permaneço na Inglaterra em meio aos lobos
 uivantes. Aqui sou necessária e estou mais perto da América; lá em
 Adyar há tramas obscuras acontecendo contra mim e o pobre Olcott.”
 (W.Q. Judge)155 “Tome meu lugar na América agora e, depois
 que eu partir, em Adyar. Se você não tem mais qualquer ambição
 pessoal, como eu — e eu sei que não tem, mas apenas combatividade
 —, então isso não será mais sacrifício para você do que foi para mim
 ter Olcott como meu Presidente. (...) Estarei de todo coração ao seu
 lado no trabalho, para todo o sempre. Disponha de mim. Eu vou (...)
 ajudá-lo com todas as minhas forças.”
 “Bem, eu criei um ‘Frankenstein’ (a S.T.)156, e ele quer me devo-
 rar. Só você pode salvar o demônio e fazer dele um homem. Inspire
 nele uma alma, se não o espírito. Seja seu Salvador nos EUA, e que

 155 Acréscimo pela edição original em inglês. (N.E.)
 156 Acréscimo pela edição original em inglês. (N.E.)

 as bênçãos dos meus e seus SUPERIORES caiam sobre você. Sua —
 ‘a velha senhora’, mas pronta para lhe oferecer a vida interna dela se
 você prosseguir com o trabalho.”
 “Mas à medida que as fileiras diminuem ao nosso redor e, uma
 a uma, nossas melhores forças intelectuais partem para se tornarem
 inimigos ferrenhos, eu digo — Bem-aventurados os puros de coração
 que têm apenas intuição, pois a intuição é melhor que o intelecto.
 Eternamente sua,
 HPB.”

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 A história que se repete

 (A carta a seguir, escrita por H.P. Blavatsky [evidentemente
 uma carta para “Julius” — ver “Path” IX, 225]157, de Ostende, em
 de março de 1887, parece tão adequada para o momento presente que
 tomamos a liberdade de republicá-la.)158

 Prezado ____,
 Tendo ouvido de meu querido W.Q. Judge quão gentilmente
 devotado você é para comigo, e tendo recebido dele várias mensagens

 157 Acréscimo pela edição original em inglês. (N.E.)
 158 Acréscimo pelo “Irish Theosophist”, de fevereiro de 1895. (N.E.)

 em seu nome, deixe-me dizer-lhe como me sinto grata por suas amá-
 veis expressões de simpatia.
 Sim, o trabalho colocou sobre mim indignação, ignomínia de to-
 dos os tipos, ódio, malícia e calúnia. Se fosse apenas vindo de fora, eu
 pouco me importaria. Mas, é triste dizer, são os “teósofos”, principal-
 mente, que me deixam despedaçada. Nossos pássaros místicos são tão
 sábios que sujam seu próprio ninho, em vez de abandoná-lo e escolher
 outro. É verdade, “há muitas moradas” na casa de nosso Pai, mas para
 o mundo somos um. E parece difícil acreditar que eu tenha criado um
 ”Frankenstein“ apenas para se virar contra mim e tentar me despedaçar!
 Bem, que assim seja, pois é meu Karma. “Barkis está disposto” até
 mesmo a se tornar o estrume para os campos teosóficos, desde que ve-
 nham a trazer colheitas algum dia. Infelizmente, os “pássaros” comem
 até o estrume e, portanto, tivemos apenas ervas daninhas até agora.

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 Querido e distante amigo, isso é privado e estritamente confi-
 dencial. Abro meu pobre velho coração enfraquecido diante de você.
 Se Judge tem tanta estima por você, você deve valer tudo o que ele
 pensa.
 Tenha paciência; A Doutrina Secreta lhe ensinará coisas mais
 definidas do que Isis jamais poderia. Esta última foi apenas um “balão
 de ensaio”. Espero que fique satisfeito com o último e final trabalho
 da minha vida.
 Sincera e verdadeiramente agradecida, sua,
 H.P. BLAVATSKY

 (Quanto à expressão “Barkis está disposto”, HPB disse certa
 vez que foi um mantra criado inconscientemente por Dickens. Ela o
 usava ocasionalmente para certas pessoas, ao encontrá-las (ou escre-
 ver a elas) pela primeira vez. Falada, ela tinha uma força tão peculiar
 que alarmava quem assim a ouvia ser proferida de seus lábios e quan-
 do ela a usava.)159

 DECLARAÇÕES POR EST UDANT ES

 E AMIGOS SOBRE W.Q.J.

 Eu encontrei William Q. Judge pela primeira vez no inverno de
 1885. Ele era, naquela época, um dedicado estudante do Bhagavad-Gī-
 tā. Esse foi seu companheiro constante e seu livro favorito desde então.
 Sua vida e trabalho foram moldados por seus preceitos. O “equilíbrio
 mental” e a “habilidade na execução das ações”, inculcados neste “Livro
 de Devoção” e que são declarados como constituintes do “Yoga”, ou a
 união com o Espírito Supremo, são conhecimentos que o Sr. Judge
 possuía em maior medida do que qualquer outra pessoa que eu co-
 nheço. Sua devoção nunca vacilou; seu ancoradouro parecia sempre
 seguro e constante, e nisto estava sua força. Sua habilidade na execução
 de ações era maravilhosa, sua habilidade executiva da mais alta ordem.
 Ele nunca foi perturbado pela paixão ou cegado pelo ressentimento, e
 quando abertamente e fortemente atacado ele se manteve firme em seu
 curso, trabalhando para o único objetivo de sua vida, o sucesso da S.T.

 159 Acréscimo pelo “Irish Theosophist”. (N.E.)

 E assim ele trabalhou até o fim, com amigos se unindo ao seu
 redor e ajudando-o em seu trabalho. As pessoas do outro lado do
 oceano nunca entenderam a posição do Sr. Judge na América, onde
 ele era bem conhecido em relação ao seu trabalho, nem como seria
 impossível abalar a confiança nele. Verdadeiramente, os problemas
 que apareceram eram, aparentemente, totalmente pessoais, e levou
 algum tempo para deixar claro a toda a Sociedade sua real nature-
 za deles. Quando, no entanto, essas questões se tornaram claras e as
 pessoas tiveram tempo para considerá-las, o veredito foi esmagador,
 e aqueles que estiveram presentes em Boston em abril último (1889)
 nunca esquecerão a cena ali representada (a S.T. na América foi for-
 mada)160. Tive a responsabilidade de presidir muitas dessas conven-
 ções, tanto médicas quanto teosóficas, mas nunca testemunhei uma
 cena como essa antes, e acredito que nunca testemunharei novamen-
 te. Não houve demonstração tempestuosa, mas o próprio ar pulsava
 em simpatia e apreciação.
 Ele nunca teve uma mente estreita, nunca foi egoísta ou pre-
 sunçoso. Ele abandonaria seu próprio plano, sem pestanejar, se um
 projeto melhor fosse sugerido; e ele ficava encantado quando alguém
 levava adiante o trabalho que ele havia planejado e em seguida inau-
 gurava outras linhas de trabalho. Continuar com o trabalho e avançar
 o movimento parecia ser o seu único objetivo na vida... Para mim,
 conhecendo o Sr. Judge como eu conhecia, e associando-me a ele
 dia após dia — em casa, na correria do trabalho, em longos dias de
 viagem por desertos ou pelo oceano aberto, tendo viajado com ele
 uma distância equivalente a duas voltas ao redor do globo —, não

 160 Acréscimo pela edição original em inglês. (N.E.)

 há a menor dúvida de sua conexão com a Grande Loja e o serviço a
 ela. Ele realizou seu trabalho ao Mestre com toda a sua capacidade e,
 portanto, fez jus à injunção de HPB de “manter o elo intacto”.
 J.D. BUCK

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 Nos últimos quatro anos, mais ou menos, a maior parte de nos-
 sa comunicação era feita pessoalmente, pelo fato de que passamos
 grande parte desse período morando sob o mesmo teto. Tive a opor-
 tunidade de contemplar de perto o caráter desse homem, e não hesito
 em registrar minha opinião sobre ele.
 Não há um ato na vida de William Q. Judge, que tenha passado
 por minha observação, com o menor teor de egoísmo ou de um dese-
 jo de promover qualquer fim pessoal.
 Talvez eu não seja qualificado para pronunciar os méritos de
 ocultista do homem cuja memória tenho em tão grata estima; mas
 posso, pelo menos, falar do que se passou diante dos meus olhos nos
 assuntos comuns da vida; e nesses assuntos eu invariavelmente per-
 cebia ser ele a alma do altruísmo, da honra, da generosidade e de to-
 das as outras virtudes que tanto admiramos. A severidade que alguns
 viam nele era apenas externa. Ele nem sempre era paciente com a
 tolice e a fraqueza, mas, mesmo esses, arrancaram dele mais piedade
 do que condenação, e nada, exceto a covardia deliberadamente per-
 sistente e a traição à própria Causa, parecia colocar o ofensor fora do
 limite de sua simpatia e atenção.
 Ele estava singularmente livre do vício de buscar constante-
 mente explicar e justificar suas ações. Ele acreditava em fazer o bem

 presente, em realizar a boa intenção no presente, deixando o resultado
 em seu próprio lugar. Mesmo quando ocorria algo que, aparentemen-
 te, exigia uma explicação particular e justificativa, ele geralmente nem
 explicava nem justificava. O exemplo mais claro sobre isso, de que
 tenho conhecimento, surgiu de uma carta que recebi dele em 1887,
 na qual fora anexada uma outra em papel diferente e escrita, em azul,
 com uma caligrafia familiar em razão das frequentes “exposições” das
 chamadas “mensagens dos Mahātmās”. O anexo era uma explicação
 direta sobre um assunto que fora apenas sugerido na própria carta
 de Judge; e quando eu respondi, fazendo uma alusão jocosa ao seu
 esforço em precipitar uma carta para meu melhor entendimento, ele
 respondeu, de maneira direta, que ele não tinha feito tal coisa e nunca
 faria nada parecido; mas, ao contrário de seu costume usual, ele atri-
 buiu uma teoria sobre como tais coisas poderiam acontecer. Alguns
 anos depois, nos encontramos em St. Louis e mostrei a ele a carta e
 o anexo. Depois de virar os papéis por um momento, ele me olhou
 nos olhos e disse, da maneira mais simples: “Não posso explicar isso.
 Seria uma traição fatal.” E assim se encerrou o assunto. Se não fosse
 por minha convicção na integridade dele, eu poderia ter duvidado
 dele na época e poderia ter dado alguma atenção ao grito de “fraude”
 mais tarde. Anos depois do ocorrido, descobri, independentemente
 de Judge, a verdade sobre o assunto, e minha fé em sua sinceridade
 foi imensamente justificada.
 Entre todos os meus amigos e conhecidos, William Q. Judge
 era o que menos perdia tempo. Ele parecia nunca descansar, pois o
 trabalho era o seu descanso. E ainda assim ele não era, em nenhum
 sentido, um homem antissocial.

 (...) Durante os últimos anos, ele parecia estar cada vez mais
 absorvido em seu trabalho, e ainda, por mais que estivesse lutando,
 e isso fosse o suficiente para amedrontar o trabalhador diligente co-
 mum, ele nunca hesitou em assumir algum outro fardo, se este pa-
 recesse beneficiar o movimento em que estava tão profundamente
 envolvido. Apesar da vida agitada que levava, ele era um dos homens
 mais acessíveis que já conheci, e um dos poucos que estava sempre
 pronto para aceitar uma sugestão. Ele não sabia de tudo, e tinha cons-
 ciência disso, mas sabia muito bem como utilizar o material que en-
 contrava à sua disposição.
 Embora ele sempre fosse o mesmo amigo gentil para mim, sem
 nunca, em todos esses anos, escrever ou falar de forma áspera comigo,
 estou ciente de que sua relação com muitas pessoas que conheceu, “o
 menino irlandês” às vezes se interpunha entre ele e os outros. Para
 aqueles que sabiam da verdadeira vida interior deste homem, esta é
 explicação suficiente para as aparentes contradições e falhas no plano
 da vida cotidiana que ele compartilhava com o resto da humanidade.
 Que ele tenha magoado ou enganado deliberadamente alguém, é im-
 pensável para mim.
 ELLIOTT B. PAGE

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 No verão de 1894, tivemos o privilégio de tê-lo em nossa casa
 por várias semanas, e desde então ele passava pelo menos uma noite
 por semana conosco, até que sua doença o forçou a deixar Nova Ior-
 que... Dia após dia ele voltava do escritório totalmente exausto, de
 mente e corpo, e noite após noite ele lutava contra as flechadas das

 suspeitas e dúvidas que recaíam sobre ele, lançadas de todos os cantos
 do mundo. Ele dizia que eram como flechas de fogo perfurando-o;
 e pela manhã ele descia abatido, pálido, como se não tivesse dormi-
 do e estivesse a um passo do limite de suas forças; mas ainda com o
 mesmo espírito gentil e compreensivo. Eles realmente não sabiam o
 que faziam.
 Talvez a evidência mais notável de sua grandeza tenha sido a
 sabedoria com que tratou as diferentes pessoas e o infinito conheci-
 mento de caráter por ele demonstrado na orientação de seus alunos.
 Não acredito que ele fosse o mesmo com duas pessoas distintas...
 Seu traço mais adorável era sua cativante simpatia e gentileza. Diz-se
 dele que ninguém jamais tocou em uma ferida com tanta ternura, e
 conheço muitos que prefeririam ser repreendidos e corrigidos pelo
 Sr. Judge do que elogiados por qualquer outra pessoa.
 Foi uma sorte para alguns de nós sabermos algo sobre o verda-
 deiro Ego que usava o corpo conhecido como Wm. Q. Judge. Certa
 vez, ele passou algumas horas descrevendo para mim e minha esposa
 a experiência que o Ego tinha ao assumir o controle do instrumento
 que usaria por tantos anos. O processo não foi rápido nem fácil e,
 na verdade, nunca foi absolutamente aperfeiçoado, pois até o dia da
 morte do Sr. Judge, as limitações físicas e a hereditariedade do corpo
 que ele usava surgiam e interferiam na plena expressão dos pensa-
 mentos e sentimentos do homem interno. Uma ocasional rudeza e
 frieza de maneiras era atribuível a essa falta de coordenação. Claro
 que o Sr. Judge estava perfeitamente ciente disso, e isso o incomoda-
 ria, por receio de que seus amigos fossem enganados quanto aos seus
 verdadeiros sentimentos. Ele estava sempre no controle absoluto de

 seus pensamentos e ações, mas seu corpo às vezes modificava ligeira-
 mente sua expressão.
 O Sr. Judge me disse em dezembro de 1894 que o seu corpo de-
 veria morrer no próximo ano, por conta de seu Karma, e que teria que
 ser sustentado durante este período por meios extraordinários. Ele
 então esperava que esse processo fosse totalmente bem-sucedido, e
 que ele seria capaz de usar aquele corpo por muitos anos, mas ele não
 contava com os ataques de fora nem com a tensão e a exaustão devido
 à “Rixa”. Isso, e a hereditariedade do corpo, provaram ser demais até
 mesmo para sua vontade e poder. Dois meses antes de sua morte, ele
 sabia que estava para morrer, mas, mesmo assim, sua vontade indo-
 mável foi difícil de ser vencida, e o pobre corpo exaurido e atormen-
 tado pela dor foi arrastado por dois miseráveis meses ​​em um esforço
 final e supremo para ficar com seus amigos. E quando ele decidiu ir,
 aqueles que mais o amavam eram os mais dispostos a deixá-lo partir.
 Agradeço aos Deuses por ter tido o privilégio de conhecê-lo. Foi uma
 bênção chamá-lo de amigo.
 G. HIJO

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 Meu encontro com William Q. Judge antecedeu, consideravel-
 mente, o meu interesse pela Teosofia. Fomos apresentados por um
 jornalista, que falou dele para mim como um bom sujeito, totalmente
 honesto, mas um excêntrico sobre alguma filosofia oriental incom-
 preensível, cujo conhecimento não seria compensador para qualquer
 mente prática, pela dificuldade de entendimento. Se não me falha a
 memória, nos encontramos pela primeira vez em uma ocasião em que

 H.P. Blavatsky havia sido induzida a tentar se comunicar, na presença
 de alguns repórteres, com os restos diáfanos de um vigia noturno que
 havia se afogado em uma doca do East River. Olcott estava presente,
 no comando, proeminente e autoritário; e Judge, também presente,
 reservado e quieto. O fantasma era tímido, e os repórteres sarcásti-
 cos. O único aparentemente incomodado com o humor deles era o
 Coronel. A placidez e a boa índole do Sr. Judge elogiaram-no aos
 repórteres e me causaram uma impressão particularmente favorável,
 que foi aprofundada pelas experiências de um relacionamento que
 continuou enquanto ele viveu.
 Em todo esse tempo, embora eu o tenha visto em muitas oca-
 siões em que ele teria uma excelente desculpa para ficar furioso, seu
 comportamento era uniformemente o mesmo — gentil, atencioso e
 contido, não simplesmente aquele autocontrole educado, que é es-
 perado de um cavalheiro, mas como se inspirado por aspectos muito
 mais elevadas do que o mero respeito pelas convenções da boa socie-
 dade. Ele sempre parecia buscar circunstâncias atenuantes mesmo
 diante da pura maldade dos outros, procurando creditar-lhes, pelo
 menos, a honestidade de propósito e boas intenções, por mais trai-
 çoeiros e maliciosos que fossem seus atos para com ele. Ele não pare-
 cia disposto a acreditar que as pessoas faziam o mal por preferir isso,
 mas apenas porque elas eram ignorantes do bem e de suas vantagens
 superiores; consequentemente, ele era muito tolerante.
 Mas aquela mansidão de espírito — uma coisa estranha, aliás,
 para um irlandês inteligente e bastante nervoso — de forma algu-
 ma fazia dele um personagem fraco ou submisso, que pudesse ser
 persuadido a fazer o que seu julgamento não aprovasse, ou ser des-
 viado pela influência de algum curso de ação sobre a qual ele tivesse

 deliberadamente decidido. E a deliberação cuidadosa sobre as coisas
 era uma de suas características mais fortes. Sua mente era muito ati-
 va, rápida e engenhosa em sugestões, mas não me lembro de ele ter
 alguma vez se submetido a seus impulsos sem tê-los pesado e consi-
 derado cuidadosamente. Não raro, os assuntos que me pareciam de
 importância trivial, coisas que podiam muito bem ser resolvidas ime-
 diatamente e sobre as quais não parecia haver lugar para mais de uma
 opinião, ele considerava durante a noite, ou ainda mais. E a franqueza
 me obriga a admitir que tais coisas, via de regra, acabavam sendo
 muito mais importantes, e com cadeias de efeitos mais graves do que
 a princípio parecia possível, justificando plenamente sua cautela.
 Agora, e por um bom tempo no passado, não tenho dúvidas
 de que ele recebia ajuda, em suas deliberações e em orientação para
 conclusões corretas, de inteligências com presciência além da dos ho-
 mens comuns; mas quando percebi pela primeira vez seu hábito de
 deliberação, considerei isso simplesmente como uma tendência para
 “ruminar” as coisas — prudente, mas bem diferente do que se espera
 de um irlandês.
 Conheço muitos jornalistas que trabalham muito, mas nunca
 conheci alguém, mesmo naquele campo de trabalho árduo, tão infati-
 gável e persistente como William Q. Judge. Não importava o quanto
 aqueles ao seu redor pudessem se esforçar para ajudá-lo a aliviar seu
 fardo, o esforço era inútil, pois um momento de lazer, quando ele de-
 veria estar descansando, era apenas mais uma oportunidade de pensar
 em alguma outra coisa para fazer.
 J.H. CONNELLY

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 Sua vida foi um exemplo da possibilidade de apresentar novas
 ideias com ênfase, persistência e efeito; sem se tornar excêntrico ou
 unilateral, sem perder contato com seus semelhantes; em suma, sem
 se tornar um “excêntrico”.
 Aqueles que o ouviram falar conhecem a franqueza singular
 com que sua mente ia direto ao ponto, a simplicidade de suas pala-
 vras, o verdadeiro altruísmo que irradiava dele. A qualidade do “bom
 senso” era a característica mais preeminente de Judge. Ele tinha o
 dom da palavra, mas também o dom muito maior de senso de pro-
 porção, de uma faculdade coordenadora que reduzia às palavras ao
 seu lugar, como meras ferramentas ou agentes, não atraindo a atenção
 para elas mesmas. Suas frases eram curtas e claras; sua postura impar-
 cial e serena; mas o que ele dizia ficava na memória, pois suas palavras
 apelavam para o sentido da verdade; elas pareciam “irrigar”, como o
 tipo de chuva que os fazendeiros apreciam, enquanto uma “enxurrada
 de eloquência” teria escoado, deixando seco o solo.
 Verdade ou não, pode muito bem ser possível que Wm. Q. Jud-
 ge tenha sido, como já foi dito, um dos signatários da Declaração
 da Independência. Suas qualidades eram as que caracterizaram os
 líderes daquela época. Havia energia de um lado e intelecto do outro;
 mas havia também um senso comum dominador e tenaz, que não
 era obtuso conservadorismo, mas uma qualidade de equilíbrio, que
 convertia o intelecto em julgamento claro, e a energia expansiva cega
 em um trabalho equilibrado e constante.
 Por falta disso, constatamos que o elemento intelectual da Re-
 volução Francesa forneceu apenas um caos de esquemas visionários,

 enquanto suas energias emocionais e animais se dissiparam em ar-
 roubo destrutivo, em fúria e em frivolidade.
 W. MAIN

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 O Sr. Judge tomou parte em outro ofício além de promover a
 expansão — o de preservação. Quando alguém ia trabalhar com ele,
 a princípio ficava surpreso, talvez até irritado, com sua insistência nas
 pequenas coisas, tais como, mantenha sua mesa assim, ou mergulhe
 sua caneta dessa forma, ou faça suas anotações e copie suas cartas
 dessa maneira, e não do jeito próprio. Com o tempo, descobriu-se
 que a soma total da atenção nesses detalhes era em prol de uma maior
 rapidez com menos desperdício de energia, ou maior liberdade men-
 tal, muitas vezes obtida por maior facilidade de movimentação cor-
 poral. Tudo o que ele fazia tinha um significado, quando percebido de
 maneira mais abrangente.
 Ao pensar neste nosso auxiliar e instrutor, pego-me pensan-
 do quase que inteiramente no futuro. Ele foi alguém que não nunca
 olhava para trás; ele sempre olhava para frente. Embora as atividades
 do corpo e da mente estivessem engajadas, o todo o tempo, com o de-
 ver daquele determinado momento, ainda assim, seu coração estava
 determinado a alcançar a promessa do futuro; e a canção de sua alma
 ecoava a música dos ciclos que ainda estavam por vir. Não pensamos
 nele como um homem que partiu de nosso meio, mas como uma
 alma liberta para cumprir sua poderosa missão, regozijando-se nessa
 liberdade e resplandecente de compaixão e força. Ele era de uma na-
 tureza que não conhecia obstáculos, mas reconhecia as leis divinas em

 todas as coisas. Ele era, como ele mesmo disse, “rico em esperança”.
 Recentemente ele escreveu que devemos agora voltar nossa atenção
 para o trabalho nos Estados Unidos, a fim de ter ali “um lugar atraen-
 te e uma atmosfera de resistência no mundo para a Teosofia”.
 Esse futuro, como ele viu e vê, é majestoso em suas proporções
 harmoniosas. Era um presságio da libertação da raça. Ele quebrou as
 algemas do autoaprisionado, e proporcionou que as almas dos homens
 fossem livres. Isso evoca agora, hoje, os poderes do homem interno.
 A morte, o mago, abriu uma porta para nos mostrar essas coi-
 sas. Se formos fiéis, essa porta nunca se fechará. Permanecer fiel é a
 única condição. Cerremos as fileiras e deixemos que a Fidelidade seja
 o agente dos poderes celestiais. Para ver a América, o berço da nova
 raça, se tornar apta para auxiliar e elevar essa raça, e para preparar
 aqui um refúgio e um lar para os Egos que ainda estão por vir... para
 isso ele trabalhou; para isso trabalharão aqueles que vierem depois
 dele. E ele trabalhará com eles.
 JULIA W.L. KEIGHTLEY

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 Um amigo de velhos tempos e do futuro — é assim que Wil-
 liam Q. Judge me parece, como deve parecer, sem dúvida, a muitos
 outros nesta e em outras terras.
 O primeiro trabalho teosófico que li foi seu Epítome da Teosofia;
 meu primeiro encontro com ele mudou toda a corrente de minha
 vida. Eu confiava nele na época, como confio nele agora, e em todos
 aqueles em quem ele confiava; me parece que a “confiança” é o vínculo
 que une e que gera a força do Movimento, pois pertence ao coração.

 E essa confiança que ele suscitava não era permitida como sendo uma
 confiança cega, pois com o passar do tempo, à medida que a energia,
 a seriedade e a devoção do estudante se tornavam mais marcantes, “o
 verdadeiro W.Q.J.” ia se revelando cada vez mais, até que a força que
 irradiava por meio dele se tornava, em cada um, um auxílio sempre
 presente no trabalho. Como tal, ele permanece hoje, um centro vivo
 em cada coração que confia nele, um foco para os Raios do “grande
 mensageiro” do porvir.
 Tendo estado envolvido no trabalho ativo da S.T. em Boston
 por mais de sete anos, foi meu Karma estar em contato com ele em
 muitas circunstâncias diferentes, nas várias crises locais e gerais, pelas
 quais a Sociedade passou com segurança. Em todas elas, era a sua voz
 que encorajava ou advertia, era a sua mão que guiava as questões para
 um resultado harmonioso. Tive muitas provas de seu extraordinário
 poder de organização, de sua maravilhosa percepção do caráter e da
 capacidade dos indivíduos e de sua habilidade em transformar males
 aparentes em forças para o bem.
 Que ele era um “grande ocultista”, muitos sabem por experiên-
 cia individual, mas ninguém penetrou as profundezas de seu poder e
 conhecimento. O futuro revelará sobre ele muito do que agora está
 oculto, mostrará o real alcance da obra de sua vida. Sabemos que, para
 nós, essa obra foi uma dádiva inestimável e que, por nosso intermé-
 dio, ela deve ser concedida a outros. As linhas foram estabelecidas
 para nós por HPB, por W.Q.J. e pelos Mestres, e podemos retomar
 nosso lema, aquele que ele nos deu na passagem de HPB: “Traba-
 lhem, observem e esperem.”
 Não teremos que esperar muito.

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 Falando do Sr. Judge, como alguém que o conheceu — um
 ser humano como nós —, ele era humilde, despretensioso, modesto,
 forte, paciente, dócil, corajoso, um organizador incomparável, com
 poderes semelhantes aos de HPB, e nunca os usava a não ser para
 suavizar o percurso para aqueles que desejavam seguir o caminho
 do conhecimento. Ele era gentil e paciente, o que não encontramos
 com frequência e nem com tamanha força; ele tinha extraordinárias
 habilidades de organização, com uma percepção que podia examinar
 os próprios motivos e mentes dos outros, podia ver traidores ao seu
 redor, podia ler os corações daqueles que desejavam prejudicá-lo e,
 ainda assim, em todas as suas relações com eles, abria o caminho
 para eles, permanecendo sempre gentil. Para quem mais o feriu, ele
 somente isso, quando os amigos lhe expunham suas denúncias: “Não
 se importem com o que os outros façam. Não retirem ninguém de
 seus corações. Continuem com o trabalho que vislumbram. O tra-
 balho revelará a verdade com o tempo, e todas essas tolices dos ou-
 tros — tolices por ignorância — se reduzirão a nada. Então, quando
 chegar a hora, todos teremos adquirido força; quando aqueles que se
 afastaram por um tempo voltarem, lá estaremos de braços abertos,
 como irmãos fortes, para ajudá-los a encontrar o caminho e suavizar
 os efeitos dos erros que eles criaram por ignorância.”
 ROBERT CROSBIE

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 Wm. Q. Judge era um grande Adepto, por mais que muito do
 verdadeiro homem estivesse escondido por detrás do homem de ter-
 ra. É razoável supor que, em uma época em que a Grande Loja tinha
 como inimigos os gigantes intelectuais — Spencer, Mills, Huxley e
 Darwin —, em uma era da própria apoteose do agnosticismo mate-
 rialista, Eles [os Mestres] enviariam novatos ou crianças para lutar
 pelo mundo? Não; Eles enviaram os seus melhores e mais corajosos;
 se não houvesse outra prova disso, o trabalho realizado seria sufi-
 ciente. HPB, com toda a realeza, marchou até o Armagedon; con-
 fundindo os eruditos com sua sabedoria, zombando do materialismo
 com sua maravilhosa exibição de poderes anormais e sobrenaturais à
 primeira vista. Mas ela era o Cavaleiro errante, que lutou em meio ao
 bater de tambores, aos conflitos e ao clamor, em meio à emoção e à
 glória de um torneio principesco. Não menos majestosamente Wm.
 Q. Judge cumpriu seu dever de cavaleiro, silencioso e despercebido no
 campo de batalha. Seu lugar, sua tarefa, era ensinar ética; deixando de
 lado o modismo dos fenômenos e milagres, e trabalhando em canais
 de amor mais fortes ​​e duradouros para nossos semelhantes.
 HPB estabeleceu bem as bases; mas foi deixado a Wm. Q. Jud-
 ge construir com resistência e segurança em cima delas.
 No entanto, enquanto reverenciamos o Adepto, não percamos
 de vista o homem, pois, mesmo em sua vida mais simples ele foi
 grandioso. Aqueles que o viam deixar de lado todas as preocupações
 e, naquele momento, tornar-se o companheiro alegre e amoroso, não
 terão necessidade de serem lembrados deste belo aspecto de seu cará-
 ter. Para as crianças e os modestos, e para os humildes da Sociedade,

 ele foi uma revelação. Eles ouviam falar dele com admiração, eles
 se aproximavam dele com receio e apreensão, e instantaneamente o
 reconheciam a si próprios nele, e se tornavam seus amigos fiéis para
 sempre. Isso era maravilhoso — a maneira com que os mais humildes
 em nossas fileiras, que se colocavam na presença dele, o amavam e
 nele confiavam.
 JEROME A. ANDERSON

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 Encontrei-o pela primeira vez em 1888; ele foi o único ho-
 mem que conheci com quem me senti seguro de todas as formas. A
 profundidade de sua natureza, para mim, era insondável. Seu caráter
 era equilibrado, pois ele tinha um ideal todo-abarcante; seus pensa-
 mentos e ações emanavam da alma, e não de motivos superficiais.
 Ele não se importava com as impressões que pudesse produzir por
 qualquer coisa que dissesse ou fizesse, estando o elemento pessoal
 quase sempre ausente; e ele era sempre sincero, menos nas vezes em
 que permitia que o homem superficial prevalecesse e se submetesse
 às brincadeiras e idiossincrasias de sua natureza mais humana; mas,
 mesmo assim, sempre havia um controle supremo.
 Ele tinha a faculdade de observar e sintetizar circunstâncias,
 pessoas e eventos; na verdade, muitas vezes detectei nele o que as pes-
 soas às vezes chamam de conhecimento oculto. Ele era um ocultista;
 tinha o poder de autocontrole, e podia subjugar as flutuações turbu-
 lentas da mente, permanecer sereno em sua própria natureza, apoia-
 do em seu ideal, e ver toda e qualquer situação desapaixonadamen-
 te. Era maravilhoso como ele via claramente as coisas! Em assuntos

 teosóficas, toda a sua mente e alma eram iluminadas e vivificadas com
 o mais profundo interesse; qualquer questão ou problema que surgis-
 se, ele o veria começando com seu ideal básico da unidade espiritual
 de todas as coisas, o Ser, cuja compreensão continha uma harmonia
 sublime, e em cuja fonte encontrava-se um modo de ajustar a tudo.
 Essa filosofia que ele afirmava é apresentada no livro dos li-
 vros, o Bhagavad-Gītā, e ele costumava dizer que o Gītā e A Doutrina
 Secreta eram suficientes para que ele pudesse compreender e seguir
 nesta vida.
 Ele nunca se cansava de tornar as coisas claras e simples... Ele
 foi chamado por alguns de “O Rajah”. Escrevi-lhe uma vez no final
 de um período de prolongada ansiedade, preocupação e problemas
 em meus assuntos particulares, perguntando qual era a lição a ser
 aprendida com isso, já que eu não parecia ser capaz de compreender
 por mim mesmo. Sua resposta foi: “A lição não é diferente de nada
 na vida. É apenas Karma, e parece maior estando aplicado a grandes
 circunstâncias, mas na realidade não é mais do que as pequenas cir-
 cunstâncias pelas quais passam outras pessoas. A calma é a melhor
 lição a aprender, com indiferença aos resultados. Se tudo der certo, é
 bom, e se você se manteve calmo e desapegado, então é melhor, pois
 você não terá criado nenhum novo Karma atrelado ao primeiro. A
 calma também preserva a saúde em todos os assuntos, mais do que
 qualquer outra coisa, e deixa a mente livre para agir favoravelmente.”
 Com ele, aprendi a distinguir o princípio da condição. Ele via
 todas as questões do ponto de vista do princípio ou essência que cada
 uma continha em si, sem referência à personalidade, e sua rápida per-
 cepção de cada situação, junto com a aplicação de seus princípios
 ideais, permitia-lhe julgar corretamente em todos os momentos.

 Sempre que seu conselho era seguido nas linhas de seu próprio
 exemplo, em qualquer assunto dentro ou fora do trabalho da Socie-
 dade, isso invariavelmente simplificava a situação mais complicada;
 em outras palavras, o ponto de vista da verdade e o estabelecimento
 da harmonia era sempre a atitude que ele mantinha em relação a
 tudo o que tocava. Ele não era argumentativo, porque pensava que
 por meio do argumento ninguém poderia ser definitivamente con-
 vencido — “cada um tem que forjar a sua própria convicção” —, no
 entanto ele era facilmente acessível, gentil, compreensivo, mas, acima
 de tudo, forte e poderoso, onde e quando fosse necessário expressar
 uma palavra no momento certo ou agir no mesmo instante.
 B. AUGUST NERESHEIMER

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 Ao elemento místico da personalidade do Sr. Judge, uniram-se
 a sagacidade do advogado experiente, a faculdade organizacional de
 um grande líder e aquele admirável senso comum, que é algo bem
 raro entre os entusiastas... Em seu ensino foi incorporado, de forma
 mais enfática, aquilo que o profeta Ezequiel recebeu quando a Voz
 lhe disse: “Põe-te de pé e falarei contigo.”
 Foi sua postura e a retidão que o Chefe insistiu em exaltar, e ele
 desencorajava enfaticamente qualquer coisa que indicasse fraqueza,
 falta de autoconfiança ou aquilo que HPB gostava tanto de chamar
 de “tolice e efusividade”, e ele lançava um olhar de severa resistência
 àqueles que esperavam alcançar as alturas que ele havia alcançado
 agarrando-se às suas vestes. Mas quando ia até ele alguém que real-
 mente precisava de ajuda, ninguém poderia estar mais pronto para

 estender uma mão amiga, para responder com um brilhante sorriso
 de encorajamento, para dizer exatamente a palavra que era necessária,
 e nada mais.
 Ele era o melhor dos amigos, pois os amparava firmemente,
 embora à distância. Ele compreendia a bela descrição que Emerson
 dá do amigo ideal, em quem se encontram os dois elementos mais
 essenciais da amizade, a ternura e a verdade. “Finalmente cheguei”,
 diz Emerson, “na presença de um homem tão real e altruísta (...) que
 devo tratá-lo com a simplicidade e a integridade com que um átomo
 químico encontra outro. (...) Para um grande coração ele ainda será
 um estranho em mil pormenores, para que possa aproximar-se no
 solo mais sagrado.”
 Sobre esse “solo mais sagrado” de devoção ao objetivo mais
 elevado, de desejo somente pelo bem-estar dos outros, o Chefe era
 sempre abordado. E, combinados à coragem destemida, ao insight
 aguçado, ao julgamento rápido e à paciência infinita, que torna-
 vam sua personalidade tão poderosa, estavam os afetos calorosos, a
 pronta espirituosidade e a inocência quase infantil que o tornavam
 tão adorável.
 Uma das últimas mensagens do Chefe para nós dizia: “Eles
 devem ter como objetivo desenvolver-se na vida diária nas pequenas
 tarefas.” (...) Havia uma bela história de Rhoecus, que não conseguia
 reconhecer o mensageiro da Dríade na abelha que zumbia sobre sua
 cabeça, e assim perdeu seu amor.
 KATHERINE HILLARD

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 É necessário que justamente aquelas almas nas quais percebe-
 mos mais da realidade desapareçam de nós na escuridão, para que
 possamos aprender que a verdadeira prova de que nosso amigo está
 ali não é vê-lo, mas conectá-lo internamente; para que possamos
 aprender que o desaparecimento e a dissipação da parte externa, vi-
 sível, não afeta ou prejudica a parte real, que é invisível. Este co-
 nhecimento, e a realização dele em nossas vontades, é obtido com a
 maior dificuldade, a um custo não inferior ao da perda do melhor de
 nossos amigos; no entanto, se grande é o custo, maior e inestimável é
 o ganho, pois representa uma primeira vitória sobre todo o universo,
 e por isso descobrimos que existe algo em nós que pode enfrentar,
 conquistar e sobreviver a qualquer coisa no universo, e que sai radian-
 te e triunfante da disputa. No entanto, nem o Universo nem a morte
 são antagonistas reais, pois eles são apenas Vida em toda parte, e nós
 somos Vida.
 CHARLES JOHNSTON

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 Em maior extensão do que jamais percebi, sei que ele fez parte
 da minha vida, e estou igualmente certo de que da vida de milhares;
 e vejo que iremos reconhecer esse fato, mais e mais, à medida que o
 tempo passar... Ele não jurou submissão a ninguém, não pediu amor
 ou lealdade a ninguém; no entanto, seus discípulos foram a ele por
 vontade e decisão próprias, e desde então ele nunca os abandonou,
 mas doou mais do que eles pediram, gratuitamente, e com frequência

 em maior medida do que eles poderiam usufruir. Ele estava sempre
 um pouco à frente da ocasião e, portanto, era um verdadeiro líder.
 E.B. RAMBO

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 Judge foi o melhor e mais verdadeiro amigo que alguém pode-
 ria ter. HPB me disse que eu descobriria que era assim; e dessa forma
 ele era com ela também, alguém que ela confiou e amou como nin-
 guém. E ao pensar na perda que tiveram aqueles que o perseguiram,
 na perda em suas vidas da grande joia tão perto deles pela qual pas-
 saram despercebidos, fico angustiado com a sensação da perda deles:
 o imenso mistério que é a Vida está me tocando diretamente. Dele,
 seus inimigos perderam a mais verdadeira amizade desta nossa vida
 no corpo, e embora fossem suas limitações que o ocultavam deles,
 como nossas limitações escondem de nós muito do Bem Espiritual,
 devemos lembrar também que essas limitações proporcionaram a nós
 e ao mundo este exemplo maravilhoso de altruísmo e perdão. Judge
 tornou a vida retratada por Jesus realizável para mim.
 ARCHIBALD KEIGHTLEY

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 William Q. Judge foi o exemplo mais próximo do SER HU-
 MANO ideal que eu conheci. Ele foi o que eu quero ser. HPB era
 algo mais do que humano. Ela era um poder cósmico.
 W.Q.J. era esplendidamente humano; e ele manifestou, de uma
 maneira encantadoramente revigorante e toda sua, a mais rara carac-
 terística humana — a genuinidade. Sua influência é continuamente

 presente e poderosa; uma influência que tende constantemente, como
 sempre, em uma só direção — trabalhar pela Causa dos Mestres.
 THOMAS GREEN

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 Eu o conheci com algum grau de intimidade nos últimos oito
 anos, encontrando-o frequentemente e em diversas ocasiões, e nunca,
 nem por um momento em qualquer dessas ocasiões, ele deixou de
 merecer meu respeito e afeto. E por ter tido o privilégio de conhecê-
 -lo, tenho uma dívida Kármica. Um semblante bom e singelo, modos
 despretensiosos e uma disposição amorosa, plena de bondade e sin-
 cera amizade, acompanhavam um forte bom senso e o conhecimento
 das coisas, de tal forma que sua presença era sempre um prazer e sua
 estada uma alegria. As crianças o rodeavam com ternura quando ele
 se sentava depois do jantar e fazia desenhos para elas.
 A.H. SPENCER

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 O que ele foi para um de seus alunos, eu acredito que ele foi para
 todos — tão ampla foi sua simpatia, tão profunda sua compreensão
 de cada coração —, e eu não faço nada além de expressar o senti-
 mento de centenas em todo o mundo quando digo que lamentamos
 a perda do mais terno dos amigos, o mais sábio dos conselheiros, o
 mais corajoso e nobre dos líderes. Que homem era este, para ter sido
 tal a pessoas das mais diversas nacionalidades, opiniões e crenças tão
 diversas — por atraí-las para perto de si pelo poder de seu amor e, ao
 fazê-lo, tê-las aproximado uns dos outros. Não houve dificuldades a

 que ele não tivesse se doado completamente para solucionar, nenhu-
 ma ferida nos corações que ele não sentisse e se esforçasse para curar.
 G.L.G.

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 O Sr. Judge viveu centenas de vidas. Assim como todos, mas
 muito poucos têm qualquer lembrança delas. A existência do Sr. Jud-
 ge tem sido consciente por séculos, seja vivo ou “morto”, dormindo
 ou acordado, encarnado ou desencarnado. Na primeira parte de sua
 última vida, não acho que ele estivesse completamente consciente
 vinte e quatro horas por dia, mas alguns anos atrás ele chegou a um
 estágio a partir do qual não mais perdeu a consciência nem por um
 momento. Dormir para ele significava meramente flutuar para fora
 de seu corpo em plena posse de todas as suas faculdades, e essa foi
 também a maneira pela qual ele “morreu” — deixou seu corpo para
 sempre. Em outros corpos, e conhecido por outros nomes, ele desem-
 penhou um papel importante na história do mundo, às vezes como
 uma figura conspícua e visível. Em outras ocasiões, ele trabalhou dis-
 cretamente nos bastidores ou, como em sua vida anterior, como líder
 de um movimento filantrópico e filosófico.
 CLAUDE FALLS WRIGHT

 WI LLIAM Q. JUD GE

 A A P R E C I AÇ ÃO D E U M E S C U LT O R

 (O texto a seguir foi publicado no “New York Journal”, em 7 de
 maio de 1896, e é uma avaliação do caráter do nosso falecido Chefe,
 de um ponto de vista cujos méritos são reconhecidos por poucos na
 S.T. deste lado cético do Atlântico. Na América, a frenologia, como
 um método científico de estimar a disposição e a habilidade, é um
 fato geralmente aceito, e o Sr. Lindstrom, cujos comentários, aqui
 registrados, parecem ser baseados principalmente na observação se-
 guindo métodos da frenologia, tem, evidentemente, uma crença forte
 o suficiente nesta ciência para induzi-lo a se filiar à S.T. pela evidên-
 cia do caráter nobre dela.
 Um pouco de conhecimento da frenologia por parte do escri-
 tor161 e um estudo cuidadoso das fotografias do Sr. Judge, que ele
 conseguiu obter, permitem-lhe dizer que as deduções do Sr. Linds-
 trom, conforme relatadas, parecem perfeitamente precisas, e que se
 quaisquer floreios jornalísticos foram introduzidos, eles estão tão
 bem dentro da verdade que são indistinguíveis dela. T.)

 William Quan Judge, o líder dos ramos esotérico e exotérico da
 Sociedade Teosófica na América, morreu no dia 21 de março. August
 Lindstrom, um escultor que nunca tinha visto o Sr. Judge em vida, fez

 161 “T” OU “P.T.” (Philip Tovey?), cujos artigos apareceram frequentemente em “The
 Theosophic Isis”. Seu ensaio “Mind and Brain” [Mente e Cérebro] foi publicado
 na edição de maio de 1896. (Nota de edição original em inglês.)

 um molde da cabeça do homem morto, a partir do qual ele modelou
 o busto descerrado no Madison Square Garden durante a recente
 convenção de teósofos162. Ontem, o Sr. Lindstrom disse: “Ao fazer a
 máscara mortuária, fui surpreendido pelo formato da cabeça do Sr.
 Judge, que era totalmente diferente de tudo que eu já tinha visto. A
 maioria das cabeças de homens notáveis ​​mostra o desenvolvimento
 de uma faculdade em particular, ou, talvez, de várias, mas em detri-
 mento de outras faculdades. Eu percebi imediatamente que a cabeça
 do Sr. Judge evidenciava um desenvolvimento elevado e uniforme de
 todas as faculdades, bem equilibrado por toda ela. Esta é a combina-
 ção notável que encontrei: uma tremenda força de vontade, com igual
 desenvolvimento de gentileza; praticidade e adaptabilidade combi-
 nadas a uma natureza altamente idealista; e um intelecto gigantesco
 de mãos dadas com abnegação e modéstia.”

 (NOTA: Extraído de The Theosophic Isis, junho de 1896.)163

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 “Existem apenas duas cabeças que eu conheço na história que
 se comparam com a dele — a de Michelângelo e de Savonarola. A
 parte de trás da cabeça de Michelângelo é quase idêntica à do Sr.
 Judge. Porém, há uma diferença na testa.
 “Além da máscara mortuária, eu tinha seis fotos para me au-
 xiliar na modelagem do busto. Uma comparação dessas fotos é um

 162 Convenção da Sociedade Teosófica na América, em Nova Iorque, nos dias 26 e
 27 de abril de 1896. (N.E.)
 163 Acréscimo pela edição original em inglês. (N.E.)

 estudo. A colocação de uma delas, tirada quando ele tinha vinte anos,
 ao lado de outra, tirada há um ano, quando ele tinha cerca de qua-
 renta e quatro anos, faz tamanho contraste que ninguém acreditaria
 que retratam a mesma pessoa. Mostra que, com sua grande força de
 vontade, este homem superou todas as suas tendências juvenis, com
 o resultado de mudar completamente a forma de seu crânio. Ouso
 dizer que outra cabeça tão desenvolvida não será encontrada entre o
 Maine e a Califórnia. Ele só teve tempo para planejar seu trabalho,
 quando, em seu auge, foi levado pela morte. Se ele tivesse vivido até
 os setenta anos, sua influência teria sido sentida por toda a nação.
 “Eu considero o nariz como sendo o que dá o melhor índice de
 caráter de qualquer personalidade. Seu nariz era a sua característica
 mais marcante, e mostra grande poder e ao mesmo tempo controle
 total sobre todos os pensamentos e atos, e, embora forte, é do tipo de-
 licado e sensível. Sua boca mostrava ternura e firmeza presentes em
 proporções iguais. As maçãs do rosto também demonstravam força
 de vontade. Seu cabelo era macio e mostrava requinte e delicadeza.
 No total, houve um desenvolvimento harmonioso, sem defeitos pre-
 sentes; e o exame cuidadoso de sua cabeça, em todos os aspectos, pro-
 va que ele era um grande e nobre homem. Se um homem como ele
 dedicou sua vida à Sociedade Teosófica, penso que ela deve ter uma
 grande missão, e pedirei para ser admitido como membro.”

 ANEXO

 UM EPÍTOME
 DA TEOSOFIA

 WILLIAM Q. JUDGE (1851 — 1896)

 (Primeira publicação — 1887)

 Publicado por

 The Theosophical Publishing Company —
 Point Loma — Califórnia — EUA

 A P R E S E N TA Ç Ã O

 Este texto de William Judge já havia sido publicado há décadas
 no Brasil, num livro que contém outros dois livretos: um de autoria
 de C.W. Leadbeater — “A Teosofia na vida cotidiana” — e o outro da
 Sra. Patience Sinnett, esposa de A.P. Sinnett — “Princípios essenciais
 de Teosofia”. Não foi possível saber a data desta publicação. O título
 é TEOSOFIA FUNDAMENTAL, da editora Cultura Moderna,
 da série Espiritualismo. Esta raridade foi encontrada num sebo por
 Marcelo Luz, na qual fizemos uma revisão com base nos originais
 encontrados em:

 Parte 1:
 http://www.blavatsky.net/portuguese/PEpitome1.htm
 https://www.blavatsky.net/index.php/24-wqjudge/wqj-writings/
 314-an-epitome-of-theosophy

 Parte 2:
 https://theosophy-ult.org.uk

 Para que tenhamos ideia da antiguidade da edição brasileira,
 vamos reproduzir a seguir sua introdução, da maneira como foi es-
 crita, com o português usado na época. Entre parênteses vem a grafia
 atual da palavra.

 Sinopse dos Ensinos Teosóficos

 Notícia biobibliográfica

 An Epitome of Theosophy, tal é o título original da excelente
 brochura de um dos mais acatados pioneiros do movimento teosó-
 fico mundial — William Quan Judge —, o companheiro da iniciadora
 desse movimento, a grande alma de supremo instrutor, que foi He-
 lena P. Blavatsky.
 Nasceu Judge em Dublin, Irlanda, aos (em) 13 de Abril de
 1851, vindo a falecer na América do Norte aos 21 de março de 1896,
 travando conhecimento com a Senhora Blavatsky mais ou menos da
 (na) época em que esta assentava a fundação da SOCIEDADE TEO-
 SÓFICA.
 Foi um estudante ardoroso e profundo das doutrinas filosófi-
 cas do Oriente, um batalhador intemerato pela causa da verdade;
 escritor, orador e notável conferencista, a sua acção (ação) e in-
 fluência foram enormes no movimento teosófico que, por isso, lhe
 deve assinalados serviços que nunca será demasiado recordar aos
 que hoje entram na liça da nobre causa que a Teosofia vem anun-
 ciando ao mundo.
 Autor de vários trabalhos sobre Teosofia e sciências (ciên-
 cias) ocultas, sobressai (com) The Ocean of Theosophy, já editado
 em várias línguas, e o opúsculo, síntese admirável das doutrinas que
 durante a sua permanência neste mundo prègou (pregou) com tanta
 convicção e denodo, que damos a seguir em tradução portuguesa e
 que bem merece ser estudado e meditado como preliminar a estu-
 dos mais amplos.

 Esta brochura foi primitivamente editada, a pedido de corre-
 ligionários, em New York, no ano de 1887, e mais tarde reeditada
 na Inglaterra, tal o sucesso que obteve naquêles (naqueles) tempos
 em que a propaganda, embora activa (ativa), se ressentia da falta
 de estudos elementares da grande doutrina.
 O autor, um ano após a primeira edição do opúsculo, para aten-
 der às muitas solicitações que lhe vinham sendo dirigidas, refun-
 diu-o completamente e o publicou em edição definitiva, em 1888,
 sendo esse o trabalho que ora apresentamos à consideração dos
 confrades portugueses e brasileiros.

 Na Carta IV, Livro II — de Cartas que me ajudaram, encontra-
 mos uma referência a este Epítome, mais propriamente uma recusa
 em publicá-lo por parte da Editora da Sociedade Teosófica em Lon-
 dres. Vale repetir neste contexto a carta-resposta de Judge:

 À EDITORA DA SOCIEDADE TEOSÓFICA

 É com grande pesar que eu soube, pelo recente informativo de Lon-
 dres, que os administradores da Sociedade na Inglaterra consideram
 o panfleto “Um Epítome da Teosofia”, que apareceu na revista “The
 Path”, “avançado demais para ser reeditado agora, e o que é necessário é um
 trampolim que nos leve da ficção à filosofia.”
 Permitam-me dizer que não posso concordar com tal opinião, nem
 com o plano de ação delineada por ela. A opinião está incorreta, e seu plano
 de ação é fraco, além de estar em desacordo com os planos dos Mestres. Tais
 Mestres aprovaram o projeto da nova Sociedade e estão observando o de-
 senvolvimento de seu curso.

 Se eu tivesse feito esse “Epítome” inteiramente sozinho, poderia ter
 alguma hesitação em me expressar dessa forma, mas não é o caso. A ideia
 geral dessa série de folhetos me foi dada há cerca de dois anos, e esse folheto
 em questão foi preparado por vários estudantes que conhecem as necessi-
 dades das pessoas. Ele abrange grande parte dos fundamentos, e se algum
 leitor sincero o compreender, terá alimento para sua reflexão sobre aquilo
 que ele precisar.
 No entanto, se pretendemos passar por uma transição amenizada
 da insensatez (que é a ficção) para a filosofia, então imediatamente diver-
 gimos do caminho que os Mestres traçaram para nós; e, para apoiar o que
 disse, posso me valer de cartas d’Eles em minhas mãos. Basta chamar sua
 atenção para o fato de que, quando esses Mestres levaram os servos d’Eles
 a divulgarem tais assuntos na Índia, Eles não começaram com ficção,
 mas com fatos concretos, como os encontrados em ‘Fragments of Occult
 Truth’164 [Fragmentos da Verdade Oculta], que mais tarde se tornou o
 Budismo Esotérico do Sr. Sinnett. Eles não pretendem atender aos gostos
 de muitos leitores de ficção e amantes de curiosidades, mas às necessidades
 urgentes de mentes sinceras....”

 Passemos então à leitura deste Epítome, 133 anos após sua pri-
 meira publicação.

 Fernando Mansur

 164 Ver nota 38, à página 154. (N.E.)

 UMA SINOPSE DE ENSINAMENTOS

 TEOSÓFICOS BÁSICOS

 Par te
 TEOSOFIA, a Religião-Sabedoria, existe desde tempos ime-
 moriais. Ela oferece-nos uma teoria sobre a Natureza e a vida, baseada
 no conhecimento adquirido pelos Sábios do passado, especialmente
 pelos do Oriente. Seus estudantes mais adiantados afirmam que este
 conhecimento não é fruto da imaginação nem da dedução, mas que é
 um conhecimento de fatos vistos e conhecidos por todos aqueles que
 estão dispostos a aceitar as condições requeridas para ver e conhecer.
 Significando a Teosofia o conhecimento de Deus ou acerca
 de Deus (não no sentido de um Deus pessoal antropomórfico, mas
 de uma Sabedoria “divina”) e sendo o termo “Deus” universalmente
 aceito como incluindo o todo, tanto o conhecido quanto o desconhe-
 cido, a “Teosofia” deve implicitamente abranger a Sabedoria relativa
 ao Absoluto; e sendo o Absoluto sem começo nem fim, esta Sabe-
 doria deve ter existido desde sempre. Por isso a Teosofia é às vezes
 chamada Religião-Sabedoria, por possuir, desde tempos imemoriais,
 o conhecimento de todas as leis que governam os mundos espiritual,
 moral e material.
 A teoria da Natureza e da vida que ela oferece não é uma da-
 quelas teorias primeiramente elaboradas e depois impostas através
 de especulações, e em seguida demonstradas a posteriori forçando os

 fatos ou as conclusões a encaixarem nelas; é sim, uma explicação da
 existência, cósmica e individual, proveniente do conhecimento alcan-
 çado por aqueles que adquiriram o poder de ver para além do véu que
 esconde da mente comum as operações da Natureza. Estes são os
 chamados Sábios [Sages em Fr./Inglês], no sentido mais elevado da
 palavra. Nos últimos tempos, têm sido chamados Mahātmās e Adep-
 tos. Antigamente, eram conhecidos como Rishis e Mahārishis, ou seja,
 Grandes Rishis. Sabe-se que tão elevados seres, os Sábios, viveram
 não só no Oriente, mas em todas as partes do globo, de acordo com
 as leis cíclicas referidas mais adiante, mas, no que respeita ao atual
 desenvolvimento da raça humana neste planeta, é agora no Oriente
 que os encontramos, embora seja possível que alguns deles, em tem-
 pos remotos, se retiraram das costas americanas.
 Havendo necessariamente vários graus entre os estudantes da
 Religião-Sabedoria, é óbvio que aqueles dos níveis inferiores só po-
 dem transmitir o conhecimento correspondente ao seu próprio grau,
 e dependem, em certa medida, de estudantes mais adiantados para
 ter acesso a um conhecimento mais profundo. O conhecimento tido
 por estes estudantes mais adiantados não é fruto de meras deduções,
 mas diz respeito a realidades por eles vistas e conhecidas. Embora
 alguns estejam relacionados com a Sociedade Teosófica, eles estão, no
 entanto, acima dela. O poder de ver e de conhecer tais leis de maneira
 absoluta está subordinado a certas regras naturais e inerentes, que
 devem ser cumpridas como condições prévias; não é, portanto, possí-
 vel aceder ao pedido do homem mundano no sentido de revelar-lhe
 imediatamente esta sabedoria, visto que ele não poderia compreen-
 dê-la, enquanto não forem cumpridas aquelas condições. Como este
 conhecimento diz respeito a leis e estados da matéria e da consciência

 dos quais o mundo ocidental “prático” não tem a menor ideia, ele só
 pode ser compreendido fragmento após fragmento, à medida que o
 estudante vai desaterrando e demolindo os seus preconceitos devi-
 dos a teorias inadequadas ou erradas. Afirmam esses estudantes mais
 adiantados que, especialmente no Ocidente, prevalece há séculos um
 método de raciocínio falso, que criou o hábito mental universal de
 considerar como causa o que é mero efeito, e como irreal o que é real.
 Para dar um pequeno exemplo, os fenômenos do mesmerismo e da
 clarividência têm sido até ultimamente negados pela ciência ociden-
 tal, não obstante ter havido sempre muitas pessoas que conhecem
 pessoalmente a veracidade destes fenômenos através de provas in-
 trospectivas incontestáveis e, mesmo em alguns casos, compreendem
 até a sua causa e razão fundamental.

 A l g u m a s p r o p o s t a s f u n d a m e n t a i s d a Te o s o f i a

 O Espírito no homem é a única parte real e permanente do seu
 ser, sendo o resto da sua natureza variavelmente composta. Visto que
 todo composto está sujeito à decomposição, tudo no homem é imper-
 manente, exceto o seu Espírito. Além disso, sendo o Universo uno e
 não diverso, e tudo nele estando unido ao Todo e a cada uma das par-
 tes, do que há aliás um perfeito conhecimento no plano superior (mais
 adiante referido), nenhum ato ou pensamento ocorre sem que cada
 parte do grande Todo o perceba e tome nota disso. Por isso é que todos
 os seres estão indissociavelmente unidos pelos laços da Fraternidade.
 Esta primeira proposição fundamental da Teosofia postula que o
 Universo não é um conjunto de unidades heterogêneas, mas constitui

 um Todo único. Este Todo é o que os filósofos ocidentais chamam de
 “Divindade”, e os hindus vedantinos de Para-Brahm165. Pode também
 ser chamado de Não Manifestado, aquilo que contém em si a poten-
 cialidade de toda e qualquer forma manifestada, bem como as leis que
 governam estas manifestações. Ensina-se também que não existe a
 criação de mundos no sentido teológico, mas que o seu aparecimento
 se deve estritamente à evolução. Quando chega a hora para o Não
 Manifestado [Avyakta] se manifestar como Universo objetivo, o que
 faz periodicamente, dele emana [irradia] um Poder, ou a “Causa Pri-
 meira”, assim chamada porque este Não Manifestado é ele próprio a
 raiz sem raiz desta Causa e, no Oriente, é denominado “Causa sem
 Causa”166. À Causa Primeira podemos chamar Brahmā ou Ormuz, ou
 Osíris, ou qualquer outro nome que nos agrade. A projeção da sua
 influência no tempo, ou do chamado “sopro de Brahmā”, traz o apa-
 recimento gradual de todos os mundos e dos seres que neles habitam,
 os quais permanecem em manifestação enquanto aquela influência
 continuar atuando no processo da evolução. Ao cabo de longos pe-
 ríodos de tempo (“éons”), o movimento de expiração, ou a influência
 evolutiva, decresce, e o Universo começa a entrar no obscurecimento,
 ou Pralaya, até que, o “sopro” tendo sido completamente reabsorvido,
 nada mais subsiste, pois não há nada a não ser Brahma. O estudante
 deve ter o cuidado de não confundir Brahma167 (o ­Parabrahma impes-

 165 Esta palavra (geralmente ortografada Parabrahman), que significa Brahman Su-
 premo, o Absoluto, aparece mais adiante sob a forma Parabrahma, com a mesma
 significação. Já Param Brahmat significa “para além de Brahman.”
 166 O inexistente não pode ser produzido. Compreende-se então melhor a doutrina
 do Satkârya (o efeito é pré-existente no interior da causa), da filosofia do Sâmkhya.
 167 A literatura moderna geralmente usa a grafia Brahman.

 soal) com Brahmā, o Logos manifestado168. Discutir neste Epítome
 os meios usados por este poder em sua ação seria descabido, mas a
 Teosofia também trata desses meios.
 A fase de expiração é conhecida como Manvantara, ou mani-
 festação do mundo entre dois Manus169 (de Manu e Antara: “entre”),
 e o fim da inspiração traz o Pralaya, a destruição. Destas verdades
 brotaram as doutrinas errôneas da “criação” e do “juízo final”. Estes
 Manvantara e Pralaya sempre ocorreram, e continuarão a acontecer
 periodicamente e para sempre.

 Pur usha e P rakriti

 Para a realização de um Manvantara, postulam-se dois princí-
 pios eternos: Purusha e Prakriti (o Espírito e a Matéria), porque estão
 sempre presentes e unidos em cada manifestação. Estas palavras são
 aqui utilizadas por não existirem termos equivalentes em Inglês (ou
 numa língua ocidental). Purusha é traduzido por “Espírito” e Prakri-
 ti por “Matéria”, mas Purusha não é o Não Manifestado, tampouco
 Prakriti é a matéria tal como é conhecida pela ciência; por isso, os
 Sábios Arianos declaram que existe um Espírito ainda mais elevado,

 168 Em sânscrito, Brahman é neutro, Brahmā é masculino, e Brahman é a Divin-
 dade Suprema. Parabrahman quer dizer simplesmente “Brahman Supremo” ou
 o Absoluto. Vishnu (Sattvaguna), Shiva (Tamoguna) e Brahmā (Rajoguna) que
 representa o Logos manifestado, correspondem às três Gunas [consideradas, na
 filosofia Sâmkhya, como puros produtos de Prakriti] ou atributos do universo de
 Espírito-Matéria diferenciados (Glossário Teosófico). Estas três divindades hin-
 dus correspondem aos 5º, 6º e 7º princípios cósmicos.
 169 Manu (nome dado a um Ser Divino), palavra que vem da raiz sânscrita Man
 (pensar) (Glossário Teosófico).

 chamado Purushottama. Isto porque, durante a noite de Brahmā, ou
 a chamada fase de reabsorção do seu sopro, Purusha e Prakriti são
 ambos absorvidos no Não Manifestado [Avyakta]; esta concepção
 lembra a ideia contida na expressão bíblica: “permanecendo no seio
 do Pai”.
 Isto leva-nos até à doutrina da Evolução Universal explicada
 pelos Sábios da Religião-Sabedoria. O Espírito, ou Purusha, dizem,
 procede de Brahma e passa pelas diversas formas da matéria que evo-
 luíram simultaneamente, começando, no mundo espiritual, pela for-
 ma mais elevada, e no mundo material, pela forma mais inferior. Esta
 última é desconhecida por enquanto pela Ciência moderna. Deste
 modo, cada uma das formas, mineral, vegetal e animal, encarcera uma
 centelha do Divino, um fragmento do indivisível Purusha.

 Centelhas Divinas

 Estas centelhas batalham para “voltarem ao Pai” (para adquiri-
 rem autoconsciência170) e finalmente alcançarem a forma mais eleva-
 da na terra: a do homem, a única que lhes possibilita a autoconsciên-
 cia. Calculado em escala humana de tempo, o período durante o qual
 se processa esta evolução abarca milhões de idades. Cada centelha
 de divindade, portanto, dispõe desta imensa duração para cumprir a
 sua missão, que é a de alcançar a autoconsciência completa, enquanto
 permanecer numa forma humana. Mas isto não significa que só o
 fato de se encarnar numa forma humana confere à centelha divina a

 170 Soi-conscience em francês, self-consciousness em inglês.

 autoconsciência. Esta enorme tarefa pode ser cumprida pela centelha
 divina que já alcançou a forma humana, no decorrer do Manvantara,
 ou não, tudo dependendo da própria vontade e esforços de cada in-
 divíduo. Deste modo, cada espírito percorre o Manvantara, ou entra
 em manifestação, para o seu próprio enriquecimento e o do Todo.
 Desta maneira, Mahātmās e Rishis evoluem gradualmente durante
 um Manvantara, tornando-se assim, findo este, espíritos planetários
 guiando as evoluções de outros futuros planetas. Os espíritos plane-
 tários do nosso globo são aqueles que, em Manvantaras anteriores,
 ou dias de Brahmā, fizeram os esforços necessários para se tornarem
 Mahātmās no decurso daquele longo período.
 Cada Manvantara existe para o mesmo propósito e tem o mes-
 mo objetivo, de modo que os Mahātmās que já alcançaram aquelas
 alturas, ou aqueles que o alcançarão no decorrer do atual Manvanta-
 ra, tornar-se-ão provavelmente os Espíritos Planetários do próximo
 Manvantara, neste ou em outro planeta. Poderá, portanto, deduzir-
 -se que este sistema está baseado na identidade do Ser Espiritual, e
 constitui, sob o nome de “Fraternidade Universal”, a ideia central da
 Sociedade Teosófica, cuja meta é a realização desta Fraternidade en-
 tre os homens. Os Sábios dizem que o Purusha está na base de todos
 os objetos manifestados. Sem ele, nada poderia existir nem se manter
 coeso. Ele penetra tudo em toda parle. Ele é a realidade da qual, ou
 sobre a qual, as coisas que consideramos reais não passam de meras
 imagens. Visto que Purusha atinge e abrange todos os seres, eles es-
 tão todos interligados; e, no plano de Purusha, existe uma perfeita
 consciência de todos os atos, pensamentos, objetos e eventos que po-
 derão ocorrer naquele plano, no nosso, ou em qualquer outro. Porque
 abaixo do Espírito e acima do intelecto há um plano de consciência

 onde são gravadas as experiências, e que geralmente designamos por
 “natureza espiritual” do homem, da qual se diz frequentemente que
 é tão suscetível de ser cultivada quanto o corpo ou o intelecto. Este
 plano superior é o verdadeiro plano de registro de todas as sensações
 e experiências (embora haja outros), e às vezes é chamado de “mente
 subconsciente”.

 A Natureza Espiritual

 A Teosofia, no entanto, afirma que é um uso impróprio de ter-
 mos o dizer-se que é possível cultivar a natureza espiritual. A meta
 real a ter em vista é a de abrir a natureza inferior à natureza espiri-
 tual, torná-la permeável à influência superior, de modo que a nature-
 za espiritual possa irradiar através dela e transformar-se no seu guia
 e regente. Só se pode dizer que esta natureza é “cultivada” na medi-
 da em que ela poderá dispor de um veículo preparado para tal fim.
 Dir-se-ia que o homem real, que é o Ser superior [“Higher-Self” em
 inglês, ou “le Soi Supérieur” em francês] — ou a centelha do Divino
 acima referida, — paira sobre o ser visível, que tem a possibilidade de
 unir-se àquela centelha. Por isso se diz que o Espírito superior não
 está no homem, mas acima dele. Ele está perpetuamente em paz, é
 impassível, ditoso e pleno de saber absoluto. Compartilha constante-
 mente o estado divino porque o é ele próprio e, “em comunhão com
 os Deuses, nutre-se de Ambrósia”. O objetivo do estudante é permitir
 que a luz deste Espírito resplandeça através dos invólucros inferiores.
 Esta “cultura espiritual” só pode ser alcançada a partir do momento
 em que os interesses mais grosseiros, as paixões e as exigências da

 carne se subordinem aos interesses, às aspirações e às necessidades da
 natureza superior; isto é uma questão do sistema e da lei estabelecida.
 O Espírito só pode comandar a partir do momento em que,
 intelectualmente, o homem firmemente reconheça, ou admita, que só
 ELE, o Espírito, existe. E sendo ele não só a pessoa em questão, mas
 também o TODO, como já antes referido, qualquer egoísmo terá que
 ser eliminado da sua natureza inferior antes de poder alcançar o seu
 estado divino. Enquanto subsistir o menor desejo pessoal ou egoísta,
 nem que seja o de obter sucesso espiritual em proveito próprio, o fim
 desejado esquivar-se-á. A expressão “exigências da carne”, portanto,
 abrange desejos que não são apenas os da carne, e seria mais apro-
 priado falar em “desejos da natureza pessoal, inclusive os da alma
 individual”.171
 Quando sistematicamente treinados de acordo com o sistema
 e a lei, acima referidos, os homens adquirem uma visão clara e pe-
 netrante no mundo espiritual imaterial; as suas faculdades internas
 apreendem a verdade tão imediata e prontamente quanto as suas fa-
 culdades físicas percebem os objetos dos sentidos, ou as suas facul-
 dades mentais apreendem os da razão. Ou, citando as palavras de
 alguns daqueles que são “capazes de ver diretamente as ideias”172; por
 isso, o testemunho destes seres a respeito desta verdade é tão digno
 de confiança quanto o dos cientistas, ou o dos filósofos, nas suas es-
 pecialidades respectivas.

 171 Sobre os “desejos da alma individual”, ler o livro Luz no Caminho, transcrito por
 Mabel Collins, cap. II. Publicado pela Editora Teosófica.
 172 Alusão feita ao poder de percepção próprio à alma (Purusha no homem). Ver
 Aforismos do Yoga de Patañjali, Livro II, versículo 20.

 No decurso deste treino espiritual, tais homens adquirem a per-
 cepção e o controle de diversas forças da Natureza, desconhecidas
 de outros homens, e são capazes de produzir efeitos habitualmente
 chamados de “milagrosos”, embora estes não sejam na realidade mais
 do que o resultado de um maior conhecimento da lei natural. Sobre o
 que são estes poderes, ler A Filosofia do Yoga de Patañjali.173
 O testemunho destes seres sobre a realidade suprassensível,
 comprovado pela posse de tais poderes, deveria suscitar um exame
 honesto por parte de cada espírito religioso.

 As quatro Idades

 Considerando agora o sistema exposto por estes Sábios, encon-
 tramos em primeiro lugar um relato da cosmogonia, o passado e o
 futuro desta terra e de outros planetas, e da evolução da vida através
 das formas, elemental174, mineral, vegetal, animal e humana, como se
 lhe chamam.
 Os “elementais de vida passiva” [deste sistema] são desconheci-
 dos da Ciência moderna, que chega a postular algo próximo: a exis-
 tência de um agente material sutil na produção da vida, ao passo que
 eles são precisamente uma forma da própria vida.
 Cada kalpa175, ou grande período, divide-se em quatro idades,
 ou yugas. Cada yuga dura milhares de anos e possui uma característica

 173 Ver também Aforismos do Yoga, Livro III.
 174 Elementais; Espíritos dos elementos, Forças da Natureza que evoluem nos quatro
 Reinos ou Elementos: terra, ar, fogo e água (Glossário Teosófico).
 175 Um kalpa é o equivalente a um dia (ou uma noite) de Brahmā (4.320.000.000
 anos solares). O Oceano da Teosofia, William Q. Judge. Editora Teosófica.

 predominante. Estas quatro idades são176: o Krita ou Satya yuga (ou
 idade da verdade), o Tretā yuga, o Dvāpara yuga e o nosso Kali yuga
 (ou idade da escuridão), que começou há cinco mil anos177. O termo
 “escuridão” refere-se à natureza espiritual, não ao aspecto material.
 Nesta idade, Kali yuga, no entanto, todas as causas produzem os seus
 efeitos muito mais rapidamente do que em qualquer outra: isto de-
 ve-se ao ímpeto do poder do “mal”, à medida em que as pulsações
 deste ciclo o aproximam de um novo ciclo da verdade [Satya yuga].
 Assim, um ser que ama sinceramente a raça humana pode fazer mais
 em três encarnações no decorrer do Kali yuga, do que faria num nú-
 mero muito maior delas em qualquer outra idade. A escuridão desta
 idade não é absoluta, mas é maior do que a das outras idades. A sua
 principal tendência aponta no sentido da materialidade, embora seja
 ocasionalmente moderada por alguns progressos éticos ou científicos,
 que contribuem para o bem-estar da raça178, eliminando as causas
 imediatas de crimes e de doenças.

 A C a d e i a Te r r e s t r e

 A nossa Terra faz parte de uma cadeia de sete planetas (ou
 globos179), sendo ela a única que está no plano visível, enquanto

 176 O Oceano da Teosofia, o Glossário Teosófico e A Doutrina Secreta, Vols. I e III, Cos-
 mogênese e Antropogênese.
 177 Mais exatamente, no dia da morte de Krishna, em 17-18 de fevereiro de 3102 a.
 C. O Oceano da Teosofia.
 178 Na acepção teosófica da palavra, isto é: uma “vaga de vida”, uma “grande maré” (e,
 por extensão, a humanidade).
 179 Para evitar a confusão com os outros planetas físicos do sistema solar, prefere-se
 o termo “globos” para designar os 7 constituintes de uma cadeia planetária, como

 os outros estão em planos diferentes e são, portanto, invisíveis (os
 outros planetas do nosso sistema solar pertencem cada um a uma
 cadeia setenária180). A onda de vida desce do planeta mais elevado
 para o mais baixo desta cadeia [terrestre] até chegar à Terra; em
 seguida, ela sobe passando pelos outros três planetas no arco oposto
 [completando assim uma ronda], repetindo isto sete vezes. A evo-
 lução das formas coincide com este progresso, pois a maré de vida
 traz consigo as formas mineral e vegetal, até que cada globo, por sua
 vez, esteja pronto para receber a onda de vida humana. A Terra é o
 quarto destes globos.
 A humanidade passa de globo para globo numa série de “ron-
 das”, percorrendo primeiro ciclicamente cada globo, e reencarnando
 nele um determinado número de vezes. Quanto à evolução humana
 nos planetas ou globos invisíveis, pouco se pode dizer. Devemos nos
 limitar apenas à Terra. Quando esta foi atingida da última vez pela
 onda humana (nesta nossa Quarta Ronda), começou a despertar a
 evolução do homem, subdividindo-o em raças diferentes. Cada uma
 destas raças, depois de ter alcançado, através da evolução, o período
 conhecido como “momento [decisivo] da escolha”, e ter decidido o
 seu futuro destino como raça individual, começa a extinguir-se. Ade-
 mais, as raças estão separadas uma da outra por catástrofes naturais,
 como a submersão de continentes e grandes convulsões terrestres. O
 desenvolvimento das raças coincide com o desenvolvimento de sen-
 tidos especializados; a nossa quinta raça já desenvolveu até hoje cinco
 sentidos. Mais nos dizem ainda os Sábios, que as coisas deste mundo

 a cadeia terrestre.
 180 Ver também A Chave para a Teosofia, de H.P. Blavatsky, cap. VI. Editora Teosófica.

 e os seres humanos estão sujeitos a leis cíclicas, e que a qualidade e a
 velocidade de progressão pertencendo a um dado ciclo não se podem
 obter num outro ciclo diferente. Estas leis cíclicas funcionam em to-
 das as idades. À medida que as idades vão escurecendo, prevalecem
 as mesmas leis, apenas os ciclos são mais curtos, isto é: de maneira
 absoluta têm o mesmo comprimento, mas percorrem a distância em
 menos tempo. Estas leis impõem limitações ao progresso da huma-
 nidade. Num ciclo que tem o arco descendente e o ascendente, os
 Adeptos têm que esperar pelo momento oportuno para poderem aju-
 dar a raça humana a elevar-se. Eles não podem nem devem interferir
 na lei kármica. Assim, eles voltam ativamente a trabalhar, no sentido
 espiritual, quando sabem que o ciclo está prestes a chegar ao seu mo-
 mento decisivo de virada.

 Os Ciclos

 Além disso, estes ciclos não têm linhas nem pontos de par-
 tida ou de origem bem definidos; um deles pode estar no fim, ou
 estar prestes a acabar, quando um outro já começou. Sobrepõem-se
 e fundem-se uns nos outros, como o dia e a noite; e só quando um
 acabou por completo, e que outro começou realmente a florescer, é
 que podemos dizer que estamos num ciclo novo. Pode-se ilustrar
 isto comparando dois ciclos adjacentes a dois círculos entrelaçados,
 a circunferência de um passando pelo centro do outro, de modo
 que o momento em que um acaba e o outro começa, corresponde
 à linha de interseção das duas circunferências. Podemos também
 imaginar um homem cujo andar representa a progressão dos ciclos:

 o caminho percorrido corresponderá à distância coberta pelos pas-
 sos, e o ponto mediano de cada passo representará o começo de um
 ciclo e o final de outro. Vejamos agora como o progresso cíclico é
 auxiliado, e como desta maneira o seu declínio é permitido. Quando
 o ciclo está a ascender, Seres altamente evoluídos (Jñânis em sâns-
 crito) descem à terra vindos de outras esferas onde o ciclo é descen-
 dente, a fim de ajudarem também o progresso espiritual deste globo.
 Da mesma forma, eles abandonam a nossa esfera quando o nosso
 ciclo está no ponto de escurecer. Estes Jñânis não devem, todavia,
 ser confundidos com os Mahātmās e os Adeptos já mencionados. O
 verdadeiro objetivo de todos os teósofos sinceros deveria ser, conse-
 quentemente, viver de maneira a que a sua influência possa condu-
 zir à dispersão da escuridão, fazendo com que estes Jñânis possam
 voltar de novo à Terra181.

 Par te
 A Teosofia também ensina a existência de um meio difuso uni-
 versal e altamente etéreo, que tem sido chamado de “Luz Astral” e
 “Ākasā”. É o repositório de todos os eventos passados, presentes e
 futuros, e nele estão registrados os efeitos das causas espirituais e de
 todos os atos e pensamentos da direção do espírito ou da matéria.
 Pode ser chamado de Livro do Anjo Registrador.

 181 Em Cartas que me ajudaram (livro II), Judge refere-se à necessária contribuição
 dos teósofos para o regresso destes grandes Sábios (ortografado Gnani) desapare-
 cidos já há muito tempo de nossa esfera”.

 Ākasā e Luz Ast ral

 Ākasā, entretanto, é um nome impróprio quando é confundido
 com Éter ou a luz astral dos cabalistas. Ākasā é o númeno do Éter
 fenomenal ou luz astral propriamente dita, pois Ākasā é infinito, in-
 dividido, intangível, sua única produção sendo o Som.
 (Ākasā no misticismo da Filosofia Esotérica é, propriamente
 falando, o “Espírito Santo” feminino; “Som” ou fala sendo o Logos
 — o Verbum manifestado da Mãe imanifestada. Ver Sankhyasara [de
 Vijnana Bhikshu], Prefácio, p. 33, et seq.)
 E essa luz astral é material e não espiritual. É, de fato, o prin-
 cípio inferior daquele corpo cósmico do qual Ākasā é o mais elevado.
 Ele tem o poder de reter todas as imagens. Isso inclui uma declara-
 ção de que cada pensamento, bem como palavra e ato, formam uma
 imagem ali. Pode-se dizer que essas imagens têm duas vidas. 1: A sua
 própria imagem. 2: A impressão deixada por elas na matriz da luz
 astral. No reino superior desta luz, não existe espaço ou tempo no
 sentido humano.

 A relação ent re pensamentos e eventos

 Todos os eventos futuros são pensamentos e atos dos homens;
 estes são os produtores que antecedem a imagem do evento que está
 para ocorrer. Homens comuns continuamente, imprudentemente e
 perversamente, estão fazendo com que esses eventos aconteçam, mas
 os Sábios, Mahātmās e os Adeptos da boa lei, produzem apenas as
 imagens que estão de acordo com a lei Divina, porque controlam a

 produção de seu pensamento. Na luz astral também estão todos os
 sons diferenciados. Os elementais são centros energéticos nela. As
 sombras de seres humanos e animais que partiram também estão lá.
 Consequentemente, qualquer vidente ou pessoa em transe pode ver
 nela tudo o que alguém fez ou disse, bem como o que aconteceu a
 qualquer pessoa com quem ele esteja conectado. Consequentemente,
 também, a identidade de pessoas falecidas — que se supõe comunica-
 rem-se especialmente a partir deste plano — não deve ser concluída a
 partir de palavras, fatos ou ideias esquecidas ou desconhecidas. Desse
 plano da matéria podem ser tiradas as fotografias de todos os que já
 viveram, e depois refletidas em uma superfície eletromagnética ade-
 quada, de modo a parecerem a aparição do falecido, produzindo todas
 as sensações de peso, dureza e extensão.

 Os elementais e os seres humanos

 Por meio da Luz Astral e com a ajuda dos Elementais, os vários
 elementos materiais podem ser atraídos e precipitados da atmosfera
 sobre uma superfície plana ou na forma de um objeto sólido; essa
 precipitação pode se tornar permanente ou pode ter um poder coe-
 sivo tão leve que logo se desvanece. Mas a ajuda dos elementais só
 pode ser obtida por uma vontade forte somada a um conhecimento
 completo das leis que governam o ser dos elementais. É inútil forne-
 cer mais detalhes sobre este ponto; primeiro, porque o aluno não trei-
 nado não pode entender; e em segundo lugar, a explicação completa
 não é permitida, mesmo que fosse possível neste espaço.

 O mundo dos elementais é um fator importante em nosso
 mundo e no curso do estudante. Cada pensamento, conforme é de-
 senvolvido por um homem, se aglutina instantaneamente com um
 elemental, e então está além do poder do homem.
 Pode-se ver facilmente que esse processo ocorre a cada instante.
 Portanto, cada pensamento existe como uma entidade. Sua duração
 de vida depende de duas coisas: (a) A força original da vontade e do
 pensamento da pessoa; (b) O poder do elemental que se fundiu com
 ele, sendo este último determinado pela classe à qual o elemental
 pertence. Este é o caso com bons e maus pensamentos igualmente, e
 como a vontade por trás da generalidade dos pensamentos maus é ge-
 ralmente poderosa, podemos ver que o resultado é muito importante,
 porque o elemental não tem consciência e obtém sua constituição
 e direção a partir do pensamento que ele pode carregar de vez em
 quando.
 Cada ser humano tem seus próprios elementais que compar-
 tilham de sua natureza e de seus pensamentos. Se você fixar seus
 pensamentos em uma pessoa com raiva ou em um julgamento crítico
 e pouco caridoso, você atrai para si um número daqueles elementais
 que pertencem, geram ou são gerados por esse particular defeito ou
 falha, e eles se precipitam sobre você. Portanto, pela injustiça de sua
 condenação meramente humana, que não pode conhecer a fonte e
 as causas da ação do outro, você imediatamente se torna um partici-
 pante de seu defeito ou falha por seu próprio ato, e o espírito expulso
 retorna “com sete demônios piores do que ele mesmo”.
 Essa é a origem do ditado popular de que “as maldições, como
 as galinhas, vêm para o poleiro”, e tem sua raiz nas leis que regem a
 afinidade magnética.

 No Kali-Yuga, somos hipnotizados pelo efeito do imenso corpo
 de imagens na Luz Astral, composto de todas as ações, pensamen-
 tos e assim por diante de nossos ancestrais, cujas vidas tendiam em
 uma direção material. Essas imagens influenciam o homem interior
 — que está consciente delas — por sugestão. Em uma época mais
 brilhante, a influência de tais imagens seria no sentido da Verdade. O
 efeito da Luz Astral, assim moldada e pintada por nós, permanecerá
 enquanto continuarmos a colocar essas imagens lá, e assim se torna
 nosso juiz e nosso algoz. Toda lei universal, portanto, contém em si
 mesma os meios para sua própria realização e a punição por sua vio-
 lação, e não requer mais autoridade para postulá-la ou para cumprir
 seus decretos.
 A luz astral, por sua ação inerente, tanto evolui quanto destrói
 formas. É o registro universal. Sua função principal é a de um veículo
 para a operação das leis do Karma, ou o progresso do princípio da
 vida, e é, portanto, em um sentido espiritual profundo, um meio ou
 “mediador” entre o homem e sua Deidade — seu espírito superior.

 A humanidade

 A Teosofia também fala sobre a origem, história, desenvolvi-
 mento e destino da humanidade.
 Sobre o tema do Homem, ensina:

 • Primeiro: Que cada espírito é uma manifestação do Espírito
 Único e, portanto, uma parte de tudo. Ele passa por uma sé-
 rie de experiências na encarnação e está destinado à reunião
 final com o Divino.

 • Segundo: Que esta encarnação não é a única, mas repetida,
 cada individualidade se reencarnando durante numerosas
 existências em raças e planetas sucessivos de nossa cadeia, e
 acumulando as experiências de cada encarnação em direção
 à sua perfeição.
 • Terceiro: Que entre as encarnações adjacentes, após os ele-
 mentos mais grosseiros serem eliminados pela primeira vez,
 vem um período comparativo de descanso e refrigério, cha-
 mado Devachan — a alma sendo preparada para seu próxi-
 mo advento na vida material.

 A constituição do homem é subdividida de forma setenária,
 sendo as principais divisões as de corpo, alma e espírito. Essas divi-
 sões e seu desenvolvimento relativo governam sua condição subjetiva
 após a morte. A divisão real não pode ser entendida e deve perma-
 necer por algum tempo esotérica, porque requer certos sentidos não
 normalmente desenvolvidos para sua compreensão. Se a presente di-
 visão sétupla, conforme dada pelos escritores teosóficos, for seguida
 estritamente e sem qualquer declaração condicional, ela dará origem
 a controvérsia ou erro. Por exemplo, o Espírito não é um sétimo prin-
 cípio. É a síntese, ou o todo, e está igualmente presente nas outras
 seis. As várias divisões presentes só podem ser usadas como uma hi-
 pótese geral de trabalho, a ser desenvolvida e corrigida à medida que
 os alunos avançam e eles próprios se desenvolvem.

 Céu e Inferno

 O estado de repouso espiritual, mas comparativo, conhecido
 como Devachan, não é eterno e, portanto, não é o mesmo que o céu
 eterno do Cristianismo. Nem o “inferno” corresponde ao estado co-
 nhecido pelos escritores teosóficos como Avitchi.
 Todos esses estados dolorosos são transitórios e purificadores.
 Quando esses são ultrapassados, o indivíduo vai para o Devachan.
 “Inferno” e Avitchi não são a mesma coisa. Avitchi é o mesmo
 que a “segunda morte”, pois é de fato a aniquilação que só vem ao
 “mago negro” ou espiritualmente mau, como se verá mais adiante.
 A natureza de cada encarnação depende do equilíbrio alcan-
 çado entre o mérito e o demérito da vida ou vidas anteriores — da
 maneira como o homem viveu e pensou; e esta lei é inflexível e total-
 mente justa.

 Karma

 “Karma” — um termo que significa duas coisas, a lei da cau-
 sação ética (tudo o que o homem semear, isso também colherá); e o
 equilíbrio ou excesso de mérito ou demérito em qualquer indivíduo,
 determina também as principais experiências de alegria e tristeza em
 cada encarnação, de modo que o que chamamos de “sorte” é na reali-
 dade “merecimento” — merecimento adquirido na existência passada.
 O karma não se esgota totalmente em uma única vida, nem uma
 pessoa necessariamente nesta vida experimenta o efeito de todo o seu
 Karma anterior; pois alguns podem ser retidos por várias causas. A

 causa principal é o fracasso do Ego em adquirir um corpo que forne-
 cerá o instrumento ou aparato por meio do qual a meditação ou os
 pensamentos de vidas anteriores podem ter seu efeito e ser amadu-
 recidos. Consequentemente, afirma-se que há um poder misterioso
 nos pensamentos do homem durante uma vida, que certamente pro-
 duzirá seus resultados em uma vida imediatamente posterior ou em
 uma de muitas vidas distantes; isto é, em qualquer vida em que o Ego
 obtenha um corpo capaz de ser o foco, aparelho ou instrumento para
 o amadurecimento do Karma passado. Há também um poder osci-
 lante ou divergente no Karma em seus efeitos sobre a alma, pois um
 certo curso de vida — ou pensamento — influenciará a alma nessa
 direção por às vezes três vidas, antes que o efeito benéfico ou ruim de
 qualquer outro tipo de Karma possa ser sentido. Nem se segue que
 cada porção minúscula do Karma deva ser sentida com os mesmos
 detalhes de quando produzida, pois vários tipos de Karma podem vir
 à tona juntos em um ponto da vida e, por seu efeito combinado, pro-
 duzir um resultado que, embora, como um todo, representando com
 precisão todos os elementos nele, ainda é um Karma diferente de cada
 parte do componente. Isso pode ser conhecido como a anulação do
 efeito postulado das classes de Karma envolvidas. Nem se segue que
 cada porção minúscula do Karma deva ser sentida com os mesmos
 detalhes de quando produzida, pois vários tipos de Karma podem
 vir à tona juntos em um ponto da vida e, por seu efeito combinado,
 produzir um resultado que, embora, como um todo, representando
 com precisão todos os elementos nele, ainda é um Karma diferente
 de cada parte componente única. Isso pode ser conhecido como a
 anulação do efeito reclamado das classes de Karma envolvidas.

 Desenvolvimento espiritual

 O processo de evolução até a reunião com o Divino é e inclui a
 elevação sucessiva de graus e graus de poder e utilidade. Os seres mais
 sublimes ainda na carne são conhecidos como Sábios, Rishis, Irmãos,
 Mestres. Sua grande função é a preservação em todos os momentos
 e — quando as leis cíclicas permitem — a expansão do conhecimento
 espiritual e de sua influência.
 Quando a união com o Divino é efetuada, todos os eventos e
 experiências de cada encarnação são conhecidos.
 Quanto ao processo de desenvolvimento espiritual, a Teosofia
 ensina:

 • Primeiro: Que a essência do processo está em assegurar a
 supremacia, ao mais elevado elemento da natureza do ho-
 mem. O espiritual.
 • Segundo: Que isso pode ser alcançado ao longo de quatro
 linhas, entre outras, —
 o (a) A erradicação total do egoísmo em todas as formas e
 o cultivo de uma simpatia ampla e generosa e do esforço
 pelo bem dos outros.
 o (b) O cultivo absoluto do homem interior espiritual pela
 meditação, alcançando a comunhão com o Divino e pelo
 exercício do tipo descrito por Patañjali, isto é, esforço
 incessante por um objetivo ideal.
 o (c) O controle dos apetites e desejos carnais, todos os
 interesses materiais inferiores sendo deliberadamente
 subordinados às ordens do espírito.

 o (d) O cumprimento cuidadoso de todos os deveres per-
 tencentes à posição de alguém na vida, sem desejo de
 recompensa, deixando os resultados para a lei Divina.
 • Terceiro: Embora o que foi dito acima seja obrigatório e pra-
 ticável por todos os homens de disposição religiosa, um pla-
 no ainda mais elevado de realização espiritual é condiciona-
 do a um curso específico de treinamento, físico, intelectual
 e espiritual, pelo qual as faculdades internas são primeiro
 despertadas e depois desenvolvidas.
 • Quarto: Que uma extensão deste processo é alcançada
 no Adeptado, na condição de Mahātmā, ou nos estados de
 Rishis, Sábios e Dhyani-Chohans, que são todos estágios ele-
 vados, alcançados por autodisciplina laboriosa e privações,
 prolongados por possivelmente muitas encarnações, e com
 muitos graus de iniciação e nomeação [preferment em in-
 glês], além dos quais ainda existem outros estágios sempre
 se aproximando do Divino.

 Quanto ao fundamento lógico do desenvolvimento espiritual,
 a Teosofia afirma:

 • Primeiro: Que o processo ocorre inteiramente dentro do
 próprio indivíduo, o motivo, o esforço e o resultado proce-
 dem de sua própria natureza interna, ao longo das linhas de
 autoevolução.
 • Segundo: Que, por mais pessoal e interior que seja, este
 processo não acontece sem ajuda, sendo possível, de fato,

 somente através da íntima comunhão com a fonte suprema
 de todas as forças.

 Quanto ao grau de avanço em encarnações, ela sustenta:

 1. Que mesmo um mero conhecimento intelectual da verdade
 teosófica tem grande valor em preparar o indivíduo para um
 passo ascendente em sua próxima vida terrena, pois dá um
 impulso nessa direção.
 2. Isso é obtido ainda mais por uma carreira de dever, piedade
 e beneficência.
 3. Que um avanço ainda maior é alcançado pelo uso atento e
 dedicado dos meios de cultura espiritual até agora citados.
 4. Que cada raça e indivíduo dela atingem na evolução um pe-
 ríodo conhecido como “o momento da escolha”, quando eles
 decidem por si mesmos seu destino futuro por uma escolha
 deliberada e consciente entre a vida eterna e a morte, e que
 este direito de escolha é o peculiar apanágio da alma livre.
 Não pode ser exercido até que o homem tenha realizado a
 alma dentro dele, e até que essa alma tenha atingido alguma
 medida de autoconsciência no corpo.

 O momento da escolha

 O momento da escolha não é um período fixo de tempo; é fei-
 to de todos os momentos. Não pode acontecer a menos que todas as
 vidas anteriores tenham levado a isso. Para a corrida como um todo,

 ainda não aconteceu. Qualquer indivíduo pode apressar o advento
 deste período para si mesmo sob a lei previamente mencionada do
 amadurecimento do Karma. Se ele então deixar de escolher o que é
 certo, ele não está totalmente condenado, pois a economia da natu-
 reza prevê que ele sempre terá a oportunidade de escolher quando
 chegar o momento para toda a raça. Após este período, a raça, ten-
 do florescido, tende à sua dissolução. Alguns indivíduos dela terão
 ultrapassado seu progresso e alcançado o Adeptado ou a condição
 de Mahātmā. O grupo principal, que escolheu corretamente, mas
 que não alcançou a salvação, passa para a condição subjetiva e lá
 aguardam o influxo da onda de vida humana para o próximo globo,
 que eles são as primeiras almas a povoar; os que escolheram deli-
 beradamente o mal, cujas vidas são passadas em grande impiedade
 espiritual (pelo mal praticado pelo puro amor ao mal per se), cortam
 a conexão com o Espírito Divino, ou a Mônada, que abandona para
 sempre o Ego humano. Tais Egos passam para a miséria da oitava
 esfera, pelo que entendemos, para permanecerem lá até que a se-
 paração entre o que eles cultivaram e o Ishvara pessoal ou centelha
 divina esteja completa. Mas esta doutrina nunca nos foi explicada
 pelos Mestres, que sempre se recusaram a responder sobre ela e a
 explicá-la conclusivamente. No próximo Manvantara, essa Centelha
 Divina provavelmente começará novamente a longa jornada evoluti-
 va, sendo lançada na corrente da vida na fonte e subindo novamente
 através de todas as formas inferiores.
 Enquanto a conexão com a Mônada Divina não for cortada,
 essa aniquilação da personalidade não pode ocorrer. Algo dessa per-
 sonalidade sempre permanecerá ligado ao Ego imortal. Mesmo de-
 pois de tal separação, o ser humano pode viver, um homem entre os

 homens — um ser sem alma. Essa decepção, por assim dizer, da Cen-
 telha Divina, privando-a de seu veículo escolhido, constitui o “pecado
 contra o Espírito Santo”, que sua própria natureza lhe proibia de
 perdoar, porque não pode continuar uma associação com princípios
 degradados e viciados em sentido absoluto, de modo que não res-
 pondem mais aos impulsos cíclicos ou evolutivos, mas, confrontados
 por sua própria natureza, afundam nas profundezas mais inferiores
 da matéria. A conexão, uma vez totalmente quebrada, não pode ser
 retomada na natureza do Ser.

 A escolha do Adepto

 Há também um destino que chega até mesmo aos Adeptos
 da Boa Lei que é um tanto semelhante a uma perda do “céu” após
 seu desfrute por incalculáveis ​​períodos de tempo. Quando o Adepto
 atinge um certo ponto muito alto em sua evolução, ele pode, por um
 mero desejo, se tornar o que os hindus chamam de “Deva” — ou deus
 menor. Se ele fizer isso, então, embora ele vá desfrutar da bem-aven-
 turança e poder desse estado por um longo período de tempo, ele
 não participará no próximo Pralaya da vida consciente “no seio do
 Pai”, mas terá que descer para a matéria na próxima nova “criação”,
 realizando certas funções que agora não poderiam ser esclarecidas, e
 tem que subir novamente através do mundo elemental; mas esse des-
 tino não é como o do mago negro que cai em Avitchi. E novamente
 entre os dois, ele pode escolher o estado intermediário e se tornar um
 Nirmanakaya — aquele que desiste da bem-aventurança do Nirvana
 e permanece em existência consciente fora de seu corpo após sua

 morte; para ajudar a humanidade. Este é o maior sacrifício que ele
 pode fazer pela humanidade. Ao avançar de um grau de interesse e
 realização comparativa para outro, conforme mencionado anterior-
 mente, o estudante acelera o advento do momento de escolha, após o
 qual sua taxa de progresso é grandemente intensificada.
 Pode-se acrescentar que a Teosofia é o único sistema de re-
 ligião e filosofia que dá uma explicação satisfatória de problemas
 como estes:

 • Primeiro: O objetivo, uso e habitação de outros planetas
 além desta Terra, planetas que servem para completar e pro-
 longar o curso evolutivo e preencher a medida necessária da
 experiência universal das almas.
 • Segundo: Os cataclismos geológicos da Terra; a frequente
 ausência de tipos intermediários em sua fauna; a ocorrência
 de relíquias arquitetônicas e outras de raças agora perdidas,
 e sobre as quais a ciência comum não tem nada além de vãs
 conjecturas; a natureza das civilizações extintas e as causas
 de sua extinção; a persistência da selvageria e o desenvol-
 vimento desigual das civilizações existentes; as diferenças,
 físicas e internas, entre as várias raças de homens; a linha de
 desenvolvimento futuro.
 • Terceiro: Os contrastes e concordâncias das religiões do
 mundo e o fundamento comum subjacente a todas elas.
 • Quarto: A existência do mal, do sofrimento e da tristeza —
 um enigma sem esperança para o mero filantropo ou teólogo.
 • Quinto: As desigualdades na condição social e privilégio;
 os fortes contrastes entre riqueza e pobreza, inteligência e

 estupidez, cultura e ignorância, virtude e vileza; o apareci-
 mento de homens de gênio em famílias destituídas dele, bem
 como outros fatos em conflito com a lei da hereditariedade;
 os casos frequentes de inadequação do ambiente ao redor dos
 indivíduos, tão dolorosos que amarguram a disposição, difi-
 cultam a aspiração e paralisam o esforço; a antítese violenta
 entre caráter e condição; a ocorrência de acidente, infortúnio
 e morte prematura — todos eles problemas solucionáveis​​
 apenas pela teoria convencional do capricho Divino ou pelas
 doutrinas teosóficas do Karma e da Reencarnação?
 • Sexto: A posse por indivíduos de poderes psíquicos — cla-
 rividência, clariaudiência, etc., bem como os fenômenos da
 psicometria e do estatuvolismo.
 • Sétimo: A verdadeira natureza dos fenômenos genuínos no
 espiritualismo, e o antídoto adequado para a superstição e
 para a expectativa exagerada.
 • Oitavo: A dificuldade das religiões convencionais em am-
 pliar grandemente suas áreas de ação, corrigir abusos, reor-
 ganizar a sociedade, expandir a ideia de fraternidade, di-
 minuir o descontentamento, diminuir o crime e elevar a
 humanidade; e uma aparente inadequação para realizar nas
 vidas individuais o ideal que professam defender.

 O que foi escrito aqui é um esboço de aspectos fundamentais da
 Teosofia, a Religião-Sabedoria. Seus detalhes podem ser encontrados
 na sempre crescente literatura teosófica, hoje amplamente disponível
 em vários idiomas.